O resto da divisão dos dias
Há dias em que acordamos já atrasados para a nossa própria vida. Ainda não abrimos completamente os olhos e já o mundo nos bate à porta. Há mensagens por responder, decisões por tomar, trabalhos que não admitem demora, compromissos que se atropelam e pequenas urgências que se apresentam como se delas dependesse a rotação da Terra. Talvez a Terra continue a rodar sem a nossa ajuda, mas nem sempre nos lembramos disso. Levantamo-nos e começamos. Começamos porque é o que sabemos fazer. Porque esperam por nós. Porque alguém precisa de uma resposta, de uma palavra, de um gesto, de uma solução. E nós, que tantas vezes não sabemos resolver-nos, passamos os dias a tentar resolver o mundo. No peito, porém, mora uma ansiedade sem nome. Não sabemos exatamente de onde vem. Não anuncia uma tragédia concreta nem aponta para um perigo visível. Está apenas ali, como um pássaro escuro que tivesse entrado pela janela e não encontrasse a saída. Bate as asas contra as paredes do corpo, ag...