O verão muda de estado

Há um momento, todos os anos, em que o calendário pigarreia discretamente e nos chama à realidade. Setembro aproxima-se devagar, com ar inocente, mas traz escondidos atrás das costas os horários, os despertadores e uma quantidade pouco razoável de coisas para fazer.

É então que percebo: as férias terminaram oficialmente.

Gosto muito daquela frase: «Faz o que gostas e não terás de trabalhar um único dia da tua vida.» No meu caso, há nela uma boa dose de verdade. Ensinar nunca me pareceu trabalho, pelo menos não no sentido pesado e cinzento da palavra. Ensinar as disciplinas de que gosto, partilhá-las com pessoas de quem gosto, ajudá-las a crescer, celebrar cada pequena conquista, aprender com elas e ter o privilégio de fazer parte das suas vidas é uma das maiores bênçãos que conheço.

Sou muito afortunada. Sei que sim.

Há qualquer coisa de extraordinário no instante em que alguém deixa de dizer «não consigo» e, quase sem dar por isso, consegue. É uma espécie de reação química pedagógica: juntam-se conhecimento, persistência, confiança e algum afeto; acrescenta-se tempo, esse reagente tantas vezes esquecido, e espera-se. Nem sempre a transformação é imediata. Algumas experiências precisam de mais calor. Outras, de repouso. Outras ainda exigem que se mude o procedimento e se comece novamente, sem considerar o erro uma tragédia laboratorial.

Mas o facto de gostar profundamente do que faço não impede que o verão me deixe saudades antes mesmo de partir.

Vão ficando para trás os dias de praia ao sol, os muitos banhos de mar, o pôr do sol visto com os pés dentro de água, como se o oceano precisasse de nós para não se esquecer de regressar. Ficam as manhãs em que se acorda um pouco mais tarde e as horas em que ninguém parece ter pressa de chegar a lado algum.

Ficam os cafés com as amigas, as caipirinhas e os mojitos, porque também existe ciência aplicada nas férias, embora essa matéria não venha nos programas curriculares, os almoços demorados e os jantares que se prolongam até a noite perder a noção das horas.

Durante o verão, o tempo obedece a outra matemática. As horas deixam de ser segmentos rigorosamente medidos e transformam-se em linhas curvas. Um café pode durar uma manhã inteira. Um mergulho pode conter uma tarde. E um pôr do sol, se for visto com a companhia certa, pode tender para infinito.

Agora, tudo isso vai ficando para trás, cuidadosamente guardado na memória, à espera de outro verão. Ou de um daqueles raríssimos dias de férias-não-ocupadas-com-trabalho, essa criatura mitológica de que todos ouvimos falar, mas que poucos conseguem observar no seu habitat natural.

E, no entanto, gosto dos recomeços.

Gosto da estranheza dos primeiros dias, dos cadernos ainda vazios, das histórias que ainda não conheço e das perguntas que ainda ninguém fez. Gosto de conhecer alunos novos e de imaginar o caminho que faremos juntos. No início, somos uma equação cheia de incógnitas: eles procuram perceber-me e eu procuro compreendê-los. Eles adaptam-se a mim e eu a eles. Vamos ensaiando aproximações sucessivas até encontrarmos uma solução possível, porque, na educação, as soluções nunca são únicas e raramente vêm no fim do manual.

Construir uma relação pedagógica é um pouco como construir uma casa. Antes das paredes, das janelas e dos telhados bonitos, é preciso cuidar dos alicerces. É preciso criar confiança, estabelecer rotinas, aprender os silêncios, perceber os medos, descobrir aquilo que faz cada pessoa avançar. Só depois se pode construir em altura.

Também vivo com alegria a expectativa dos reencontros.

Quero ver os meus alunos antigos e perceber como cresceram. Os alunos crescem muito durante as férias de verão. Às vezes, de forma quase exponencial. Regressam mais altos, com vozes diferentes, cabelos improváveis, novas certezas e dúvidas ainda maiores. Trazem histórias, novidades e pequenos acontecimentos que, para eles, ocupam o tamanho inteiro do mundo.

E depois chegam as inevitáveis declarações:

- Stora, as férias foram tão curtas!

Ou, num tom ainda mais dramático:

- Storinhaaaaaa, eu quero voltar para a praia… Não quero voltar para a escola!

E eu entendo-os. Como os entendo.

Também me apetece regressar. Mas também queria mais férias. Queria mais manhãs sem relógio, mais banhos de mar, mais cafés demorados, mais horas vividas sem pressa. Sou, portanto, um pequeno sistema de equações aparentemente incompatíveis: tenho saudades das aulas e saudades das férias ao mesmo tempo.

Mas talvez não haja contradição nenhuma. Talvez possamos desejar duas coisas opostas sem que uma anule a outra. A vida não é uma equação exata. Felizmente. Seria muito aborrecido se todos os resultados viessem certos no fim do livro.

Regressar é isto: uma mistura de alegria e melancolia, entusiasmo e preguiça, reencontros e despedidas. É voltar a abrir a porta da sala levando ainda sal na pele e areia invisível nos sapatos. É trocar o som das ondas pelo das vozes, sabendo que ambos nos ensinam qualquer coisa sobre movimento.

Seguda-feira regressarei às aulas. Aos meus alunos. Às perguntas. Aos abraços. Aos «não consigo» que, devagarinho, tentaremos transformar em «afinal, consegui».

E levarei comigo o mar, os fins de tarde, os cafés, as amigas, as gargalhadas e todas as horas sem pressa.

Mas só segunda-feira. Até lá, ainda é verão por mais dois dias :)

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