Mensagens

viver com empatia ou prisioneiro da aparências?

Há pessoas que acordam todos os dias e, antes de abrirem a janela, vestem uma personagem. Não escolhem apenas a roupa, o gesto ou o tom de voz. Escolhem a pessoa que vão fingir ser. Ensaiam o sorriso diante do espelho, ajustam as palavras ao público que as espera e saem de casa como quem entra em cena. Talvez já nem sintam o peso do disfarce. Talvez o tenham usado durante tanto tempo que lhes pareça pele. Penso muitas vezes no cansaço que deve ser viver assim. Passar os dias a vigiar aquilo que se diz, não por delicadeza, mas por medo. Controlar cada reação, não por respeito, mas para proteger uma imagem. Inventar versões de si próprio para cada circunstância e, depois, ter de recordar o que mostrou a uns, o que ocultou de outros, o que prometeu ser em cada lugar. Uma vida inteira transformada numa sala cheia de espelhos, onde nenhuma imagem devolve um rosto verdadeiro. Deve chegar uma altura em que a pessoa já não sabe quem é quando ninguém está a olhar. Talvez esse seja o...

A adolescência é um território definitivo

Há uma coisa na adolescência que só percebemos muitos anos depois: tudo nela parece definitivo. Uma amizade é para sempre. Um desgosto é o fim. Um amor é o único amor possível. Uma música consegue dizer exatamente aquilo que ainda não sabemos explicar. E uma tarde, às vezes, parece conter o mundo inteiro. Nessa idade ainda não aprendemos a relativizar. Talvez por isso tudo seja tão intenso. Amamos demasiado. Sofremos demasiado. Esperamos demasiado. Queremos ser adultos, mas ainda levamos connosco uma infância que fingimos já ter abandonado. Queremos fugir de casa e, ao mesmo tempo, precisamos de saber que alguém estará à espera quando regressarmos. Talvez crescer seja precisamente isto: passarmos alguns anos a tentar afastar-nos da criança que fomos e muitos outros a tentar encontrá-la novamente. Na adolescência queremos distância. Mais tarde queremos memória. E a memória dessa idade é uma coisa estranha. Raramente guarda aquilo que julgávamos importante. Guarda um c...

A medida de um abraço

Há ausências que se medem em dias e outras que não obedecem ao calendário. Um mês, por exemplo, não é muito tempo. Trinta dias. Quatro semanas. Uma pequena porção de vida, se pensarmos nos anos que já passaram e nos que, com alguma sorte, ainda teremos pela frente. Mas há pessoas cuja ausência altera a geografia dos lugares. De repente, há um lugar vazio, uma voz que deixou de atravessar os dias, uma gargalhada que não acontece onde deveria acontecer. E então um mês pode ser uma eternidade. Ela estava na Roménia, a fazer o seu estágio de verão, a viver aquela parte da vida que já não me pertence, e ainda bem. As mães passam muitos anos a ensinar os filhos a atravessar a rua e depois chega um momento estranho em que precisam de aprender a vê-los atravessar fronteiras sem nós. É esse, talvez, um dos paradoxos mais difíceis do amor: passamos a infância inteira dos nossos filhos a prepará-los para partir e, quando finalmente partem, descobrimos que não tínhamos preparado su...

A geografia da saudade

Chega uma idade em que começamos a compreender que a saudade não é propriamente o desejo de voltar. Durante muito tempo julgamos que sim. Pensamos que temos saudades de uma casa, de uma rua, de uma pessoa sentada diante de nós numa determinada tarde, de uma voz que pronunciava o nosso nome de uma maneira que ninguém mais soube repetir. Convencemo-nos de que, se pudéssemos regressar a esse lugar, abrir aquela porta, sentarmo-nos outra vez àquela mesa, qualquer coisa se recomporia dentro de nós. Mas não. Podemos regressar aos lugares. É esse, talvez, o erro mais cruel. A rua continua lá. A casa pode ainda existir. A árvore cresceu, naturalmente, e há outras cortinas nas janelas. O café onde nos esperavam às cinco da tarde talvez tenha mudado de nome, mas as mesas continuam encostadas à parede e, por alguns segundos, quase conseguimos acreditar que basta esperar. Depois percebemos. Não era daquele lugar que tínhamos saudades. Era de quem éramos quando estivemos ali. E dess...

A vida não fica à espera

Passamos uma parte absurda da vida à espera. Esperamos pelo fim de semana, pelas férias, por uma resposta, por uma oportunidade, por uma notícia boa. Esperamos que a dor passe, que o medo diminua, que alguém regresse, que uma porta se abra. Esperamos ter mais tempo, mais coragem, menos cansaço ou uma versão de nós próprios que finalmente saiba o que está a fazer. Como se essa pessoa existisse. Como se, algures no futuro, houvesse uma versão adulta de nós, serena e organizada, que não perdesse as chaves, não respondesse impulsivamente, não tivesse medo e soubesse sempre qual era a decisão certa. Tenho más notícias: essa pessoa também deve andar à nossa procura. Há alturas em que a vida parece transformar-se numa enorme sala de espera. Sentamo-nos com os nossos pensamentos, folheamos preocupações antigas e olhamos constantemente para uma porta que teima em não se abrir. Será hoje? Chegará finalmente a resposta? Vai correr bem? Os filhos estarão felizes? Terão escolh...

Rotinas

Hoje bebi café no sítio do costume. Comi o mesmo de sempre e sentei-me com as minhas pessoas — aquelas que, sem termos combinado nada de especial, passaram a fazer parte das minhas manhãs. Chegamos, ocupamos os nossos lugares, contamos pedaços da vida e ajudamos o dia a começar. Talvez as rotinas sejam casas construídas sem tijolos. Fazem-se de mesas repetidas, chávenas pousadas no mesmo lugar, perguntas simples e gargalhadas que já sabemos reconhecer ao longe. Aos poucos, sem darmos por isso, tornámo-nos parte da paisagem umas das outras. E agora, quando uma não aparece, fica qualquer coisa fora do sítio. Uma cadeira vazia pode ser uma coisa muito pequena e, ainda assim, desarrumar uma manhã inteira. Há lugares aos quais pertencemos não por causa da morada, mas por causa das pessoas que lá nos esperam. O café pode ser o mesmo, a comida também, mas nenhuma manhã se repete verdadeiramente. Levamos sempre uma história nova, uma preocupação diferente, uma a...

Nunca tive medo de dizer NÃO

Não foram as grandes revoluções que me salvaram, já que nunca subi a uma barricada nem derrubei governos (embora na juventude tenha organizado manifestações por causas que defendia e nas quais acreditava profundamente). As grandes desobediências que mudaram a minha vida manifestaram-se em alguns “não” ditos em voz firme, em perguntas incómodas quando todos pareciam satisfeitos com a resposta e na decisão de permanecer de pé quando teria sido mais cómodo concordar, baixar os olhos e seguir o caminho que já tinham traçado para mim. Houve muitas vezes em que disse aquilo que pensava, mesmo sabendo que as minhas palavras seriam polémicas. Não porque goste particularmente de provocar, embora reconheça que também nunca tive grande talento para a concordância decorativa, mas porque há silêncios que nos custam demasiado. Ficar calada teria sido, em certos momentos, uma forma de me abandonar. Conheço bem, no entanto, a solidão de estar em minoria. Conheço o desconforto de defender uma c...