5 de setembro. sempre o pior dia para viver.
No dia em que o meu pai desapareceu, Deus não existia. Talvez tivesse existido até ao dia anterior. Talvez exista agora. Mas não naquele dia. O céu estava limpo, o ar parado, e tudo pronunciava lentas horas de tédio. Não havia uma nuvem escura, um trovão, uma rajada de vento que fizesse estremecer as árvores. Nada no mundo parecia saber que o meu mundo acabava. Quando me disseram que o meu pai tinha morrido, a dor não foi uma metáfora. Doeu-me fisicamente. Há notícias que o corpo recebe antes de conseguirmos compreendê-las. O meu recebeu aquela como se alguma coisa me tivesse atravessado por dentro. E eu gritei. Não sei explicar aquele grito. Sei apenas que saiu de um lugar de mim que eu desconhecia. Foi um grito de uma intensidade que nunca mais consegui repetir na vida. Nem antes, nem depois, alguma vez produzi um som semelhante. Talvez porque aquele não fosse verdadeiramente um som da minha voz. Era o som da minha alma a morrer. Nesse dia, a minha alma morreu. De...