Tréguas
Houve um tempo em que o céu parecia ter desaprendido a abrir-se. Não chovia apenas lá fora — chovia dentro das gavetas, entre as páginas dos livros, nos intervalos da respiração. A luz existia, claro, mas como uma lembrança antiga, dessas que sabemos ter sido felizes sem conseguirmos reconstruir o rosto exato da felicidade. A vida, nesse período, era uma sala com cortinas pesadas. E nós, habitantes pacientes, aprendíamos a mover-nos na penumbra. A chuva tem esse talento estranho: ensina-nos a ouvir. Cada gota é um metrónomo da espera. Ensina-nos que nem todo o silêncio é vazio, que há um tipo de crescimento que acontece na sombra — como as raízes que trabalham sem aplauso, aprofundando-se na terra escura enquanto a superfície parece imóvel. Há dias em que a alma se torna inverno. Não um inverno dramático e literário, mas um inverno doméstico, de meias grossas e cansaço sem nome. Acordamos e o mundo pesa como um casaco molhado. Chamam-lhe tristeza, chamam-lhe cansaço, cha...