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Domingos

Há dias que não fazem barulho. Não chegam com anúncios nem com grandes acontecimentos. Instalam-se devagar, como a luz que entra pelas frestas da janela e, sem pedir licença, vai ocupando o espaço. Hoje foi assim. Um domingo de sol. Acordei mais tarde do que o habitual — aquele acordar sem culpa, sem pressa, sem a urgência das horas que nos empurram nos dias úteis. Fiquei ainda algum tempo entre o sono e a vigília, naquele estado suspenso onde tudo é mais leve e o mundo ainda não pesa. Levantar num dia assim é diferente. Há uma espécie de suavidade nos gestos, uma lentidão que não é atraso, mas escolha. A casa estava tranquila. Faltava apenas a filha mais nova — está longe, por terras de Espanha, em digressão com a sua Tuna, a viver a vida no seu próprio ritmo. Mas essa ausência não é um vazio. É apenas um intervalo com data marcada. Amanhã já volta ao colo da mãe. E isso muda tudo. Preparei o almoço sem pressa. Há qualquer coisa de profundamente humano em cozinhar para os nosso...

Tornar-te quem és

Há dias em que caminho sem pressa. Não caminho para chegar a algum lugar específico. Caminho apenas para deixar os pensamentos encontrarem o seu próprio ritmo. Numa dessas caminhadas, há uns meses, lembrei-me de uma frase de Nietzsche que me acompanha desde então. “Torna-te quem és.” Na primeira vez que a ouvi pareceu-me uma espécie de enigma. Como podemos tornar-nos aquilo que já somos? Parecia uma frase bonita, mas um pouco misteriosa — daquelas que os filósofos deixam no ar como quem semeia perguntas. Hoje penso nela de outra forma. Talvez Nietzsche estivesse a falar de uma das tarefas mais difíceis da vida: regressar a nós próprios. Porque a verdade é que ninguém nasce sabendo exatamente quem é. Nascemos com possibilidades. E depois o mundo começa, lentamente, a ensinar-nos quem devemos ser. A família sugere caminhos. A escola organiza comportamentos. A sociedade distribui expectativas invisíveis. Aprendemos cedo o que é valorizado, o que é considerado su...

Há coisas que ninguém nos ensina.

Há coisas que ninguém nos ensina. Não estão nos livros da escola, nem aparecem em conversas de café quando somos mais novos. São aprendizagens silenciosas que chegam devagar, quase sempre depois de alguns anos de vida, algumas alegrias e algumas perdas. Só agora percebo que o tempo não passa mais depressa. Nós é que começamos finalmente a olhar para ele. Quando somos mais novos, o tempo parece infinito, como um caminho que se perde no horizonte. Mais tarde percebemos que ele é mais parecido com um rio: continua sempre a correr, mas já conseguimos ver melhor as margens. Também percebi que a felicidade raramente acontece nos momentos que imaginávamos. Não está nas grandes conquistas nem nas promessas que fazemos a nós próprios quando somos jovens. Está muitas vezes nas coisas mais discretas: um jantar demorado, uma conversa sem pressa, uma tarde de sol numa varanda qualquer. Aprendi também que algumas pessoas chegam à nossa vida para ficar — e outras apenas para nos ensinar a...

Querida M.

​ Hoje encontrei a menina M. no café da minha rua. E há encontros assim — simples na forma, quase banais — mas que nos atravessam por dentro como se fossem feitos de outra matéria. Falámos um pouco e, ainda assim, disse-se tanto. Há pequenas conversas que são mais profundas do que algumas longas. Enquanto a ouvia pensei em como a vida, sem aviso, nos pode puxar o tapete. Num instante estamos distraídos com os detalhes — o trânsito, o cansaço, as pequenas irritações — e no outro somos confrontadas com aquilo que realmente pesa: a saúde e a falta dela, o medo que se instala devagar, a ansiedade que aperta, o território incerto onde de repente tudo deixa de ser garantido. E então percebemos. Que muito do que nos ocupa às vezes não passa disso mesmo: detalhes. Gosto verdadeiramente da menina M., como carinhosamente a chamo cá em casa. Há nela uma força tranquila, uma coragem que não precisa de palco, e ao mesmo tempo uma ternura rara. É daquelas pessoas que nos desarmam sem esforço, que no...

Abraços bons

Hoje , uma mãe chegou à academia, olhou para mim com atenção — daquela atenção que vê para além do óbvio — e perguntou, com uma simplicidade desarmante: “Está bem?” Sorri, como sempre. Fiz uma piada, como sempre. Mas, talvez pela primeira vez em muito tempo, respondi: “Não.” E foi aí que aconteceu o inesperado. Abraçou-me. Sem pressa. Sem palavras. Um abraço apertado, demorado, quase como se soubesse exatamente onde doía. Um abraço quente — daqueles que não pedem explicações nem oferecem soluções, apenas ficam. E, nesse silêncio, caiu uma lágrima. Ou duas. Não sei bem. Sei apenas que éramos duas mulheres ali, por instantes despidas dos papéis, das forças aparentes, das exigências do dia — duas mulheres a precisar de colo. No fim, agradeci, com a voz ainda presa. E ela respondeu, com uma serenidade que não se esquece: “Retribuo hoje todos os abraços que dá à minha filha. Todo o colo.” Há gestos que nos atravessam. Porque, no meio de tudo — das rotinas, das responsabilidades, das máscara...

🪨 Sobre Sísifo, o absurdo… e continuar

Alguém me deixou um comentário no texto anterior ... Alguém que comentou: “Sísifo e o absurdo da vida, mas ainda assim feliz.” Fiquei a pensar nessa frase. Porque há ali qualquer coisa que fica e porque há momentos em que a vida parece exatamente isso: Como Sísifo, a empurrar a pedra montanha acima. Estudamos, esforçamo-nos, tentamos fazer melhor… e, às vezes, tudo parece voltar ao início. Outra vez. Sem aplausos. Sem garantias. Sem aquele “cheguei” que imaginámos. E então aparece a pergunta — talvez a mais difícil de todas: Se tudo isto se repete… onde está o sentido? Talvez não esteja no topo. Talvez nunca tenha estado. A ideia de Sísifo, como a descreve Camus, não é sobre desistir. É sobre perceber que, mesmo quando o caminho não tem um fim claro, há algo profundamente humano em continuar. Não porque é fácil. Mas porque é escolha. E isso muda tudo. Porque talvez o sentido da vida não esteja apenas em alcançar alguma coisa final, mas na forma como caminhamos — mesmo quan...

Deixa estar

Há uma liberdade silenciosa que só descobrimos tarde na vida: a liberdade de perceber que não precisamos de resolver todas as pessoas. Durante muito tempo achei que era possível explicar melhor, insistir um pouco mais, conversar com mais clareza — e que, assim, talvez as pessoas se entendessem melhor. Talvez seja uma deformação de quem ensina. Quem passa a vida a ensinar acredita profundamente no poder das explicações. Acredita que o pensamento pode abrir caminhos e que as palavras certas, ditas no momento certo, conseguem aproximar pessoas. Mas a vida não funciona exatamente como uma aula bem preparada. Há uma altura em que percebemos que cada pessoa habita o mundo a partir do seu próprio território interior. Cada um carrega as suas histórias, as suas fragilidades, as suas feridas invisíveis, os seus limites. E então aprendemos uma coisa que parece simples, mas que leva anos a aceitar verdadeiramente: nem tudo depende de nós. Não depende de nós aquilo que os outros sent...