Sobre a amizade num tempo que passa depressa demais
A amizade é uma coisa frágil. Não no sentido em que se quebra facilmente, mas no sentido em que precisa de cuidado. Como um copo pousado à beira da mesa: não cai por acaso, cai porque alguém passou a correr. Vivemos num tempo em que quase todos passam a correr. Corremos para cumprir prazos, para responder a mensagens que não pedimos, para sermos eficientes, disponíveis, produtivos. E, no meio dessa pressa, esquecemo-nos de algo essencial: ninguém constrói amizade por acidente. A amizade precisa de tempo. E o tempo, hoje, parece ser sempre coisa dos outros. Dizemos muitas vezes “temos de combinar”, como quem diz “não agora”. Prometemos cafés que nunca acontecem, conversas que ficam suspensas, abraços adiados para um dia qualquer que não chega. Não é por falta de carinho — é por excesso de ruído. O mundo fala alto demais e nós aprendemos a ouvir mal. As relações tornaram-se frágeis porque se tornaram rápidas. Trocam-se pessoas como se trocam aplicações: quando deixa de funciona...