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Querida M.

​ Hoje encontrei a menina M. no café da minha rua. E há encontros assim — simples na forma, quase banais — mas que nos atravessam por dentro como se fossem feitos de outra matéria. Falámos um pouco e, ainda assim, disse-se tanto. Há pequenas conversas que são mais profundas do que algumas longas. Enquanto a ouvia pensei em como a vida, sem aviso, nos pode puxar o tapete. Num instante estamos distraídos com os detalhes — o trânsito, o cansaço, as pequenas irritações — e no outro somos confrontadas com aquilo que realmente pesa: a saúde e a falta dela, o medo que se instala devagar, a ansiedade que aperta, o território incerto onde de repente tudo deixa de ser garantido. E então percebemos. Que muito do que nos ocupa às vezes não passa disso mesmo: detalhes. Gosto verdadeiramente da menina M., como carinhosamente a chamo cá em casa. Há nela uma força tranquila, uma coragem que não precisa de palco, e ao mesmo tempo uma ternura rara. É daquelas pessoas que nos desarmam sem esforço, que no...

Abraços bons

Hoje , uma mãe chegou à academia, olhou para mim com atenção — daquela atenção que vê para além do óbvio — e perguntou, com uma simplicidade desarmante: “Está bem?” Sorri, como sempre. Fiz uma piada, como sempre. Mas, talvez pela primeira vez em muito tempo, respondi: “Não.” E foi aí que aconteceu o inesperado. Abraçou-me. Sem pressa. Sem palavras. Um abraço apertado, demorado, quase como se soubesse exatamente onde doía. Um abraço quente — daqueles que não pedem explicações nem oferecem soluções, apenas ficam. E, nesse silêncio, caiu uma lágrima. Ou duas. Não sei bem. Sei apenas que éramos duas mulheres ali, por instantes despidas dos papéis, das forças aparentes, das exigências do dia — duas mulheres a precisar de colo. No fim, agradeci, com a voz ainda presa. E ela respondeu, com uma serenidade que não se esquece: “Retribuo hoje todos os abraços que dá à minha filha. Todo o colo.” Há gestos que nos atravessam. Porque, no meio de tudo — das rotinas, das responsabilidades, das máscara...

🪨 Sobre Sísifo, o absurdo… e continuar

Alguém me deixou um comentário no texto anterior ... Alguém que comentou: “Sísifo e o absurdo da vida, mas ainda assim feliz.” Fiquei a pensar nessa frase. Porque há ali qualquer coisa que fica e porque há momentos em que a vida parece exatamente isso: Como Sísifo, a empurrar a pedra montanha acima. Estudamos, esforçamo-nos, tentamos fazer melhor… e, às vezes, tudo parece voltar ao início. Outra vez. Sem aplausos. Sem garantias. Sem aquele “cheguei” que imaginámos. E então aparece a pergunta — talvez a mais difícil de todas: Se tudo isto se repete… onde está o sentido? Talvez não esteja no topo. Talvez nunca tenha estado. A ideia de Sísifo, como a descreve Camus, não é sobre desistir. É sobre perceber que, mesmo quando o caminho não tem um fim claro, há algo profundamente humano em continuar. Não porque é fácil. Mas porque é escolha. E isso muda tudo. Porque talvez o sentido da vida não esteja apenas em alcançar alguma coisa final, mas na forma como caminhamos — mesmo quan...

Deixa estar

Há uma liberdade silenciosa que só descobrimos tarde na vida: a liberdade de perceber que não precisamos de resolver todas as pessoas. Durante muito tempo achei que era possível explicar melhor, insistir um pouco mais, conversar com mais clareza — e que, assim, talvez as pessoas se entendessem melhor. Talvez seja uma deformação de quem ensina. Quem passa a vida a ensinar acredita profundamente no poder das explicações. Acredita que o pensamento pode abrir caminhos e que as palavras certas, ditas no momento certo, conseguem aproximar pessoas. Mas a vida não funciona exatamente como uma aula bem preparada. Há uma altura em que percebemos que cada pessoa habita o mundo a partir do seu próprio território interior. Cada um carrega as suas histórias, as suas fragilidades, as suas feridas invisíveis, os seus limites. E então aprendemos uma coisa que parece simples, mas que leva anos a aceitar verdadeiramente: nem tudo depende de nós. Não depende de nós aquilo que os outros sent...

O domingo do domingo

Deitei-me às 5h30 da manhã. Não foi festa, não foi insónia existencial — foi tese. Aquela relação intensa, exigente e um bocadinho tóxica que nos faz prometer “só mais um parágrafo” até o relógio deixar de fazer sentido. Acordei (ou algo parecido com isso) com a elegante sensação de quem foi atropelada por um comboio académico. E foi aí que tive uma epifania: já não tenho idade para diretas. Tenho responsabilidades. Muitas. Demasiadas? Talvez. Negociáveis? Nem por isso. Porque entretanto sou mãe, filha, esposa, professora, explicadora de matemática, orientadora de alunos… e, aparentemente, também atleta de resistência numa maratona de 7 dias por semana, das 8h até à madrugada. Sem medalha no fim, só cafés e listas de tarefas que se reproduzem sozinhas. Hoje, o cérebro pede pausa, mas a vida responde com: fichas para corrigir, turmas para orientar, equações para explicar, alunos para motivar. E eu ali, a sonhar com um domingo… só um domingo dentro do domingo. Um espaço-tempo secreto ond...

O que dá sentido à vida?

Há uma pergunta que mais cedo ou mais tarde aparece na cabeça de todos nós. O que dá sentido à vida? Quando somos jovens — e mesmo quando já não somos assim tão jovens — muitas vezes pensamos que a resposta tem a ver com sucesso. Boas notas. Entrar na universidade certa. Conseguir um bom trabalho. Ser reconhecido. Ter uma vida que os outros admiram. A sociedade fala muito disso. Parece que a vida é uma corrida e que todos estão a tentar chegar primeiro a um lugar chamado “sucesso”. Mas quero contar-vos uma coisa importante. O sucesso não é uma coisa má. Querer alcançar objetivos, estudar, trabalhar, construir uma vida com propósito — tudo isso faz parte do crescimento. Ser uma boa pessoa e ter sucesso não são coisas incompatíveis. Pelo contrário. Muitas das pessoas que realmente admiramos conseguiram alcançar coisas importantes sem deixar de ser generosas, honestas e humanas no caminho. O problema não está em querer chegar longe. O problema começa quando fi...

Arranjar tempo

Há dias que parecem não ter fim, dias que se estendem como uma linha contínua de tarefas, vozes, decisões e pequenas urgências que se acumulam sem pedir licença. E, no entanto, é precisamente nesses dias — talvez apenas nesses — que se tornam possíveis os encontros mais improváveis e mais necessários. Hoje foi um desses dias. No final de tudo, quando o cansaço já se insinuava no corpo e a vontade mais imediata seria recolher, houve uma escolha quase impercetível, mas profundamente significativa: arranjar tempo. Não encontrar tempo — porque esse, sabemos, nunca aparece — mas criá-lo, como quem abre uma clareira no meio do ruído. Fomos jantar. Três. E há algo de misterioso no modo como certos encontros acontecem, como se fossem já antigos antes mesmo de começarem. Sentámo-nos à mesa e, sem qualquer cerimónia, os lugares habituais foram ficando para trás. Não houve momento de transição, não houve anúncio — apenas aconteceu. Deixámos de ser o que éramos durante o dia. Não havia ali...