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Sábado

O sábado começou cedo, ainda com a luz tímida da manhã a esticar-se pelas janelas. Às 9h já havia matemática no ar — números espalhados pela mesa, cadernos abertos, lápis inquietos. Mas havia também gargalhadas, dessas que nascem quando alguém finalmente percebe um problema ou quando uma resposta improvável faz todos parar para rir. Entre dúvidas e perguntas, entre afirmações corajosas e algumas certezas recém-descobertas, o tempo foi passando com aquela serenidade própria das manhãs dedicadas a aprender. Os grupos iam chegando e partindo, como pequenas marés: alunos de 10º, de 9º, de 11º… e também do 5º e 6º. Gente pequenina e gente grande, todos com o mesmo brilho nos olhos — esse desejo antigo e universal de compreender o mundo um pouco melhor. Porque aprender é também isto: construir devagarinho aquilo que ainda não sabemos que somos. A tarde caiu sem fazer barulho, como costumam cair as coisas boas. E com ela chegou o caminho para norte. Havia um encontro marcado com os meus fi...

"Peço desculpa"

Há pessoas que atravessam a vida sem nunca pedir desculpa. Não porque nunca errem. Errar é inevitável. Faz parte da condição humana, como a dúvida, o cansaço ou a esperança. Erramos nas palavras que escolhemos, nas decisões apressadas, nas pequenas durezas que deixamos escapar quando o dia pesa mais do que a nossa paciência. Mas pedir desculpa é outra coisa. Pedir desculpa exige um gesto interior que nem todos estão dispostos a fazer: parar por um momento e olhar para si próprio com alguma honestidade. Nem sempre é fácil. E há quem prefira o silêncio. Como se o tempo pudesse apagar o que aconteceu. Como se a memória do outro fosse frágil e bastasse esperar o suficiente para que tudo se dissolvesse numa espécie de esquecimento conveniente. Outros escolhem um caminho ainda mais curioso: explicam-se. Justificam-se. Rodeiam o erro com argumentos, circunstâncias, contextos. E, no meio de tantas explicações, a responsabilidade acaba por se perder, diluída numa narrativa onde ning...

E na hora da nossa morte, quero que ela me encontre viva.

E na hora da nossa morte, quero que ela me encontre viva. Não apenas respirando, não apenas ocupando espaço neste mundo por hábito ou por inércia. Quero que me encontre verdadeiramente viva — desperta para a vida, para as pessoas, para as pequenas maravilhas escondidas nos dias mais comuns. Quero que me encontre com os olhos curiosos, com o coração aberto e com a alma ainda disponível para aprender. Não quero que a morte me encontre adormecida na rotina, anestesiada pela pressa dos dias ou perdida nas distrações que nos afastam do essencial. Quero que me encontre consciente do caminho que percorri, com as mãos marcadas pelas tentativas, pelos erros e pelas aprendizagens que fizeram de mim quem sou. Porque viver, para mim, nunca foi apenas atravessar os dias. Viver é prestar atenção. É escutar com verdade, sentir com intensidade, olhar o mundo como quem ainda se espanta. É saber que cada encontro pode transformar-nos um pouco, que cada perda traz dentro de si uma lição silenciosa, e ...

Como vive uma professora de matemática com PHDA?

A primeira coisa que é preciso saber sobre viver com PHDA é que o meu cérebro não acorda devagar. Ele desperta como um mercado às sete da manhã. Ainda antes do café, já passaram pela minha cabeça: o teste de matemática que os meus alunos vão fazer, a tese que estou a escrever, as aulas da tarde que quero tornar mais interessantes, uma ideia nova para explicar funções de outra maneira, a lista de compras, uma memória antiga e a pergunta existencial de onde está o telemóvel. Viver com PHDA é um pouco isto: um cérebro que acorda antes de nós. Sou professora de matemática. Sou mãe. Sou investigadora. Sou estudante. E tenho PHDA. Descobri tarde, como acontece com muitas mulheres. Durante anos pensei apenas que era uma pessoa muito curiosa, muito entusiasmada, um pouco desorganizada e com uma capacidade suspeita para fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Agora sei que o meu cérebro funciona como um computador com demasiadas janelas abertas. O problema não é a falta de ideias. É escolher qua...

Há pessoas que prometem. Há pessoas que cumprem.

Às vezes não é preciso muito para perceber quem uma pessoa é. Basta uma palavra. Não a palavra bonita, dita com convicção e com um certo brilho nos olhos — essa qualquer um consegue pronunciar. Refiro-me à palavra que fica depois, quando o momento passa. A palavra que exige memória, responsabilidade e uma espécie de fidelidade silenciosa ao que se disse. Há pessoas que falham com a palavra como quem muda de caminho numa rua qualquer. Sem grande peso. Sem grande reflexão. Dizem “estarei lá”, “conta comigo”, “não te preocupes, eu trato disso”, e seguem o seu dia como se essas frases fossem apenas pequenas moedas de troca social. Algo para suavizar o instante, para evitar o desconforto de dizer não. Talvez nem se apercebam do que fazem. A palavra, para elas, é leve. Tão leve que o vento da primeira conveniência a leva embora. Mas quem escuta a promessa sente outra coisa. Há sempre um pequeno acto de confiança quando acreditamos no que alguém diz. Uma espécie de ponte invisível que se...

🌊 Não sou a mesma — e ainda bem

Há um momento estranho na vida em que nos olhamos ao espelho — não ao espelho da casa de banho, mas ao espelho das escolhas, das reações, das prioridades — e pensamos: “Eu já não sou assim.” E essa constatação pode assustar. Porque crescemos a ouvir que devemos ser coerentes, fiéis a quem somos, consistentes. Como se mudar fosse uma forma subtil de traição. Como se evoluir significasse abandonar versões anteriores que também foram verdadeiras. Mas talvez a pergunta esteja errada. Mudar não é trair quem fomos. É honrar o caminho que fizemos. A mulher que foste há cinco anos fez o melhor que sabia com a consciência que tinha. A que foste há dois anos tomou decisões com as ferramentas emocionais que possuía. A que foste ontem sentiu o que conseguiu sentir. Nenhuma dessas versões merece julgamento. Merecem reconhecimento. Há fases em que tolerámos o que hoje já não toleramos. Relações que aceitámos porque ainda não sabíamos impor limites. Silêncios que mantivemos porque ain...

Spring... is that you?

O inverno nunca chega de repente. Ele infiltra-se. Entra pelos ossos das árvores, pelas frestas das casas, pelos silêncios das pessoas. É um tempo de contenção — como se o mundo prendesse a respiração para não partir. A terra endurece, as águas recolhem-se, os animais sabem esperar. E nós, que raramente sabemos, fingimos que o frio é apenas temperatura. Mas o inverno é mais do que uma estação. É uma metáfora. É o luto das folhas, o intervalo entre duas músicas, a página em branco que parece negar a história. No inverno, tudo parece imóvel, e no entanto, nas entranhas da terra, um trabalho secreto começa. As raízes conversam no escuro. As sementes racham a sua própria resistência. O invisível inicia a revolução. Há uma luta antiga — não violenta, mas obstinada — entre o inverno e a primavera. Não é batalha de espadas, é persistência de seiva. O gelo afirma: “fica”. A luz responde: “volta”. E, lentamente, quase imperceptivelmente, o dia alonga-se alguns segundos, como quem estende um bra...