Sobre um 12 de maio
É 12 de maio. Há peregrinos na rua. Muitos. Grupos e grupos a chegar a pé, vindos de todos os lados do país, e de outros lugares que talvez eu nunca saiba nomear. Vêm com mochilas, terços, coletes refletores, pés cansados, joelhos doridos, ombros gastos, olhos cheios de qualquer coisa que não se explica bem. Há quem venha em silêncio. Há quem venha a cantar. Há quem venha a rezar baixinho, como se cada palavra fosse um passo e cada passo fosse uma promessa. E há qualquer coisa de profundamente comovente nesta paisagem humana. Porque um peregrino nunca é apenas alguém que caminha. Um peregrino é alguém que leva o corpo até onde a alma precisa de chegar. Vejo-os passar e penso no que trarão dentro. Ninguém caminha tantos quilómetros apenas com os pés. Caminha-se com saudades. Com medos. Com doenças. Com promessas feitas em quartos de hospital. Com agradecimentos que não cabem na voz. Com filhos no pensamento. Com mães que já partiram. Com dores antigas. Com cu...