Duas semanas já lá vão
Disseram-me um dia que o tempo é uma convenção dos homens, uma invenção geométrica para dar ordem ao caos. Agora sei que é mentira. O tempo é um bicho elástico, feito de uma matéria moldável que estica ou encolhe conforme a distância de quem amamos. As duas semanas passaram. Duas semanas cabem em catorze páginas de um diário, em duas folhas de calendário arrancadas sem pressa. Dito assim, parece matemática exata. Mas a verdade é que já passou metade do tempo e a outra metade pesa na casa como se o silêncio tivesse decidido mudar-se para as divisões que ela deixou vazias. A saudade, agora, já não é aquela vertigem antecipada que escrevi antes de ela partir. É uma presença física. Sinto falta da minha filha, mas também da amiga que partilha os dias comigo, da companheira de todas as horas que desarma a solenidade da vida com um riso inesperado. Sinto falta do eco dos passos dela, das palavras soltas na cozinha, da cumplicidade que nos dispensa de dar explicações ao mundo. No enta...