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Agora que a matemática terminou

Há alunos que deixam de ser apenas alunos. A aula acaba, a matéria termina, os testes passam, os exames ficam para trás, a Matemática deixa de ser o motivo que nos senta à mesma mesa. Já não há trabalhos de casa por fazer, nem raspanetes dados com aquele rigor que é também uma forma de cuidado. Já não há equações para resolver, funções para estudar, probabilidades para calcular. E, no entanto, alguma coisa fica. Fica uma ligação que já não cabe no nome de professora e aluno. Há um momento de que sempre gostei muito. Aquele em que me perguntam, quase com cuidado, se me podem tratar por Paula. Pedem licença, como se estivessem a atravessar uma fronteira invisível. E eu digo que sim. Claro que sim. Porque também eu sei que, naquele instante, já não estamos apenas no território da explicação, da exigência, da matéria dada e da matéria sabida. Estamos noutro lugar. Um lugar mais raro, mais bonito, mais duradouro. A Matemática acabou entre nós, mas ficou qualquer coisa maior do que os...

A geometria dos afetos

Durante muito tempo pensei que a vida fosse uma linha reta. Talvez por deformação matemática, talvez por ingenuidade, imaginei que avançávamos de ponto em ponto, sempre em frente, como quem segue uma sequência lógica: infância, juventude, amor, filhos, trabalho, conquistas, perdas, recomeços. Um eixo bem definido, com origem algures no primeiro choro e destino num lugar que ninguém sabe nomear. Mas a vida, descobri mais tarde, não é uma reta. É uma geometria inteira. Feita de linhas que se cruzam, de pontos que nos fixam, de distâncias que nos doem, de paralelas que caminham lado a lado sem nunca se tocarem, de tangentes que nos roçam apenas por um instante e, ainda assim, mudam a nossa direção. Há pessoas que são pontos. Chegam e ficam. Marcam uma coordenada exata dentro de nós. Mesmo que o tempo passe, mesmo que os mapas se rasguem, sabemos sempre onde estão. Há amigos assim. Amores assim. Alunos assim. Pessoas que, um dia, entraram numa aula, numa casa, numa conversa ou...

Tenho uma alma com demasiados separadores abertos

Não sei viver em modo simples, mas às vezes, gostava. Gostava de ser daquelas pessoas que pensam uma coisa de cada vez, que começam uma tarefa e acabam essa tarefa antes de inventarem outra, que entram numa divisão e ainda se lembram do motivo pelo qual lá entraram. Mas eu entro numa divisão e, pelo caminho, já tive três ideias, duas dúvidas existenciais, uma vontade súbita de reorganizar a vida inteira e uma pergunta absolutamente inútil sobre o sentido das coisas. Não é fácil explicar isto aos comuns mortais. Aos comuns mortais — essa espécie misteriosa que parece conseguir arrumar a cabeça por gavetas — eu pareço sempre um bocadinho estranha e esquisita. Talvez porque falo depressa demais quando me entusiasmo, tenho ideias que chegam em bando, como pássaros assustados, faço ligações improváveis entre coisas que, aparentemente, não têm nada a ver umas com as outras, e talvez porque há dias em que estou cheia de mundo e outros em que o mundo me parece cheio de mim. Acordo sempre ...

Arrumar o caos

É nas pequenas tarefas de todos os dias que encontro espaço para pensar nas minhas grandes questões. Não é nos momentos solenes, nem nas grandes pausas, nem sequer nos silêncios cuidadosamente escolhidos. É enquanto arrumo roupa, enquanto faço a cama, enquanto lavo a loiça ou deixo a cozinha novamente habitável. As mãos ocupam-se do óbvio e a cabeça, talvez por se sentir menos vigiada, começa a andar por lugares onde eu nem sempre a quero levar. Revejo conversas. Analiso sentimentos. Imagino respostas que devia ter dado e que só me ocorreram depois, como acontece quase sempre com as respostas importantes. Há frases que ficam dentro de nós muito depois de a conversa ter acabado. Frases por explicar, por engolir, por devolver. Pequenas peças fora do lugar. Não há muita poesia no ato de lavar a loiça. Há pratos, copos, talheres, restos do dia. Mas talvez exista ali uma espécie de verdade humilde. A forma como arrumo a cozinha diz, muitas vezes, mais sobre mim do que eu gostaria. Há...

Amigos

Tenho um bom leque de amigos. Digo isto assim, com a serenidade de quem já percebeu que há coisas que não precisam de inventário. Não me interessa muito saber se são muitos ou poucos. Nunca fui boa a contar pessoas como quem conta moedas dentro de uma caixa. Interessa-me mais saber se são bons. Se são inteiros. Se estão. Se me acrescentam mundo. E, felizmente, os meus são bons. E são suficientes. Há amizades que vêm de longe, de tão longe que já não sei bem onde acabam as memórias e começam as pessoas. Amigos de há mais de trinta anos, que me conhecem antes de eu saber explicar-me. Que já me viram em versões antigas, em rascunhos, em dias sem legenda. Amigos que ficaram, não porque a vida tenha sido sempre fácil, mas porque algumas raízes têm a teimosia bonita das árvores antigas: dobram-se ao vento, mas não desistem da terra. Depois há os outros. Os que chegaram mais tarde. Amigos de meia dúzia de anos, de alguns meses, ou até aqueles que ainda estão a chegar, devagarinho, como...

Quase a fazer anos ... o balanço esperado

Há pessoas que nascem com tempo para serem crianças. Eu não tive essa sorte. Cresci depressa, como crescem certas árvores em sítios difíceis: inclinadas pelo vento, mas teimosas na raiz. Ainda antes de perceber bem o mundo, já o mundo me pedia compostura. Pediam-me juízo, silêncio, obediência, modos. Pediam-me que coubesse num lugar estreito, bem-comportado, sem arestas, sem perguntas a mais. À mesa, por exemplo, não se falava. A mesa era um território sério, quase militar. Os talheres tinham mais liberdade do que as palavras. Os adultos decidiam, eu ouvia. A minha opinião raramente era chamada, mesmo quando o assunto era eu. Principalmente quando o assunto era eu. Cresci a perceber que havia papéis previamente escritos para mim. Filha obediente. Menina calada. Mulher responsável. Pessoa adulta. Pessoa séria. Pessoa que sabe estar. Pessoa que não faz ondas, não levanta a voz, não ri alto, não se entusiasma demasiado, não sonha em voz alta, não acredita em coisas invisíveis. M...

A Sertã escreve-nos por dentro

Há lugares que nos recebem como quem abre uma porta antiga e diz: entra, já te esperávamos. A Sertã é, para mim, um desses lugares. Talvez seja a luz das Beiras, essa luz dura e bonita que cai sobre as pedras, sobre as árvores, sobre as ruas antigas, sobre os corpos cansados de tanto calor. Talvez seja o modo como a natureza ali parece aproximar-se das pessoas, como se a paisagem também viesse assistir às conversas, aos livros, aos concertos, às leituras, às palavras que se soltam devagar entre escritores, leitores, músicos, atores, curiosos, sonhadores e gente que ainda acredita que a cultura pode mudar a temperatura de um dia. Mesmo quando estão quarenta graus. E estavam. Quarenta graus daqueles que nos entram pela pele, que nos fazem procurar sombra, água, silêncio, uma cadeira fresca, uma piscina, uma praia fluvial, uma pausa. Mas há calores que cansam e há calores que ficam guardados como memória. O calor da Sertã foi dos dois: fez-nos abrandar o corpo, mas aqueceu...