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A vida também tem incógnitas

A vida também tem incógnitas. Talvez seja por isso que nunca conseguimos resolvê-la por completo. Podemos estudar, planear, organizar, prever, fazer listas, desenhar caminhos, calcular riscos, medir possibilidades. Podemos até convencer-nos, durante algum tempo, de que temos tudo sob controlo. Mas depois a vida chega, muda uma variável, troca-nos o sinal, apaga uma linha do quadro e obriga-nos a recomeçar a conta. A vida raramente se deixa resolver à primeira. Há problemas que parecem simples até começarmos a olhar para eles com atenção. Há decisões que julgávamos certas e que, mais tarde, revelam outros lados. Há caminhos que pareciam desvios e afinal eram passagem. Há perdas que nos desmontam. Há encontros que nos reorganizam. Há silêncios que dizem mais do que respostas inteiras. E há perguntas que ficam. Quem sou eu agora? O que faço com aquilo que me aconteceu? Como se continua depois de uma dor? Como se escolhe quando todos os caminhos têm qualquer ...

A mesa onde a família aumentou

Começar uma família nova, ou acrescentar pessoas à família, tem qualquer coisa de milagre discreto. Não acontece sempre com certidões, apelidos, documentos ou árvores genealógicas. Às vezes acontece num domingo. Numa mesa comprida. Num aniversário. Num abraço que se abre sem fazer perguntas. Num lugar posto para nós como se já estivesse à nossa espera há muito tempo. Este domingo foi assim. A Cristina fez anos. E, de repente, a Cristina deixou de ser apenas a mãe do Rafael. Passou a ser a minha comadre. Palavra antiga, bonita, cheia de casa por dentro. Comadre. Uma palavra que não se limita a nomear uma relação; parece antes acrescentar uma divisão nova à vida, uma sala com luz, uma cadeira onde nos podemos sentar, uma pertença que não sabíamos que nos fazia falta até alguém nos oferecer. E a Cristina ofereceu-me isso. Abriu os braços. Acolheu-me. Acolheu os meus. Juntou-nos todos à mesa. Fez do seu aniversário não apenas uma festa sua, mas também um lugar de enco...

De Natal para Alfândega da Fé; de Alfândega da Fé para a vida

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Alfândega da Fé não me trouxe apenas conhecimento académico. Trouxe-me reencontros com amigas antigas, abraços que já tinham história, conversas retomadas no ponto exato onde a vida as tinha deixado em suspenso. Trouxe-me também os meus professores, essa espécie rara de pessoas que nos ajudam a pensar melhor e, por isso mesmo, nos ajudam a ser um pouco mais inteiros. Mas Alfândega da Fé trouxe-me ainda outra coisa. Trouxe-me o Manoel e a Natália. E há encontros que parecem não precisar de apresentação demorada. Acontecem como se já viessem com caminho feito por dentro. Chegam, sentam-se ao nosso lado, riem connosco, partilham uma mesa, uma conversa, uma ideia, uma inquietação, e de repente percebemos que aquela pessoa já entrou. Não pela porta principal, com cerimónia, mas por uma dessas janelas discretas por onde entram as coisas boas. Vieram do Brasil, de Natal, trazendo no corpo esse som de sol que algumas pessoas têm. Há gargalhadas que não são apenas gargalha...

Shhhhhhh

Vivemos numa sociedade estranha: primeiro manda-nos correr e depois vende-nos cursos para desacelerar. Pede-nos produtividade, rapidez, resposta imediata, presença em todo o lado, eficiência sem falhas, disponibilidade sem cansaço, paciência sem limites. Mas, ao mesmo tempo, diz-nos: respira, abranda, encontra o teu centro, fala devagar, não te exaltes, não sejas demais. Eu ouço isto desde pequena. “Fala menos.” “Acalma-te.” “Respira.” “Fala devagar.” “Pára quieta.” “Cala-te cinco minutos.” E eu, que achava que estava apenas viva, fui aprendendo que talvez estivesse a ocupar espaço a mais. Sempre me lembro de ser a mais faladora da aula. A mais entusiasmada. A que saía cedo para o intervalo e regressava depois da hora, com as mãos cheias de planos, ideias e urgências. Eu não ia para o recreio brincar apenas. Ia fundar mundos. Inventava teatros, escrevia os textos todos, distribuía papéis, organizava entradas e saídas, dizia quem ficava onde, quem fa...

Sobre um 12 de maio

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É 12 de maio. Há peregrinos na rua. Muitos. Grupos e grupos a chegar a pé, vindos de todos os lados do país, e de outros lugares que talvez eu nunca saiba nomear. Vêm com mochilas, terços, coletes refletores, pés cansados, joelhos doridos, ombros gastos, olhos cheios de qualquer coisa que não se explica bem. Há quem venha em silêncio. Há quem venha a cantar. Há quem venha a rezar baixinho, como se cada palavra fosse um passo e cada passo fosse uma promessa. E há qualquer coisa de profundamente comovente nesta paisagem humana. Porque um peregrino nunca é apenas alguém que caminha. Um peregrino é alguém que leva o corpo até onde a alma precisa de chegar. Vejo-os passar e penso no que trarão dentro. Ninguém caminha tantos quilómetros apenas com os pés. Caminha-se com saudades. Com medos. Com doenças. Com promessas feitas em quartos de hospital. Com agradecimentos que não cabem na voz. Com filhos no pensamento. Com mães que já partiram. Com dores antigas. Com cu...

Filhos do coração

Quando alguém me diz: “a Paula cuida dos nossos filhos como se fossem seus”, eu fico sempre uns segundos sem saber onde pôr esse elogio. Há frases demasiado grandes para caberem no ouvido. Entram por nós dentro e vão pousar num lugar antigo, talvez o mesmo onde guardamos os medos, as promessas e aquilo que nos torna responsáveis. Porque confiar um filho a alguém é um ato imenso. É entregar um pedaço de futuro. É dizer: “toma, aqui está o que tenho de mais precioso; ajuda-o a crescer sem o partir.” E não há, de facto, maior elogio que me possam fazer. Eu sei que me entregam os filhos para aprender Matemática. Funções, equações, frações, gráficos, problemas, métodos, raciocínios. Mas quem ensina sabe que nunca ensina só a matéria. Ensina-se também a esperar. A tentar outra vez. A não desistir ao primeiro erro. A organizar o pensamento. A lidar com a frustração. A descobrir que o “não consigo” muitas vezes quer apenas dizer “ainda não consegui”. A Matemática é, muitas ve...

Segunda-feira, esse início dos inícios

É segunda-feira outra vez. Não sei bem como. Ainda agora era sexta, ou talvez sábado, ou talvez aquele "domingo-semana" que inventei para mim, porque trabalho ao sábado e o descanso, quando chega, já vem cansado. Há fins de semana que não são fins de semana. São intervalos. Pequenos parênteses entre duas urgências. Piscamos os olhos e já passaram. Este passou a voar. Mal estive com os meus filhos com tempo. Tempo verdadeiro, quero dizer. Daquele que não tem relógio a tossir no pulso, nem roupa por estender, nem mensagens por responder, nem a cabeça a fazer listas enquanto o corpo finge estar presente. Estive, sim. Mas queria ter estado mais. Queria ter tido uma tarde inteira para os ouvir respirar a vida deles, contar as novidades, rir das coisas pequenas, perguntar sem pressa, ficar sentada na cozinha como se o mundo pudesse esperar lá fora com educação. A vida tem destas crueldades discretas: dá-nos pessoas-casa e depois rouba-nos as tardes para as habitar...