Da casa
No domingo, a avó Lurdes fez anos. Juntámo-nos, uma dezena e meia de pessoas, à mesa para lhe cantar os parabéns. Dezena e meia de vozes à volta de uma vida. E, entre todas elas, as nossas, que chegaram há tão pouco tempo e já encontraram lugar naquele coro. Há qualquer coisa de extraordinário nesta maneira de acolher. Uma amizade que se vai alargando, que nos recebe e recebe os nossos, até a palavra «família» ganhar nomes que ainda não conhecia. «Da casa.» É uma expressão pequena para uma pertença tão grande. Cabe inteira na boca e, no entanto, traz consigo uma cadeira, um lugar à mesa, a liberdade de chegar sem ter de pensar onde ficar. Traz essa confiança discreta de sabermos que a nossa presença é bem-vinda. Há casas que parecem reconhecer-nos antes de termos tempo de nos apresentar por inteiro. Aprendem depressa o nosso nome e fazem espaço para o que vem com ele: as pessoas que amamos, a nossa história, o nosso modo de estar. Aos poucos, deixamos de pensar na pró...