Ler torna-nos menos vazios
Gosto de imaginar que, quando alguém abre um livro, o mundo ganha um pouco de espaço. A pessoa continua sentada na mesma cadeira. A janela dá para a mesma rua. Lá fora, alguém espera pelo autocarro, uma árvore perde uma folha, a tarde prossegue os seus pequenos trabalhos. Mas, dentro daquele silêncio, pode estar a começar uma viagem. Há uma cidade por conhecer, uma vida diferente da nossa, uma pergunta que ainda não tínhamos aprendido a fazer. Talvez uma das coisas mais bonitas da leitura seja esta possibilidade de alargar a vida a partir de um gesto tão pequeno. Entre duas capas cabem séculos, oceanos, descobertas, enganos. Cabe alguém que viveu muito antes de nós e que, por algum motivo, parece conhecer uma inquietação que julgávamos só nossa. Cabe uma ideia capaz de nos acompanhar durante anos, mesmo depois de esquecermos em que página a encontrámos. Gostava que os nossos alunos pudessem descobrir esse encontro. Preocupa-me que a leitura chegue tantas vezes às suas mãos já...