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Alfândega da Fé

Às 6h20 da manhã, a viagem começou como começam as coisas importantes: ainda com o dia por nascer e já com a alma a adiantar-se ao corpo. Houve uma paragem no Porto, depois a estrada seguiu até Macedo de Cavaleiros, e aí aconteceu uma dessas pequenas alegrias que fazem o caminho parecer mais curto: o reencontro com uma amiga. A partir desse momento, já não íamos apenas para um seminário; íamos juntas para dentro de três dias feitos de estudo, trabalho, escuta, perguntas e aprendizagem. E talvez seja isso a educação no seu estado mais bonito: não um lugar onde se chega com respostas fechadas, mas um espaço onde se caminha acompanhado, disponível para pensar melhor. Alfândega da Fé recebe-nos assim, como quem sabe que a beleza não precisa de levantar a voz. No Nordeste Transmontano, entre a Serra de Bornes e o rio Sabor, esta terra parece guardar uma espécie de sabedoria antiga, feita de montes, vales e horizonte. É uma vila pequena, mas cheia de presença, onde o passado ainda ap...

Quantos anos demoramos a dizer adeus ?

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Há ausências que não passam. Aprendemos a andar com elas, a dobrar-lhes a roupa, a sentá-las à mesa, a deixá-las dormir ao nosso lado sem fazer muito barulho. Mas passar, passar mesmo, não passam. Transformam-se. Mudam de nome, mudam de lugar, mudam de voz. Às vezes já não doem como faca; doem como inverno. Ficam no corpo, na memória, na maneira como olhamos o mundo quando ninguém está a ver. Faz trinta e dois anos que partiste, pai. Trinta e dois anos é quase uma vida inteira. E, no entanto, há em mim uma parte que continua parada no instante em que te foste. Como se o tempo, esse grande mentiroso, tivesse seguido para toda a gente menos para aquela filha que ficou a olhar para a porta, à espera de um regresso que a razão sabia impossível, mas o coração recusava aceitar. Demorei anos a fazer o luto. Talvez ainda o faça. Foram anos de pesadelos, de lágrimas sem aviso, de um sobressalto constante da alma. Anos em que a tua ausência não era uma ideia: e...

Segundas-feiras

Há qualquer coisa de misterioso nas segundas-feiras. Não falo do calendário, nem da disciplina dos relógios, nem dessa pequena violência de recomeçar quando ainda trazemos o corpo preso ao descanso. Falo de outra coisa. De uma espécie de convite secreto que a vida nos faz, todas as semanas, para tentarmos outra vez. A segunda-feira é o mais humilde dos começos. Não tem o brilho solene do primeiro dia do ano, nem a pompa das grandes decisões, nem a ilusão de que tudo pode mudar de uma vez. A segunda-feira sabe que a transformação quase nunca chega com trombetas. Chega devagar. Entra pela cozinha, abre as janelas, faz café, arruma papéis, responde a mensagens, pega ao colo os cansaços e, mesmo assim, insiste: recomeça. Talvez por isso eu goste dela. Porque a segunda-feira não promete milagres. Promete trabalho. E há uma verdade funda nisso. A vida não se recompõe num gesto heroico, mas em pequenas fidelidades: levantar, respirar, voltar ao que importa, pegar...

A Geração 2.0 da Academia mais bonita da cidade

Há muito que trago esta fama comigo: a de ser uma professora dura. Exigente. A que ralha quando não estudam. A que manda muitos trabalhos para casa. A que não facilita. A que não sorri sempre no momento em que seria mais cómodo sorrir. A que insiste, cobra, chama a atenção, repete, volta atrás, não deixa passar. E, no entanto, todos os anos acontece a mesma coisa: sou uma das professoras mais procuradas, a vaga mais difícil de conseguir, o nome que passa de boca em boca, de família em família, de aluno em aluno, como se a contradição, afinal, não fosse contradição nenhuma. Talvez porque, por vezes, se confunda zelo com dureza. E amor com complacência. E atenção com ralhete. Mas quem educa verdadeiramente sabe que há uma diferença imensa entre uma coisa e outra. Eu nunca quis ser a professora que agrada a toda a gente. Quis ser, isso sim, a professora que fica. A professora que marca. A professora que ajuda a construir uma espinha dorsal interior, coisa tão rara e tão necessária n...

Preguiça ou Procrastinação ??? vamos esclarecer

Há crianças e adolescentes que adiam tudo. Adiam o resumo, adiam a ficha, adiam o início do estudo, adiam até o simples gesto de abrir o caderno. E, à primeira vista, isso irrita os pais. Parece desinteresse. Parece preguiça. Parece até desafio. Mas, muitas vezes, não é nada disso. Ou, pelo menos, não é só isso. Há adiamentos que não nascem da falta de vontade. Nascem do excesso de peso. Um filho que procrastina nem sempre está a escolher o caminho mais fácil. Às vezes, está apenas a tentar fugir ao desconforto de não saber por onde começar. Outras vezes, foge ao medo de falhar. Outras ainda, foge à sensação de que nunca será capaz de fazer tão bem quanto lhe pedem — ou quanto ele próprio acha que deveria fazer. E então adia. Não porque não queira. Mas porque não consegue entrar, de forma serena, na tarefa que tem diante de si. A procrastinação é, muitas vezes, uma linguagem. O problema é que os pais escutam “preguiça” quando o que o filho está a dizer, sem palavras, ...

A sexta-feira mais ansiada

Há semanas que a espero como quem espera o sol depois de um inverno demasiado comprido. Há três semanas que não vejo a minha filha, e hoje ela regressa a casa. Digo “regressa a casa”, mas a verdade é que há pessoas que, quando voltam, não entram apenas por uma porta: devolvem-nos um pedaço inteiro de nós. E é isso que sinto. Como se o dia de hoje trouxesse consigo qualquer coisa de reencontro, de recomposição, de respiração funda. Mal posso esperar pelo abraço. Pelo colinho que lhe vou dar, mesmo sabendo que o tempo passou, que a vida andou para a frente, que os anos fizeram o seu trabalho. Há criaturas que nunca deixam de caber no colo da mãe, e talvez o amor seja isso mesmo: uma espécie de geografia afetiva onde o tamanho nunca conta para nada. Continuas a caber no meu colo como quando eras pequenina, embora agora tragas o mundo nos olhos e uma vida inteira a crescer dentro de ti. Espero pelas nossas conversas sem relógio, aquelas que atravessam a noite e se demoram como ...

Entre teoremas e equações

Começo o dia cedo, a ensinar Matemática. Às oito chega o primeiro aluno, e chega com aquela frescura quase improvável de quem ainda não foi vencido pelo peso do mundo. Sem sono. Enérgico. Bem-disposto. Com vontade de aprender. E eu, que já venho acordada há muito mais tempo do que o relógio sugere, reconheço logo essa espécie de milagre pequeno que é encontrar alguém com vontade de saber. Aqui, felizmente, nunca falta vontade de ensinar. Sentamo-nos lado a lado, como quem não vem apenas resolver exercícios, mas repartir uma travessia. E talvez ensinar seja isso: não conduzir de cima, mas acompanhar por dentro. Partilhar uma mesa, um caderno, um raciocínio, uma dificuldade, um silêncio. Partilhar o erro sem vergonha e a descoberta sem alarde. Partilhar a vida, no fundo, porque há sempre qualquer coisa de muito humana no instante em que alguém diz “já percebi” e o rosto se ilumina como se por dentro tivesse acendido uma janela. Talvez a nossa relação com a Matemática devesse...