Mensagens

Tempo

Não tenho uma agenda. Tenho duas. Talvez porque uma só não suporte tudo o que peço aos dias. Numa página ficam as horas, noutra continuam as obrigações, os encontros, o trabalho que começa quando o outro termina. Tenho dois empregos, um horário exigente e as horas ocupadas ao milímetro. Trabalho catorze horas por dia, de segunda a sábado. Ao domingo, ainda encontro o que fazer, organizar, preparar, gerir. A semana seguinte começa a pedir coisas antes de a anterior acabar. Escrevo isto e vejo os números. Vivê-los é diferente. Por dentro dessas horas há pessoas, decisões, dúvidas, atenção. Há coisas que continuam a acontecer em mim depois de terminado o tempo que lhes estava destinado. O relógio separa os compromissos com uma facilidade que a cabeça desconhece. Sou professora, mãe e esposa. Sou cuidadora. Estas partes de mim convivem, cruzam-se, chamam umas pelas outras. Entre todas, a minha maior tarefa é ser mãe. Cuidar dos meus. Acompanhar os seus caminhos, estar prese...

Hoje, conto os anos por ti

Hoje farias setenta e oito anos, pai. Escrevo este número e demoro-me nele. Tento imaginar-te com a idade que não chegaste a ter. Como seria o teu rosto, que gestos terias conservado, o que o tempo teria feito à tua voz. Há uma parte de ti que só posso procurar assim, numa possibilidade. Conheço a tua ausência há tantos anos e continuo sem saber como serias hoje. Partiste com quarenta e quatro. E eu nunca mais contei os dias do mesmo modo. Desde então, cada data tem o que aconteceu e o que ficou por acontecer. Os anos avançaram, aconteceram tantas coisas, e tu continuaste a faltar de maneiras novas. Porque a saudade também muda com a vida. Há sempre alguma coisa que gostava de te contar pela primeira vez. Há sempre uma idade minha a que chego sem saber como seria ter-te ao lado. Hoje gostava de te dar os parabéns e ficar a ouvir-te. Falo contigo todos os dias. Às vezes, digo apenas «pai», e parece-me que já te disse muito. Outras vezes, conto-te o que me preocupa, ...

À altura de um abraço

A tristeza que mais me custa tem, quase sempre, alguma coisa de inesperado. Vem de uma voz junto da qual tinha baixado a guarda, de um gesto de quem julgava conhecer o cuidado de que sou feita. Às vezes, cabe inteira numa palavra. Outras, numa ausência: alguém que não está, que não pergunta, que deixa um silêncio precisamente onde eu precisava de uma resposta. Fico a pensar no pouco que é necessário para magoar uma pessoa. E no pouco que, em certos dias, teria bastado para a amparar. Gostava que algumas coisas não me atingissem tanto. Gostava de ter uma grandeza tranquila, qualquer coisa de árvore antiga que sabe do vento e permanece. Mas há palavras que me atravessam antes de eu conseguir compreendê-las. Quando tento perceber por que razão doeram tanto, já encontraram outras dores, já tocaram em lugares que eu julgava sossegados. O coração tem esta memória involuntária: um gesto de hoje pode abrir a porta a muitas tristezas antigas. Sei que nem tudo o que me fere foi fe...

Regressos

O calendário diz que entrámos no outono. O calor, pelos vistos, não recebeu o aviso. Ao fim da tarde, ainda há verão no ar. Entretanto, já se abriram os cadernos e se começaram a acertar horários. Ou a tentar. Ainda nem passou uma semana de explicações e a agenda já tem setas, rasuras e trocas. Há horas que mudam de lugar, mensagens a responder, encaixes por descobrir. Chego ao fim do dia cansada. O recomeço tem este lado menos bonito, feito de relógios desregulados e de contas que não aparecem nos manuais. Mas também tem uma alegria difícil de explicar a quem nunca esperou pelo regresso de um aluno. Os antigos voltam e, com eles, uma familiaridade construída devagar. É bom matar saudades, ouvir o que aconteceu entretanto e perceber que a confiança sobreviveu às férias. Aos novos abro a porta e dou as boas-vindas. Ainda estamos a conhecer-nos: eu procuro perceber como pensam, onde hesitam, o que já sabem sem se terem dado conta. Eles vão descobrindo que aqui podem fazer perguntas, ...

O amor também sabe sair da frente

Uma criança senta-se no chão para atar os atacadores. Demora. Faz uma laçada torta, desfaz o nó, troca as mãos, suspira e recomeça. O adulto olha para o relógio. Está atrasado. Ajoelha-se, afasta-lhe as mãos e, num gesto rápido e eficiente, ata-lhe os sapatos. Saímos a horas. Mas talvez aquela criança tenha perdido uma pequena oportunidade de crescer. É assim, muitas vezes, que a autonomia começa a ser adiada: não através de grandes proibições, mas por meio de pequenos gestos quotidianos feitos com a melhor das intenções. Fazemos por eles porque é mais rápido. Respondemos por eles porque receamos que se enganem. Escolhemos por eles porque acreditamos saber o que é melhor. Retiramos-lhes as pedras do caminho, antecipamos os obstáculos, evitamos-lhes a frustração e, se pudéssemos, talvez lhes preparássemos uma vida inteira revestida de plástico de bolhas. Tudo por amor. Mas o amor também pode prender. A autonomia não é uma capacidade que se entrega aos dezoito ...

Os filhos crescem para fora de nós

Este verão passou depressa demais. O mais estranho é que houve dias que me pareceram longos. Muito longos. Mas, quando dei por isso, o verão tinha acabado e eu ficara com a sensação de que me faltava um pedaço dele. Faltava-me um mês. O mês em que a minha filha esteve na Roménia. Eu sabia que era apenas um mês. Disse isso a mim própria várias vezes, com aquele tom sensato que usamos quando tentamos convencer o coração de alguma coisa que a cabeça já percebeu há muito. Um mês passa depressa. E passou. Mas foi um mês a menos da companhia dela. Um mês sem a sua presença nos meus dias, sem as conversas que surgem sem serem marcadas, sem aqueles pequenos momentos que parecem não ter importância até deixarem de acontecer. A ausência vive muito dessas coisas pequenas. Não é feita apenas da falta que alguém nos faz nas grandes ocasiões. É feita, sobretudo, da vontade de dizer qualquer coisa e perceber que a pessoa não está ali; de uma casa que continua igual, mas parece ter m...

Não comecei tarde. Comecei quando pude.

No currículo, as datas comportam-se bem. Formam colunas, aceitam parênteses e deixam-se ordenar da mais recente para a mais antiga. Não fazem perguntas inconvenientes nem revelam o que aconteceu entre uma linha e a seguinte. Um currículo tem essa habilidade extraordinária de transformar uma vida numa sucessão de acontecimentos aparentemente planeados. A vida, porém, tem a indelicadeza de não caber numa folha de cálculo. Entre a licenciatura e o mestrado há, no meu currículo, um espaço em branco. À primeira vista, parece apenas tempo decorrido. Mas aquele espaço não está vazio. Nele, perdi o meu pai e a minha avó no espaço de três meses. Três meses são uma estação do ano. Tempo suficiente para as árvores mudarem de roupa, mas demasiado pouco para um coração aprender duas ausências. O luto não aparece nos certificados. Não concede créditos, não atribui diplomas e raramente respeita calendários. Instala-se dentro de nós e muda silenciosamente a ordem das coisas. O mundo conti...