Às vezes sou casa vazia
Às vezes sou casa vazia. Não daquelas casas abandonadas, com janelas partidas e ervas a crescerem onde antes havia caminho. Sou antes uma casa habitada por dentro, cheia de ruídos, de tarefas, de vozes, de gente que amo, de dias inteiros, de trabalho, de pressa, de abraços, de filhos, de estudantes, de amigas que são irmãs, de um grande amor que me segura o mundo quando o mundo parece inclinar-se. Sou uma casa com luz acesa, com mesa posta, com vida a acontecer. E, ainda assim, às vezes, sou casa vazia. Há ausências que não ocupam apenas um lugar. Ocupam uma divisão inteira da alma. Ocupam corredores, gavetas, fotografias, cheiros antigos, domingos, natais, aniversários, decisões importantes, dias banais. Ocupam até aquilo que nunca chegou a acontecer. Porque perder um pai é também perder o que ainda vinha: as conversas que não tivemos, os conselhos que ficaram por dar, os abraços que não chegaram a tempo, a mão no ombro nos dias difíceis, o orgulho nos dias bons. Ficar órfã é ...