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Dia 3 - As estradas pequenas não aceitam pressa

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Acordamos em Puebla de Sanabria com a sensação de que a viagem e nós começamos finalmente a encontrar o nosso próprio ritmo. Já não existe a inquietação dos primeiros quilómetros nem aquela necessidade de confirmar o mapa a cada cinco minutos, como se as estradas pudessem mudar de lugar durante a noite. Aos poucos, deixamos de ser pessoas empenhadas em chegar a algum sítio e passamos a ser apenas pessoas a caminho. Talvez as férias comecem verdadeiramente nesse momento: quando deixamos de perguntar quanto falta e começamos a reparar no que existe à nossa volta. Arrumamos novamente as malas, fechamos a porta do quarto e regressamos ao carro. A roupa, que no primeiro dia cabia perfeitamente, começa já a desenvolver uma existência própria e a ocupar mais espaço. As malas de viagem obedecem a uma lei da física ainda pouco estudada: quanto mais avançam as férias, menor é a probabilidade de fecharem do mesmo modo. O pai e o filho voltam a dividir a condução. Há entre os dois uma esp...

Dia 2 - Enquanto eles contam quilómetros, eu conto histórias

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Acordamos em Salamanca com a sensação estranha de estarmos longe de casa há muito tempo, embora a viagem tenha apenas começado. As primeiras manhãs de férias têm qualquer coisa de inauguração. Abrimos os olhos e, durante alguns segundos, precisamos de recordar onde estamos. O teto não é o nosso, a luz entra de maneira diferente e os sons da rua ainda não pertencem à nossa memória. Há sempre aquele breve instante em que o cérebro consulta os seus ficheiros, encontra a reserva do hotel e finalmente nos informa de que está tudo bem. Lá fora, Salamanca já acordou. A pedra dourada recebe a luz da manhã como se os edifícios tivessem passado a noite inteira à espera do sol. Há cidades que despertam devagar. Salamanca levanta-se já iluminada, como certas pessoas que acordam bem-dispostas e falam antes do café — uma característica que respeito, embora não compreenda inteiramente. Arrumamos as malas e regressamos à estrada. Dizer que arrumamos as malas é, naturalmente, uma forma otimista...

Dia1

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Saímos de Fátima de manhã cedo, levando na bagageira roupa suficiente para alguns dias, água, mapas, medicamentos para todas as doenças conhecidas e algumas ainda por descobrir, pequenas expectativas e aquele cansaço acumulado que não cabe em nenhuma mala. Somos três no carro: o nosso filho e nós. Mas, na verdade, fomos sempre quatro. A nossa filha mais nova não vem connosco. Está na Roménia, a fazer o seu estágio em neurocirurgia, a viver uma aventura que é só dela, longe de casa e dos nossos olhos atentos. Ainda assim, ocupou um lugar invisível entre nós. Há ausências que não deixam lugares vazios; instalam-se em todos os lugares ao mesmo tempo. O pai e o filho vão alternando na condução. Existe entre eles a cumplicidade própria de quem partilha a estrada, o volante e aquela linguagem discreta que tantas vezes se estabelece entre pais e filhos. Comentam o caminho, as ultrapassagens, os carros e a direção a seguir. Um conduz, o outro observa, aconselha ou brinca, e eu vou ve...

Até já

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Chegou o dia da partida. O meu pequeno mirtilo vai hoje de viagem. Durante os últimos dias, a casa viveu naquele estado de emergência que antecede todas as partidas: malas abertas, roupa para lavar, roupa para passar, listas incompletas, compras de última hora e perguntas repetidas muitas vezes, como se a insistência pudesse impedir o esquecimento: — Levas o carregador? — E os documentos? — Tens medicamentos? — Não te esqueças de… Uma mãe, perante uma filha que vai viajar, transforma-se numa espécie de central logística com ansiedade incorporada. Quer garantir que na mala cabem roupas para todas as estações, medicamentos para doenças ainda não inventadas e soluções para acontecimentos cuja probabilidade é estatisticamente irrelevante, mas emocionalmente gigantesca. A mala tinha um limite de peso. A minha preocupação, infelizmente, não. Depois, de repente, tudo acabou. A mala fechou. A porta fechou. O carro partiu. E passámos da azáfama para o silêncio. A...

A difícil arte de abrir as asas

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A minha filha vai partir durante um mês. Dito assim, parece pouco. Um mês cabe numa página do calendário, em quatro domingos, numa conta simples de trinta dias. Mas o tempo tem medidas diferentes quando é contado por uma mãe. Há meses que passam depressa e há meses que ocupam uma casa inteira. Vai para a Roménia fazer um estágio em neurocirurgia. Escrevo isto e sinto dentro de mim duas mulheres que não chegam a acordo. Uma delas está profundamente orgulhosa. Olha para a filha e vê uma jovem corajosa, determinada, a atravessar fronteiras para aprender aquilo de que gosta. Imagina-a a entrar num hospital desconhecido, a ouvir outras línguas, a conhecer novas formas de trabalhar, novas cidades, outras culturas e pessoas que, até agora, ainda não existem na sua história. Essa mulher quer empurrá-la suavemente para o mundo e dizer-lhe: — Vai. Aprende tudo. Vê tudo. Vive tudo. A outra mulher preferia esconder-lhe o passaporte. É esta a contradição de ser mãe: passamos anos ...

Nunca tarde demais

“Feliz aquele que administra sabiamente a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias.” Talvez só possa ser verdadeiramente feliz quem já conheceu a tristeza. Não porque a dor seja uma condição obrigatória para a felicidade, nem porque o sofrimento nos torne automaticamente melhores, mas porque quem caiu fundo no abismo aprende a reconhecer a escuridão nos olhos dos outros. Há dores que nos alargam por dentro. Depois delas, já não conseguimos olhar para alguém que sofre com a mesma distância. Passamos a saber que há silêncios que não significam indiferença, ausências que escondem batalhas e sorrisos que são apenas uma forma delicada de não desabar diante dos outros. Ninguém possui verdadeira empatia por aquilo que desconhece completamente. Podemos imaginar, tentar compreender, oferecer palavras, mas há territórios que só se conhecem depois de percorridos. Sabemos sempre muito acerca das nossas próprias verdades, mas falta-nos quase sempre experimentar o mundo com os sapatos do ...

O granito não esquece a montanha

Hoje é Dia dos Avós. E eu lembro-me dos meus. Lembro-me da minha avó Gracinda e do meu avô Miguel como quem abre a porta de uma casa antiga onde o lume continua aceso. Uma casa onde o tempo não conseguiu apagar as vozes, os cheiros, as histórias e aquela sensação rara de estarmos exatamente no lugar a que pertencemos. A minha avó Gracinda era uma verdadeira mulher da Serra da Estrela. Nascera numa aldeia serrana, onde os invernos endurecem as pedras e ensinam as pessoas a resistir. Era uma mulher feita de força, mas de uma força que não precisava de fazer barulho. A força da teimosia, da persistência e dos dias difíceis atravessados sem desistir. Caminhou descalça sobre a neve, levando uma filha ao colo, porque era preciso trabalhar, ajudar o meu avô e continuar. Naquele tempo, desistir não era sequer uma possibilidade. Do pouco fizeram muito. Trabalharam de manhã à noite, aos sábados, aos domingos e nos dias santos, porque a pobreza raramente respeita calendários e a t...