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Dia 6 - A última página da viagem

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Acordamos no Cerca Design House com a sensação confortável de não termos de entrar imediatamente no carro. Depois de vários dias a mudar de quarto, abrir malas, fechar malas, consultar mapas e atravessar cidades, o corpo parece receber com gratidão a notícia de que a manhã não tem muralhas para subir nem quilómetros urgentes para cumprir. Há dias de viagem que começam com uma estrada. Este começa com uma piscina. O Cerca Design House tem aquela tranquilidade dos lugares que parecem falar mais baixo para não perturbar o descanso. A antiga casa de pedra, o branco das paredes, o jardim e a Serra da Gardunha ao fundo criam uma espécie de intervalo entre a viagem que fizemos e o regresso que ainda não começou. Tomamos o pequeno-almoço sem pressa. Ao longo do ano, o pequeno-almoço é muitas vezes uma operação técnica destinada a impedir que saiamos de casa em jejum. Nas férias recupera a dignidade de refeição: sentamo-nos, conversamos, repetimos o café e aceitamos que não existe qua...

Dia 5 - o mundo visto de cima

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Acordamos em Torre de Moncorvo com o cansaço do dia anterior ainda pousado no corpo e com as gravuras de Penascosa muito vivas na memória. Há experiências que terminam quando regressamos ao hotel e outras que continuam a acontecer dentro de nós enquanto dormimos. A noite no Vale do Côa pertence às segundas. Ao quinto dia, já desenvolvemos uma relação pouco exigente com as malas. Ninguém espera encontrar nelas ordem, lógica ou duas meias que formem um par. Abrimo-las, procuramos o necessário e fechamo-las antes que alguma peça de roupa tente fugir. A certa altura, viajar deixa de ser transportar cuidadosamente os nossos pertences e passa a ser garantir que não abandonamos nada essencial pelo caminho, incluindo os membros da família :) . Tomamos o pequeno-almoço, carregamos novamente o carro e saímos para conhecer Torre de Moncorvo antes de seguirmos viagem. A vila acorda devagar, com as ruas ainda tranquilas e a luz da manhã a revelar a pedra dos edifícios. A Igreja Matriz impõe-s...

Dia 4 - As coisas que deixamos gravadas

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Acordamos em Bragança com mais um dia inteiro diante de nós e a sensação de que as férias já adquiriram uma vida própria. Ao quarto dia, as malas deixam de ser verdadeiramente desfeitas. Abrem-se apenas o suficiente para encontrarmos aquilo de que precisamos e voltam a fechar-se com a desarrumação resignada de quem sabe que, dentro de poucas horas, estará novamente noutro lugar. Talvez viajar seja também aprender a viver com menos ordem. Em casa, cada coisa tem o seu lugar. Na estrada, o lugar das coisas muda todos os dias: os casacos instalam-se no banco de trás, as garrafas de água aos nossos pés, os mapas misturam-se com recibos e as lembranças começam a ocupar o espaço anteriormente reservado à roupa. Ao quarto dia, o carro já não é apenas um meio de transporte. É uma pequena casa desarrumada com rodas. Partimos em direção a Podence. O pai e o filho voltam a repartir a condução, mas a troca já se faz com naturalidade, quase sem palavras. Um estaciona, o outro assume o volante...

Dia 3 - As estradas pequenas não aceitam pressa

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Acordamos em Puebla de Sanabria com a sensação de que a viagem e nós começamos finalmente a encontrar o nosso próprio ritmo. Já não existe a inquietação dos primeiros quilómetros nem aquela necessidade de confirmar o mapa a cada cinco minutos, como se as estradas pudessem mudar de lugar durante a noite. Aos poucos, deixamos de ser pessoas empenhadas em chegar a algum sítio e passamos a ser apenas pessoas a caminho. Talvez as férias comecem verdadeiramente nesse momento: quando deixamos de perguntar quanto falta e começamos a reparar no que existe à nossa volta. Arrumamos novamente as malas, fechamos a porta do quarto e regressamos ao carro. A roupa, que no primeiro dia cabia perfeitamente, começa já a desenvolver uma existência própria e a ocupar mais espaço. As malas de viagem obedecem a uma lei da física ainda pouco estudada: quanto mais avançam as férias, menor é a probabilidade de fecharem do mesmo modo. O pai e o filho voltam a dividir a condução. Há entre os dois uma esp...

Dia 2 - Enquanto eles contam quilómetros, eu conto histórias

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Acordamos em Salamanca com a sensação estranha de estarmos longe de casa há muito tempo, embora a viagem tenha apenas começado. As primeiras manhãs de férias têm qualquer coisa de inauguração. Abrimos os olhos e, durante alguns segundos, precisamos de recordar onde estamos. O teto não é o nosso, a luz entra de maneira diferente e os sons da rua ainda não pertencem à nossa memória. Há sempre aquele breve instante em que o cérebro consulta os seus ficheiros, encontra a reserva do hotel e finalmente nos informa de que está tudo bem. Lá fora, Salamanca já acordou. A pedra dourada recebe a luz da manhã como se os edifícios tivessem passado a noite inteira à espera do sol. Há cidades que despertam devagar. Salamanca levanta-se já iluminada, como certas pessoas que acordam bem-dispostas e falam antes do café — uma característica que respeito, embora não compreenda inteiramente. Arrumamos as malas e regressamos à estrada. Dizer que arrumamos as malas é, naturalmente, uma forma otimista...

Dia1

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Saímos de Fátima de manhã cedo, levando na bagageira roupa suficiente para alguns dias, água, mapas, medicamentos para todas as doenças conhecidas e algumas ainda por descobrir, pequenas expectativas e aquele cansaço acumulado que não cabe em nenhuma mala. Somos três no carro: o nosso filho e nós. Mas, na verdade, fomos sempre quatro. A nossa filha mais nova não vem connosco. Está na Roménia, a fazer o seu estágio em neurocirurgia, a viver uma aventura que é só dela, longe de casa e dos nossos olhos atentos. Ainda assim, ocupou um lugar invisível entre nós. Há ausências que não deixam lugares vazios; instalam-se em todos os lugares ao mesmo tempo. O pai e o filho vão alternando na condução. Existe entre eles a cumplicidade própria de quem partilha a estrada, o volante e aquela linguagem discreta que tantas vezes se estabelece entre pais e filhos. Comentam o caminho, as ultrapassagens, os carros e a direção a seguir. Um conduz, o outro observa, aconselha ou brinca, e eu vou ve...

Até já

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Chegou o dia da partida. O meu pequeno mirtilo vai hoje de viagem. Durante os últimos dias, a casa viveu naquele estado de emergência que antecede todas as partidas: malas abertas, roupa para lavar, roupa para passar, listas incompletas, compras de última hora e perguntas repetidas muitas vezes, como se a insistência pudesse impedir o esquecimento: — Levas o carregador? — E os documentos? — Tens medicamentos? — Não te esqueças de… Uma mãe, perante uma filha que vai viajar, transforma-se numa espécie de central logística com ansiedade incorporada. Quer garantir que na mala cabem roupas para todas as estações, medicamentos para doenças ainda não inventadas e soluções para acontecimentos cuja probabilidade é estatisticamente irrelevante, mas emocionalmente gigantesca. A mala tinha um limite de peso. A minha preocupação, infelizmente, não. Depois, de repente, tudo acabou. A mala fechou. A porta fechou. O carro partiu. E passámos da azáfama para o silêncio. A...