Encolher para caber
Em criança diziam que eu falava muito. Diziam que nunca me calava, que tinha bichos carpinteiros e que era irrequieta. Durante muito tempo imaginei os bichos carpinteiros como pequenos animais a correrem dentro de mim. Uns viviam nas pernas, outros nas mãos e os mais indisciplinados instalavam-se na cabeça. Talvez fossem apenas pensamentos com pernas, incapazes de ficar sentados. Eu fazia perguntas. Inventava histórias. Falava com as bonecas, com as pessoas e, provavelmente, com o próprio ar quando mais ninguém estava disponível. Não era apenas uma criança faladora. Era uma criança cheia e intensa: Cheia de palavras, de ideias, de medos, de mundos e de uma energia que ainda não tinha aprendido a pedir licença, e intensa no que sentia e no modo como amava. Mas, como todas as crianças, eu queria ser a menina boa de quem todos gostavam e as meninas boazinhas não incomodavam, não falavam demasiado e não faziam muitas perguntas. Sentavam-se direitas, esperavam pela sua vez e sabi...