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Vivemos numa época de contradições

Vivemos numa época de contradições. Dizemos que queremos jovens livres, autónomos, curiosos, capazes de pensar pela própria cabeça. Queremos que não vivam demasiado dependentes das tecnologias, mas, muitas vezes, não lhes damos em casa exemplos de leitura. Há ecrãs ligados, telemóveis sempre à mão, notificações a interromper conversas, mas poucos momentos em que uma criança veja um adulto sentado, tranquilamente, a ler. Depois estranhamos que não leiam. Estranhamos que não tenham paciência para livros, que fujam de textos longos, que prefiram vídeos curtos, respostas rápidas, estímulos imediatos. Mas quando fazem anos, ou chega o Natal, contam-se pelos dedos das mãos os que recebem um livro. Oferecemos tecnologia, roupa, dinheiro, acessórios, experiências, mas raramente oferecemos esse objeto simples e revolucionário que ensina uma das coisas mais difíceis: estar quieto por dentro. Também dizemos que os jovens vivem ocupados, cansados, ansiosos, sem tempo para si. E ...

Dia da Criança

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Hoje é Dia da Criança. Das crianças que criei e que hoje já são crescidas — embora, aos meus olhos, continuem a ter qualquer coisa de pequenos. Há uma parte de nós que nunca atualiza completamente a idade dos filhos. Crescem, estudam, trabalham, amam, escolhem caminhos, constroem vida. Mas dentro de uma mãe há sempre uma memória teimosa: a mão pequena dentro da nossa, o sono no colo, a primeira palavra, o primeiro medo, a primeira febre, a primeira vez em que percebemos que amar alguém é viver com o coração fora do corpo. Hoje é também o dia das crianças que ajudei a criar. Algumas já são adultas. Algumas já têm filhos. E há nisto uma ternura imensa: ver aqueles que um dia precisaram de nós a tornarem-se colo para outros. A vida tem destas voltas bonitas. Um dia seguramos uma criança pela mão; anos depois, essa criança segura outra. E percebemos que educar nunca acaba no momento em que alguém cresce. Fica. Passa de uns para os outros como uma espécie de herança invisível. ...

Regressar à cidade onde a neve sabe o meu nome

Há fins de semana que ficam Há lugares que não são apenas lugares. São uma espécie de gaveta antiga dentro do peito, onde guardamos cheiros, vozes, ruas inclinadas, frio nas mãos e uma versão de nós que nunca deixou verdadeiramente de existir. Este fim de semana voltei à minha cidade-neve. À minha Beira Interior. À minha serra. A esse lugar onde o ar parece mais limpo, mais antigo, mais inteiro. Talvez porque ali o frio não é só temperatura; é memória. Entra-nos no corpo como quem diz: ainda te lembras de mim? E eu lembro. Lembro-me da comida que ali sabe como em nenhum outro lado. Há sabores que não se repetem fora da terra onde nasceram. Podemos usar os mesmos ingredientes, seguir as mesmas receitas, aquecer o mesmo pão. Mas falta sempre qualquer coisa. Talvez falte a altitude. Talvez falte a infância. Talvez falte a mão invisível da serra a temperar tudo com pertença. Voltar a casa é isto: sentarmo-nos à mesa e percebermos que há alimentos que não alimentam ap...

A competição como mau gosto

Há uma competição silenciosa a atravessar os nossos dias. Não é apenas a competição pelo lugar, pela nota, pelo cargo, pelo reconhecimento. É uma competição mais subtil e, talvez por isso, mais perigosa: quem sofre mais, quem trabalha mais, quem sabe mais, quem é melhor aluno, melhor professor, melhor amigo, melhor mãe, melhor pessoa. Até a dor, que devia aproximar-nos, parece às vezes transformada em medalha. Vivemos numa época estranha. Uma época em que tudo precisa de ser mostrado, narrado, provado, comparado. Como se a vida só tivesse valor quando exposta numa montra. Como se o bem que fazemos só existisse se for anunciado. Como se a competência precisasse de aplauso permanente para se manter de pé. Lipovetsky ajuda-nos a pensar este tempo: um tempo marcado pelo individualismo, pelo excesso, pela sedução da imagem e pela necessidade constante de afirmação. Já não basta ser. É preciso parecer. Já não basta fazer. É preciso mostrar que se fez. Já não basta saber. É p...

Sobre saber esperar

O dia em que plantamos a semente não é o dia em que o fruto nasce. E talvez seja essa uma das aprendizagens mais difíceis da vida: aceitar que há coisas que precisam de tempo, silêncio, paciência e cuidado antes de se mostrarem inteiras. Gostávamos que o esforço desse logo flor, que a dedicação trouxesse logo resposta, que o amor fosse imediatamente reconhecido, que o trabalho se transformasse depressa em recompensa. Mas a vida não obedece sempre à nossa pressa. Há sementes que passam muito tempo debaixo da terra sem nos dizerem nada. Não vemos movimento, não vemos resultado, não vemos prova. E, no entanto, alguma coisa está a acontecer no escuro. Há raízes a procurar lugar. Há força a nascer devagar. Há vida a preparar-se antes de aparecer. Esperar não é não fazer nada. Esperar é continuar a regar sem garantias. É cuidar mesmo sem aplauso. É acreditar mesmo sem ver. É levantar todos os dias e fazer a parte que nos cabe, sabendo que o fruto não depende apenas da ...

Prefiro vistas largas

Muito se fala hoje em foco. Temos de manter o foco. Não perder o foco. Estar focados nos objetivos. Foco no estudo, foco no trabalho, foco na vida, foco no futuro, foco no foco — como se a existência fosse uma lanterna apontada sempre para o mesmo sítio. Confesso: a palavra irrita-me um bocadinho. Não por aquilo que pretende dizer, mas pelo que muitas vezes acaba por sugerir. Quando me dizem para manter o foco, imagino logo um olhar afunilado, preso a um ponto, quase incapaz de ver o que acontece à volta. Um olhar que se estreita tanto para chegar a uma meta que corre o risco de perder a paisagem inteira. E eu gosto de paisagens. Gosto de olhar largo. De ver longe e para os lados. De perceber que a vida não acontece apenas na meta, mas também nas margens, nos desvios, nas pessoas que encontramos, nos sinais pequenos que só se veem quando não estamos obcecados com uma única direção. O foco pode ser útil, claro. É preciso foco para resolver um exercício difí...

Há muitas maneiras de aprender

Há dias longos que acabam com uma espécie de cansaço bom. Daqueles em que o corpo pede silêncio, mas o coração fica acordado, ainda a saborear uma mensagem, uma conquista, uma meta alcançada. Há mensagens que chegam ao fim do dia e nos lembram por que fazemos isto. Por que insistimos. Por que explicamos outra vez. Por que procuramos mais uma forma, mais um exemplo, mais um caminho para chegar à cabeça — e ao coração — de cada aluno. Ver um aluno chegar longe é uma alegria muito difícil de explicar. Não é apenas a nota. Não é apenas o teste. Não é apenas o exame vencido. É perceber que, algures no caminho, aquele aluno começou a acreditar um pouco mais em si. Começou a pensar melhor. A organizar-se melhor. A olhar para a Matemática não como um muro, mas como uma linguagem que, com esforço e método, também pode ser compreendida. Ensinar Matemática nunca foi, para mim, debitar conteúdos. Paulo Freire criticava essa ideia de educação como depósito, como se o professor...