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Dois pais

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Hoje é Dia do Pai. E hoje penso muito em dois. No pai que os meus filhos tiveram a sorte de encontrar — e no pai que eu tive a sorte de ter. O pai que dei aos meus filhos é tudo aquilo que eu sempre desejei que fosse. Companheiro. Divertido. Brincalhão. Parceiro de aventuras. Um pai presente desde o primeiro instante. Daqueles que não ficam apenas à margem da infância, mas entram nela com os dois pés. Que se sentam no chão para brincar, que escutam com atenção, que sabem quando é preciso rir e quando é preciso explicar o mundo com calma. Foi ele quem esteve ao lado deles nos trabalhos de História e de Geografia. Quem passou horas a explicar conceitos de Física e de Geometria Descritiva, não apenas para resolver exercícios, mas para despertar curiosidade. Porque há pais que ensinam respostas. E há pais que ensinam a pensar. Também houve longas conversas. Partilhas. E aquelas chamadas de atenção que todos os filhos precisam de ouvir — mas dadas sempre com uma paciên...

Ajudar a crescer

​ Quando tudo é amor, ensinar deixa de ser um gesto técnico e passa a ser um compromisso profundamente humano. Não se trata apenas de transmitir conteúdos, de organizar ideias ou de exigir resultados. Trata-se de estar — verdadeiramente — diante de quem cresce. E crescer, sobretudo na adolescência, raramente é um processo sereno. Os adolescentes chegam-nos como territórios em construção. Trazem no olhar uma espécie de urgência inquieta: querem ser únicos num mundo que lhes pede semelhança, querem pertencer sem abdicar de si, querem respostas rápidas para perguntas que ainda nem sabem formular. Há neles uma tensão constante entre o desejo de afirmar uma identidade e o medo silencioso de não serem aceites. E é nesse intervalo — tão frágil quanto poderoso — que a educação acontece. Ensinar, nestes dias, é muitas vezes chamar a razão a quem está mergulhado no excesso das emoções. Mas fazê-lo sem escutar esse excesso é falhar o essencial. Porque a adolescência não é um problema a resolver; ...

A escola não é uma corrida

Às vezes a escola pode parecer uma montanha. Uma daquelas montanhas grandes, íngremes, com muitos caminhos e alguns obstáculos pelo meio. Há momentos em que a subida parece tranquila. Outros em que o caminho se torna mais difícil e sentimos que estamos a ficar para trás. É nessa altura que aparecem três companheiros pouco simpáticos: a pressão, o medo de falhar e a comparação com os outros. Vocês começam a olhar à volta e parece que toda a gente está a subir mais depressa. Alguém tem melhores notas. Alguém percebe a matéria mais rápido. Alguém parece sempre mais confiante. E então surge aquela pergunta silenciosa que pesa mais do que devia: “E se eu não conseguir?” Mas há uma coisa importante que muitas vezes se esquecem. Subir uma montanha não é uma corrida. Cada pessoa tem o seu ritmo. Cada pessoa precisa de pausas diferentes. Cada pessoa encontra desafios em partes diferentes do caminho. Há quem tropece no início e depois avance com confiança. Há quem comec...

Quando os filhos crescem...

Há uma coisa curiosa que ninguém nos diz a nós mães quando os filhos nascem. Dizem-nos muitas coisas, é verdade. Falam das noites mal dormidas, das fraldas, das birras, das primeiras palavras, dos primeiros passos. Avisam-nos que vai ser cansativo, que vai ser intenso, que a vida nunca mais será a mesma. Tudo isso é verdade. Mas esquecem-se de dizer uma coisa essencial: eles crescem. E crescem depressa. No início parecem sempre pequenos demais para o mundo. Cabem nos nossos braços, dormem encostados ao nosso peito e olham para nós como se fôssemos o lugar mais seguro do universo. Depois, sem aviso prévio, começam a andar. E quando começam a andar, começam também a afastar-se um pouco. Primeiro são dois passos inseguros pela sala. Depois são corridas no parque. Depois são portas que se fecham para estudar, amigos que aparecem, mundos próprios que começam a nascer. E nós vamos percebendo, devagarinho, que educar um filho é também aprender a deixá-lo partir. Há pequena...

O Verdadeiro Problema não é a Matemática. É a Forma Como se Ensina

Há uma diferença enorme entre gostar de matemática e ser matemático . Às vezes penso que essa diferença cabe inteira dentro de uma sala de aula. Gostar de matemática pode ser apenas reconhecer que ela existe, que resolve problemas, que aparece nos exames, nos manuais, nas contas do dia-a-dia. Ser matemático é outra coisa. É olhar para o mundo e ver padrões escondidos nas coisas mais banais: na repetição das ondas do mar, no ritmo das ruas, na sequência silenciosa dos dias que passam . É perceber que a matemática não é apenas cálculo — é uma forma de pensar o mundo . E talvez por isso ensinar matemática seja uma tarefa delicada. Não basta explicar fórmulas, resolver exercícios no quadro e mandar copiar para o caderno. Debitar matemática não é ensinar matemática. É apenas despejar símbolos num espaço onde deveria nascer curiosidade. Ensinar matemática exige algo mais raro: paixão . Paixão para olhar para uma equação como quem olha para um poema. Paixão para acreditar que um pr...

Sobre quem somos

Há uma coisa que a vida me tem ensinado, devagar e às vezes à força: não controlamos aquilo que os outros pensam de nós. Podemos tentar explicar, justificar, mostrar quem somos. Podemos agir com honestidade, dar o nosso melhor, fazer tudo com consciência tranquila. Ainda assim, haverá sempre alguém que interpreta de outra forma, que julga sem saber, que constrói uma história diferente daquela que realmente existe. Durante muito tempo isso incomodou-me. Custava-me perceber que as pessoas podem falar sem conhecer, formar opiniões sem ouvir, ou tirar conclusões rápidas sobre coisas que nunca se deram ao trabalho de compreender. Mas com o tempo fui percebendo uma coisa simples e libertadora: eu não controlo o que os outros pensam ou dizem. E talvez nem deva tentar. O que posso controlar é outra coisa. Posso controlar a forma como reajo. Posso escolher a serenidade em vez da revolta, o silêncio em vez da discussão inútil, a dignidade em vez de me deixar arrastar por atitudes q...

Há dias difíceis

Há dias difíceis. Hoje foi um deles. Há dias em que acordamos com a sensação tranquila de que tudo seguirá o seu caminho habitual — e, no entanto, ao longo das horas, o dia começa a pesar. Como se o ar se tornasse mais denso. Como se o vento mudasse de direção sem aviso. Hoje foi um dia assim. Um dia de injustiças que custam a aceitar. Daquelas que nos deixam um nó na garganta e uma pergunta silenciosa a ecoar dentro de nós: porquê? Às vezes as pessoas podem ser muito duras. Muito pouco cuidadosas. Há quem fale sem pensar, quem julgue sem conhecer, quem comprometa o trabalho dos outros sem medir as consequências. E há dias em que essas pequenas ou grandes faltas de ética nos atingem com uma força inesperada. Foi um desses dias. Um dia angustiante. Senti-me triste, cansada, profundamente em baixo. Porque quando damos sempre o nosso melhor — quando colocamos verdade, esforço e dedicação naquilo que fazemos — custa muito ver esse compromisso posto em causa. Custa perceb...