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A verdade da mentira

Ser verdadeira é ter coragem. Coragem de dizer — sem filtros nem disfarces — que não, nem todos os dias brilham do mesmo modo. Que não, nem sempre estou a mil, cheia de energia, entusiasmo e certezas. E, ainda assim… está tudo bem. Há uma honestidade tranquila em assumir isso. Uma espécie de libertação silenciosa que acontece quando deixamos de fingir que somos sempre fortes, sempre produtivos, sempre certos. Ser de verdade é isto: não ter medo de abraçar o caos. O caos dos dias imperfeitos, das dúvidas que chegam sem aviso, dos medos que se instalam sem pedir licença. É aceitar a vida como ela é — inteira, crua, às vezes contraditória. Com problemas, dissabores, incongruências e aquelas pequenas rasteiras que nos fazem tropeçar quando achávamos que já sabíamos o caminho. Viver não é estar sempre bem. É continuar mesmo quando não estamos. É sentir ansiedade por coisas pequenas — e não fingir que não sentimos. É reconhecer o aperto no peito, a inquietação, a vontade de par...

Há sempre um “depois”

Há sempre um “depois”. Dizemos isso com uma leveza quase inocente, como quem guarda o tempo numa gaveta segura, convencido de que ele não se move sem a nossa autorização. Depois faço. Depois digo. Depois volto. Depois explico. Depois vivo. O “depois” é uma promessa confortável — mas também uma ilusão subtil. Porque o tempo não espera. Nunca esperou. Há um momento — que não sabemos nomear — em que o depois deixa de ser futuro e passa a ser ausência. Um lugar onde já não chegamos, mesmo que quiséssemos muito. E, talvez por isso, o depois seja sempre uma espécie de território incerto, onde depositamos aquilo que não conseguimos — ou não temos coragem — de viver agora. Há coisas que ficam sempre para depois. Palavras que não dissemos. Gestos que adiámos. Vidas que deixámos por começar. E há um silêncio que cresce à volta dessas escolhas, como se o tempo fosse acumulando tudo aquilo que não fomos. Pergunto-me, às vezes, se uma vida chega. Se chega para tudo o que sentimos. P...

Parabéns Amor grande

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Hoje foi um dia especial. Não daqueles que fazem muito barulho, mas dos que ficam. Dos que se guardam com cuidado, como quem fecha uma caixa de memórias e sabe que, mais tarde, vai querer voltar lá. Hoje recebeste o diploma de mais um percurso. E há qualquer coisa de profundamente bonito em ver alguém conquistar terreno com calma, com esforço, com verdade. Não foi de um dia para o outro. Nunca é. Foi feito de noites longas, de cansaço acumulado, de dias em que era mais fácil desistir — mas não desististe. Há quem diga que os diplomas são apenas papéis. Talvez sejam. Mas este traz consigo tudo o que não se vê: as dúvidas, a persistência, os silêncios, a força de continuar mesmo quando o tempo não chegava para tudo. E, ainda assim, chegaste. E o mais bonito é que não ficas por aqui. Hoje não foi só um fim. Foi também um começo. Terminas uma etapa e, quase sem pausa, abres outra porta. Inicias um novo caminho — um daqueles que eu já conheço de perto. Sei o que custa. Sei o pes...

Há sempre alguém a dizer “aproveita para descansar”.

Há sempre alguém a dizer “aproveita para descansar”. Dizem-no com doçura, com boa intenção, com uma leveza quase terapêutica, como se descansar fosse uma atividade simples, acessível e imediatamente disponível, à semelhança de beber um copo de água ou abrir uma janela. “Agora nas férias, aproveita para descansar.” “Durante a pausa, vê se desligas.” “No fim de semana, não faças nada.” Não faças nada. Esta frase, para certas pessoas, soa a conselho. Para outras, soa a ficção científica. Eu gosto muito da ideia de descansar. Acho-a nobre. Civilizada. Quase poética. Gosto da imagem mental de mim própria serena, desacelerada, com tempo, sol, silêncio e talvez um chá bonito numa chávena igualmente bonita. O problema é que, entre essa imagem e a realidade, costuma haver roupa para tratar, coisas para organizar, mensagens para responder, aulas para preparar, listas para rever, ideias que aparecem fora de horas e uma certa dificuldade estrutural em convencer o cérebro...

Há dias ....

Há dias em que o mundo parece escrito a lápis. Sem cor definida, sem contornos firmes. Como se alguém tivesse passado uma borracha suave por cima de tudo — das vontades, dos planos, até das pequenas alegrias que costumam fazer barulho dentro de nós. Há dias em que acordo e não há nada de errado. E isso, curiosamente, também não ajuda. Está tudo no lugar. As pessoas continuam a ser quem são. O dia acontece como sempre acontece. Mas eu… eu não estou exatamente aqui. Ou estou, mas de forma mais leve, mais distante, como quem observa a própria vida através de um vidro ligeiramente embaciado. Há dias assim. Dias cinzentos, sem tempestade nem sol — apenas uma espécie de nevoeiro que se instala por dentro. Não acontece nada de errado, ninguém disse nada que magoe, nada correu particularmente mal… e, ainda assim, há qualquer coisa desalinhada. Um silêncio estranho. Uma falta de brilho difícil de explicar. São dias de sentimentos turvos, de energia baixa, de vontade pouca. Dias em q...

As nossas pequenas metamorfoses

Às vezes penso que passamos a vida inteira a transformar-nos. Não de forma brusca ou assustadora como na história de Kafka, em que um homem acorda de repente transformado numa criatura estranha e irreconhecível. Não, as nossas metamorfoses são mais discretas. Acontecem devagar e quase sempre sem ruído. Um dia acordamos e percebemos que algo mudou dentro de nós. Já não pensamos exatamente da mesma maneira. Já não reagimos com a mesma urgência e certas coisas que antes nos magoavam profundamente agora passam por nós como uma chuva leve. Não foi num instante, foi aos poucos, suavemente. Um desapontamento aqui, uma alegria ali, uma perda, um reencontro, uma conversa que ficou a ecoar dentro da cabeça durante dias. E sem darmos conta, vamos mudando. Há versões antigas de nós que ficaram pelo caminho. A pessoa que fomos aos vinte anos já não existe exatamente. Nem a pessoa que fomos aos trinta. Nem aquela que acreditava que tudo tinha de fazer sentido imediatamente. Hoje...

As pessoas da manhã, as pessoas da noite e os sobreviventes

A humanidade divide-se, de forma geral, em três grandes grupos: as pessoas da manhã, as pessoas da noite e os sobreviventes. As pessoas da manhã são aquelas criaturas luminosas, moralmente superiores que, antes das sete da manhã, já beberam água morna com limão, abriram as janelas, responderam a dois emails e talvez até tenham tido uma breve epifania enquanto arrumavam a máquina da loiça. Acordam cedo por inclinação natural, o que já levanta suspeitas. Às sete da manhã têm bom aspeto, boa disposição e, por vezes, até gratidão. Há nelas uma serenidade irritante. Gostam de dizer coisas como “o dia rende tanto quando começamos cedo” com a mesma naturalidade com que outras pessoas dizem “passa-me o açúcar”. São capazes de responder a mensagens importantes antes das oito, apanhar sol na varanda e ainda sentir que estão atrasadas para chegar a algum lado. Depois há as pessoas da noite. Essas eu respeito profundamente. Têm um lado dramático, produtivo e quase cinematográfico. Passa...