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A difícil arte de abrir as asas

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A minha filha vai partir durante um mês. Dito assim, parece pouco. Um mês cabe numa página do calendário, em quatro domingos, numa conta simples de trinta dias. Mas o tempo tem medidas diferentes quando é contado por uma mãe. Há meses que passam depressa e há meses que ocupam uma casa inteira. Vai para a Roménia fazer um estágio em neurocirurgia. Escrevo isto e sinto dentro de mim duas mulheres que não chegam a acordo. Uma delas está profundamente orgulhosa. Olha para a filha e vê uma jovem corajosa, determinada, a atravessar fronteiras para aprender aquilo de que gosta. Imagina-a a entrar num hospital desconhecido, a ouvir outras línguas, a conhecer novas formas de trabalhar, novas cidades, outras culturas e pessoas que, até agora, ainda não existem na sua história. Essa mulher quer empurrá-la suavemente para o mundo e dizer-lhe: — Vai. Aprende tudo. Vê tudo. Vive tudo. A outra mulher preferia esconder-lhe o passaporte. É esta a contradição de ser mãe: passamos anos ...

Nunca tarde demais

“Feliz aquele que administra sabiamente a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias.” Talvez só possa ser verdadeiramente feliz quem já conheceu a tristeza. Não porque a dor seja uma condição obrigatória para a felicidade, nem porque o sofrimento nos torne automaticamente melhores, mas porque quem caiu fundo no abismo aprende a reconhecer a escuridão nos olhos dos outros. Há dores que nos alargam por dentro. Depois delas, já não conseguimos olhar para alguém que sofre com a mesma distância. Passamos a saber que há silêncios que não significam indiferença, ausências que escondem batalhas e sorrisos que são apenas uma forma delicada de não desabar diante dos outros. Ninguém possui verdadeira empatia por aquilo que desconhece completamente. Podemos imaginar, tentar compreender, oferecer palavras, mas há territórios que só se conhecem depois de percorridos. Sabemos sempre muito acerca das nossas próprias verdades, mas falta-nos quase sempre experimentar o mundo com os sapatos do ...

O granito não esquece a montanha

Hoje é Dia dos Avós. E eu lembro-me dos meus. Lembro-me da minha avó Gracinda e do meu avô Miguel como quem abre a porta de uma casa antiga onde o lume continua aceso. Uma casa onde o tempo não conseguiu apagar as vozes, os cheiros, as histórias e aquela sensação rara de estarmos exatamente no lugar a que pertencemos. A minha avó Gracinda era uma verdadeira mulher da Serra da Estrela. Nascera numa aldeia serrana, onde os invernos endurecem as pedras e ensinam as pessoas a resistir. Era uma mulher feita de força, mas de uma força que não precisava de fazer barulho. A força da teimosia, da persistência e dos dias difíceis atravessados sem desistir. Caminhou descalça sobre a neve, levando uma filha ao colo, porque era preciso trabalhar, ajudar o meu avô e continuar. Naquele tempo, desistir não era sequer uma possibilidade. Do pouco fizeram muito. Trabalharam de manhã à noite, aos sábados, aos domingos e nos dias santos, porque a pobreza raramente respeita calendários e a t...

Sobre o que é mais precioso

Há dias em que a saúde deixa de ser um dado invisível e passa a ocupar o centro da mesa, como um assunto que ninguém queria trazer, mas que já não pode ser ignorado. Chega devagar, às vezes, noutras irrompe sem aviso, e muda a linguagem dos nossos dias. De repente, aprendemos palavras novas, medimos o tempo em exames, em esperas, em chamadas que tardam. À minha volta, há quem viva nesse intervalo suspenso, onde tudo ainda pode ser ou não ser. Outros já atravessaram essa porta e carregam agora um nome que redefine rotinas, medos e esperanças. E há também quem vá perdendo, aos poucos, aquilo que julgava permanente, como se o corpo fosse um livro onde algumas páginas começam a desaparecer. E, no entanto, no meio dessa fragilidade, há uma espécie de delicadeza que emerge. Aproximamo-nos mais. Tornamo-nos mais atentos ao que é pequeno: uma mensagem enviada sem hora certa, um silêncio partilhado, uma mão que se segura por mais tempo do que o habitual. Abraçamo-nos como podemos, presencialm...

A liberdade de andar

Quando me perguntam do que mais gostei no Caminho de Santiago, nunca sei responder como quem escolhe uma fotografia dentro de um álbum. Já o fiz três vezes e, ainda assim, a resposta continua a escapar-me das mãos, como água de rio. Talvez porque o Caminho não se deixe resumir. Talvez porque aquilo de que mais gostei não foi uma igreja, uma paisagem, uma cidade, uma chegada. Foi uma sensação. Uma espécie de liberdade antiga, quase primitiva, que talvez todos tenhamos dentro de nós e que só despertamos quando começamos a andar. Gostei da liberdade de andar e parar onde queria. De não ter de obedecer a relógios, agendas, campainhas, horários, compromissos, tarefas, notificações, vozes a chamar por mim. Gostei de poder chegar à hora que chegasse, parar onde me apetecesse, dormir onde houvesse cama, sombra, descanso ou simplesmente vontade. Gostei dessa possibilidade rara de caminhar sem destino, mesmo sabendo que Santiago estava lá, algures, como uma promessa. O destino existia, claro....

Travessia

Há pessoas que ficam para sempre à porta. Não porque sejam más pessoas. Nem porque eu seja, necessariamente, uma casa fechada. Mas porque há entradas que não se forçam, intimidades que não se decretam, afetos que não se conquistam com insistência. Há pessoas que chegam à nossa vida e permanecem no hall de entrada, nesse lugar intermédio onde se cumprimenta, se sorri, se conversa sobre o tempo, sobre os dias, sobre as pequenas banalidades necessárias. E está tudo bem. Nem todas as pessoas foram feitas para atravessar a casa inteira. Durante muito tempo achei que isto era dureza minha. Hoje penso que talvez seja apenas sabedoria aprendida com alguns tropeções. A vida ensina-nos que há quem não deva entrar. Há quem não saiba limpar os pés antes de pisar o chão dos outros. Há quem confunda acolhimento com posse, disponibilidade com obrigação, confiança com direito adquirido. E há também quem fique no hall porque não quer mais do que isso, porque só sabe estar à superfície, porque tra...
A delicada distância dos ouriços Há uma velha metáfora que diz que os ouriços, quando têm frio, se aproximam uns dos outros para se aquecerem. Mas, ao chegarem demasiado perto, ferem-se com os espinhos. Então afastam-se. Depois sentem frio outra vez. Voltam a aproximar-se. Voltam a magoar-se. Até descobrirem, com a sabedoria humilde dos animais pequenos, a distância certa: suficientemente perto para não morrerem de frio, suficientemente longe para não se ferirem. Penso muitas vezes nisto. Talvez porque passei grande parte da vida a tentar perceber a distância justa entre mim e os outros. Não a distância fria de quem não ama, nem a distância soberba de quem se julga autossuficiente. Antes aquela distância difícil, quase artesanal, que se vai aprendendo depois de muitos abraços bons, algumas ausências inesperadas, certas desilusões e uma ou outra ferida que ficou a arder mais tempo do que devia. Eu sou, provavelmente, uma espécie de ouriço sentimental. Tenho dentro de mim uma v...