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Não se nasce mulher, torna-se mulher

Há frases que chegam à nossa vida como quem deixa uma pedra dentro de um lago. No instante em que as lemos, quase nada parece acontecer. A água permanece lisa, intacta, como se nada tivesse tocado a sua superfície. Mas depois, lentamente, formam-se círculos. E esses círculos continuam a abrir-se dentro de nós durante anos. Há frases assim. Frases que vivem em silêncio. Que não fazem ruído, mas ficam. Trabalham devagar no interior da consciência, como uma semente que germina no escuro. Às vezes lemo-las cedo demais, numa idade em que ainda não temos as perguntas certas para compreender aquilo que elas realmente dizem. E, no entanto, alguma coisa nelas permanece connosco como uma espécie de claridade adiada. Uma dessas frases pertence a Simone de Beauvoir e escutei-a muito nova: “Não se nasce mulher, torna-se mulher.” Durante muito tempo li esta frase como quem contempla um enigma filosófico. Parecia-me uma provocação inteligente, uma dessas ideias que existem para inquietar o pe...

Hoje o sol apareceu

Hoje o sol apareceu. E bastou isso para que alguma coisa mudasse nas ruas. Havia pessoas de manga curta, como se o corpo também quisesse respirar depois de tantos dias escondido dentro de casacos. Havia sorrisos mais abertos, passos mais leves, gente a caminhar sem pressa. As esplanadas estavam cheias. Ouviam-se conversas, gargalhadas, o tilintar de copos. Havia uma espécie de boa disposição espalhada pelo ar, como se a cidade inteira tivesse decidido levantar a cabeça ao mesmo tempo. É curioso como um dia de sol consegue fazer isso. Quase poderíamos falar de uma proporção direta: quanto mais luz há no céu, mais leve parece ficar o coração das pessoas. Talvez seja exagero matemático, mas hoje parecia evidente. Depois de tantos dias de inverno — chuva insistente, vento, tempestades, céu cinzento — a luz voltou e, com ela, alguma coisa dentro de nós também se reorganizou. Porque os dias longos de inverno têm esse poder silencioso. Fecham-nos um pouco dentro de casa, mas...

O peso invisível das expectativas

Passamos grande parte da vida a construir expectativas. Colocamo-las sobre nós próprios como quem constrói uma escada invisível: degrau após degrau, acreditando que, se subirmos o suficiente, alcançaremos aquilo que imaginámos ser a nossa melhor versão. Mas não ficamos por aí. Também colocamos expectativas nos outros. Esperamos gestos. Esperamos palavras. Esperamos presença. Esperamos reciprocidade. Esperamos que os outros nos compreendam sem explicações longas. Que adivinhem as nossas necessidades. Que respondam ao amor e à amizade com a mesma intensidade com que o sentimos. E é curioso como raramente paramos para fazer uma pergunta simples: Que direito temos nós de esperar isso? Talvez nenhum. Porque cada pessoa vive dentro de uma geografia interior que nunca conheceremos completamente. Cada um carrega as suas histórias, as suas feridas, as suas limitações, as suas ausências. Há quem tenha dentro de si oceanos de generosidade. Há quem tenha apenas pequenas poças de ág...

Tenho o melhor colega do mundo

Há quem diga que trabalhar com quem se ama pode ser perigoso. Que a convivência excessiva desgasta. Que o mistério desaparece. Que o amor precisa de distância para respirar. Talvez seja verdade para algumas pessoas. Mas no nosso caso nunca foi assim. Há mais de vinte anos que trabalhamos lado a lado. Não exatamente na mesma sala — cada um tem o seu território, como duas pequenas ilhas ligadas por uma ponte invisível. Eu ensino Matemática. Ele vive entre a Física, a Química e a Geometria. As nossas salas ficam próximas. Às vezes, no meio de uma tarde cheia de equações, vetores ou reações químicas, um de nós aparece à porta da sala do outro. Não para nada importante. Apenas para perguntar, quase em voz baixa: — Está tudo bem? Às vezes é só isso. Outras vezes é uma piada rápida, um comentário engraçado sobre qualquer coisa, um sorriso cúmplice que dura alguns segundos. Depois cada um volta à sua sala, aos seus alunos, às suas explicações, às horas de trabalho que ...

Opiniões e julgamentos rápidos

Vivemos num tempo curioso. Nunca tivemos tanta informação ao alcance e, ainda assim, raramente tivemos tão pouca paciência para compreender. Hoje opina-se sobre tudo. Sobre pessoas, decisões, acontecimentos, vidas inteiras. Muitas vezes em poucos segundos, com a segurança tranquila de quem acredita que viu o suficiente para formar um juízo definitivo. A verdade é que quase nunca vemos o suficiente. Cada vida tem camadas invisíveis. Histórias que não conhecemos, batalhas que não imaginamos, contextos que escapam ao olhar rápido de quem observa de fora. Mas, apesar disso, julgamos. E julgamos depressa. Talvez porque julgar seja mais fácil do que compreender. Compreender exige tempo. Exige escuta. Exige aceitar que a realidade é quase sempre mais complexa do que aquilo que aparece à primeira vista. E o nosso tempo parece ter perdido a paciência para essa complexidade. Vivemos na era da opinião rápida. Basta uma frase solta, um gesto isolado, uma imagem fora de contexto, e imediat...

Mulher

No Dia Internacional da Mulher, lembramo-nos de algo que às vezes o dia-a-dia nos faz esquecer: ser mulher é uma história antiga que continua a ser escrita todos os dias. Ser mulher não começa hoje e não termina hoje. Começou muito antes de nós, nas mulheres que abriram caminhos quando quase não havia espaço para caminhar. Nas que falaram quando lhes pediam silêncio. Nas que cuidaram, criaram, ensinaram, trabalharam e sonharam mesmo quando o mundo parecia pequeno demais para os seus sonhos. Cada mulher é uma continuação dessa história. Ser mulher é muitas coisas ao mesmo tempo. É força e é delicadeza. É coragem e é dúvida. É a capacidade de sentir profundamente o mundo e, ainda assim, encontrar dentro de si uma forma de continuar a transformá-lo. Às vezes ser mulher é aprender a levantar a voz. Outras vezes é aprender a ouvir a própria voz por dentro. É descobrir que a sensibilidade não é fragilidade, mas uma forma rara de inteligência. É perceber que cuidar, criar, pensar, questi...

Sábado

O sábado começou cedo, ainda com a luz tímida da manhã a esticar-se pelas janelas. Às 9h já havia matemática no ar — números espalhados pela mesa, cadernos abertos, lápis inquietos. Mas havia também gargalhadas, dessas que nascem quando alguém finalmente percebe um problema ou quando uma resposta improvável faz todos parar para rir. Entre dúvidas e perguntas, entre afirmações corajosas e algumas certezas recém-descobertas, o tempo foi passando com aquela serenidade própria das manhãs dedicadas a aprender. Os grupos iam chegando e partindo, como pequenas marés: alunos de 10º, de 9º, de 11º… e também do 5º e 6º. Gente pequenina e gente grande, todos com o mesmo brilho nos olhos — esse desejo antigo e universal de compreender o mundo um pouco melhor. Porque aprender é também isto: construir devagarinho aquilo que ainda não sabemos que somos. A tarde caiu sem fazer barulho, como costumam cair as coisas boas. E com ela chegou o caminho para norte. Havia um encontro marcado com os meus fi...