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Londrina, às cinco da tarde

São cinco da tarde em Londrina e o céu fechou-se. Há pouco, o calor pousava nos ombros, entrava pela roupa, acompanhava cada passo. Agora troveja. As árvores agitam-se, o ar muda de cheiro e a chuva começa a cair. Fico a ouvi-la. Depois de um dia inteiro de vozes, de ruas, de descobertas, sabe-me bem este som que não me pede resposta. Estou no norte do Paraná, numa cidade que traz Londres no nome e a história do café entranhada na sua terra vermelha. Chamam-lhe a pequena Londres. Acho curioso ter atravessado o Atlântico para encontrar um nome que olha para a Europa, enquanto tudo à minha volta me convida a conhecer este lado do mundo: a luz, a vegetação, a maneira como o calor se demora na pele. Londrina tem um verde que participa na vida da cidade. Cresce entre os edifícios, acompanha as ruas, debruça-se sobre o movimento. Por vezes, levanto os olhos e as copas ocupam quase tudo. Debaixo delas, o passo abranda. Apetece ficar mais um bocadinho à sombra, olhar a forma de uma f...

Novembro, do lado da primavera

Há três dias que novembro me chega com outro cheiro. Aqui, no Paraná, tem calor, humidade, terra molhada e pão de queijo. Deixei o outono em Portugal e vim encontrar a primavera deste lado do Atlântico. O calendário continua a dizer novembro, mas o corpo desconfia. Há qualquer coisa de deliciosamente estranho em descobrir que um mês também pode ter outra temperatura, outra luz, outra maneira de nos tocar a pele. Hoje apresentei a minha conferência, em Cambará. Correu muito bem. Escrevo isto com a cautela de quem costuma ser a mais exigente das suas próprias avaliadoras. A minha crítica interior também atravessou o Atlântico; aparentemente, não havia forma de a deixar em casa. Ainda assim, hoje dou-me licença para estar contente. Houve muito trabalho até aqui, muitas leituras, muitas dúvidas, muitas frases pensadas e repensadas. Sabe bem sentir que conseguimos dar forma ao que nos move. E, no entanto, o melhor de cada conferência começa muito antes de terminarmos de falar e co...

Ainda não parti e já levo saudades

As horas passam. Estou no lounge de um hotel no Porto, com um mojito à minha frente e menos de vinte e quatro horas entre mim e a viagem. O gelo vai cedendo devagar. Penso que amanhã estarei a muitos quilómetros daqui e a distância, que até agora era uma coisa abstrata, começa a fazer-se sentir no corpo. Ainda não atravessei o oceano e já tenho saudades. É curioso como, na véspera de uma partida, a vida habitual ganha uma nitidez inesperada. Apetecem-nos as vozes de todos os dias, as conversas que interrompemos porque haveria tempo para as continuar, a presença dos nossos filhos, mesmo quando estão apenas noutra divisão da casa, ocupados com a sua própria vida. Basta sabê-los ali. Agora, sentada neste hotel, penso nessa felicidade discreta de estarmos perto sem precisarmos de fazer nada de especial. Ser mãe é o maior feito da minha vida. E digo-o com a consciência de que os meus filhos são pessoas a descobrir os seus próprios caminhos, a fazer escolhas, a tornar-se quem de...

É primavera do outro lado

Faltam dois dias para ir para o Brasil e ainda não fiz a mala. Tenho roupa por escolher, coisas por organizar e uma extraordinária capacidade de passar de uma divisão para outra sem me lembrar do que lá fui buscar. Os planos continuam por fazer. A ansiedade, em contrapartida, já tratou de tudo: chegou ao aeroporto, procurou a porta de embarque, contou as horas de voo e imaginou pequenas dificuldades para as quais ainda nem sequer existem palavras. Olho para mim e quase me rio. A mulher que vai atravessar o Atlântico para falar numa conferência anda pela casa à procura de uma tranquilidade que deve ter pousado em qualquer lado. Por fora, pareço-me bastante com uma pessoa capaz. E sou. Tenho aprendido, ao longo dos anos, a resolver problemas, a tomar decisões, a entrar em salas desconhecidas, a encontrar palavras quando alguém espera que eu diga alguma coisa. Essa parte de mim existe e merece a minha confiança. Mas há outra que, nestes dias, me puxa discretamente pela m...

Gostaria sempre de ti ...

Preocupo-me cada vez menos em parecer. Parecer mais segura, mais conveniente, mais próxima daquilo que os outros esperam de mim. Há um cansaço particular em vigiar cada palavra, em esconder o entusiasmo, em disfarçar uma tristeza só para sermos mais fáceis de aceitar. E eu gosto demasiado da liberdade de ser quem sou. Gosto de poder dizer que não sei. De me comover com uma coisa pequena, de fazer perguntas, de mudar de opinião quando descubro alguma coisa que me obriga a pensar melhor. Gosto de rir sem calcular a elegância do riso. De conversar sem estar a preparar uma personagem que possa agradar a quem me ouve. Talvez a profundidade comece aí, nessa disponibilidade para estar inteiro diante de alguém. Pode existir numa conversa simples, numa brincadeira, numa pergunta cuja resposta se quer verdadeiramente ouvir. Há pessoas que entram na nossa vida e acrescentam espaço. Ao lado delas, conseguimos pensar com mais liberdade, dizer o que nos custa, experimentar uma versão...

Até sermos velhotas

Eu já nos tinha imaginado velhotas. A repetir histórias, a corrigir a memória uma da outra, a rir antes de chegar à parte que tinha graça. Haveríamos de ter opiniões sobre tudo e tempo para as discutir. Quando lhe disse que a queria comigo por muitos e bons anos, era nesse futuro que eu estava. Tinha-lhe guardado um lugar. Ela respondeu que não. Viver muitos anos não fazia parte dos seus planos. Era grata pela vida, pelos amigos, pelos dons que Deus lhe ia concedendo. Mas a sua fé permitia-lhe imaginar, para lá do que conhecemos, uma existência luminosa. Quando a vida chegasse ao fim, aceitaria partir. Não sentia a minha vontade de prolongar a demora. Compreendi o que me disse. E fiquei angustiada. Há coisas que conseguimos compreender sem que o coração encontre maneira de se acomodar a elas. Enquanto ela falava da sua paz perante o fim, eu pensava na falta que me faria. Talvez estivéssemos a ter duas conversas dentro da mesma conversa: ela a falar da relação com a ...

Paradoxalmente

"És um paradoxo" disse-me ontem uma amiga. Fiquei a pensar naquilo. Talvez ela tenha razão. Gosto de resolver exercícios de matemática e de me demorar numa página de filosofia que me deixa mais perguntas do que aquelas com que comecei. Gosto da precisão de um cálculo e da liberdade de uma frase. Há dias em que preciso de compreender o funcionamento das coisas; noutros, basta-me ficar a olhar para elas. Um pôr do sol, por exemplo. Conhecer a explicação do porquê daquelas cores nunca me diminuiu o espanto. A verdade é que sou uma mulher com várias camadas. Algumas reconheço desde pequena, outras foram-se formando com os anos, com as pessoas, com aquilo que escolhi e com aquilo que a vida decidiu sem me consultar. Tenho convicções que amadureceram e certezas de que hoje me rio. Tenho uma coragem que, por vezes, chega depois do medo, e uma fragilidade que continua aqui, mesmo nos dias em que todos me acham forte. Essa força foi-se reunindo devagar, e veio de resol...