É tempo de guardar
O outono chegou. A chuva ameaçou, demorou-se na promessa, mas caiu. O outono chegou. Sente-se na luz de cada dia, nesse ouro mais inclinado que entra pelas horas dentro; na tarde que escurece cedo; na brisa fria que, de manhã e ao fim do dia, nos procura a pele. Hoje assei castanhas e maçãs com canela. E o cheiro delas trouxe consigo qualquer coisa muito antiga, como se a casa se tivesse lembrado de uma história que ninguém chegou a contar-lhe. Há gestos que parecem vir de longe. Reconhecemo-los nas mãos antes de encontrarmos palavras para eles. A terra começa a recolher-se. Abranda, guarda, prepara o escuro. Debaixo do que vemos, prossegue uma vida discreta: raízes, sementes, o trabalho miúdo de tudo o que precisa de silêncio para continuar. À superfície, oferece-nos os últimos excessos de cor. As romãs guardam uma multidão vermelha dentro de um só fruto. Os dióspiros parecem ter recolhido a luz das tardes para a deixar amadurecer devagar. Os cogumelos surgem com...