vejo-te ...
Há um provérbio africano que diz: “Eu vejo-te.” E o outro responde: “Estou aqui.” O amor começa talvez assim — não com promessas, não com juras eternas, mas com esse reconhecimento simples e quase sagrado: eu vejo-te. Vejo a tua luz e as tuas sombras, as tuas falhas e as tuas tentativas, o que mostras e o que escondes. Vejo-te inteiro, e não desvio o olhar. Num mundo que tantas vezes nos atravessa sem nos notar, ser visto é uma forma de salvação discreta. O absurdo da existência, essa sensação de caminhar num território vasto e indiferente, torna-se menos pesado quando alguém nos olha como se fôssemos necessários. O amor talvez seja isso: um gesto de atenção radical.Uma dádiva de alguém que nos olha e vê por inteiro. “Eu vejo-te” não é apenas constatar a presença do outro. É reconhecer-lhe a dignidade. É dizer: tu não és invisível. A tua dor não é pequena. A tua alegria não é irrelevante. A tua história não é um ruído no fundo do mundo. E quem é visto responde: “Estou aqui.” Estou...