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Gostaria sempre de ti ...

Preocupo-me cada vez menos em parecer. Parecer mais segura, mais conveniente, mais próxima daquilo que os outros esperam de mim. Há um cansaço particular em vigiar cada palavra, em esconder o entusiasmo, em disfarçar uma tristeza só para sermos mais fáceis de aceitar. E eu gosto demasiado da liberdade de ser quem sou. Gosto de poder dizer que não sei. De me comover com uma coisa pequena, de fazer perguntas, de mudar de opinião quando descubro alguma coisa que me obriga a pensar melhor. Gosto de rir sem calcular a elegância do riso. De conversar sem estar a preparar uma personagem que possa agradar a quem me ouve. Talvez a profundidade comece aí, nessa disponibilidade para estar inteiro diante de alguém. Pode existir numa conversa simples, numa brincadeira, numa pergunta cuja resposta se quer verdadeiramente ouvir. Há pessoas que entram na nossa vida e acrescentam espaço. Ao lado delas, conseguimos pensar com mais liberdade, dizer o que nos custa, experimentar uma versão...

Até sermos velhotas

Eu já nos tinha imaginado velhotas. A repetir histórias, a corrigir a memória uma da outra, a rir antes de chegar à parte que tinha graça. Haveríamos de ter opiniões sobre tudo e tempo para as discutir. Quando lhe disse que a queria comigo por muitos e bons anos, era nesse futuro que eu estava. Tinha-lhe guardado um lugar. Ela respondeu que não. Viver muitos anos não fazia parte dos seus planos. Era grata pela vida, pelos amigos, pelos dons que Deus lhe ia concedendo. Mas a sua fé permitia-lhe imaginar, para lá do que conhecemos, uma existência luminosa. Quando a vida chegasse ao fim, aceitaria partir. Não sentia a minha vontade de prolongar a demora. Compreendi o que me disse. E fiquei angustiada. Há coisas que conseguimos compreender sem que o coração encontre maneira de se acomodar a elas. Enquanto ela falava da sua paz perante o fim, eu pensava na falta que me faria. Talvez estivéssemos a ter duas conversas dentro da mesma conversa: ela a falar da relação com a ...

Paradoxalmente

"És um paradoxo" disse-me ontem uma amiga. Fiquei a pensar naquilo. Talvez ela tenha razão. Gosto de resolver exercícios de matemática e de me demorar numa página de filosofia que me deixa mais perguntas do que aquelas com que comecei. Gosto da precisão de um cálculo e da liberdade de uma frase. Há dias em que preciso de compreender o funcionamento das coisas; noutros, basta-me ficar a olhar para elas. Um pôr do sol, por exemplo. Conhecer a explicação do porquê daquelas cores nunca me diminuiu o espanto. A verdade é que sou uma mulher com várias camadas. Algumas reconheço desde pequena, outras foram-se formando com os anos, com as pessoas, com aquilo que escolhi e com aquilo que a vida decidiu sem me consultar. Tenho convicções que amadureceram e certezas de que hoje me rio. Tenho uma coragem que, por vezes, chega depois do medo, e uma fragilidade que continua aqui, mesmo nos dias em que todos me acham forte. Essa força foi-se reunindo devagar, e veio de resol...

Quando a máscara cai

Há uma forma silenciosa de gostar de alguém: continuar a cuidar dessa pessoa quando ela não está presente. No modo como se fala dela, no respeito com que se guarda o que nos confiou, na delicadeza de não transformar as suas fragilidades em assunto de conversa. Dou muito valor a isso. Gosto de sentir que posso sair de uma sala sem que o afeto mude de voz assim que fecho a porta. Com o tempo, fui percebendo quanto me fazem falta pessoas junto de quem posso descansar. Pessoas cujas palavras têm morada nos gestos. Que sabem discordar de mim olhando-me nos olhos e que conservam, na minha ausência, o respeito que me mostram quando estamos juntas. Essa coerência dá-me uma tranquilidade difícil de explicar: permite-me estar numa relação sem ter de andar sempre a verificar se o chão continua lá. Vivemos tempos em que parece haver uma personagem adequada para cada ocasião. Escolhe-se a opinião que fica bem à mesa, o entusiasmo que aproxima das pessoas certas, a indignação que reúne ma...

Negligência que deixa marcas

Há uma forma de negligência que não faz barulho. Não parte vidros, não levanta a voz, não deixa marcas visíveis. Instala-se devagar, como pó sobre os móveis, até que tudo parece naturalmente baço. É a arte triste de fazer pela metade, de cumprir calendário em vez de cumprir missão. Ensinar mal não é apenas explicar mal uma matéria. É muito mais do que isso. É entrar numa sala como quem entra num elevador: carregar num botão, esperar que o tempo passe, sair no andar seguinte sem ter verdadeiramente estado ali. É repetir palavras sem lhes dar raiz. É cumprir horários sem cumprir consciência. E, no entanto, há sempre alguém do outro lado — olhos abertos, cadernos prontos, futuros frágeis como porcelana fina. Preparar mal é uma forma de abandono elegante. Fica tudo aparentemente em ordem: conteúdos dados, avaliações feitas, papéis assinados. Mas falta o essencial — a responsabilidade de saber que cada descuido é uma pedra colocada no caminho de quem ainda nem aprendeu a desviar-se....

Uma tarde por preencher

Há crianças que sabem de cor os dias da natação, do inglês, da música e do treino. Sabem em que saco vão as sapatilhas, em que mochila ficou a flauta e a que horas é preciso estar à porta. Transportam pequenos calendários dentro da cabeça. Se lhes perguntarmos quando podem não ter nada marcado, talvez precisem de consultar um adulto. Os adultos, entretanto, fazem o melhor que sabem. Conduzem, esperam, preparam lanches, procuram horários compatíveis com outros horários que, por sua vez, já eram incompatíveis com quase tudo. Há famílias que mereciam uma medalha de logística ao domingo à noite. E, no meio desta engenharia, existe quase sempre uma intenção bonita: dar oportunidades aos filhos, ajudá-los a descobrir talentos, oferecer-lhes aquilo que, por vezes, os próprios pais não puderam ter. Aprender é, de facto, uma das grandes aventuras da vida. E essa aventura acontece em muitos lugares. Na escola, num campo de jogos, numa sala de música, num palco, num passeio. O desporto p...

Quem sou quando alguém me olha

Não sei em que parte da vida nos perdemos. Desconfio de que raramente acontece de uma vez. Vamos ficando um pouco para trás nos lugares onde tivemos de ser fortes, nas palavras que engolimos, nas despedidas para as quais ninguém nos ensinou uma resposta. Um dia, ao dizermos o nosso nome, demoramos um instante a reconhecer a pessoa que responde. Também não sei exatamente como nos encontramos. Há encontros connosco que acontecem muito discretamente: numa conversa em que baixamos a guarda, numa gargalhada que nos surpreende, na liberdade de dizer que estamos cansados sem acrescentar uma justificação. Já vivi coisas que ninguém deveria precisar de viver. Vi e senti o que ainda hoje tenho dificuldade em acomodar dentro das palavras. Algumas lembranças continuam sem nome. Sei onde estão, reconheço-lhes o peso, mas nem sempre consigo abrir a porta do lugar onde as guardo. Reconstruí-me muitas vezes sozinha. Houve dias em que fui apanhando do chão os cacos da pessoa que era, se...