Mensagens

💔 Amizades que acabam: fim do mundo ou começo de crescimento?

Há despedidas que não têm cerimónia. Não há discursos preparados, nem portas a bater, nem uma última conversa que explique tudo com clareza. Às vezes há apenas um afastamento lento: mensagens que deixam de ser diárias, conversas que perdem profundidade, risos que passam a ser educados. E um dia percebemos, quase sem saber exatamente quando aconteceu, que já não é igual. E isso dói. Dói porque, seja em que idade for, as amizades não são pequenas. São intensas. São abrigo. São identidade. As amigas não são apenas pessoas com quem se passa tempo; são testemunhas daquilo que estamos a descobrir sobre nós mesmas. Sabem de quem gostamos, do que temos medo, das inseguranças que escondemos atrás de gargalhadas. Sabem versões nossas que, muitas vezes, nem nós conhecemos. Quando uma amizade muda ou termina, não parece apenas uma perda externa. Parece um abalo interno. Surge a pergunta silenciosa: “Se já não somos ‘nós’, quem sou eu agora?” E essa pergunta é mais profunda do que parece. V...

🌙 Porque é que pensamos demais (e quase sempre à noite)?

Existe uma hora secreta no dia. Não aparece nos relógios. Mas vocês sabem quando ela chega. E eu também sei. É aquela hora em que o quarto fica em silêncio, o telemóvel já não vibra tanto, as luzes se apagam — e a cabeça decide acender. Durante o dia vocês parecem seguras. Riem alto. Respondem rápido. Fazem planos como se o futuro fosse uma estrada já desenhada. E eu vejo isso. Mas também sei que, às 23h47, muitas de vocês se tornam investigadoras da própria vida. — Será que eu disse aquilo num tom estranho? — Porque é que ela respondeu só com “ok”? — E se toda a gente achar que eu sou demasiado? Ou insuficiente? Vou dizer-vos uma coisa com honestidade: essa voz não é exclusiva dos 16 ou 17 anos. Ela continua a aparecer mais tarde. Em mim também. A diferença é que, com o tempo, aprendemos a reconhecê-la. A noite tem este poder estranho: ela amplia pensamentos pequenos. De dia, um “ok” é só uma resposta rápida. À noite, é um possível afastamento emoc...

Férias??

Três dias de férias que não foram férias. Foram um intervalo mal colocado numa frase demasiado longa. A palavra descanso apareceu no calendário com a leveza de uma promessa, mas depressa ganhou o peso de uma obrigação falhada. Pelo meio, adoeci — como quem tenta forçar o corpo a dizer aquilo que a boca insiste em calar. Ainda assim, nada de deixar de cumprir. Há tarefas que não cedem, mesmo quando a saúde cede primeiro, como soldados disciplinados que continuam a marchar sobre um campo já vazio. Trabalhei mais do que queria. Mais do que podia. Respondi a e-mails com a mesma febre com que se respondem a emergências. Fiz listas para não sentir o corpo. Cumpri prazos como quem cumpre penitências. Há em mim uma engrenagem antiga, talvez herdada, talvez treinada, que não sabe o verbo parar. Ou sabe, mas pronuncia-o como se fosse estrangeiro. É estranho como nos convencemos de que o mundo depende do nosso cansaço. Como se, ao abrandar, traíssemos uma espécie de pacto invisível com a produ...

A minha forma imperfeita de estar no mundo

“Tu sentes tudo muito.” Ouvi esta frase primeiro da minha mãe. Repetida ao longo dos anos, quase sempre com preocupação disfarçada de correção. Como se sentir intensamente fosse um risco. Como se fosse preciso aprender a conter, a moderar, a não deixar transbordar. Cresci a acreditar que havia em mim um excesso — algo que precisava de ser ajustado para caber melhor no mundo e, talvez, para facilitar a vida de quem me rodeava. Durante muito tempo tentei aprender a sentir menos. A reagir menos. A guardar mais para mim. Achei que isso era maturidade. Só mais tarde percebi que estava a confundir crescimento com silenciamento. Hoje ouço aquela frase de outra forma. Não como crítica, mas como constatação. Não uma sentença, apenas um facto. A minha forma de estar no mundo é imperfeita porque é intensa. Porque sinto antes de explicar. Porque confio antes de desconfiar — ainda que hoje o faça com mais cuidado. Porque escuto c...

Domingo

Há domingos que não pedem nada. Nem promessas, nem resoluções, nem grandes declarações. Pedem apenas presença. Hoje fui ver o mar à Ericeira como quem regressa a uma casa antiga. O sol brilhava sem excesso, com aquela delicadeza luminosa dos dias de inverno e que parece pousar nas coisas em vez de as invadir. O Atlântico respirava largo, paciente, como se tivesse todo o tempo do mundo — e talvez tenha. Caminhámos devagar. Não havia urgência. A vida, por uma vez, decidiu correr sem pressa ao nosso lado. O vento trazia sal e memória. E naquele instante percebi que a felicidade, afinal, não é um acontecimento extraordinário. É uma soma de pequenas coincidências: a mão certa na nossa mão, um riso familiar atrás de nós, o som do mar a repetir que tudo está exatamente onde deve estar. Pelo meio, houve doçura — literal e simbólica. Comi ouriços, daqueles doces típicos que parecem ter sido inventados para nos lembrar...

Somos nós

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O meu amor tem 31 anos. Trinta e um anos não são uma medida de tempo — são uma geografia. Uma casa construída devagar, com as mãos cheias de mundo e o coração inteiro. O nosso amor nasceu pequeno e teimoso. Não teve aplausos, teve resistência. Houve quem duvidasse, quem inventasse sombras, quem soprasse intrigas como se o vento pudesse derrubar o que ainda mal tinha aprendido a ficar de pé. Mas o amor — quando é amor — aprende cedo a criar raízes profundas. E nós criámos raízes. Entre olhares cúmplices e silêncios que diziam tudo, fomos ficando. Pelo caminho, houve dias de contas apertadas e sonhos maiores do que a carteira. Aprendemos a fazer muito com pouco, a transformar escassez em engenho, medo em plano, incerteza em promessa. Descobrimos que a riqueza nunca esteve no que faltava, mas no que insistia em permanecer: nós. Amar-te foi, e é, um exercício de coragem. Não a coragem ruidosa dos heróis, mas a coragem quieta de quem escolhe ficar. Ficámos. Contra expectat...

Aquilo que demorei anos a aprender

Demorei anos a aprender isto: nem todas as pessoas sabem escutar sem julgar. Durante muito tempo achei que escutar era um gesto simples, quase automático. Que bastava estar presente, ouvir as palavras, responder com empatia. Só mais tarde percebi que escutar de verdade exige uma espécie de ética silenciosa: a capacidade de não invadir, de não corrigir a emoção do outro, de não transformar a fragilidade alheia em matéria de conversa ou de opinião. Foram os meus alunos que me ensinaram isso. Os que ainda não aprenderam a interromper com certezas. Os que não sentem a urgência de explicar o mundo ao outro enquanto ele ainda está a tentar entender o seu. Escutam como quem guarda algo precioso — e ficam. Não pedem justificações. Não tentam traduzir o que digo para versões mais aceitáveis. Escutam-me apenas de coração aberto e genuíno. Há uma honestidade muito rara nesse gesto. Quando alguém esc...