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O domingo do domingo

Deitei-me às 5h30 da manhã. Não foi festa, não foi insónia existencial — foi tese. Aquela relação intensa, exigente e um bocadinho tóxica que nos faz prometer “só mais um parágrafo” até o relógio deixar de fazer sentido. Acordei (ou algo parecido com isso) com a elegante sensação de quem foi atropelada por um comboio académico. E foi aí que tive uma epifania: já não tenho idade para diretas. Tenho responsabilidades. Muitas. Demasiadas? Talvez. Negociáveis? Nem por isso. Porque entretanto sou mãe, filha, esposa, professora, explicadora de matemática, orientadora de alunos… e, aparentemente, também atleta de resistência numa maratona de 7 dias por semana, das 8h até à madrugada. Sem medalha no fim, só cafés e listas de tarefas que se reproduzem sozinhas. Hoje, o cérebro pede pausa, mas a vida responde com: fichas para corrigir, turmas para orientar, equações para explicar, alunos para motivar. E eu ali, a sonhar com um domingo… só um domingo dentro do domingo. Um espaço-tempo secreto ond...

Arranjar tempo

Há dias que parecem não ter fim, dias que se estendem como uma linha contínua de tarefas, vozes, decisões e pequenas urgências que se acumulam sem pedir licença. E, no entanto, é precisamente nesses dias — talvez apenas nesses — que se tornam possíveis os encontros mais improváveis e mais necessários. Hoje foi um desses dias. No final de tudo, quando o cansaço já se insinuava no corpo e a vontade mais imediata seria recolher, houve uma escolha quase impercetível, mas profundamente significativa: arranjar tempo. Não encontrar tempo — porque esse, sabemos, nunca aparece — mas criá-lo, como quem abre uma clareira no meio do ruído. Fomos jantar. Três. E há algo de misterioso no modo como certos encontros acontecem, como se fossem já antigos antes mesmo de começarem. Sentámo-nos à mesa e, sem qualquer cerimónia, os lugares habituais foram ficando para trás. Não houve momento de transição, não houve anúncio — apenas aconteceu. Deixámos de ser o que éramos durante o dia. Não havia ali...

Não precisamos ser perfeitos

Há uma exigência em mim que nem sempre se vê com ternura — mas nasce dela. Há dias em que me apercebo de uma coisa que nem sempre gosto de admitir. Às vezes sou demasiado dura. Não por maldade, nem por falta de cuidado com os outros. Pelo contrário. Talvez seja precisamente porque me importo demasiado que, por vezes, me torno mais exigente do que gostaria. Tenho dentro de mim uma espécie de exigência silenciosa que me acompanha desde sempre. Uma voz que me pede mais rigor, mais atenção, mais perfeição. Aprendi, não sei bem quando, que fazer bem não bastava — era preciso fazer melhor. E esse “melhor” foi crescendo comigo, como uma régua invisível que raramente desce. Quero fazer tudo bem. Quero que as coisas resultem. Talvez porque fui ensinada assim desde muito cedo. Cresci com a ideia de que era preciso fazer bem, fazer melhor, fazer sempre um pouco mais. Como se o valor das coisas — e das pessoas — estivesse muitas vezes escondido na capacidade de acertar, de correspon...

Dois pais

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Hoje é Dia do Pai. E hoje penso muito em dois. No pai que os meus filhos tiveram a sorte de encontrar — e no pai que eu tive a sorte de ter. O pai que dei aos meus filhos é tudo aquilo que eu sempre desejei que fosse. Companheiro. Divertido. Brincalhão. Parceiro de aventuras. Um pai presente desde o primeiro instante. Daqueles que não ficam apenas à margem da infância, mas entram nela com os dois pés. Que se sentam no chão para brincar, que escutam com atenção, que sabem quando é preciso rir e quando é preciso explicar o mundo com calma. Foi ele quem esteve ao lado deles nos trabalhos de História e de Geografia. Quem passou horas a explicar conceitos de Física e de Geometria Descritiva, não apenas para resolver exercícios, mas para despertar curiosidade. Porque há pais que ensinam respostas. E há pais que ensinam a pensar. Também houve longas conversas. Partilhas. E aquelas chamadas de atenção que todos os filhos precisam de ouvir — mas dadas sempre com uma paciên...

Ajudar a crescer

​ Quando tudo é amor, ensinar deixa de ser um gesto técnico e passa a ser um compromisso profundamente humano. Não se trata apenas de transmitir conteúdos, de organizar ideias ou de exigir resultados. Trata-se de estar — verdadeiramente — diante de quem cresce. E crescer, sobretudo na adolescência, raramente é um processo sereno. Os adolescentes chegam-nos como territórios em construção. Trazem no olhar uma espécie de urgência inquieta: querem ser únicos num mundo que lhes pede semelhança, querem pertencer sem abdicar de si, querem respostas rápidas para perguntas que ainda nem sabem formular. Há neles uma tensão constante entre o desejo de afirmar uma identidade e o medo silencioso de não serem aceites. E é nesse intervalo — tão frágil quanto poderoso — que a educação acontece. Ensinar, nestes dias, é muitas vezes chamar a razão a quem está mergulhado no excesso das emoções. Mas fazê-lo sem escutar esse excesso é falhar o essencial. Porque a adolescência não é um problema a resolver; ...

A escola não é uma corrida

Às vezes a escola pode parecer uma montanha. Uma daquelas montanhas grandes, íngremes, com muitos caminhos e alguns obstáculos pelo meio. Há momentos em que a subida parece tranquila. Outros em que o caminho se torna mais difícil e sentimos que estamos a ficar para trás. É nessa altura que aparecem três companheiros pouco simpáticos: a pressão, o medo de falhar e a comparação com os outros. Vocês começam a olhar à volta e parece que toda a gente está a subir mais depressa. Alguém tem melhores notas. Alguém percebe a matéria mais rápido. Alguém parece sempre mais confiante. E então surge aquela pergunta silenciosa que pesa mais do que devia: “E se eu não conseguir?” Mas há uma coisa importante que muitas vezes se esquecem. Subir uma montanha não é uma corrida. Cada pessoa tem o seu ritmo. Cada pessoa precisa de pausas diferentes. Cada pessoa encontra desafios em partes diferentes do caminho. Há quem tropece no início e depois avance com confiança. Há quem comec...

Quando os filhos crescem...

Há uma coisa curiosa que ninguém nos diz a nós mães quando os filhos nascem. Dizem-nos muitas coisas, é verdade. Falam das noites mal dormidas, das fraldas, das birras, das primeiras palavras, dos primeiros passos. Avisam-nos que vai ser cansativo, que vai ser intenso, que a vida nunca mais será a mesma. Tudo isso é verdade. Mas esquecem-se de dizer uma coisa essencial: eles crescem. E crescem depressa. No início parecem sempre pequenos demais para o mundo. Cabem nos nossos braços, dormem encostados ao nosso peito e olham para nós como se fôssemos o lugar mais seguro do universo. Depois, sem aviso prévio, começam a andar. E quando começam a andar, começam também a afastar-se um pouco. Primeiro são dois passos inseguros pela sala. Depois são corridas no parque. Depois são portas que se fecham para estudar, amigos que aparecem, mundos próprios que começam a nascer. E nós vamos percebendo, devagarinho, que educar um filho é também aprender a deixá-lo partir. Há pequena...