Mensagens

Tréguas

Houve um tempo em que o céu parecia ter desaprendido a abrir-se. Não chovia apenas lá fora — chovia dentro das gavetas, entre as páginas dos livros, nos intervalos da respiração. A luz existia, claro, mas como uma lembrança antiga, dessas que sabemos ter sido felizes sem conseguirmos reconstruir o rosto exato da felicidade. A vida, nesse período, era uma sala com cortinas pesadas. E nós, habitantes pacientes, aprendíamos a mover-nos na penumbra. A chuva tem esse talento estranho: ensina-nos a ouvir. Cada gota é um metrónomo da espera. Ensina-nos que nem todo o silêncio é vazio, que há um tipo de crescimento que acontece na sombra — como as raízes que trabalham sem aplauso, aprofundando-se na terra escura enquanto a superfície parece imóvel. Há dias em que a alma se torna inverno. Não um inverno dramático e literário, mas um inverno doméstico, de meias grossas e cansaço sem nome. Acordamos e o mundo pesa como um casaco molhado. Chamam-lhe tristeza, chamam-lhe cansaço, cha...

Dia Internacional das Meninas e Mulheres na Ciência

​ Hoje celebramos muito mais do que uma data. Celebramos coragem. Celebramos persistência. Celebramos cada menina que ousa dizer: “Eu quero entender o mundo.” Ser professora de Matemática é, para mim, um privilégio imenso. Todos os dias entro na sala de aula e vejo ali cientistas em potência. Vejo nas minhas alunas a curiosidade inquieta de quem não aceita respostas superficiais. Vejo o brilho nos olhos quando um problema difícil finalmente faz sentido. Vejo a coragem de perguntar, de errar, de tentar outra vez. Elas talvez ainda não saibam, mas já carregam dentro de si a essência da ciência: questionar, investigar, persistir. O caminho das mulheres na ciência nunca foi simples. Foi feito de portas fechadas, de silêncios impostos, de reconhecimento negado. Foi construído com passos firmes sobre dúvidas alheias. Muitas vieram antes de nós e abriram trilhas onde só existiam muros. Lutaram para estudar, para publicar, para ensinar, para serem ouvidas. E cada conquista delas ecoa hoje em c...

Sobre a amizade num tempo que passa depressa demais

A amizade é uma coisa frágil. Não no sentido em que se quebra facilmente, mas no sentido em que precisa de cuidado. Como um copo pousado à beira da mesa: não cai por acaso, cai porque alguém passou a correr. Vivemos num tempo em que quase todos passam a correr. Corremos para cumprir prazos, para responder a mensagens que não pedimos, para sermos eficientes, disponíveis, produtivos. E, no meio dessa pressa, esquecemo-nos de algo essencial: ninguém constrói amizade por acidente. A amizade precisa de tempo. E o tempo, hoje, parece ser sempre coisa dos outros. Dizemos muitas vezes “temos de combinar”, como quem diz “não agora”. Prometemos cafés que nunca acontecem, conversas que ficam suspensas, abraços adiados para um dia qualquer que não chega. Não é por falta de carinho — é por excesso de ruído. O mundo fala alto demais e nós aprendemos a ouvir mal. As relações tornaram-se frágeis porque se tornaram rápidas. Trocam-se pessoas como se trocam aplicações: quando deixa de funciona...

E se eu não for capaz de viver sem ela?

“E se eu não for capaz de viver sem ela?” “Como faço?” Hoje, um adolescente ofereceu-me a sua dor ao telefone. Não veio embrulhada em teorias nem em frases bonitas. Veio crua, urgente, inteira. Veio com o medo próprio de quem ama pela primeira vez como se estivesse a aprender a respirar — e teme que, se o amor acabar, o ar acabe também. Há idades em que o amor não é apenas amor. É identidade. É chão. É a promessa silenciosa de que alguém nos vê por inteiro, mesmo quando ainda não sabemos quem somos. Na adolescência, ama-se com o corpo todo e com o futuro inteiro. Ama-se como se cada despedida fosse definitiva, como se cada ausência fosse um abismo. Perder alguém, nessa idade, não é só perder um amor — é perder um espelho, um rumo, uma versão possível de nós mesmos. E o medo não é apenas de ficar só. É o medo de não saber existir depois. Quando ...

Hoje venceu a democracia

Hoje não venceu apenas um partido, nem uma sigla, nem um conjunto de promessas eleitorais. Hoje venceu algo maior, mais lento e mais profundo: venceu a democracia , venceu o bom senso , venceu a capacidade coletiva de um povo pensar para lá do medo e da raiva. Os portugueses foram chamados a escolher entre dois caminhos antigos como a própria história humana. De um lado, o populismo fácil, a demagogia que grita soluções simples para problemas complexos, que divide para ganhar força, que aponta o dedo para esconder o vazio. Do outro, a liberdade exigente, aquela que não se impõe aos berros, mas se constrói com responsabilidade, diálogo e consciência. Hoje, Portugal escolheu a liberdade. Escolheu a ideia de que a democracia não é perfeita — mas é o melhor lugar onde podemos discordar sem nos destruirmos. Onde podemos votar sem nos odiarmos. Onde podemos perder sem deixar de pertencer. A democracia venceu porque os portugueses...

Herança

Os sonhos nunca me apareceram enquanto dormia. Sempre me chegaram acordada, quando a vida começava a pesar mais do que o corpo. Lembro-me de ser pequena e já sentir esse peso — não sabia nomeá-lo, mas reconhecia-o. Era como se alguma coisa em mim estivesse sempre a chamar-me para a frente, mesmo quando eu queria ficar. Cresci na serra, onde os dias começavam cedo e o frio ensinava a acordar depressa. No inverno, o chão gelava antes do sol nascer e as mãos aprendiam a trabalhar mesmo dormentes. Lembro-me das botas molhadas, do cheiro da lenha, do silêncio grande que só a serra sabe fazer. Ali aprendi que o mundo não se explica — atravessa-se. Nunca aprendi a sonhar sentada. Ainda criança, percebi que as coisas importantes exigiam corpo. Subir caminhos íngremes, ajudar no que fosse preciso, cair e levantar sem grande cerimónia. A vida ensinou-me cedo que querer não basta. É preciso insistir. É preciso aguentar. E, às vezes, é preciso ...

PHDA - Quando vivemos em velocidade invisível

Viver em velocidade invisível Durante muito tempo pensei que o meu ritmo era apenas parte da minha personalidade. Diziam que eu era dinâmica, produtiva, apaixonada pelo que fazia. Eu também acreditava nisso — e, na verdade, continuo a acreditar que há beleza na intensidade com que vivo o mundo. Mas há intensidades que não são escolha. São sobrevivência. Viver com PHDA, para mim, é habitar um pensamento que raramente abranda. É ter ideias a nascerem ao mesmo tempo que outras ainda nem terminaram de existir. É sentir uma urgência constante, como se o tempo estivesse sempre um passo à frente de mim — e eu a correr para o alcançar, mesmo quando ninguém me pediu para correr. Durante anos, essa energia foi vista como capacidade. E muitas vezes também foi. Ajudou-me a construir, a criar, a cuidar, a ensinar, a estar presente para tantas pessoas. Mas existe um lado menos visível: o cansaço de quem nunca encontra verdadeiramente o botão de pausa. Descobri, co...