Memória
A memória é uma casa que muda de lugar. Às vezes aparece no cheiro da terra molhada, outras vezes no frio da primeira neve ou numa palavra antiga que alguém pronuncia por acaso. Há dias em que se esconde tão bem que julgamos ter perdido tudo. Depois, sem aviso, abre uma porta e devolve-nos uma voz, um rosto, uma tarde inteira. Passamos grande parte da vida à procura de nós próprios nessas divisões invisíveis. Eu procuro-me nas memórias que guardo do meu pai. Há pessoas que morrem apenas do lado de fora. Por dentro de nós continuam a levantar-se de manhã, a repetir palavras, a fazer pequenos gestos e a olhar para o mundo através dos nossos olhos. O meu pai vive nesse território onde a memória não paga renda e o tempo não consegue despejar ninguém. Procuro-me naquilo que dele ficou em mim. Talvez uma maneira de sentir. Talvez uma inquietação. Talvez esta necessidade de encontrar sentidos escondidos nas coisas mais pequenas. Não sei sempre distingui-lo de mim. Quando alguém ...