Quando a negligência deixa marcas
Há uma forma de negligência que não faz barulho. Não parte vidros, não levanta a voz, não deixa marcas visíveis. Instala-se devagar, como pó sobre os móveis, até que tudo parece naturalmente baço. É a arte triste de fazer pela metade, de cumprir calendário em vez de cumprir missão. Ensinar mal não é apenas explicar mal uma matéria. É muito mais do que isso. É entrar numa sala como quem entra num elevador: carregar num botão, esperar que o tempo passe, sair no andar seguinte sem ter verdadeiramente estado ali. É repetir palavras sem lhes dar raiz. É cumprir horários sem cumprir consciência. E, no entanto, há sempre alguém do outro lado — olhos abertos, cadernos prontos, futuros frágeis como porcelana fina. Preparar mal é uma forma de abandono elegante. Fica tudo aparentemente em ordem: conteúdos dados, avaliações feitas, papéis assinados. Mas falta o essencial — a responsabilidade de saber que cada descuido é uma pedra colocada no caminho de quem ainda nem aprendeu a desviar-se...