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Ainda não autorizo o fim do verão

Hoje choveu. Não uma chuva séria, dessas de novembro que chegam com credenciais, casaco vestido e intenções de ficar. Foi uma chuva de fim de agosto, ainda meio indecisa, como quem bate à porta e pergunta se já pode entrar. Eu disse que não. Porque esta chuva trazia qualquer coisa de suspeito. Um cheiro a terra molhada, uma frescura no ar, uma luz mais baixa. Um certo ar de outono a ensaiar a entrada em cena antes do tempo. E eu não estou preparada. Nem para o outono, nem para o fim do verão, nem — sobretudo — para aquilo que vem agarrado aos dois pelas costas: o início do ano letivo . Recuso-me. Ainda não houve verão suficiente para isto. Há qualquer coisa em mim que ainda precisa de sal no cabelo, areia nos pés e chinelos atirados para qualquer lado. Ainda preciso de fins de tarde que não tenham hora, de jantares que começam tarde porque ninguém reparou nas horas, de dias em que a pergunta mais urgente seja se vamos à praia de manhã ou depois do almo...

Agosto, esse mês que não acaba

Agosto tem sido um mês comprido. Não sei se os meses se medem em dias ou em saudades, mas, se forem as saudades a decidir, este agosto deve ter para aí noventa e sete dias. A minha azulinha está longe. Longe é uma palavra estranha nos tempos que correm. Uma pessoa pode estar a milhares de quilómetros e, ainda assim, aparecer-nos dentro do telefone vinte vezes antes do pequeno-almoço. Há chamadas, fotografias, áudios e aproximadamente mil mensagens por dia — algumas importantes, outras absolutamente indispensáveis, como saber o que comeu, onde está, se dormiu bem e porque é que demorou sete minutos a responder. As mães possuem uma relação muito particular com o conceito de distância. A geografia diz uma coisa. O coração diz outra. E o WhatsApp faz o possível para mediar o conflito. Pelo meio, houve férias. Salamanca, estradas, a Beira Interior, paisagens onde parece que o tempo anda mais devagar. Houve dias de praia, muito sol, areia que aparece em casa mesmo quando juramos ...

farmar aura

Hoje recebi um elogio. Não foi um daqueles elogios tradicionais, fáceis de interpretar, como “a professora explica muito bem”, “gosto das suas aulas” ou “obrigada por não ter mandado TPC”. Foi uma coisa muito mais séria. Uma aluna olhou para mim e disse: — A professora é bué descolada e sabe farmar aura. Confesso: fiquei orgulhosa. Não percebi imediatamente todos os detalhes técnicos da distinção, mas reconheci o tom. Era bom. Muito bom, até. E há momentos em que um adulto precisa de ter inteligência emocional suficiente para não estragar um elogio juvenil com perguntas. Por isso, não disse nada. Limitei-me a sorrir e a fazer um pequeno aceno de cabeça, como quem farma aura desde 1970 e troca o excedente nos mercados internacionais. Por dentro, porém, estava em festa. Anos de estudo. Duas licenciaturas. Um mestrado. Um doutoramento em curso. Formações, conferências, artigos, investigações, incontáveis horas a preparar aulas e a corrigir trabalhos. Tudo isto para che...

Obrigada G.

Este verão tem-me ensinado que há pessoas que chegam tarde à nossa vida e, ainda assim, chegam exatamente a tempo. Durante muito tempo, pensei que as amizades verdadeiras eram aquelas que traziam consigo uma infância inteira. As que conheciam os nossos joelhos esfolados, os amores impossíveis, os erros de juventude, as casas onde vivemos e as versões antigas de nós que já ninguém reconhece. E são, claro. Há amizades da vida inteira que são uma espécie de pátria. Pessoas junto das quais não precisamos de explicar de onde vimos, porque caminharam connosco durante uma parte considerável do caminho. Guardam pedaços da nossa memória que já nem nós saberíamos encontrar sozinhas. Mas estou a descobrir que também existem as amizades que começam agora. Não têm fotografias antigas, segredos de adolescência ou histórias repetidas tantas vezes que já ninguém sabe ao certo se aconteceram daquela maneira. Não assistiram às nossas primeiras quedas nem conhecem todos os nomes que deixámos para...

Cartografia Humana

Tenho uma teoria sobre as pessoas. Chamo-lhe, por agora, a Teoria da Cartografia Humana . Talvez porque sempre achei que as pessoas não são todas feitas da mesma geografia. Há pessoas que são montanha. Há pessoas que são planalto. Há pessoas que são planície. E há pessoas que são vale. Algumas trazem dentro mapas inteiros, com curvas de nível, falhas tectónicas, rios subterrâneos e altitudes que só se descobrem depois de muito caminho. As pessoas montanha são raras. Têm densidade e elevação. Não apenas altura, que isso qualquer ego mal resolvido consegue fingir. Têm elevação de caráter. Crescem para cima, mas também para dentro. São feitas de tempo, de silêncio, de resistência, de sabedoria acumulada como pedra antiga. Uma pessoa montanha não precisa fazer barulho para existir. Está lá. Firme. Inteira. Com sombra suficiente para abrigar e altitude suficiente para nos obrigar a olhar mais longe. As pessoas montanha ensinam-nos que crescer não é aparecer mais. É sustentar melhor. ...

Memória

A memória é uma casa que muda de lugar. Às vezes aparece no cheiro da terra molhada, outras vezes no frio da primeira neve ou numa palavra antiga que alguém pronuncia por acaso. Há dias em que se esconde tão bem que julgamos ter perdido tudo. Depois, sem aviso, abre uma porta e devolve-nos uma voz, um rosto, uma tarde inteira. Passamos grande parte da vida à procura de nós próprios nessas divisões invisíveis. Eu procuro-me nas memórias que guardo do meu pai. Há pessoas que morrem apenas do lado de fora. Por dentro de nós continuam a levantar-se de manhã, a repetir palavras, a fazer pequenos gestos e a olhar para o mundo através dos nossos olhos. O meu pai vive nesse território onde a memória não paga renda e o tempo não consegue despejar ninguém. Procuro-me naquilo que dele ficou em mim. Talvez uma maneira de sentir. Talvez uma inquietação. Talvez esta necessidade de encontrar sentidos escondidos nas coisas mais pequenas. Não sei sempre distingui-lo de mim. Quando alguém ...

A criança que nos devolve a aldeia

Há um provérbio antigo que diz que é preciso uma aldeia inteira para criar uma criança. Eu costumo pensar que também é preciso uma criança para voltarmos a ser aldeia. Uma criança chega e, sem saber, começa a construir pontes. Faz com que os vizinhos se conheçam, que os avós regressem às histórias antigas, que os tios aprendam a sentar-se no chão e que os adultos voltem a reparar nas formigas, nas pedras com formas estranhas e nas nuvens que se parecem com animais. Antes dela, havia apenas pessoas a viver umas ao lado das outras. Depois dela, talvez exista uma aldeia. As crianças têm essa capacidade misteriosa de desarrumar o mundo para que possamos voltar a vê-lo. Interrompem conversas importantes para mostrar uma folha, fazem perguntas no momento menos conveniente, riem quando os adultos acham que é preciso manter a compostura e choram por coisas que nós já aprendemos a considerar pequenas. Mas talvez não sejam as coisas que são pequenas. Talvez tenhamos sido nós que, ao ...