O amor também sabe sair da frente
Uma criança senta-se no chão para atar os atacadores. Demora. Faz uma laçada torta, desfaz o nó, troca as mãos, suspira e recomeça. O adulto olha para o relógio. Está atrasado. Ajoelha-se, afasta-lhe as mãos e, num gesto rápido e eficiente, ata-lhe os sapatos. Saímos a horas. Mas talvez aquela criança tenha perdido uma pequena oportunidade de crescer. É assim, muitas vezes, que a autonomia começa a ser adiada: não através de grandes proibições, mas por meio de pequenos gestos quotidianos feitos com a melhor das intenções. Fazemos por eles porque é mais rápido. Respondemos por eles porque receamos que se enganem. Escolhemos por eles porque acreditamos saber o que é melhor. Retiramos-lhes as pedras do caminho, antecipamos os obstáculos, evitamos-lhes a frustração e, se pudéssemos, talvez lhes preparássemos uma vida inteira revestida de plástico de bolhas. Tudo por amor. Mas o amor também pode prender. A autonomia não é uma capacidade que se entrega aos dezoito ...