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É tempo de colher

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Apesar de ser neta de pessoas ligadas à agricultura nunca tinha vindimado. Há coisas que chegam tarde à nossa vida e, talvez por isso mesmo, chegam na altura certa. A vindima foi uma delas. Fui sem saber muito bem o que fazer com as mãos, para além de provavelmente atrapalhar quem sabia. Aprendi que há uma maneira certa de pegar nos cachos, de escolher o que se corta, de respeitar a videira. E descobri que há trabalhos que se aprendem melhor quando se fazem acompanhados. Porque, no fundo, vindimar é uma espécie de metáfora da vida. Passamos anos a plantar. Algumas coisas crescem, outras não. Há sementes que esquecemos e que, um dia, aparecem em lugares onde não esperávamos. Há pessoas que chegam devagar, quase sem darmos por isso, e acabam por criar raízes. E depois há a família. Não apenas aquela que nos calhou à nascença, mas aquela que a vida nos oferece pelo caminho. A que acrescentamos sem pedir licença ao coração. Pessoas que um dia eram apenas pessoas e q...

Na nossa Academia ninguém aprende sozinho

Os testes têm um nome escrito no canto da folha. As notas aparecem numa pauta, alinhadas umas por baixo das outras, como se cada número pertencesse inteiramente a uma única pessoa. No momento da avaliação, é o aluno quem segura a caneta, lê as perguntas e tenta encontrar, dentro de si, aquilo que aprendeu. Mas ninguém chega verdadeiramente sozinho àquela folha. Por trás de uma resposta certa há muitas vezes uma explicação repetida, uma dúvida finalmente confessada, um exercício feito em conjunto, um adulto que acreditou, um colega que ajudou ou alguém que disse, precisamente no dia em que era necessário: “Tenta outra vez.” O nome escrito no teste é apenas o último de uma história onde cabem muitas pessoas. Na nossa Academia, ninguém aprende sozinho. Isto não significa que o esforço possa ser delegado. Ainda não descobrimos uma forma de alguém estudar Matemática por outra pessoa, fazer um exame em representação do aluno ou transferir conhecimentos por proximidade. A Em...

As dez resoluções da aluna Emília

Depois de observar atentamente vários anos letivos - quase sempre de olhos fechados -, a Emília decidiu partilhar connosco o seu plano para o novo ano. Considera-se preparada para esta responsabilidade. Tem experiência prolongada na ocupação de cadeiras, conhece todos os lugares da Academia onde o sol bate durante a tarde e domina uma técnica avançada de concentração que, vista por pessoas menos esclarecidas, pode parecer sono profundo. É uma incompreendida. Como qualquer aluna dedicada, a Emília estabeleceu dez resoluções. Algumas são pedagogicamente defensáveis. Outras exigiriam alterações profundas ao sistema educativo e um aumento preocupante do número de almofadas nas salas de aula. Ainda assim, talvez haja alguma sabedoria escondida entre tantos bocejos. Começar o dia sem entrar imediatamente em pânico. A Emília não consulta calendários, não conta os dias que faltam para os testes e nunca acordou sobressaltada por se ter esquecido de entregar um trabalho. ...

O primeiro teste não é uma sentença

Há um momento, no início de cada ano letivo, em que o primeiro teste regressa às mãos dos alunos. Antes de a folha chegar à mesa, já o coração fez várias contas, quase todas erradas. O professor aproxima-se, o silêncio aumenta e, durante alguns segundos, parece que aquele número escrito no canto superior da página está prestes a revelar não apenas o resultado de um teste, mas o futuro inteiro. Há quem olhe imediatamente. Há quem vire a folha ao contrário, como se a nota pudesse melhorar alguns valores enquanto permanece escondida. Há quem espreite discretamente a classificação do colega, porque a comparação é uma tentação rápida e raramente pede autorização. E há quem descubra, naquele instante, que afinal rezar continua a ser uma estratégia de avaliação bastante popular. Depois, vê-se o número. Às vezes chega o alívio. Outras vezes, a alegria. Há também a desilusão, a vergonha, a raiva ou aquele silêncio de quem tinha estudado e não compreende o que correu mal. O prime...

A motivação nem sempre vem primeiro

Há uma frase que os alunos dizem muitas vezes, geralmente acompanhada por um suspiro suficientemente profundo para deslocar o ar da sala: “Eu até queria estudar, mas não tenho motivação.” Compreendo. A motivação é uma criatura pouco pontual. Promete aparecer depois do almoço, manda mensagem a dizer que está quase a chegar e, quando damos por ela, já são dez da noite e temos um teste no dia seguinte. Esperar pela motivação é um pouco como esperar por aquela pessoa que diz “já estou a sair” quando ainda está a escolher a roupa. Podemos gostar muito dela, mas talvez não seja prudente confiar-lhe o horário. Durante demasiado tempo fizeram-nos acreditar que a vontade tinha de chegar antes da ação. Primeiro sentiríamos entusiasmo, depois abriríamos o caderno, estudaríamos durante horas e terminaríamos a noite profundamente satisfeitos, com a matéria compreendida e os apontamentos dignos de exposição. Às vezes acontece. Também há gatos que obedecem quando são chamados. Na mai...

Manifesto para um ano que ainda não sabe do que somos capazes

Há um instante estranho no início de cada ano letivo em que tudo parece ainda possível. Os cadernos não têm erros, as canetas conservam as tampas, os horários ainda não foram amarrotados no fundo das mochilas e há uma espécie de confiança com cheiro a papel novo. Fazemos planos. Estabelecemos metas. Compramos marcadores de várias cores, convencidos de que a organização cromática resolverá grande parte dos nossos problemas. Durante alguns dias, acreditamos sinceramente que nunca deixaremos matéria acumular, que estudaremos sempre com antecedência e que nenhum trabalho será iniciado na véspera da entrega. É uma fase bonita. Na nossa Academia, a Emília também começa o ano cheia de boas intenções. Tenciona dormir mais, ocupar um maior número de cadeiras e aperfeiçoar a técnica de se deitar precisamente sobre a folha de que alguém precisa. Cada um estabelece as metas que estão ao alcance das suas patas. Mas este texto não é sobre a Emília. Pelo menos, não inteiramente. É sobre ...

Cadernos de Setembro — Pequeno guia para um grande ano

Setembro tem esta estranha maneira de chegar: traz cadernos ainda sem erros, horários que ninguém decorou, mochilas demasiado pesadas e uma quantidade generosa de promessas. Este ano vou estudar desde o primeiro dia. Este ano não vou deixar acumular matéria. Este ano vou fazer resumos, organizar os apontamentos e nunca começar um trabalho na véspera. Depois, naturalmente, a vida acontece. Há dias em que a vontade não aparece, matérias que parecem escritas numa língua desconhecida, testes que não correm como esperávamos e manhãs em que sair da cama já merecia classificação. A Emília, a aluna mais dorminhoca da nossa Academia, conhece particularmente bem estas últimas. Continua convencida de que uma sesta prolongada sobre os cadernos constitui uma forma legítima de aprendizagem por contacto. Até ao momento, não conseguimos confirmar cientificamente a eficácia do método. Talvez por isso tenha nascido esta série: Cadernos de Setembro — Pequeno guia para um grande ano . Não será u...