O que meio século nos obriga a desaprender
Chega uma idade em que já não fazemos anos: fazemos inventário. Meio século não é apenas uma data. É uma casa cheia de gavetas. Algumas arrumadas, outras nem por isso. Há gavetas com fotografias antigas, nomes que já não dizemos, sonhos que mudaram de forma, medos que perderam força e algumas verdades que, afinal, não eram verdades — eram apenas frases repetidas por quem também andava a tentar viver. Durante muito tempo, disseram-nos que crescer era aprender. Mas talvez crescer seja, sobretudo, desaprender. Desaprender a pedir desculpa por sentir muito. Desaprender a caber em lugares pequenos só para não incomodar. Desaprender a achar que ser forte é não cair, que ser boa é dizer sempre sim, que ser amada é ser útil, discreta, sem problemas e sempre disponível. Aos cinquenta, a vida começa a tirar-nos os enfeites. E isso também liberta. Liberta porque deixamos de querer agradar a toda a gente, porque finalmente percebemos que há pessoas que só ficam satis...