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O sol do lado de dentro

Há sábados que começam às oito da manhã e só pousam o lápis às oito da noite. Pelo meio, cabem muitos alunos, muitas horas de Matemática, vários níveis de ensino e uma quantidade de dúvidas que, se fosse possível arrumar em caixas, exigiria uma sala maior. Este foi um desses sábados. Longo, cheio, diverso. E vivido com a mesma alegria e o mesmo entusiasmo em cada hora dada. Lá fora, o sol brilhou. Cá dentro, também. Há uma luz muito particular naquele instante em que um aluno levanta os olhos do caderno e diz: «Ahhh… agora faz sentido!» Gosto de assistir a esse momento. A expressão muda, os ombros descontraem-se, o lápis regressa ao papel com outra vontade. Uma coisa que parecia impossível começa a ganhar contornos. E, por alguns segundos, até uma equação pode iluminar uma sala. Ensinar é ter o privilégio de acompanhar estas pequenas mudanças. Perceber onde se perdeu o fio, recuar o necessário, escolher outro exemplo, experimentar outra pergunta. Há quem precise de ...

Roubaram-me uma página. A história continua.

No dia em que me hackearam as contas do Instagram, senti-me como quem chega a casa e encontra as gavetas das memórias vazias. Na página da Academia estavam anos de partilhas. Anos de trabalho, de dedicação, de momentos únicos que tinham encontrado ali uma maneira de ficar. Pequenos pedaços da nossa história, guardados com a confiança de quem acredita que poderá voltar para os visitar. De repente, deixei de lhes poder chegar. Há uma tristeza muito particular em perder assim aquilo que fomos construindo devagar. Nós sabemos o que estava dentro de cada publicação. Sabemos o tempo que lhe demos, a alegria com que a escrevemos, o motivo pelo qual quisemos guardar aquele instante. Para quem invade, talvez tudo se resuma a uma conta. Para quem fica deste lado, há vida lá dentro. E é isso que me custa compreender: o que leva alguém a entrar no espaço de outra pessoa e a estragá-lo? Que satisfação pode haver em causar esta tristeza? Em tocar no trabalho dos outros com tamanh...

Os bichinhos carpinteiros também vão à escola

Eu fui uma daquelas alunas que acabavam depressa as tarefas só para poder ir brincar mais depressa e ficar com o resto do tempo livre para dar espaço às minhas ideias e criatividade. Conversava com quem estava ao lado, combinava brincadeiras para o intervalo, encontrava assuntos que, naquele instante, me pareciam demasiado importantes para esperar pelo toque. Tinha os chamados «bichinhos carpinteiros». Imagino que trabalhassem por turnos, porque havia sempre algum de serviço. Os meus professores percebiam isso. Davam-me outras tarefas, propunham-me um desafio, pediam-me que ajudasse um colega. Encontravam maneira de dar uma direção àquela energia. E, quando me confiavam a tarefa de explicar alguma coisa a alguém, ofereciam-me também uma responsabilidade: precisava de escutar, de ter paciência, de procurar palavras que o outro compreendesse. Aprendia enquanto ajudava. Nunca me fizeram sentir que havia qualquer coisa de errado comigo por ter vontade de falar, por estar content...

Dias sem fim

Há semanas que começam antes de termos acabado de respirar as anteriores. Esta começou assim: comigo ainda a tentar pousar o que trazia nas mãos, e a vida a entregar-me mais coisas. Os dias passam dentro da minha sala, entre números, perguntas, cadernos abertos. Ensino Matemática. Procuro maneiras de tornar compreensível aquilo que, ao princípio, parece impossível. Digo que vamos por partes, que podemos voltar atrás, que ninguém tem de perceber tudo à primeira. E, enquanto ofereço aos outros esse tempo, vou fazendo contas ao pouco tempo que me concedo a mim. Há qualquer coisa de profundamente humano em saber ser paciente com quem aprende, mas ao mesmo tempo, há algo de profundamente triste quando sou tão impaciente comigo. Entre uma explicação e outra, penso no que ficou por fazer. O trabalho de casa começa muito antes de eu chegar a casa: acompanha-me durante as aulas, senta-se ao fundo da sala, levanta o braço quando tento pensar noutra coisa. Há sempre uma tarefa à esp...

É tempo de guardar

O outono chegou. A chuva ameaçou, demorou-se na promessa, mas caiu. O outono chegou. Sente-se na luz de cada dia, nesse ouro mais inclinado que entra pelas horas dentro; na tarde que escurece cedo; na brisa fria que, de manhã e ao fim do dia, nos procura a pele. Hoje assei castanhas e maçãs com canela. E o cheiro delas trouxe consigo qualquer coisa muito antiga, como se a casa se tivesse lembrado de uma história que ninguém chegou a contar-lhe. Há gestos que parecem vir de longe. Reconhecemo-los nas mãos antes de encontrarmos palavras para eles. A terra começa a recolher-se. Abranda, guarda, prepara o escuro. Debaixo do que vemos, prossegue uma vida discreta: raízes, sementes, o trabalho miúdo de tudo o que precisa de silêncio para continuar. À superfície, oferece-nos os últimos excessos de cor. As romãs guardam uma multidão vermelha dentro de um só fruto. Os dióspiros parecem ter recolhido a luz das tardes para a deixar amadurecer devagar. Os cogumelos surgem com...

Ler torna-nos menos vazios

Gosto de imaginar que, quando alguém abre um livro, o mundo ganha um pouco de espaço. A pessoa continua sentada na mesma cadeira. A janela dá para a mesma rua. Lá fora, alguém espera pelo autocarro, uma árvore perde uma folha, a tarde prossegue os seus pequenos trabalhos. Mas, dentro daquele silêncio, pode estar a começar uma viagem. Há uma cidade por conhecer, uma vida diferente da nossa, uma pergunta que ainda não tínhamos aprendido a fazer. Talvez uma das coisas mais bonitas da leitura seja esta possibilidade de alargar a vida a partir de um gesto tão pequeno. Entre duas capas cabem séculos, oceanos, descobertas, enganos. Cabe alguém que viveu muito antes de nós e que, por algum motivo, parece conhecer uma inquietação que julgávamos só nossa. Cabe uma ideia capaz de nos acompanhar durante anos, mesmo depois de esquecermos em que página a encontrámos. Gostava que os nossos alunos pudessem descobrir esse encontro. Preocupa-me que a leitura chegue tantas vezes às suas mãos já...

Da matemática à FQ ...

Estamos em outubro. Passou quase um mês desde o início das aulas. Há expectativas a ganhar luz, medos e ansiedades a ganhar forma, sonhos que começam a desenhar-se. E, pelo meio, uma preocupação que parece ocupar cada vez mais espaço: os resultados. Fala-se de testes, de médias, de exames. O exame surge tantas vezes como um “bicho-papão”, uma ameaça à espera no fim do percurso. Fala-se dos rankings das escolas e das notas de acesso ao ensino superior. Tudo isto tem consequências reais na vida dos alunos, e seria ingénuo desvalorizá-lo. Mas inquieta-me sentir que, no meio de tanta preocupação em medir, vamos deixando de fora da equação o seu termo mais importante: a aprendizagem. Sou engenheira química e lecionei Física e Química durante muitos anos. Talvez por isso me custe tanto olhar para os cadernos de alguns alunos e mal reconhecer, naquelas páginas, a disciplina que sempre me fascinou. Vejo conceitos apresentados em sequência, fórmulas copiadas, exercícios arrumados por tipo...