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Manifesto para um ano que ainda não sabe do que somos capazes

Há um instante estranho no início de cada ano letivo em que tudo parece ainda possível. Os cadernos não têm erros, as canetas conservam as tampas, os horários ainda não foram amarrotados no fundo das mochilas e há uma espécie de confiança com cheiro a papel novo. Fazemos planos. Estabelecemos metas. Compramos marcadores de várias cores, convencidos de que a organização cromática resolverá grande parte dos nossos problemas. Durante alguns dias, acreditamos sinceramente que nunca deixaremos matéria acumular, que estudaremos sempre com antecedência e que nenhum trabalho será iniciado na véspera da entrega. É uma fase bonita. Na nossa Academia, a Emília também começa o ano cheia de boas intenções. Tenciona dormir mais, ocupar um maior número de cadeiras e aperfeiçoar a técnica de se deitar precisamente sobre a folha de que alguém precisa. Cada um estabelece as metas que estão ao alcance das suas patas. Mas este texto não é sobre a Emília. Pelo menos, não inteiramente. É sobre ...

Cadernos de Setembro — Pequeno guia para um grande ano

Setembro tem esta estranha maneira de chegar: traz cadernos ainda sem erros, horários que ninguém decorou, mochilas demasiado pesadas e uma quantidade generosa de promessas. Este ano vou estudar desde o primeiro dia. Este ano não vou deixar acumular matéria. Este ano vou fazer resumos, organizar os apontamentos e nunca começar um trabalho na véspera. Depois, naturalmente, a vida acontece. Há dias em que a vontade não aparece, matérias que parecem escritas numa língua desconhecida, testes que não correm como esperávamos e manhãs em que sair da cama já merecia classificação. A Emília, a aluna mais dorminhoca da nossa Academia, conhece particularmente bem estas últimas. Continua convencida de que uma sesta prolongada sobre os cadernos constitui uma forma legítima de aprendizagem por contacto. Até ao momento, não conseguimos confirmar cientificamente a eficácia do método. Talvez por isso tenha nascido esta série: Cadernos de Setembro — Pequeno guia para um grande ano . Não será u...

5 de setembro. sempre o pior dia para viver.

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No dia em que o meu pai desapareceu, Deus não existia. Talvez tivesse existido até ao dia anterior. Talvez exista agora. Mas não naquele dia. O céu estava limpo, o ar parado, e tudo pronunciava lentas horas de tédio. Não havia uma nuvem escura, um trovão, uma rajada de vento que fizesse estremecer as árvores. Nada no mundo parecia saber que o meu mundo acabava. Quando me disseram que o meu pai tinha morrido, a dor não foi uma metáfora. Doeu-me fisicamente. Há notícias que o corpo recebe antes de conseguirmos compreendê-las. O meu recebeu aquela como se alguma coisa me tivesse atravessado por dentro. E eu gritei. Não sei explicar aquele grito. Sei apenas que saiu de um lugar de mim que eu desconhecia. Foi um grito de uma intensidade que nunca mais consegui repetir na vida. Nem antes, nem depois, alguma vez produzi um som semelhante. Talvez porque aquele não fosse verdadeiramente um som da minha voz. Era o som da minha alma a morrer. Nesse dia, a minha alma morreu. De...

Sangria, mojitos e outras formas de dizer «gosto de ti»

Esta semana foi escandalosamente feliz. Digo escandalosamente porque, com o estado do mundo, as notícias a cair-nos em cima antes mesmo do primeiro café e a vida sempre atrasada em relação à agenda, ser feliz começa a parecer uma pequena forma de insubordinação. Quase uma falta de respeito. Mas a verdade é que esta semana foi, sem dúvida, muito feliz. Primeiro porque houve um jantar cá em casa. E se é verdade que eu gosto de cozinhar, cozinhar para alguém de quem gosto está noutro patamar... está muitos níveis acima. É uma espécie de declaração de amor num lugar onde a comida deixa de ser apenas comida e passa a ser linguagem. Gosto de pensar na ementa, escolher o vinho, comprar os ingredientes, decidir quais as frutas que irão mergulhar na sangria de verão. Há frutas com vocação para a felicidade. Uma framboesa dentro de uma sangria parece saber mais sobre a vida do que muitos de nós. Depois escolho a loiça, ponho flores na mesa, mudo um copo de lugar, volto a colocá-lo exatam...

Setembro chega sempre com duas mãos

Setembro entrou pela casa sem bater. Não trouxe ainda o outono inteiro. Trouxe apenas uma luz mais baixa a pousar nas paredes, um sopro de ar fresco pela janela e aquela sensação quase impercetível de que alguma coisa está prestes a mudar. Há anos em que o verão parece esquecer-se de acabar. Demora-se nos dias, aquece excessivamente as casas e torna o ar pesado, como se o próprio tempo precisasse de se sentar um pouco para recuperar o fôlego. Depois chega setembro e alguém parece carregar num interruptor invisível. O calor não desaparece de repente, mas perde arrogância. As manhãs ficam mais frescas, as noites chegam mais cedo e respirar volta a ser uma coisa simples. Setembro é uma ponte. De um lado, permanece o verão, ainda agarrado às mangas curtas, às janelas abertas e à vontade de ficar lá fora até tarde. Do outro, aproxima-se o outono, com a sua luz dourada, os seus silêncios e a promessa de recolhimento. Talvez por isso setembro seja um mês tão bonito: porque não nos...

viver com empatia ou prisioneiro da aparências?

Há pessoas que acordam todos os dias e, antes de abrirem a janela, vestem uma personagem. Não escolhem apenas a roupa, o gesto ou o tom de voz. Escolhem a pessoa que vão fingir ser. Ensaiam o sorriso diante do espelho, ajustam as palavras ao público que as espera e saem de casa como quem entra em cena. Talvez já nem sintam o peso do disfarce. Talvez o tenham usado durante tanto tempo que lhes pareça pele. Penso muitas vezes no cansaço que deve ser viver assim. Passar os dias a vigiar aquilo que se diz, não por delicadeza, mas por medo. Controlar cada reação, não por respeito, mas para proteger uma imagem. Inventar versões de si próprio para cada circunstância e, depois, ter de recordar o que mostrou a uns, o que ocultou de outros, o que prometeu ser em cada lugar. Uma vida inteira transformada numa sala cheia de espelhos, onde nenhuma imagem devolve um rosto verdadeiro. Deve chegar uma altura em que a pessoa já não sabe quem é quando ninguém está a olhar. Talvez esse seja o...

A adolescência é um território definitivo

Há uma coisa na adolescência que só percebemos muitos anos depois: tudo nela parece definitivo. Uma amizade é para sempre. Um desgosto é o fim. Um amor é o único amor possível. Uma música consegue dizer exatamente aquilo que ainda não sabemos explicar. E uma tarde, às vezes, parece conter o mundo inteiro. Nessa idade ainda não aprendemos a relativizar. Talvez por isso tudo seja tão intenso. Amamos demasiado. Sofremos demasiado. Esperamos demasiado. Queremos ser adultos, mas ainda levamos connosco uma infância que fingimos já ter abandonado. Queremos fugir de casa e, ao mesmo tempo, precisamos de saber que alguém estará à espera quando regressarmos. Talvez crescer seja precisamente isto: passarmos alguns anos a tentar afastar-nos da criança que fomos e muitos outros a tentar encontrá-la novamente. Na adolescência queremos distância. Mais tarde queremos memória. E a memória dessa idade é uma coisa estranha. Raramente guarda aquilo que julgávamos importante. Guarda um c...