Querida M.
Hoje encontrei a menina M. no café da minha rua. E há encontros assim — simples na forma, quase banais — mas que nos atravessam por dentro como se fossem feitos de outra matéria. Falámos um pouco e, ainda assim, disse-se tanto. Há pequenas conversas que são mais profundas do que algumas longas. Enquanto a ouvia pensei em como a vida, sem aviso, nos pode puxar o tapete. Num instante estamos distraídos com os detalhes — o trânsito, o cansaço, as pequenas irritações — e no outro somos confrontadas com aquilo que realmente pesa: a saúde e a falta dela, o medo que se instala devagar, a ansiedade que aperta, o território incerto onde de repente tudo deixa de ser garantido. E então percebemos. Que muito do que nos ocupa às vezes não passa disso mesmo: detalhes. Gosto verdadeiramente da menina M., como carinhosamente a chamo cá em casa. Há nela uma força tranquila, uma coragem que não precisa de palco, e ao mesmo tempo uma ternura rara. É daquelas pessoas que nos desarmam sem esforço, que no...