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Ler torna-nos menos vazios

Gosto de imaginar que, quando alguém abre um livro, o mundo ganha um pouco de espaço. A pessoa continua sentada na mesma cadeira. A janela dá para a mesma rua. Lá fora, alguém espera pelo autocarro, uma árvore perde uma folha, a tarde prossegue os seus pequenos trabalhos. Mas, dentro daquele silêncio, pode estar a começar uma viagem. Há uma cidade por conhecer, uma vida diferente da nossa, uma pergunta que ainda não tínhamos aprendido a fazer. Talvez uma das coisas mais bonitas da leitura seja esta possibilidade de alargar a vida a partir de um gesto tão pequeno. Entre duas capas cabem séculos, oceanos, descobertas, enganos. Cabe alguém que viveu muito antes de nós e que, por algum motivo, parece conhecer uma inquietação que julgávamos só nossa. Cabe uma ideia capaz de nos acompanhar durante anos, mesmo depois de esquecermos em que página a encontrámos. Gostava que os nossos alunos pudessem descobrir esse encontro. Preocupa-me que a leitura chegue tantas vezes às suas mãos já...

Da matemática à FQ ...

Estamos em outubro. Passou quase um mês desde o início das aulas. Há expectativas a ganhar luz, medos e ansiedades a ganhar forma, sonhos que começam a desenhar-se. E, pelo meio, uma preocupação que parece ocupar cada vez mais espaço: os resultados. Fala-se de testes, de médias, de exames. O exame surge tantas vezes como um “bicho-papão”, uma ameaça à espera no fim do percurso. Fala-se dos rankings das escolas e das notas de acesso ao ensino superior. Tudo isto tem consequências reais na vida dos alunos, e seria ingénuo desvalorizá-lo. Mas inquieta-me sentir que, no meio de tanta preocupação em medir, vamos deixando de fora da equação o seu termo mais importante: a aprendizagem. Sou engenheira química e lecionei Física e Química durante muitos anos. Talvez por isso me custe tanto olhar para os cadernos de alguns alunos e mal reconhecer, naquelas páginas, a disciplina que sempre me fascinou. Vejo conceitos apresentados em sequência, fórmulas copiadas, exercícios arrumados por tipo...

O que não cabe numa definição

Sou capaz de ser muito exigente com a resolução de um problema e, pouco depois, chamar os meus alunos à janela porque o sol se está a pôr. Não sinto que tenha mudado de personalidade no intervalo. Há lugar em mim para a necessidade de encontrar uma resposta e para o prazer de ficar a olhar para uma coisa que não precisa de ser resolvida. Ontem, por causa de um texto meu, a conversa foi ter às pessoas que somos quando estamos com pessoas diferentes. Mudamos de postura? Adaptamo-nos? Queremos ser aceites? E quem permanece igual, independentemente da companhia, será mais livre, mais verdadeiro, ou apenas menos capaz de se deixar tocar pelos outros? Há palavras que só nos ocorrem na presença de determinada pessoa. Há amigos com quem recuperamos um humor que julgávamos perdido, outros diante de quem conseguimos finalmente falar de um medo, e outros na presença de quem nos sentimos sempre pequenos. Talvez a dificuldade comece quando já não estamos a descobrir uma parte de n...

Da casa

No domingo, a avó Lurdes fez anos. Juntámo-nos, uma dezena e meia de pessoas, à mesa para lhe cantar os parabéns. Dezena e meia de vozes à volta de uma vida. E, entre todas elas, as nossas, que chegaram há tão pouco tempo e já encontraram lugar naquele coro. Há qualquer coisa de extraordinário nesta maneira de acolher. Uma amizade que se vai alargando, que nos recebe e recebe os nossos, até a palavra «família» ganhar nomes que ainda não conhecia. «Da casa.» É uma expressão pequena para uma pertença tão grande. Cabe inteira na boca e, no entanto, traz consigo uma cadeira, um lugar à mesa, a liberdade de chegar sem ter de pensar onde ficar. Traz essa confiança discreta de sabermos que a nossa presença é bem-vinda. Há casas que parecem reconhecer-nos antes de termos tempo de nos apresentar por inteiro. Aprendem depressa o nosso nome e fazem espaço para o que vem com ele: as pessoas que amamos, a nossa história, o nosso modo de estar. Aos poucos, deixamos de pensar na pró...

Que haja lugar para ti querida M.

Na semana passada, perguntaste-me pelo sentido da vida. Perguntaste-me também se, ao tentares aproximar-te das pessoas que admiras, poderias perder a tua identidade pelo caminho. E receaste que fosse pateta pensar em tudo isto. Há uma delicadeza nessa preocupação: queres crescer e, ao mesmo tempo, queres continuar a reconhecer-te. Nenhuma destas perguntas é pateta. Às vezes, chamamos «patetas» às coisas que nos importam muito, para que uma eventual resposta nos magoe menos. Pomos a pergunta a rir à porta, enquanto, lá dentro, estamos cheios de medo. Gostava de poder explicar-te o sentido da vida com a clareza de quem explica um exercício. Mas desconfio das respostas que dão tudo por resolvido. Há perguntas que precisam de continuar connosco, a mudar de tamanho à medida que crescemos. Talvez o sentido se vá fazendo naquilo a que damos atenção. No trabalho em que pomos cuidado. Na coragem de corrigir uma injustiça pequena, daquelas por que quase toda a gente passa sem...

Yellow people ... A cor da presença

Esta semana li um post sobre o conceito de yellow person . A expressão ficou comigo. Falava daquelas pessoas a quem podemos confiar o que sentimos, que nos escutam com disponibilidade e atenção, sem julgar, sem diminuir a nossa inquietação, sem a cobrir depressa com uma frase que já foi dita a toda a gente. Pessoas que permitem que aquilo que trazemos no peito chegue inteiro, sem lhes atirar um "isso já passa", ou "Não penses nisso agora"... Reconheci algumas dessas presenças na minha vida. Ao pensar nelas, encontrei sobretudo uma sensação: a de poder falar antes de ter compreendido tudo, de entregar uma frase ainda incompleta e sentir que alguém me entende, de poder admitir uma contradição e não ser julgada por isso, de procurar, na companhia de alguém, o sentido daquilo que me acontece. Há uma intimidade verdadeiramente profunda em sermos recebidos antes de conseguirmos explicar-nos. Grande parte da vida passa-se nesse intervalo entre sentir e comp...

A vida tem os nomes de quem chega

Às sete da manhã, ainda o dia está a abrir os olhos e já eu lhe ando a arrumar as gavetas. Faço listas mentais, distribuo tarefas, tento encontrar lugar para tudo o que precisa de caber nas horas seguintes. A minha cabeça chega quase sempre primeiro que eu aos sítios. Quando finalmente me levanto, já ela abriu a sala, respondeu a perguntas e se esqueceu de alguma coisa que, naturalmente, só há de recordar quando eu estiver ocupada com outra. Depois, há o café. O de sempre, no lugar do costume. Gosto desta pequena certeza antes de começar a negociar com os imprevistos. E gosto, sobretudo, de encontrar a minha tribo: as amigas que fui acrescentando aos meus dias e que, com a generosidade de quem chega uma cadeira para o lado, me deram lugar nas suas vidas. Fomos ficando. Entre cafés, conversas e manhãs mais ou menos apressadas, fomos aprendendo a contar umas com as outras. Agora, quando falta uma, dou por isso e sinto-lhe a falta. O lugar vazio faz perguntas: estará bem? Te...