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Coisas que me põem de bom humor

Coisas que me põem de bom humor. Um café quente. Uma gargalhada parva. Uma música no carro, daquelas que nos fazem cantar como se tivéssemos uma carreira internacional escondida. Uma conversa boa. Um elogio inesperado. Uma roupa que nos assenta bem. O cheiro a roupa lavada. Comprar flores sem motivo nenhum. Rir-me de mim própria antes que alguém se antecipe. E aquele momento glorioso em que percebo que afinal ainda há chocolate em casa. A felicidade, às vezes, mora mesmo nestas pequenas coisas. Não precisa sempre de grandes acontecimentos, viagens incríveis ou dias perfeitos. Às vezes basta uma manhã mais leve, uma piada sem jeito, uma pessoa que nos faz bem, uma caminhada sem pressa, uma mesa bonita, uma música antiga, uma mensagem que nos apanha desprevenidos e nos deixa a sorrir para o telemóvel como adolescentes. E eu gosto disso. Gosto de perceber que continuo a entusiasmar-me com pouc...

Dia da Mãe

Hoje fiz duzentos quilómetros para lá e duzentos quilómetros para cá. Às vezes, a distância mede-se assim: em estrada, em curvas, em portagens, em cafés bebidos depressa, em listas mentais do que não podemos esquecer. Mas há dias em que a distância também se mede em amor. E, nesses dias, quatrocentos quilómetros parecem apenas a medida possível de um abraço. Hoje era Dia da Mãe. E eu quis juntar a família. Juntar os meus filhos. Juntar a avó aos netos. Juntar-me também a uma nova família que, aos poucos, se vai encostando à minha como quem não invade, apenas chega. Uma família que acolheu a minha filha e que agora me acolhe a mim, com uma delicadeza rara, genuína, sincera. Há casas onde entramos e percebemos que não estão apenas a abrir-nos a porta. Estão a abrir-nos espaço. E isso é muito diferente. O dia começou cedo, antes mesmo da estrada. ...

Escola Doutoral de Primavera

Hoje foi o dia do meu painel, da minha apresentação, da minha comunicação. E, por si só, isso já faria deste um dia especial. Já era bom saber-me ali, amparada pela presença dos meus orientadores, dos professores que tanto respeito, das amigas de sempre, de tantas pessoas que fazem parte do meu caminho e daquilo que me fui tornando. Já era um daqueles dias que se guardam com cuidado, como quem fecha as mãos sobre uma coisa preciosa. Mas o dia ganhou outra luz. Ganhou-a porque, no meio de tudo isto, pude juntar a esta alegria a presença boa do filho grande e do marido, que fizeram muitos quilómetros só para me virem ver apresentar, só para estarem ali, só para apoiar. E há gestos assim que dizem tudo sem precisarem de grandes palavras. Porque fazer tantos quilómetros por amor é, no fundo, uma forma muito bonita de dizer: “estamos contigo”, “isto também é importante para nós”, “o teu caminho é também um bocadinho nosso”. E isso tocou-me de um modo difícil de explicar. Porqu...

Dia 1 e meio

Depois da longa viagem de ontem — 5h30 que, confesso, não me souberam nada mal — acordei hoje com a sensação rara de quem descansou a sério. E digo “rara” com a solenidade que o momento merece, porque dormir como uma pedra, numa vida em que a cabeça costuma insistir em continuar acordada mesmo quando o corpo já desistiu, é quase um acontecimento científico. Mas a verdade é que aquelas 5h30 de estrada tiveram qualquer coisa de inesperadamente precioso. Foram 5h30 de silêncio, a sós com os meus botões, o que hoje em dia quase parece uma experiência de luxo. Cinco horas e meia sem resolver uma conta, sem apagar um incêndio, sem ter de decidir nada urgente, sem ouvir o meu nome de cinco em cinco minutos, sem aquele ruído de fundo — exterior e interior — que tantas vezes nos acompanha sem pedirmos licença. Cinco horas e meia só comigo. Um luxo, direi. Um retiro espiritual em versão rodoviária. Depois, claro, veio o jantar animado, as conversas boas, as gargalhadas certas, aquela ...

Alfândega da Fé

Às 6h20 da manhã, a viagem começou como começam as coisas importantes: ainda com o dia por nascer e já com a alma a adiantar-se ao corpo. Houve uma paragem no Porto, depois a estrada seguiu até Macedo de Cavaleiros, e aí aconteceu uma dessas pequenas alegrias que fazem o caminho parecer mais curto: o reencontro com uma amiga. A partir desse momento, já não íamos apenas para um seminário; íamos juntas para dentro de três dias feitos de estudo, trabalho, escuta, perguntas e aprendizagem. E talvez seja isso a educação no seu estado mais bonito: não um lugar onde se chega com respostas fechadas, mas um espaço onde se caminha acompanhado, disponível para pensar melhor. Alfândega da Fé recebe-nos assim, como quem sabe que a beleza não precisa de levantar a voz. No Nordeste Transmontano, entre a Serra de Bornes e o rio Sabor, esta terra parece guardar uma espécie de sabedoria antiga, feita de montes, vales e horizonte. É uma vila pequena, mas cheia de presença, onde o passado ainda ap...

Quantos anos demoramos a dizer adeus ?

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Há ausências que não passam. Aprendemos a andar com elas, a dobrar-lhes a roupa, a sentá-las à mesa, a deixá-las dormir ao nosso lado sem fazer muito barulho. Mas passar, passar mesmo, não passam. Transformam-se. Mudam de nome, mudam de lugar, mudam de voz. Às vezes já não doem como faca; doem como inverno. Ficam no corpo, na memória, na maneira como olhamos o mundo quando ninguém está a ver. Faz trinta e dois anos que partiste, pai. Trinta e dois anos é quase uma vida inteira. E, no entanto, há em mim uma parte que continua parada no instante em que te foste. Como se o tempo, esse grande mentiroso, tivesse seguido para toda a gente menos para aquela filha que ficou a olhar para a porta, à espera de um regresso que a razão sabia impossível, mas o coração recusava aceitar. Demorei anos a fazer o luto. Talvez ainda o faça. Foram anos de pesadelos, de lágrimas sem aviso, de um sobressalto constante da alma. Anos em que a tua ausência não era uma ideia: e...

Segundas-feiras

Há qualquer coisa de misterioso nas segundas-feiras. Não falo do calendário, nem da disciplina dos relógios, nem dessa pequena violência de recomeçar quando ainda trazemos o corpo preso ao descanso. Falo de outra coisa. De uma espécie de convite secreto que a vida nos faz, todas as semanas, para tentarmos outra vez. A segunda-feira é o mais humilde dos começos. Não tem o brilho solene do primeiro dia do ano, nem a pompa das grandes decisões, nem a ilusão de que tudo pode mudar de uma vez. A segunda-feira sabe que a transformação quase nunca chega com trombetas. Chega devagar. Entra pela cozinha, abre as janelas, faz café, arruma papéis, responde a mensagens, pega ao colo os cansaços e, mesmo assim, insiste: recomeça. Talvez por isso eu goste dela. Porque a segunda-feira não promete milagres. Promete trabalho. E há uma verdade funda nisso. A vida não se recompõe num gesto heroico, mas em pequenas fidelidades: levantar, respirar, voltar ao que importa, pegar...