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Quando a negligência deixa marcas

Há uma forma de negligência que não faz barulho. Não parte vidros, não levanta a voz, não deixa marcas visíveis. Instala-se devagar, como pó sobre os móveis, até que tudo parece naturalmente baço. É a arte triste de fazer pela metade, de cumprir calendário em vez de cumprir missão. Ensinar mal não é apenas explicar mal uma matéria. É muito mais do que isso. É entrar numa sala como quem entra num elevador: carregar num botão, esperar que o tempo passe, sair no andar seguinte sem ter verdadeiramente estado ali. É repetir palavras sem lhes dar raiz. É cumprir horários sem cumprir consciência. E, no entanto, há sempre alguém do outro lado — olhos abertos, cadernos prontos, futuros frágeis como porcelana fina. Preparar mal é uma forma de abandono elegante. Fica tudo aparentemente em ordem: conteúdos dados, avaliações feitas, papéis assinados. Mas falta o essencial — a responsabilidade de saber que cada descuido é uma pedra colocada no caminho de quem ainda nem aprendeu a desviar-se...

Carta aberta aos meus alunos

​ Há alunos que chegam com os cadernos organizados e o olhar focado, como quem já sabe que o caminho se constrói linha a linha. Há outros que chegam em tempestade, desafiantes, inquietos, a medir o mundo com perguntas e silêncios. Há os trabalhadores incansáveis, os que hesitam, os que adiam, os que riem, os sérios, os sonhadores. Há os que me dão abraços e beijinhos sem aviso, como quem diz sem palavras: “estou aqui”. Há os que já sabem para onde vão, e os que ainda estão a aprender que também é legítimo não saber. E todos, absolutamente todos, têm um lugar na minha vida. Ao longo dos anos, fui percebendo que ensinar Matemática nunca foi apenas sobre números, fórmulas ou resultados certos. Foi sempre sobre pessoas. Sobre encontros. Sobre caminhos que se cruzam sem acaso, como se cada um de vocês chegasse no momento exato em que precisava de chegar — e eu também. Vocês pensam que sou eu que vos ensino. Mas a verdade mais profunda é outra: nós crescemos juntos. Transformaram-me com as v...

vejo-te ...

Há um provérbio africano que diz: “Eu vejo-te.” E o outro responde: “Estou aqui.” O amor começa talvez assim — não com promessas, não com juras eternas, mas com esse reconhecimento simples e quase sagrado: eu vejo-te. Vejo a tua luz e as tuas sombras, as tuas falhas e as tuas tentativas, o que mostras e o que escondes. Vejo-te inteiro, e não desvio o olhar. Num mundo que tantas vezes nos atravessa sem nos notar, ser visto é uma forma de salvação discreta. O absurdo da existência, essa sensação de caminhar num território vasto e indiferente, torna-se menos pesado quando alguém nos olha como se fôssemos necessários. O amor talvez seja isso: um gesto de atenção radical.Uma dádiva de alguém que nos olha e vê por inteiro. “Eu vejo-te” não é apenas constatar a presença do outro. É reconhecer-lhe a dignidade. É dizer: tu não és invisível. A tua dor não é pequena. A tua alegria não é irrelevante. A tua história não é um ruído no fundo do mundo. E quem é visto responde: “Estou aqui.” Estou...

“No meio do inverno, descobri finalmente que havia em mim um verão invencível."

O sol chegou sem bater à porta, como fazem as boas notícias. Entrou pelas frestas das persianas, pousou nas secretárias, demorou-se nos cadernos ainda abertos da véspera. E, de repente, a casa — e a escola, e nós — deixámos de ser inverno. Andávamos precisados de sol. Precisados como quem precisa de uma palavra boa dita na hora certa. Precisados como quem atravessa dias cinzentos com o casaco apertado até ao queixo, não por causa do frio, mas por causa do peso. Havia um cansaço invisível a morar-nos nos ombros, uma espécie de neblina interior que nos fazia andar devagar, pensar devagar, sorrir devagar. E então o sol voltou. Não fez discurso. Não prometeu nada. Apenas brilhou. Ontem, os alunos entraram na sala com uma luz diferente no rosto. “É tão bom ter o sol de volta”, diziam, como quem fala de um amigo que regressa de viagem. Sorriam com mais vontade, como se o sorriso tivesse sido guardado numa gaveta durante semanas e agora finalmente pudesse respirar. Um dele...

🪞 Autoestima não é acordar bonita — é acordar em paz

Durante muito tempo disseram-nos que autoestima era gostar do que vemos ao espelho. Como se tudo dependesse da luz certa, do ângulo certo, do cabelo obediente, da pele sem marcas, da versão “apresentável” de nós mesmas. Como se a confiança fosse uma consequência direta de um reflexo simpático numa manhã generosa. Mas a verdade é outra. Autoestima não é acordar bonita. É acordar em paz. É abrir os olhos e não começar o dia em guerra com o próprio corpo. É levantar-se sem uma lista mental de defeitos. É vestir-se sem que cada escolha seja uma tentativa de esconder algo. É existir sem pedir desculpa pelo espaço que se ocupa. A paz não significa que vamos amar cada detalhe todos os dias. Significa apenas que deixamos de nos tratar como inimigas. Que trocamos a crítica constante por alguma gentileza. Que entendemos que o espelho não é juiz — é apenas superfície. Há dias em que nos sentimos bonitas. E isso é bom. Mas há dias em que estamos cansadas, inchadas, desalinhadas, vulnerá...

💔 Amizades que acabam: fim do mundo ou começo de crescimento?

Há despedidas que não têm cerimónia. Não há discursos preparados, nem portas a bater, nem uma última conversa que explique tudo com clareza. Às vezes há apenas um afastamento lento: mensagens que deixam de ser diárias, conversas que perdem profundidade, risos que passam a ser educados. E um dia percebemos, quase sem saber exatamente quando aconteceu, que já não é igual. E isso dói. Dói porque, seja em que idade for, as amizades não são pequenas. São intensas. São abrigo. São identidade. As amigas não são apenas pessoas com quem se passa tempo; são testemunhas daquilo que estamos a descobrir sobre nós mesmas. Sabem de quem gostamos, do que temos medo, das inseguranças que escondemos atrás de gargalhadas. Sabem versões nossas que, muitas vezes, nem nós conhecemos. Quando uma amizade muda ou termina, não parece apenas uma perda externa. Parece um abalo interno. Surge a pergunta silenciosa: “Se já não somos ‘nós’, quem sou eu agora?” E essa pergunta é mais profunda do que parece. V...

🌙 Porque é que pensamos demais (e quase sempre à noite)?

Existe uma hora secreta no dia. Não aparece nos relógios. Mas vocês sabem quando ela chega. E eu também sei. É aquela hora em que o quarto fica em silêncio, o telemóvel já não vibra tanto, as luzes se apagam — e a cabeça decide acender. Durante o dia vocês parecem seguras. Riem alto. Respondem rápido. Fazem planos como se o futuro fosse uma estrada já desenhada. E eu vejo isso. Mas também sei que, às 23h47, muitas de vocês se tornam investigadoras da própria vida. — Será que eu disse aquilo num tom estranho? — Porque é que ela respondeu só com “ok”? — E se toda a gente achar que eu sou demasiado? Ou insuficiente? Vou dizer-vos uma coisa com honestidade: essa voz não é exclusiva dos 16 ou 17 anos. Ela continua a aparecer mais tarde. Em mim também. A diferença é que, com o tempo, aprendemos a reconhecê-la. A noite tem este poder estranho: ela amplia pensamentos pequenos. De dia, um “ok” é só uma resposta rápida. À noite, é um possível afastamento emoc...