Amor sem certidão
A minha sobrinha emprestada Há pessoas que nos chegam pela certidão de nascimento. E há pessoas que nos chegam por uma espécie de certidão invisível, escrita algures entre a vida, a amizade, as lágrimas e as gargalhadas. A essas, às vezes, chamamos família. Mesmo que ninguém tenha assinado nada. Mesmo que não haja apelidos em comum. Mesmo que o sangue, esse burocrata antigo, não tenha sido chamado a confirmar coisa nenhuma. Eu tenho uma sobrinha emprestada. Digo “emprestada” porque a vida, às vezes, gosta destas palavras pequenas para esconder coisas enormes. Mas a verdade é que não há nada de emprestado no que sinto por ela. Não há prazo, não há devolução, não há distância que mude isto. Gosto dela como se fosse minha. Como se entre nós houvesse uma linha antiga, dessas que não se veem ao microscópio, mas que se sentem quando ela me olha, quando me desafia, quando me faz rir, quando me obriga a ser melhor. Talvez po...