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A minha Teoria da Cartografia Humana

Tenho uma teoria sobre as pessoas. Chamo-lhe, por agora, a Teoria da Cartografia Humana . Talvez porque sempre achei que as pessoas não são todas feitas da mesma geografia. Há pessoas que são montanha. Há pessoas que são planalto. Há pessoas que são planície. E há pessoas que são vale. Algumas trazem dentro mapas inteiros, com curvas de nível, falhas tectónicas, rios subterrâneos e altitudes que só se descobrem depois de muito caminho. As pessoas montanha são raras. Têm densidade e elevação. Não apenas altura, que isso qualquer ego mal resolvido consegue fingir. Têm elevação de caráter. Crescem para cima, mas também para dentro. São feitas de tempo, de silêncio, de resistência, de sabedoria acumulada como pedra antiga. Uma pessoa montanha não precisa fazer barulho para existir. Está lá. Firme. Inteira. Com sombra suficiente para abrigar e altitude suficiente para nos obrigar a olhar mais longe. As pessoas montanh...

A oliveira da Academia

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Às vezes perguntam-me porque escolhi uma oliveira como símbolo da Academia. Podia responder de forma simples. Dizer que foi por acaso. Que havia uma oliveira, que a plantei com um grupo de alunas, que a minha filha a pintou nas paredes da Academia, e que tudo isso, por si só, já bastava para lhe dar um lugar especial. Mas há símbolos que começam por acaso e acabam por explicar-nos melhor do que qualquer discurso. A oliveira não é uma árvore qualquer. É uma árvore antiga. Mediterrânica. Paciente. Uma árvore que sabe esperar. Cresce devagar, atravessa verões secos, resiste ao vento, suporta o tempo, perde folhas e volta a dar fruto. Dizem que a oliveira é uma árvore que nunca morre verdadeiramente. Mesmo quando parece vencida, mesmo quando o tronco envelhece, mesmo quando é cortada, há vida escondida nas suas raízes. Há sempre um rebento possível. Há sempre uma forma discreta de recomeçar. Talvez tenha sido por isso que ela...

Regressar à minha sala

Regressar à minha sala é sempre uma espécie de regresso a casa. Não uma casa de paredes comuns, mas uma casa feita de mesas, cadeiras, livros alinhados, vozes conhecidas e perguntas que chegam antes mesmo de eu pousar a mala. A minha sala é um lugar seguro. Talvez porque ali sei quem sou. Talvez porque há lugares que nos devolvem a nós mesmos sem grandes expectativas. Durante a tarde chegarão os meus. Chegarão com o barulho próprio de quem ainda traz vida inteira por gastar. Uns perguntarão: “Como foram esses três dias, storinha?” Outros dirão: “Professora, conte-nos tudo.” E os mais chegados talvez me abracem como se não nos víssemos há meses, quando afinal foram só alguns dias. Haverá saudades. Haverá amizade sem julgamento. Essa amizade simples, limpa, quase adolescente, que não pergunta demais, mas percebe. Que não sabe sempre o que dizer, mas fica perto. Que não precisa de grandes discursos para nos lembrar que pertence...

Coisas que me põem de bom humor

Coisas que me põem de bom humor. Um café quente. Uma gargalhada parva. Uma música no carro, daquelas que nos fazem cantar como se tivéssemos uma carreira internacional escondida. Uma conversa boa. Um elogio inesperado. Uma roupa que nos assenta bem. O cheiro a roupa lavada. Comprar flores sem motivo nenhum. Rir-me de mim própria antes que alguém se antecipe. E aquele momento glorioso em que percebo que afinal ainda há chocolate em casa. A felicidade, às vezes, mora mesmo nestas pequenas coisas. Não precisa sempre de grandes acontecimentos, viagens incríveis ou dias perfeitos. Às vezes basta uma manhã mais leve, uma piada sem jeito, uma pessoa que nos faz bem, uma caminhada sem pressa, uma mesa bonita, uma música antiga, uma mensagem que nos apanha desprevenidos e nos deixa a sorrir para o telemóvel como adolescentes. E eu gosto disso. Gosto de perceber que continuo a entusiasmar-me com pouc...

Dia da Mãe

Hoje fiz duzentos quilómetros para lá e duzentos quilómetros para cá. Às vezes, a distância mede-se assim: em estrada, em curvas, em portagens, em cafés bebidos depressa, em listas mentais do que não podemos esquecer. Mas há dias em que a distância também se mede em amor. E, nesses dias, quatrocentos quilómetros parecem apenas a medida possível de um abraço. Hoje era Dia da Mãe. E eu quis juntar a família. Juntar os meus filhos. Juntar a avó aos netos. Juntar-me também a uma nova família que, aos poucos, se vai encostando à minha como quem não invade, apenas chega. Uma família que acolheu a minha filha e que agora me acolhe a mim, com uma delicadeza rara, genuína, sincera. Há casas onde entramos e percebemos que não estão apenas a abrir-nos a porta. Estão a abrir-nos espaço. E isso é muito diferente. O dia começou cedo, antes mesmo da estrada. ...

Escola Doutoral de Primavera

Hoje foi o dia do meu painel, da minha apresentação, da minha comunicação. E, por si só, isso já faria deste um dia especial. Já era bom saber-me ali, amparada pela presença dos meus orientadores, dos professores que tanto respeito, das amigas de sempre, de tantas pessoas que fazem parte do meu caminho e daquilo que me fui tornando. Já era um daqueles dias que se guardam com cuidado, como quem fecha as mãos sobre uma coisa preciosa. Mas o dia ganhou outra luz. Ganhou-a porque, no meio de tudo isto, pude juntar a esta alegria a presença boa do filho grande e do marido, que fizeram muitos quilómetros só para me virem ver apresentar, só para estarem ali, só para apoiar. E há gestos assim que dizem tudo sem precisarem de grandes palavras. Porque fazer tantos quilómetros por amor é, no fundo, uma forma muito bonita de dizer: “estamos contigo”, “isto também é importante para nós”, “o teu caminho é também um bocadinho nosso”. E isso tocou-me de um modo difícil de explicar. Porqu...

Dia 1 e meio

Depois da longa viagem de ontem — 5h30 que, confesso, não me souberam nada mal — acordei hoje com a sensação rara de quem descansou a sério. E digo “rara” com a solenidade que o momento merece, porque dormir como uma pedra, numa vida em que a cabeça costuma insistir em continuar acordada mesmo quando o corpo já desistiu, é quase um acontecimento científico. Mas a verdade é que aquelas 5h30 de estrada tiveram qualquer coisa de inesperadamente precioso. Foram 5h30 de silêncio, a sós com os meus botões, o que hoje em dia quase parece uma experiência de luxo. Cinco horas e meia sem resolver uma conta, sem apagar um incêndio, sem ter de decidir nada urgente, sem ouvir o meu nome de cinco em cinco minutos, sem aquele ruído de fundo — exterior e interior — que tantas vezes nos acompanha sem pedirmos licença. Cinco horas e meia só comigo. Um luxo, direi. Um retiro espiritual em versão rodoviária. Depois, claro, veio o jantar animado, as conversas boas, as gargalhadas certas, aquela ...