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31 anos depois...

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Há trinta e um anos, o mundo ainda não tinha um lugar para nós: Tivemos de o abrir. Não nos deram uma estrada, um mapa ou uma porta por onde pudéssemos entrar juntos. Havia dúvidas, avisos, juízos e pessoas demasiado certas de que sabiam como terminaria a nossa história. Olhavam para nós como quem olha para uma casa construída perto do mar e prevê a tempestade antes mesmo de ela chegar. Acreditavam que não duraríamos. Talvez porque fôssemos demasiado diferentes. Talvez porque fôssemos demasiado jovens. Talvez nos amássemos com uma intensidade que os outros confundiam com imprudência. Talvez ninguém compreendesse que há encontros que não pedem autorização à razão nem respeitam a ordem em que a vida deveria acontecer. Nós também não sabíamos se conseguiríamos. Mas sabíamos que queríamos. E há uma diferença enorme entre acreditar que tudo será fácil e decidir que, mesmo quando não for, continuaremos a tentar. Tivemos de desbravar o mundo para cabermos nele. Avançámos por ...

Livros e fatias de bolo de chocolate

Antes de ser professora, já dava aulas às bonecas. As bonecas eram alunas exemplares. Nunca chegavam atrasadas, não se esqueciam dos trabalhos de casa e ouviam todas as explicações com uma serenidade que raramente voltei a encontrar numa sala de aula. Também nunca faziam perguntas, o que, pensando melhor, talvez não fosse assim tão bom. Eu escrevia num quadro de giz, inventava exercícios e explicava a matéria com a solenidade de quem tinha uma missão importante. Naquele tempo, ainda não sabia que viria a ser professora, ou talvez soubesse, às vezes as crianças saibam muitas coisas antes de aprenderem a explicá-las. O futuro começa frequentemente como uma brincadeira. Eu tinha uma imaginação que nunca aprendeu a andar devagar. Construía países dentro do quarto, criava personagens e mudava o destino das histórias. Se alguém estava triste, inventava-lhe uma saída. Se alguém se perdia, desenhava-lhe um caminho. Se o mundo acabava, começava outro. A imaginação foi a minha prim...

Encolher para caber

Em criança diziam que eu falava muito. Diziam que nunca me calava, que tinha bichos carpinteiros e que era irrequieta. Durante muito tempo imaginei os bichos carpinteiros como pequenos animais a correrem dentro de mim. Uns viviam nas pernas, outros nas mãos e os mais indisciplinados instalavam-se na cabeça. Talvez fossem apenas pensamentos com pernas, incapazes de ficar sentados. Eu fazia perguntas. Inventava histórias. Falava com as bonecas, com as pessoas e, provavelmente, com o próprio ar quando mais ninguém estava disponível. Não era apenas uma criança faladora. Era uma criança cheia e intensa: Cheia de palavras, de ideias, de medos, de mundos e de uma energia que ainda não tinha aprendido a pedir licença, e intensa no que sentia e no modo como amava. Mas, como todas as crianças, eu queria ser a menina boa de quem todos gostavam e as meninas boazinhas não incomodavam, não falavam demasiado e não faziam muitas perguntas. Sentavam-se direitas, esperavam pela sua vez e sabi...

Dia 6 - A última página da viagem

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Acordamos no Cerca Design House com a sensação confortável de não termos de entrar imediatamente no carro. Depois de vários dias a mudar de quarto, abrir malas, fechar malas, consultar mapas e atravessar cidades, o corpo parece receber com gratidão a notícia de que a manhã não tem muralhas para subir nem quilómetros urgentes para cumprir. Há dias de viagem que começam com uma estrada. Este começa com uma piscina. O Cerca Design House tem aquela tranquilidade dos lugares que parecem falar mais baixo para não perturbar o descanso. A antiga casa de pedra, o branco das paredes, o jardim e a Serra da Gardunha ao fundo criam uma espécie de intervalo entre a viagem que fizemos e o regresso que ainda não começou. Tomamos o pequeno-almoço sem pressa. Ao longo do ano, o pequeno-almoço é muitas vezes uma operação técnica destinada a impedir que saiamos de casa em jejum. Nas férias recupera a dignidade de refeição: sentamo-nos, conversamos, repetimos o café e aceitamos que não existe qua...

Dia 5 - o mundo visto de cima

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Acordamos em Torre de Moncorvo com o cansaço do dia anterior ainda pousado no corpo e com as gravuras de Penascosa muito vivas na memória. Há experiências que terminam quando regressamos ao hotel e outras que continuam a acontecer dentro de nós enquanto dormimos. A noite no Vale do Côa pertence às segundas. Ao quinto dia, já desenvolvemos uma relação pouco exigente com as malas. Ninguém espera encontrar nelas ordem, lógica ou duas meias que formem um par. Abrimo-las, procuramos o necessário e fechamo-las antes que alguma peça de roupa tente fugir. A certa altura, viajar deixa de ser transportar cuidadosamente os nossos pertences e passa a ser garantir que não abandonamos nada essencial pelo caminho, incluindo os membros da família :) . Tomamos o pequeno-almoço, carregamos novamente o carro e saímos para conhecer Torre de Moncorvo antes de seguirmos viagem. A vila acorda devagar, com as ruas ainda tranquilas e a luz da manhã a revelar a pedra dos edifícios. A Igreja Matriz impõe-s...

Dia 4 - As coisas que deixamos gravadas

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Acordamos em Bragança com mais um dia inteiro diante de nós e a sensação de que as férias já adquiriram uma vida própria. Ao quarto dia, as malas deixam de ser verdadeiramente desfeitas. Abrem-se apenas o suficiente para encontrarmos aquilo de que precisamos e voltam a fechar-se com a desarrumação resignada de quem sabe que, dentro de poucas horas, estará novamente noutro lugar. Talvez viajar seja também aprender a viver com menos ordem. Em casa, cada coisa tem o seu lugar. Na estrada, o lugar das coisas muda todos os dias: os casacos instalam-se no banco de trás, as garrafas de água aos nossos pés, os mapas misturam-se com recibos e as lembranças começam a ocupar o espaço anteriormente reservado à roupa. Ao quarto dia, o carro já não é apenas um meio de transporte. É uma pequena casa desarrumada com rodas. Partimos em direção a Podence. O pai e o filho voltam a repartir a condução, mas a troca já se faz com naturalidade, quase sem palavras. Um estaciona, o outro assume o volante...

Dia 3 - As estradas pequenas não aceitam pressa

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Acordamos em Puebla de Sanabria com a sensação de que a viagem e nós começamos finalmente a encontrar o nosso próprio ritmo. Já não existe a inquietação dos primeiros quilómetros nem aquela necessidade de confirmar o mapa a cada cinco minutos, como se as estradas pudessem mudar de lugar durante a noite. Aos poucos, deixamos de ser pessoas empenhadas em chegar a algum sítio e passamos a ser apenas pessoas a caminho. Talvez as férias comecem verdadeiramente nesse momento: quando deixamos de perguntar quanto falta e começamos a reparar no que existe à nossa volta. Arrumamos novamente as malas, fechamos a porta do quarto e regressamos ao carro. A roupa, que no primeiro dia cabia perfeitamente, começa já a desenvolver uma existência própria e a ocupar mais espaço. As malas de viagem obedecem a uma lei da física ainda pouco estudada: quanto mais avançam as férias, menor é a probabilidade de fecharem do mesmo modo. O pai e o filho voltam a dividir a condução. Há entre os dois uma esp...