Amor
Há amores que não começam quando encontramos alguém. Começam antes. Começam na forma como fomos olhados pela primeira vez. Na mão que nos segurou antes de sabermos caminhar. Na voz que nos chamou pelo nome quando ainda não sabíamos quem éramos. Começam no colo, no cuidado, na presença silenciosa de quem nos deu mundo antes de nós sabermos agradecer. O meu primeiro grande amor foi o amor do meu pai. Não sei se, na altura, eu sabia chamar-lhe amor. Talvez as crianças não saibam. As crianças vivem dentro do amor como se vivem dentro de uma casa: sem pensar nas paredes, no telhado, na luz que entra pela janela. Só quando a casa falta é que percebemos que ela nos segurava. Quando o meu pai morreu, não perdi apenas uma pessoa. Perdi o chão. E não há uma maneira mais bonita de dizer isto, até porque há dores que resistem à beleza das palavras. Há dores que não querem ser enfeitadas, querem apenas ser reconhecidas. A morte de um pai é uma dessas dores. Não é só ...