Domingos
Há dias que não fazem barulho. Não chegam com anúncios nem com grandes acontecimentos. Instalam-se devagar, como a luz que entra pelas frestas da janela e, sem pedir licença, vai ocupando o espaço. Hoje foi assim. Um domingo de sol. Acordei mais tarde do que o habitual — aquele acordar sem culpa, sem pressa, sem a urgência das horas que nos empurram nos dias úteis. Fiquei ainda algum tempo entre o sono e a vigília, naquele estado suspenso onde tudo é mais leve e o mundo ainda não pesa. Levantar num dia assim é diferente. Há uma espécie de suavidade nos gestos, uma lentidão que não é atraso, mas escolha. A casa estava tranquila. Faltava apenas a filha mais nova — está longe, por terras de Espanha, em digressão com a sua Tuna, a viver a vida no seu próprio ritmo. Mas essa ausência não é um vazio. É apenas um intervalo com data marcada. Amanhã já volta ao colo da mãe. E isso muda tudo. Preparei o almoço sem pressa. Há qualquer coisa de profundamente humano em cozinhar para os nosso...