Aprender a ser casa
Sou mulher e aprendi cedo a não descansar dentro de mim. A exigir-me clareza quando estava confusa, força quando só queria colo, maturidade quando ainda doía. Como se falhar fosse um luxo que nunca me pertenceu. Como se existir tivesse de vir sempre acompanhado de desempenho — e como se esse desempenho tivesse sempre de ser irrepreensível. Cresci a aplaudir-me pouco e a cobrar-me muito. A transformar cansaço em culpa, silêncio em fraqueza, pausa em preguiça. A ser sempre exigente demais comigo. Na minha cabeça eu tinha que ser: a professora mais atenta e competente, a mãe sempre presente, a esposa dedicada, a filha mais disponível. Em cada papel, a mesma exigência silenciosa de perfeição. Sou perita em sobreviver — mas ainda aprendiz em permitir-me. E às vezes pergunto-me quando foi que comecei a tratar-me como projeto em constante correção, em vez de casa habitável. Ser mulher, para mim, tem sido...