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Entre teoremas e equações

Começo o dia cedo, a ensinar Matemática. Às oito chega o primeiro aluno, e chega com aquela frescura quase improvável de quem ainda não foi vencido pelo peso do mundo. Sem sono. Enérgico. Bem-disposto. Com vontade de aprender. E eu, que já venho acordada há muito mais tempo do que o relógio sugere, reconheço logo essa espécie de milagre pequeno que é encontrar alguém com vontade de saber. Aqui, felizmente, nunca falta vontade de ensinar. Sentamo-nos lado a lado, como quem não vem apenas resolver exercícios, mas repartir uma travessia. E talvez ensinar seja isso: não conduzir de cima, mas acompanhar por dentro. Partilhar uma mesa, um caderno, um raciocínio, uma dificuldade, um silêncio. Partilhar o erro sem vergonha e a descoberta sem alarde. Partilhar a vida, no fundo, porque há sempre qualquer coisa de muito humana no instante em que alguém diz “já percebi” e o rosto se ilumina como se por dentro tivesse acendido uma janela. Talvez a nossa relação com a Matemática devesse...

Obrigada Susana.

Há dias em que a luz cai no mundo como se Deus tivesse decidido abrir um pouco mais a janela, e tudo ganha uma nitidez improvável: as árvores parecem saber qualquer coisa que nós esquecemos, o ar entra mais fundo nos pulmões, e até o silêncio tem uma respiração mais mansa. Hoje é um desses dias. Um dia em que a claridade não se limita ao céu. Há também luz dentro de mim. E essa, talvez, seja a forma mais rara de meteorologia. Penso nas pessoas que nos fazem bem. Mas bem mesmo. Não aquelas que passam por nós como passam os comboios por estações pequenas, com pressa e sem memória. Falo das outras. Das que param. Das que se demoram. Das que olham para nós com uma espécie de fé silenciosa, como se vissem uma cidade inteira onde nós ainda só víamos terrenos baldios. Há pessoas assim. Pessoas que chegam à nossa vida e, sem alarde, mudam a mobília do coração. Não fazem barulho ao entrar, mas deixam tudo mais habitável. Olham para nós e encontram valor onde nós tínhamos posto dúv...

Nem sempre é primavera... nem sempre há sol

Há primaveras que não florescem: hesitam. Ficam à porta do mundo como alguém que perdeu a coragem de entrar. Trazem luz, sim, mas uma luz indecisa, como se o céu tivesse dúvidas sobre si mesmo. O vento muda de direção sem avisar, a manhã nasce com promessas que a tarde desmente, e nós, que julgávamos ter aprendido alguma coisa sobre permanência, descobrimos outra vez que até a estação das flores pode ser um lugar de incerteza. Talvez por isso haja dias em que nos parecemos com esta primavera. Dias em que acordamos sem a nitidez do entusiasmo, sem a musculatura invisível da vontade. Dias em que o corpo cumpre, mas a alma falta. Dias em que tudo pesa um pouco mais do que devia: a chávena, a conversa, a memória, o silêncio. Dias em que a tristeza não chega a ser tragédia, mas também não nos concede a delicadeza de ser apenas sombra. Fica ali, pousada em nós, como uma ave húmida. Vivemos num tempo que nos quer inteiros, firmes, luminosos, capazes, inspirados, produtivos, gratos...

👨‍👩‍👧 Manual de instruções para mães (im)perfeitas

Dizem que os bebés não vêm com manual. É mentira. Vêm, sim. Só que o manual desaparece na maternidade, entre a primeira fralda mal posta, a pulseira do hospital, três conselhos contraditórios e uma enfermeira que diz “descanse” como se isso fosse uma atividade realista. A partir daí, a maternidade transforma-se numa espécie de curso avançado de improvisação com privação de sono. E nós, mães, passamos a viver num equilíbrio delicado entre o amor absoluto e a sensação persistente de que estamos a fazer tudo “mais ou menos”. Às vezes mais. Muitas vezes menos. Quase sempre cansadas. Ser mãe, hoje, tem qualquer coisa de maratona emocional com agenda digital. É preciso amar muito, organizar muito, prever muito, sentir muito e falhar discretamente, para não assustar ninguém. Há consultas, lancheiras, e-mails da escola, grupos de WhatsApp, roupa para dobrar, culpa para gerir e a permanente sensação de que há qualquer coisa importante a escapar-nos — normalmente um prazo, uma ...

ao professor Diamantino Rosa

Há professores que ensinam uma disciplina. E há professores que, sem darem por isso, nos ajudam a aprender a vida. O Professor Diamantino Rosa foi, para mim, dessas raras presenças que não cabem apenas na palavra “professor”. Ensinou-me Matemática, sim, mas ensinou-me também coragem, confiança, disciplina, esperança. E ensinou-me, acima de tudo, que educar é um ato profundo de generosidade. Quando penso nele, penso num homem de inteligência luminosa, de humor fino e de coração imenso. Alguém que nunca se limitava a entrar na sala, dar a matéria e sair. Queria saber de nós, sobre nós, da nossa alegria e das nossas inquietações, das nossas vitórias e dos nossos medos. E talvez seja esse o sinal mais bonito dos grandes mestres: não ensinam apenas alunos, encontram pessoas. Ao longo de 35 anos, nunca me desapontou. Sempre me estendeu a mão. Sempre acreditou em mim. E, em momentos em que a vid...

💬 Há conversas que ficam

Nem todas as aulas ficam. Muitas passam como passam os dias — ocupadas, cheias, necessárias, mas rápidas. Cumpre-se o programa, resolvem-se exercícios, explicam-se conceitos, e tudo parece seguir o seu curso natural. Mas, de vez em quando, há qualquer coisa que se desvia desse ritmo. Um pequeno atraso. Um silêncio que se prolonga. Um aluno que não sai. É quase sempre no fim que acontece. Quando os cadernos já se fecharam e o barulho da sala se dilui no final do dia, há alguém que fica para trás. Fica devagar, como quem ainda não decidiu se quer sair. Às vezes aproxima-se com uma dúvida, pede que se explique outra vez, precisa de mais tempo para perceber o que não encaixou durante a aula. E ficamos. Mais uns minutos. Mais matemática. Como se o tempo pudesse esticar um pouco para caber melhor dentro daquilo que ainda falta compreender. Mas há momentos em que a pergunta não é sobre matemática. Vem mais baixa, mais hesitante, como se tivesse de atravessar alguma coisa antes de ser ...

É preciso saber quando deixar ir ...

Há momentos em que a maior coragem não está em insistir — está em saber sair. Aprender a retirar-nos no auge é uma arte silenciosa. Não é desistência, nem fraqueza. É lucidez. É reconhecer o ponto exato onde continuarmos deixa de ser crescimento e passa a ser desgaste. É dizer “chega” antes que algo dentro de nós se parta de forma irreversível. Nem sempre é fácil. Porque há histórias que gostaríamos de ver completas, relações que insistimos em salvar, lugares onde ficamos tempo demais na esperança de que algo mude. Mas há coisas que não mudam. Há pessoas que só nos veem enquanto lhes somos úteis. E há silêncios que dizem tudo aquilo que já não precisamos de ouvir. O mundo, às vezes, parece dividir-se em dois lados pouco justos: os que nos reconhecem enquanto precisam de nós… e os que, depois de saciados, seguem caminho sem olhar para trás. E é aí que aprendemos — não de forma bonita, nem leve — que nem toda a presença é permanência. Há algo de profundamente solitário neste pe...