A difícil arte de abrir as asas
A minha filha vai partir durante um mês. Dito assim, parece pouco. Um mês cabe numa página do calendário, em quatro domingos, numa conta simples de trinta dias. Mas o tempo tem medidas diferentes quando é contado por uma mãe. Há meses que passam depressa e há meses que ocupam uma casa inteira. Vai para a Roménia fazer um estágio em neurocirurgia. Escrevo isto e sinto dentro de mim duas mulheres que não chegam a acordo. Uma delas está profundamente orgulhosa. Olha para a filha e vê uma jovem corajosa, determinada, a atravessar fronteiras para aprender aquilo de que gosta. Imagina-a a entrar num hospital desconhecido, a ouvir outras línguas, a conhecer novas formas de trabalhar, novas cidades, outras culturas e pessoas que, até agora, ainda não existem na sua história. Essa mulher quer empurrá-la suavemente para o mundo e dizer-lhe: — Vai. Aprende tudo. Vê tudo. Vive tudo. A outra mulher preferia esconder-lhe o passaporte. É esta a contradição de ser mãe: passamos anos ...