Amigos
Tenho um bom leque de amigos. Digo isto assim, com a serenidade de quem já percebeu que há coisas que não precisam de inventário. Não me interessa muito saber se são muitos ou poucos. Nunca fui boa a contar pessoas como quem conta moedas dentro de uma caixa. Interessa-me mais saber se são bons. Se são inteiros. Se estão. Se me acrescentam mundo. E, felizmente, os meus são bons. E são suficientes. Há amizades que vêm de longe, de tão longe que já não sei bem onde acabam as memórias e começam as pessoas. Amigos de há mais de trinta anos, que me conhecem antes de eu saber explicar-me. Que já me viram em versões antigas, em rascunhos, em dias sem legenda. Amigos que ficaram, não porque a vida tenha sido sempre fácil, mas porque algumas raízes têm a teimosia bonita das árvores antigas: dobram-se ao vento, mas não desistem da terra. Depois há os outros. Os que chegaram mais tarde. Amigos de meia dúzia de anos, de alguns meses, ou até aqueles que ainda estão a chegar, devagarinho, como...