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Segundas-feiras

Há qualquer coisa de misterioso nas segundas-feiras. Não falo do calendário, nem da disciplina dos relógios, nem dessa pequena violência de recomeçar quando ainda trazemos o corpo preso ao descanso. Falo de outra coisa. De uma espécie de convite secreto que a vida nos faz, todas as semanas, para tentarmos outra vez. A segunda-feira é o mais humilde dos começos. Não tem o brilho solene do primeiro dia do ano, nem a pompa das grandes decisões, nem a ilusão de que tudo pode mudar de uma vez. A segunda-feira sabe que a transformação quase nunca chega com trombetas. Chega devagar. Entra pela cozinha, abre as janelas, faz café, arruma papéis, responde a mensagens, pega ao colo os cansaços e, mesmo assim, insiste: recomeça. Talvez por isso eu goste dela. Porque a segunda-feira não promete milagres. Promete trabalho. E há uma verdade funda nisso. A vida não se recompõe num gesto heroico, mas em pequenas fidelidades: levantar, respirar, voltar ao que importa, pegar...

A Geração 2.0 da Academia mais bonita da cidade

Há muito que trago esta fama comigo: a de ser uma professora dura. Exigente. A que ralha quando não estudam. A que manda muitos trabalhos para casa. A que não facilita. A que não sorri sempre no momento em que seria mais cómodo sorrir. A que insiste, cobra, chama a atenção, repete, volta atrás, não deixa passar. E, no entanto, todos os anos acontece a mesma coisa: sou uma das professoras mais procuradas, a vaga mais difícil de conseguir, o nome que passa de boca em boca, de família em família, de aluno em aluno, como se a contradição, afinal, não fosse contradição nenhuma. Talvez porque, por vezes, se confunda zelo com dureza. E amor com complacência. E atenção com ralhete. Mas quem educa verdadeiramente sabe que há uma diferença imensa entre uma coisa e outra. Eu nunca quis ser a professora que agrada a toda a gente. Quis ser, isso sim, a professora que fica. A professora que marca. A professora que ajuda a construir uma espinha dorsal interior, coisa tão rara e tão necessária n...

Preguiça ou Procrastinação ??? vamos esclarecer

Há crianças e adolescentes que adiam tudo. Adiam o resumo, adiam a ficha, adiam o início do estudo, adiam até o simples gesto de abrir o caderno. E, à primeira vista, isso irrita os pais. Parece desinteresse. Parece preguiça. Parece até desafio. Mas, muitas vezes, não é nada disso. Ou, pelo menos, não é só isso. Há adiamentos que não nascem da falta de vontade. Nascem do excesso de peso. Um filho que procrastina nem sempre está a escolher o caminho mais fácil. Às vezes, está apenas a tentar fugir ao desconforto de não saber por onde começar. Outras vezes, foge ao medo de falhar. Outras ainda, foge à sensação de que nunca será capaz de fazer tão bem quanto lhe pedem — ou quanto ele próprio acha que deveria fazer. E então adia. Não porque não queira. Mas porque não consegue entrar, de forma serena, na tarefa que tem diante de si. A procrastinação é, muitas vezes, uma linguagem. O problema é que os pais escutam “preguiça” quando o que o filho está a dizer, sem palavras, ...

A sexta-feira mais ansiada

Há semanas que a espero como quem espera o sol depois de um inverno demasiado comprido. Há três semanas que não vejo a minha filha, e hoje ela regressa a casa. Digo “regressa a casa”, mas a verdade é que há pessoas que, quando voltam, não entram apenas por uma porta: devolvem-nos um pedaço inteiro de nós. E é isso que sinto. Como se o dia de hoje trouxesse consigo qualquer coisa de reencontro, de recomposição, de respiração funda. Mal posso esperar pelo abraço. Pelo colinho que lhe vou dar, mesmo sabendo que o tempo passou, que a vida andou para a frente, que os anos fizeram o seu trabalho. Há criaturas que nunca deixam de caber no colo da mãe, e talvez o amor seja isso mesmo: uma espécie de geografia afetiva onde o tamanho nunca conta para nada. Continuas a caber no meu colo como quando eras pequenina, embora agora tragas o mundo nos olhos e uma vida inteira a crescer dentro de ti. Espero pelas nossas conversas sem relógio, aquelas que atravessam a noite e se demoram como ...

Entre teoremas e equações

Começo o dia cedo, a ensinar Matemática. Às oito chega o primeiro aluno, e chega com aquela frescura quase improvável de quem ainda não foi vencido pelo peso do mundo. Sem sono. Enérgico. Bem-disposto. Com vontade de aprender. E eu, que já venho acordada há muito mais tempo do que o relógio sugere, reconheço logo essa espécie de milagre pequeno que é encontrar alguém com vontade de saber. Aqui, felizmente, nunca falta vontade de ensinar. Sentamo-nos lado a lado, como quem não vem apenas resolver exercícios, mas repartir uma travessia. E talvez ensinar seja isso: não conduzir de cima, mas acompanhar por dentro. Partilhar uma mesa, um caderno, um raciocínio, uma dificuldade, um silêncio. Partilhar o erro sem vergonha e a descoberta sem alarde. Partilhar a vida, no fundo, porque há sempre qualquer coisa de muito humana no instante em que alguém diz “já percebi” e o rosto se ilumina como se por dentro tivesse acendido uma janela. Talvez a nossa relação com a Matemática devesse...

Obrigada Susana.

Há dias em que a luz cai no mundo como se Deus tivesse decidido abrir um pouco mais a janela, e tudo ganha uma nitidez improvável: as árvores parecem saber qualquer coisa que nós esquecemos, o ar entra mais fundo nos pulmões, e até o silêncio tem uma respiração mais mansa. Hoje é um desses dias. Um dia em que a claridade não se limita ao céu. Há também luz dentro de mim. E essa, talvez, seja a forma mais rara de meteorologia. Penso nas pessoas que nos fazem bem. Mas bem mesmo. Não aquelas que passam por nós como passam os comboios por estações pequenas, com pressa e sem memória. Falo das outras. Das que param. Das que se demoram. Das que olham para nós com uma espécie de fé silenciosa, como se vissem uma cidade inteira onde nós ainda só víamos terrenos baldios. Há pessoas assim. Pessoas que chegam à nossa vida e, sem alarde, mudam a mobília do coração. Não fazem barulho ao entrar, mas deixam tudo mais habitável. Olham para nós e encontram valor onde nós tínhamos posto dúv...

Nem sempre é primavera... nem sempre há sol

Há primaveras que não florescem: hesitam. Ficam à porta do mundo como alguém que perdeu a coragem de entrar. Trazem luz, sim, mas uma luz indecisa, como se o céu tivesse dúvidas sobre si mesmo. O vento muda de direção sem avisar, a manhã nasce com promessas que a tarde desmente, e nós, que julgávamos ter aprendido alguma coisa sobre permanência, descobrimos outra vez que até a estação das flores pode ser um lugar de incerteza. Talvez por isso haja dias em que nos parecemos com esta primavera. Dias em que acordamos sem a nitidez do entusiasmo, sem a musculatura invisível da vontade. Dias em que o corpo cumpre, mas a alma falta. Dias em que tudo pesa um pouco mais do que devia: a chávena, a conversa, a memória, o silêncio. Dias em que a tristeza não chega a ser tragédia, mas também não nos concede a delicadeza de ser apenas sombra. Fica ali, pousada em nós, como uma ave húmida. Vivemos num tempo que nos quer inteiros, firmes, luminosos, capazes, inspirados, produtivos, gratos...