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O que a minha secretária diz sobre o estado da minha alma

Antes de começar a dar explicações, arrumo a minha secretária. Mas quando digo “arrumo”, não estou a falar de empurrar duas folhas para o lado com um ar resolvido e declarar que está tudo sob controlo. Não. Falo de um arrumar sério, meticuloso, quase cerimonial. Os livros no lugar certo, as fichas separadas por anos, as canetas alinhadas, a mesa limpa, a superfície respirável. Só depois consigo começar. Só depois sinto que o cérebro compareceu. Há pessoas que funcionam bem no caos. Eu vivo com uma delas. O meu marido é dessas criaturas que conseguem trabalhar rodeadas por papéis em camadas geológicas, livros abertos em várias direções, apontamentos misteriosos, objetos sem explicação aparente e uma certa estética de “isto parece caótico, mas eu sei exatamente onde está tudo”. E o mais irritante é que, muitas vezes, sabe mesmo. As nossas mesas são o retrato perfeito de duas maneiras opostas de existir. A minha parece dizer: serenidade, método, clareza, estrutura. A dele parece m...

Pensar é um ato de coragem

Há ideias que parecem simples até percebermos o peso que carregam. Uma delas é esta: pensar é um ato de coragem. Hannah Arendt dedicou grande parte da sua vida a observar o mundo, a violência, os regimes totalitários, a obediência cega, e a forma inquietante como os seres humanos podem fazer coisas terríveis sem necessariamente serem monstros no sentido óbvio da palavra. Foi ela quem nos deixou uma expressão perturbadora e inesquecível: a banalidade do mal . Não porque o mal fosse pequeno. Mas porque, muitas vezes, ele nasce da ausência de pensamento. Da incapacidade — ou da recusa — de parar e perguntar: o que estou a fazer? é justo? é humano? Há momentos em que o maior perigo não está apenas na crueldade declarada, mas na obediência sem reflexão, na repetição sem consciência, na vida vivida em piloto automático. Talvez por isso pensar seja, afinal, uma forma de resistência. Pensar não é apenas raciocinar. Não é apenas acumular informação ou saber responder a perguntas di...

Férias

Nestes dias de férias da Páscoa, tenho sentido a vida a abrandar para o ritmo certo. Um ritmo mais humano, mais inteiro, mais nosso. Ter os meus filhos comigo enche-me de uma felicidade profunda, daquelas que não fazem barulho, mas iluminam tudo. Basta vê-los pela casa, ouvir as suas vozes, partilhar os pequenos gestos do dia, para sentir que há uma espécie de milagre discreto nas coisas simples. Há uma alegria feita de presenças, de vozes pela casa, de passos conhecidos, de silêncios que não pesam. Há uma paz difícil de explicar quando os nossos estão perto. E, como se isso já não bastasse para me aquecer o coração, temos também a Mada connosco nestes dias. A minha querida ex-aluna, que a vida foi deixando ficar por perto de um modo tão bonito. Gosto muito de a ter na Academia. A Mada gosta do sossego, da calma e do bom ambiente que ali se vive, desse silêncio habitado que ajuda a estudar e a respirar melhor. Vai preparando os seus exames da faculdade, concentrada, serena, feliz no ...

O mistério de existir

Há dias em que penso numa coisa curiosa. Passamos grande parte da vida a tentar compreender o mundo. Queremos explicar tudo, dar nome às coisas e organizar os sentimentos em frases claras. Mas a verdade é que viver raramente é assim tão organizado. Há pensamentos que aparecem sem aviso. Memórias que regressam de repente. Sensações difíceis de explicar, como uma nostalgia leve por algo que nunca chegou realmente a acontecer. Às vezes estou apenas a caminhar na rua, a ouvir uma música, ou a olhar pela janela — e, de repente, sinto de forma muito nítida o simples facto de estar viva e a força que isso impõe. É um instante estranho e bonito ao mesmo tempo. Como se, por um momento, a vida se revelasse sem grandes explicações. Durante muito tempo achei que era preciso perceber tudo. Que as emoções tinham de ter uma razão clara. Que as decisões tinham de fazer sentido. Que os caminhos tinham de estar bem definidos. Com o tempo fui percebendo outra coisa. Há partes da vida que...

O meu ano começa quando a vida recomeça

Ao contrário de muitas pessoas, o meu ano não começa em janeiro. Janeiro, para mim, é continuidade. É apenas a página seguinte de um livro que já vinha a ser escrito. Não há rutura, não há verdadeiro recomeço — há apenas um prolongamento do que já estava em curso. Nunca senti em janeiro esse impulso de começar de novo. Talvez porque o inverno ainda é tempo de recolhimento, de interior, de pausa. Um tempo necessário, mas não inaugural. O meu ano começa mais tarde. Começa quando a luz muda. Começa quando o frio deixa de ser dominante e a terra, silenciosamente, começa a preparar-se para renascer. Começa na primavera a sua preparação e acentua-se na Páscoa. É a Páscoa que marca, para mim, o verdadeiro início. Há qualquer coisa de profundamente simbólico — e talvez profundamente humano — nessa ideia de renascimento. Tal como a ressurreição nos fala de um tempo novo, também a Páscoa, na minha vida, é esse ponto de viragem invisível onde tudo recomeça, mesmo que nad...

Domingos

Há dias que não fazem barulho. Não chegam com anúncios nem com grandes acontecimentos. Instalam-se devagar, como a luz que entra pelas frestas da janela e, sem pedir licença, vai ocupando o espaço. Hoje foi assim. Um domingo de sol. Acordei mais tarde do que o habitual — aquele acordar sem culpa, sem pressa, sem a urgência das horas que nos empurram nos dias úteis. Fiquei ainda algum tempo entre o sono e a vigília, naquele estado suspenso onde tudo é mais leve e o mundo ainda não pesa. Levantar num dia assim é diferente. Há uma espécie de suavidade nos gestos, uma lentidão que não é atraso, mas escolha. A casa estava tranquila. Faltava apenas a filha mais nova — está longe, por terras de Espanha, em digressão com a sua Tuna, a viver a vida no seu próprio ritmo. Mas essa ausência não é um vazio. É apenas um intervalo com data marcada. Amanhã já volta ao colo da mãe. E isso muda tudo. Preparei o almoço sem pressa. Há qualquer coisa de profundamente humano em cozinhar para os nosso...

Tornar-te quem és

Há dias em que caminho sem pressa. Não caminho para chegar a algum lugar específico. Caminho apenas para deixar os pensamentos encontrarem o seu próprio ritmo. Numa dessas caminhadas, há uns meses, lembrei-me de uma frase de Nietzsche que me acompanha desde então. “Torna-te quem és.” Na primeira vez que a ouvi pareceu-me uma espécie de enigma. Como podemos tornar-nos aquilo que já somos? Parecia uma frase bonita, mas um pouco misteriosa — daquelas que os filósofos deixam no ar como quem semeia perguntas. Hoje penso nela de outra forma. Talvez Nietzsche estivesse a falar de uma das tarefas mais difíceis da vida: regressar a nós próprios. Porque a verdade é que ninguém nasce sabendo exatamente quem é. Nascemos com possibilidades. E depois o mundo começa, lentamente, a ensinar-nos quem devemos ser. A família sugere caminhos. A escola organiza comportamentos. A sociedade distribui expectativas invisíveis. Aprendemos cedo o que é valorizado, o que é considerado su...