Travessia
Há pessoas que ficam para sempre à porta. Não porque sejam más pessoas. Nem porque eu seja, necessariamente, uma casa fechada. Mas porque há entradas que não se forçam, intimidades que não se decretam, afetos que não se conquistam com insistência. Há pessoas que chegam à nossa vida e permanecem no hall de entrada, nesse lugar intermédio onde se cumprimenta, se sorri, se conversa sobre o tempo, sobre os dias, sobre as pequenas banalidades necessárias. E está tudo bem. Nem todas as pessoas foram feitas para atravessar a casa inteira. Durante muito tempo achei que isto era dureza minha. Hoje penso que talvez seja apenas sabedoria aprendida com alguns tropeções. A vida ensina-nos que há quem não deva entrar. Há quem não saiba limpar os pés antes de pisar o chão dos outros. Há quem confunda acolhimento com posse, disponibilidade com obrigação, confiança com direito adquirido. E há também quem fique no hall porque não quer mais do que isso, porque só sabe estar à superfície, porque tra...