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As dez resoluções da aluna Emília

Depois de observar atentamente vários anos letivos - quase sempre de olhos fechados -, a Emília decidiu partilhar connosco o seu plano para o novo ano. Considera-se preparada para esta responsabilidade. Tem experiência prolongada na ocupação de cadeiras, conhece todos os lugares da Academia onde o sol bate durante a tarde e domina uma técnica avançada de concentração que, vista por pessoas menos esclarecidas, pode parecer sono profundo. É uma incompreendida. Como qualquer aluna dedicada, a Emília estabeleceu dez resoluções. Algumas são pedagogicamente defensáveis. Outras exigiriam alterações profundas ao sistema educativo e um aumento preocupante do número de almofadas nas salas de aula. Ainda assim, talvez haja alguma sabedoria escondida entre tantos bocejos. Começar o dia sem entrar imediatamente em pânico. A Emília não consulta calendários, não conta os dias que faltam para os testes e nunca acordou sobressaltada por se ter esquecido de entregar um trabalho. ...

O primeiro teste não é uma sentença

Há um momento, no início de cada ano letivo, em que o primeiro teste regressa às mãos dos alunos. Antes de a folha chegar à mesa, já o coração fez várias contas, quase todas erradas. O professor aproxima-se, o silêncio aumenta e, durante alguns segundos, parece que aquele número escrito no canto superior da página está prestes a revelar não apenas o resultado de um teste, mas o futuro inteiro. Há quem olhe imediatamente. Há quem vire a folha ao contrário, como se a nota pudesse melhorar alguns valores enquanto permanece escondida. Há quem espreite discretamente a classificação do colega, porque a comparação é uma tentação rápida e raramente pede autorização. E há quem descubra, naquele instante, que afinal rezar continua a ser uma estratégia de avaliação bastante popular. Depois, vê-se o número. Às vezes chega o alívio. Outras vezes, a alegria. Há também a desilusão, a vergonha, a raiva ou aquele silêncio de quem tinha estudado e não compreende o que correu mal. O prime...

A motivação nem sempre vem primeiro

Há uma frase que os alunos dizem muitas vezes, geralmente acompanhada por um suspiro suficientemente profundo para deslocar o ar da sala: “Eu até queria estudar, mas não tenho motivação.” Compreendo. A motivação é uma criatura pouco pontual. Promete aparecer depois do almoço, manda mensagem a dizer que está quase a chegar e, quando damos por ela, já são dez da noite e temos um teste no dia seguinte. Esperar pela motivação é um pouco como esperar por aquela pessoa que diz “já estou a sair” quando ainda está a escolher a roupa. Podemos gostar muito dela, mas talvez não seja prudente confiar-lhe o horário. Durante demasiado tempo fizeram-nos acreditar que a vontade tinha de chegar antes da ação. Primeiro sentiríamos entusiasmo, depois abriríamos o caderno, estudaríamos durante horas e terminaríamos a noite profundamente satisfeitos, com a matéria compreendida e os apontamentos dignos de exposição. Às vezes acontece. Também há gatos que obedecem quando são chamados. Na mai...

Manifesto para um ano que ainda não sabe do que somos capazes

Há um instante estranho no início de cada ano letivo em que tudo parece ainda possível. Os cadernos não têm erros, as canetas conservam as tampas, os horários ainda não foram amarrotados no fundo das mochilas e há uma espécie de confiança com cheiro a papel novo. Fazemos planos. Estabelecemos metas. Compramos marcadores de várias cores, convencidos de que a organização cromática resolverá grande parte dos nossos problemas. Durante alguns dias, acreditamos sinceramente que nunca deixaremos matéria acumular, que estudaremos sempre com antecedência e que nenhum trabalho será iniciado na véspera da entrega. É uma fase bonita. Na nossa Academia, a Emília também começa o ano cheia de boas intenções. Tenciona dormir mais, ocupar um maior número de cadeiras e aperfeiçoar a técnica de se deitar precisamente sobre a folha de que alguém precisa. Cada um estabelece as metas que estão ao alcance das suas patas. Mas este texto não é sobre a Emília. Pelo menos, não inteiramente. É sobre ...

Cadernos de Setembro — Pequeno guia para um grande ano

Setembro tem esta estranha maneira de chegar: traz cadernos ainda sem erros, horários que ninguém decorou, mochilas demasiado pesadas e uma quantidade generosa de promessas. Este ano vou estudar desde o primeiro dia. Este ano não vou deixar acumular matéria. Este ano vou fazer resumos, organizar os apontamentos e nunca começar um trabalho na véspera. Depois, naturalmente, a vida acontece. Há dias em que a vontade não aparece, matérias que parecem escritas numa língua desconhecida, testes que não correm como esperávamos e manhãs em que sair da cama já merecia classificação. A Emília, a aluna mais dorminhoca da nossa Academia, conhece particularmente bem estas últimas. Continua convencida de que uma sesta prolongada sobre os cadernos constitui uma forma legítima de aprendizagem por contacto. Até ao momento, não conseguimos confirmar cientificamente a eficácia do método. Talvez por isso tenha nascido esta série: Cadernos de Setembro — Pequeno guia para um grande ano . Não será u...

5 de setembro. sempre o pior dia para viver.

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No dia em que o meu pai desapareceu, Deus não existia. Talvez tivesse existido até ao dia anterior. Talvez exista agora. Mas não naquele dia. O céu estava limpo, o ar parado, e tudo pronunciava lentas horas de tédio. Não havia uma nuvem escura, um trovão, uma rajada de vento que fizesse estremecer as árvores. Nada no mundo parecia saber que o meu mundo acabava. Quando me disseram que o meu pai tinha morrido, a dor não foi uma metáfora. Doeu-me fisicamente. Há notícias que o corpo recebe antes de conseguirmos compreendê-las. O meu recebeu aquela como se alguma coisa me tivesse atravessado por dentro. E eu gritei. Não sei explicar aquele grito. Sei apenas que saiu de um lugar de mim que eu desconhecia. Foi um grito de uma intensidade que nunca mais consegui repetir na vida. Nem antes, nem depois, alguma vez produzi um som semelhante. Talvez porque aquele não fosse verdadeiramente um som da minha voz. Era o som da minha alma a morrer. Nesse dia, a minha alma morreu. De...

Sangria, mojitos e outras formas de dizer «gosto de ti»

Esta semana foi escandalosamente feliz. Digo escandalosamente porque, com o estado do mundo, as notícias a cair-nos em cima antes mesmo do primeiro café e a vida sempre atrasada em relação à agenda, ser feliz começa a parecer uma pequena forma de insubordinação. Quase uma falta de respeito. Mas a verdade é que esta semana foi, sem dúvida, muito feliz. Primeiro porque houve um jantar cá em casa. E se é verdade que eu gosto de cozinhar, cozinhar para alguém de quem gosto está noutro patamar... está muitos níveis acima. É uma espécie de declaração de amor num lugar onde a comida deixa de ser apenas comida e passa a ser linguagem. Gosto de pensar na ementa, escolher o vinho, comprar os ingredientes, decidir quais as frutas que irão mergulhar na sangria de verão. Há frutas com vocação para a felicidade. Uma framboesa dentro de uma sangria parece saber mais sobre a vida do que muitos de nós. Depois escolho a loiça, ponho flores na mesa, mudo um copo de lugar, volto a colocá-lo exatam...