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Negligência que deixa marcas

Há uma forma de negligência que não faz barulho. Não parte vidros, não levanta a voz, não deixa marcas visíveis. Instala-se devagar, como pó sobre os móveis, até que tudo parece naturalmente baço. É a arte triste de fazer pela metade, de cumprir calendário em vez de cumprir missão. Ensinar mal não é apenas explicar mal uma matéria. É muito mais do que isso. É entrar numa sala como quem entra num elevador: carregar num botão, esperar que o tempo passe, sair no andar seguinte sem ter verdadeiramente estado ali. É repetir palavras sem lhes dar raiz. É cumprir horários sem cumprir consciência. E, no entanto, há sempre alguém do outro lado — olhos abertos, cadernos prontos, futuros frágeis como porcelana fina. Preparar mal é uma forma de abandono elegante. Fica tudo aparentemente em ordem: conteúdos dados, avaliações feitas, papéis assinados. Mas falta o essencial — a responsabilidade de saber que cada descuido é uma pedra colocada no caminho de quem ainda nem aprendeu a desviar-se....

Uma tarde por preencher

Há crianças que sabem de cor os dias da natação, do inglês, da música e do treino. Sabem em que saco vão as sapatilhas, em que mochila ficou a flauta e a que horas é preciso estar à porta. Transportam pequenos calendários dentro da cabeça. Se lhes perguntarmos quando podem não ter nada marcado, talvez precisem de consultar um adulto. Os adultos, entretanto, fazem o melhor que sabem. Conduzem, esperam, preparam lanches, procuram horários compatíveis com outros horários que, por sua vez, já eram incompatíveis com quase tudo. Há famílias que mereciam uma medalha de logística ao domingo à noite. E, no meio desta engenharia, existe quase sempre uma intenção bonita: dar oportunidades aos filhos, ajudá-los a descobrir talentos, oferecer-lhes aquilo que, por vezes, os próprios pais não puderam ter. Aprender é, de facto, uma das grandes aventuras da vida. E essa aventura acontece em muitos lugares. Na escola, num campo de jogos, numa sala de música, num palco, num passeio. O desporto p...

Quem sou quando alguém me olha

Não sei em que parte da vida nos perdemos. Desconfio de que raramente acontece de uma vez. Vamos ficando um pouco para trás nos lugares onde tivemos de ser fortes, nas palavras que engolimos, nas despedidas para as quais ninguém nos ensinou uma resposta. Um dia, ao dizermos o nosso nome, demoramos um instante a reconhecer a pessoa que responde. Também não sei exatamente como nos encontramos. Há encontros connosco que acontecem muito discretamente: numa conversa em que baixamos a guarda, numa gargalhada que nos surpreende, na liberdade de dizer que estamos cansados sem acrescentar uma justificação. Já vivi coisas que ninguém deveria precisar de viver. Vi e senti o que ainda hoje tenho dificuldade em acomodar dentro das palavras. Algumas lembranças continuam sem nome. Sei onde estão, reconheço-lhes o peso, mas nem sempre consigo abrir a porta do lugar onde as guardo. Reconstruí-me muitas vezes sozinha. Houve dias em que fui apanhando do chão os cacos da pessoa que era, se...

O que cabe num «mas»

Ontem ouvi uma frase que me incomodou: «É importante saber resolver equações, mas mais importante é ter educação emocional.» Fiquei a pensar nela. Na facilidade com que algumas frases recebem a aprovação de uma sala inteira, enquanto deixam, algures, uma pequena injustiça por esclarecer. Soam bem, parecem generosas, trazem palavras de que todos gostamos. E, no entanto, talvez mereçam que lhes façamos perguntas antes de lhes oferecermos o nosso acordo. Mais importante em que circunstâncias? Para quê? E por que razão precisamos de colocar estas duas aprendizagens numa competição? Compreendo a preocupação que pode estar na origem da frase. Uma escola absorvida pelos resultados pode esquecer o que se passa dentro de quem aprende. Pode reparar na descida de uma classificação e não reparar na tristeza que a antecedeu. Pode ensinar um aluno a responder a todas as perguntas de um teste sem lhe dar espaço para dizer que está assustado. Essa preocupação é necessária. Como profess...

Há fins de semana que passam depressa demais…

Há fins de semana que deviam ter mais horas. Não necessariamente mais dias, porque isso seria pedir demasiado ao calendário, mas umas horas escondidas nos bolsos do tempo, daquelas que pudéssemos tirar quando a vida nos oferece aquilo que verdadeiramente importa. Este foi um desses fins de semana. Um fim de semana cheio de trabalho, de responsabilidades, de tarefas que não sabem esperar e de relógios que parecem correr sempre um bocadinho mais depressa do que nós. Sábado, trabalhei até tarde. Domingo, a manhã voltou a pertencer aos compromissos. Há semanas assim, imparáveis, em que os dias se atropelam uns aos outros e as listas de coisas por fazer parecem reproduzir-se durante a noite, sem pedir autorização. Mas, no meio desta correria toda, aconteceu uma daquelas coisas simples que fazem uma mãe sentir que tem o mundo inteiro dentro de casa. Tive os meus dois filhos comigo. Ao mesmo tempo. Debaixo do mesmo teto. E isto, que durante tantos anos foi a coisa mais natural do m...

O sol do lado de dentro

Há sábados que começam às oito da manhã e só pousam o lápis às oito da noite. Pelo meio, cabem muitos alunos, muitas horas de Matemática, vários níveis de ensino e uma quantidade de dúvidas que, se fosse possível arrumar em caixas, exigiria uma sala maior. Este foi um desses sábados. Longo, cheio, diverso. E vivido com a mesma alegria e o mesmo entusiasmo em cada hora dada. Lá fora, o sol brilhou. Cá dentro, também. Há uma luz muito particular naquele instante em que um aluno levanta os olhos do caderno e diz: «Ahhh… agora faz sentido!» Gosto de assistir a esse momento. A expressão muda, os ombros descontraem-se, o lápis regressa ao papel com outra vontade. Uma coisa que parecia impossível começa a ganhar contornos. E, por alguns segundos, até uma equação pode iluminar uma sala. Ensinar é ter o privilégio de acompanhar estas pequenas mudanças. Perceber onde se perdeu o fio, recuar o necessário, escolher outro exemplo, experimentar outra pergunta. Há quem precise de ...

Roubaram-me uma página. A história continua.

No dia em que me hackearam as contas do Instagram, senti-me como quem chega a casa e encontra as gavetas das memórias vazias. Na página da Academia estavam anos de partilhas. Anos de trabalho, de dedicação, de momentos únicos que tinham encontrado ali uma maneira de ficar. Pequenos pedaços da nossa história, guardados com a confiança de quem acredita que poderá voltar para os visitar. De repente, deixei de lhes poder chegar. Há uma tristeza muito particular em perder assim aquilo que fomos construindo devagar. Nós sabemos o que estava dentro de cada publicação. Sabemos o tempo que lhe demos, a alegria com que a escrevemos, o motivo pelo qual quisemos guardar aquele instante. Para quem invade, talvez tudo se resuma a uma conta. Para quem fica deste lado, há vida lá dentro. E é isso que me custa compreender: o que leva alguém a entrar no espaço de outra pessoa e a estragá-lo? Que satisfação pode haver em causar esta tristeza? Em tocar no trabalho dos outros com tamanh...