Mensagens

Sol e pés descalços

​ O verão não chega de repente. Vai-se insinuando. Primeiro na luz que demora mais a ir embora, depois no calor que já não pede licença, e, quando damos por isso, já estamos diferentes — mais soltos, mais leves, quase como se alguém tivesse desapertado um botão invisível dentro de nós. A casa enche-se de filhos. De mochilas largadas a um canto, de toalhas húmidas, de gargalhadas que ecoam pelos corredores. Há barulho, há desarrumação, há vida. E, curiosamente, é nesse caos meio feliz que tudo faz mais sentido. As tardes são de praia. De pés descalços, de corridas até à água, de sal na pele e cabelo desalinhado. Há uma liberdade que só o verão sabe dar — como se, por uns meses, ninguém estivesse a avaliar, a medir, a exigir. Somos só nós, inteiros, com o sol a aquecer por fora e uma espécie de luz a acender por dentro. Ao fim do dia, chegam os petiscos. As conversas sem plano. Os amigos que aparecem e ficam. Fala-se de tudo e de nada, ri-se alto, inventam-se histórias ou repetem-se as m...

Dois aniversários e a mesa onde a vida se senta

Há fins de semana que parecem maiores do que os dias que os compõem. Começam numa sexta-feira qualquer, com sacos por preparar, mensagens por responder, presentes por embrulhar, e acabam por se transformar numa pequena geografia do afeto. Não uma geografia de mapas, estradas ou coordenadas, mas de mesas, abraços, cadeiras puxadas para mais perto, vozes sobrepostas e mãos que se estendem para oferecer qualquer coisa: um prato, uma lembrança, um cuidado, um lugar. Este fim de semana teve dois aniversários. Um deles era o meu. Digo isto com a estranha surpresa de quem ainda se espanta por continuar a fazer anos. Não porque não goste de os fazer. Gosto. Gosto muito. Mas há qualquer coisa nos aniversários que nos obriga a olhar para a vida de frente, sem demasiados disfarces. Fazemos anos e, de repente, o tempo deixa de ser uma abstração. Senta-se connosco à mesa. Serve-se de um copo de vinho. Prova o bolo. Ri-se das fotografias antigas. Conta-nos, ao ouvido, que estamos aqui há mais u...

"SUSPENSA" - A pauta da vergonha.

Há dias em que a escola parece ser feita de paredes, pautas, plataformas e regulamentos. Mas não é. A escola é feita de rostos. De alunos que esperam. De pais que perguntam. De professores que tentam acalmar. De diretores que recebem orientações em cima da hora. De funcionários que ficam para lá do seu horário. De gente que, mesmo cansada, continua a tentar que nada falhe, mesmo quando quase tudo já falhou. Foi isso que se viu nesta trapalhada dos exames nacionais. Não foi apenas um atraso. Não foi apenas uma dificuldade técnica. Não foi apenas mais uma “perturbação” num processo administrativo. Foi a vida de milhares de alunos colocada em suspenso. Literalmente, em alguns casos. Em vez de uma classificação quantitativa, apareceu uma palavra fria, absurda e quase cruel: “suspenso”. Suspenso ficou o aluno. Suspensa ficou a família. Suspensa ficou a decisão de ir ou não à segunda fase. Suspensa ficou a candidatura. Suspenso ficou o verão inteiro de quem tinha o futuro pendurado numa pa...

julho, ou a minha forma de nascer outra vez, mais um ano

Nasci em julho. Gosto de dizer isto como quem diz que nasceu com o sol do lado de dentro. Talvez seja exagero, mas eu tenho uma certa ternura pelos meus exageros. Nasci no meu mês preferido, na minha estação preferida, debaixo de uma luz que me parece sempre mais minha do que as outras. Há pessoas que pertencem à chuva, outras ao nevoeiro, outras aos dias curtos de inverno. Eu pertenço ao calor, às tardes demoradas, às cigarras, às noites claras, às janelas abertas e àquele cansaço doce de quem viveu o dia até ao fim. Sou de julho. Do mês sete. Logo eu, que adoro números pares. Mas há aqui uma pequena ironia cósmica que me diverte. O mês que me recebeu é ímpar, mas o dia em que nasci é par, como se o universo tivesse querido fazer uma espécie de negociação comigo: dou-te um mês solar, intenso, luminoso, mas deixo-te nascer num número certo, redondo, equilibrado, daqueles que se dividem melhor no meu coração matemático. Toda a gente sabe que gosto de números pares. Gosto da idei...

o que de mim vive em cada um de vós

Imagem
Cada pessoa que passa pela nossa vida leva consigo uma versão de nós. Não necessariamente aquela que julgamos ser a mais bonita. Nem sequer aquela que gostaríamos que recordasse. Leva a versão a que teve acesso, no tempo em que nos conheceu, à distância a que conseguiu chegar e com os olhos que tinha para nos ver. Há pessoas que ainda guardam de mim a criança que fui. Talvez se lembrem da menina que cresceu entre gente trabalhadora, numa família onde as coisas não apareciam por milagre e onde o esforço não era uma qualidade: era uma forma de viver. A menina que aprendeu cedo que quase tudo custa, que o pão tem o peso das mãos que o amassaram e que nenhuma conquista nos autoriza a esquecer o chão de onde viemos. Essa criança continua dentro de mim. Não como uma fotografia antiga, guardada numa gaveta, mas como uma espécie de bússola. É ela que me impede de perder o norte quando a vida corre bem. É ela que me recorda que os títulos, os lugares e as conquistas são apenas cir...

sobre a fragilidade de certos laços

As amizades não terminam apenas por falta de cuidado. Terminam também por negligência, por ausência, por silêncio repetido. Primeiro secam as flores. Depois endurece a terra. Por fim, já ninguém reconhece o lugar onde antes existia vida. E então chega a solidão. Não como castigo, mas como consequência. ... ... Quem nunca visita o jardim dos outros acaba, mais cedo ou mais tarde, por habitar o seu próprio deserto. PB

O hall de entrada

Há pessoas que entram na nossa vida como quem toca à campainha com delicadeza. Não insistem. Não batem com força. Não espreitam pelas janelas, nem tentam adivinhar o que guardamos atrás das cortinas. Ficam apenas ali, do lado de fora, com a paciência tranquila de quem sabe que certas portas não se abrem por pressão. Abrem-se quando se sentem seguras. Eu sempre fui uma casa difícil de visitar. Não porque não goste de pessoas. Gosto muito de pessoas. Talvez até goste demasiado. E talvez seja precisamente por isso que aprendi a proteger-me delas. Sou perita em esquivar-me. Em inventar compromissos quando o verdadeiro compromisso é ficar em casa. Em trocar uma sala cheia de gente pelo silêncio do meu sofá, uma conversa aos gritos pelo som discreto dos meus pensamentos. Sou ligeiramente tímida, bastante introvertida e profundamente fiel à minha concha. Há dias em que o meu mundo interior me chega. Há dias em que até me sobra. Fujo de grandes aglomerados, de confusões,...