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🪨 Sobre Sísifo, o absurdo… e continuar

Alguém me deixou um comentário no texto anterior ... Alguém que comentou: “Sísifo e o absurdo da vida, mas ainda assim feliz.” Fiquei a pensar nessa frase. Porque há ali qualquer coisa que fica e porque há momentos em que a vida parece exatamente isso: Como Sísifo, a empurrar a pedra montanha acima. Estudamos, esforçamo-nos, tentamos fazer melhor… e, às vezes, tudo parece voltar ao início. Outra vez. Sem aplausos. Sem garantias. Sem aquele “cheguei” que imaginámos. E então aparece a pergunta — talvez a mais difícil de todas: Se tudo isto se repete… onde está o sentido? Talvez não esteja no topo. Talvez nunca tenha estado. A ideia de Sísifo, como a descreve Camus, não é sobre desistir. É sobre perceber que, mesmo quando o caminho não tem um fim claro, há algo profundamente humano em continuar. Não porque é fácil. Mas porque é escolha. E isso muda tudo. Porque talvez o sentido da vida não esteja apenas em alcançar alguma coisa final, mas na forma como caminhamos — mesmo quan...

Deixa estar

Há uma liberdade silenciosa que só descobrimos tarde na vida: a liberdade de perceber que não precisamos de resolver todas as pessoas. Durante muito tempo achei que era possível explicar melhor, insistir um pouco mais, conversar com mais clareza — e que, assim, talvez as pessoas se entendessem melhor. Talvez seja uma deformação de quem ensina. Quem passa a vida a ensinar acredita profundamente no poder das explicações. Acredita que o pensamento pode abrir caminhos e que as palavras certas, ditas no momento certo, conseguem aproximar pessoas. Mas a vida não funciona exatamente como uma aula bem preparada. Há uma altura em que percebemos que cada pessoa habita o mundo a partir do seu próprio território interior. Cada um carrega as suas histórias, as suas fragilidades, as suas feridas invisíveis, os seus limites. E então aprendemos uma coisa que parece simples, mas que leva anos a aceitar verdadeiramente: nem tudo depende de nós. Não depende de nós aquilo que os outros sent...

O domingo do domingo

Deitei-me às 5h30 da manhã. Não foi festa, não foi insónia existencial — foi tese. Aquela relação intensa, exigente e um bocadinho tóxica que nos faz prometer “só mais um parágrafo” até o relógio deixar de fazer sentido. Acordei (ou algo parecido com isso) com a elegante sensação de quem foi atropelada por um comboio académico. E foi aí que tive uma epifania: já não tenho idade para diretas. Tenho responsabilidades. Muitas. Demasiadas? Talvez. Negociáveis? Nem por isso. Porque entretanto sou mãe, filha, esposa, professora, explicadora de matemática, orientadora de alunos… e, aparentemente, também atleta de resistência numa maratona de 7 dias por semana, das 8h até à madrugada. Sem medalha no fim, só cafés e listas de tarefas que se reproduzem sozinhas. Hoje, o cérebro pede pausa, mas a vida responde com: fichas para corrigir, turmas para orientar, equações para explicar, alunos para motivar. E eu ali, a sonhar com um domingo… só um domingo dentro do domingo. Um espaço-tempo secreto ond...

O que dá sentido à vida?

Há uma pergunta que mais cedo ou mais tarde aparece na cabeça de todos nós. O que dá sentido à vida? Quando somos jovens — e mesmo quando já não somos assim tão jovens — muitas vezes pensamos que a resposta tem a ver com sucesso. Boas notas. Entrar na universidade certa. Conseguir um bom trabalho. Ser reconhecido. Ter uma vida que os outros admiram. A sociedade fala muito disso. Parece que a vida é uma corrida e que todos estão a tentar chegar primeiro a um lugar chamado “sucesso”. Mas quero contar-vos uma coisa importante. O sucesso não é uma coisa má. Querer alcançar objetivos, estudar, trabalhar, construir uma vida com propósito — tudo isso faz parte do crescimento. Ser uma boa pessoa e ter sucesso não são coisas incompatíveis. Pelo contrário. Muitas das pessoas que realmente admiramos conseguiram alcançar coisas importantes sem deixar de ser generosas, honestas e humanas no caminho. O problema não está em querer chegar longe. O problema começa quando fi...

Arranjar tempo

Há dias que parecem não ter fim, dias que se estendem como uma linha contínua de tarefas, vozes, decisões e pequenas urgências que se acumulam sem pedir licença. E, no entanto, é precisamente nesses dias — talvez apenas nesses — que se tornam possíveis os encontros mais improváveis e mais necessários. Hoje foi um desses dias. No final de tudo, quando o cansaço já se insinuava no corpo e a vontade mais imediata seria recolher, houve uma escolha quase impercetível, mas profundamente significativa: arranjar tempo. Não encontrar tempo — porque esse, sabemos, nunca aparece — mas criá-lo, como quem abre uma clareira no meio do ruído. Fomos jantar. Três. E há algo de misterioso no modo como certos encontros acontecem, como se fossem já antigos antes mesmo de começarem. Sentámo-nos à mesa e, sem qualquer cerimónia, os lugares habituais foram ficando para trás. Não houve momento de transição, não houve anúncio — apenas aconteceu. Deixámos de ser o que éramos durante o dia. Não havia ali...

Não precisamos ser perfeitos

Há uma exigência em mim que nem sempre se vê com ternura — mas nasce dela. Há dias em que me apercebo de uma coisa que nem sempre gosto de admitir. Às vezes sou demasiado dura. Não por maldade, nem por falta de cuidado com os outros. Pelo contrário. Talvez seja precisamente porque me importo demasiado que, por vezes, me torno mais exigente do que gostaria. Tenho dentro de mim uma espécie de exigência silenciosa que me acompanha desde sempre. Uma voz que me pede mais rigor, mais atenção, mais perfeição. Aprendi, não sei bem quando, que fazer bem não bastava — era preciso fazer melhor. E esse “melhor” foi crescendo comigo, como uma régua invisível que raramente desce. Quero fazer tudo bem. Quero que as coisas resultem. Talvez porque fui ensinada assim desde muito cedo. Cresci com a ideia de que era preciso fazer bem, fazer melhor, fazer sempre um pouco mais. Como se o valor das coisas — e das pessoas — estivesse muitas vezes escondido na capacidade de acertar, de correspon...

Dois pais

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Hoje é Dia do Pai. E hoje penso muito em dois. No pai que os meus filhos tiveram a sorte de encontrar — e no pai que eu tive a sorte de ter. O pai que dei aos meus filhos é tudo aquilo que eu sempre desejei que fosse. Companheiro. Divertido. Brincalhão. Parceiro de aventuras. Um pai presente desde o primeiro instante. Daqueles que não ficam apenas à margem da infância, mas entram nela com os dois pés. Que se sentam no chão para brincar, que escutam com atenção, que sabem quando é preciso rir e quando é preciso explicar o mundo com calma. Foi ele quem esteve ao lado deles nos trabalhos de História e de Geografia. Quem passou horas a explicar conceitos de Física e de Geometria Descritiva, não apenas para resolver exercícios, mas para despertar curiosidade. Porque há pais que ensinam respostas. E há pais que ensinam a pensar. Também houve longas conversas. Partilhas. E aquelas chamadas de atenção que todos os filhos precisam de ouvir — mas dadas sempre com uma paciên...