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Há dias ....

Há dias em que o mundo parece escrito a lápis. Sem cor definida, sem contornos firmes. Como se alguém tivesse passado uma borracha suave por cima de tudo — das vontades, dos planos, até das pequenas alegrias que costumam fazer barulho dentro de nós. Há dias em que acordo e não há nada de errado. E isso, curiosamente, também não ajuda. Está tudo no lugar. As pessoas continuam a ser quem são. O dia acontece como sempre acontece. Mas eu… eu não estou exatamente aqui. Ou estou, mas de forma mais leve, mais distante, como quem observa a própria vida através de um vidro ligeiramente embaciado. Há dias assim. Dias cinzentos, sem tempestade nem sol — apenas uma espécie de nevoeiro que se instala por dentro. Não acontece nada de errado, ninguém disse nada que magoe, nada correu particularmente mal… e, ainda assim, há qualquer coisa desalinhada. Um silêncio estranho. Uma falta de brilho difícil de explicar. São dias de sentimentos turvos, de energia baixa, de vontade pouca. Dias em q...

As nossas pequenas metamorfoses

Às vezes penso que passamos a vida inteira a transformar-nos. Não de forma brusca ou assustadora como na história de Kafka, em que um homem acorda de repente transformado numa criatura estranha e irreconhecível. Não, as nossas metamorfoses são mais discretas. Acontecem devagar e quase sempre sem ruído. Um dia acordamos e percebemos que algo mudou dentro de nós. Já não pensamos exatamente da mesma maneira. Já não reagimos com a mesma urgência e certas coisas que antes nos magoavam profundamente agora passam por nós como uma chuva leve. Não foi num instante, foi aos poucos, suavemente. Um desapontamento aqui, uma alegria ali, uma perda, um reencontro, uma conversa que ficou a ecoar dentro da cabeça durante dias. E sem darmos conta, vamos mudando. Há versões antigas de nós que ficaram pelo caminho. A pessoa que fomos aos vinte anos já não existe exatamente. Nem a pessoa que fomos aos trinta. Nem aquela que acreditava que tudo tinha de fazer sentido imediatamente. Hoje...

As pessoas da manhã, as pessoas da noite e os sobreviventes

A humanidade divide-se, de forma geral, em três grandes grupos: as pessoas da manhã, as pessoas da noite e os sobreviventes. As pessoas da manhã são aquelas criaturas luminosas, moralmente superiores que, antes das sete da manhã, já beberam água morna com limão, abriram as janelas, responderam a dois emails e talvez até tenham tido uma breve epifania enquanto arrumavam a máquina da loiça. Acordam cedo por inclinação natural, o que já levanta suspeitas. Às sete da manhã têm bom aspeto, boa disposição e, por vezes, até gratidão. Há nelas uma serenidade irritante. Gostam de dizer coisas como “o dia rende tanto quando começamos cedo” com a mesma naturalidade com que outras pessoas dizem “passa-me o açúcar”. São capazes de responder a mensagens importantes antes das oito, apanhar sol na varanda e ainda sentir que estão atrasadas para chegar a algum lado. Depois há as pessoas da noite. Essas eu respeito profundamente. Têm um lado dramático, produtivo e quase cinematográfico. Passa...

Isabel

​ Há convites que não chegam como convites. Chegam como quem abre uma janela numa casa fechada há dias. A Isabel faz isso sem avisar — encosta a janela e diz “vamos”, como se a cidade estivesse à nossa espera desde sempre. *]:pointer-events-auto scroll-mt-(--header-height)" dir="auto" data-turn-id="489d838a-aaa3-40c5-8270-5d2d7a641259" data-testid="conversation-turn-19" data-scroll-anchor="false" data-turn="user" style="-webkit-text-size-adjust: auto;"> *]:pointer-events-auto scroll-mt-[calc(var(--header-height)+min(200px,max(70px,20svh)))]" dir="auto" data-turn-id="request-69cdc9ed-de0c-8391-8f91-acb0ac509292-0" data-testid="conversation-turn-20" data-scroll-anchor="true" data-turn="assistant" style="-webkit-text-size-adjust: auto;"> E vamos. Sem trabalho. Sem desculpas. Sem aquela lista invisível de coisas por fazer que costuma andar atrás de mim com...

O que a minha secretária diz sobre o estado da minha alma

Antes de começar a dar explicações, arrumo a minha secretária. Mas quando digo “arrumo”, não estou a falar de empurrar duas folhas para o lado com um ar resolvido e declarar que está tudo sob controlo. Não. Falo de um arrumar sério, meticuloso, quase cerimonial. Os livros no lugar certo, as fichas separadas por anos, as canetas alinhadas, a mesa limpa, a superfície respirável. Só depois consigo começar. Só depois sinto que o cérebro compareceu. Há pessoas que funcionam bem no caos. Eu vivo com uma delas. O meu marido é dessas criaturas que conseguem trabalhar rodeadas por papéis em camadas geológicas, livros abertos em várias direções, apontamentos misteriosos, objetos sem explicação aparente e uma certa estética de “isto parece caótico, mas eu sei exatamente onde está tudo”. E o mais irritante é que, muitas vezes, sabe mesmo. As nossas mesas são o retrato perfeito de duas maneiras opostas de existir. A minha parece dizer: serenidade, método, clareza, estrutura. A dele parece m...

Pensar é um ato de coragem

Há ideias que parecem simples até percebermos o peso que carregam. Uma delas é esta: pensar é um ato de coragem. Hannah Arendt dedicou grande parte da sua vida a observar o mundo, a violência, os regimes totalitários, a obediência cega, e a forma inquietante como os seres humanos podem fazer coisas terríveis sem necessariamente serem monstros no sentido óbvio da palavra. Foi ela quem nos deixou uma expressão perturbadora e inesquecível: a banalidade do mal . Não porque o mal fosse pequeno. Mas porque, muitas vezes, ele nasce da ausência de pensamento. Da incapacidade — ou da recusa — de parar e perguntar: o que estou a fazer? é justo? é humano? Há momentos em que o maior perigo não está apenas na crueldade declarada, mas na obediência sem reflexão, na repetição sem consciência, na vida vivida em piloto automático. Talvez por isso pensar seja, afinal, uma forma de resistência. Pensar não é apenas raciocinar. Não é apenas acumular informação ou saber responder a perguntas di...

Férias

Nestes dias de férias da Páscoa, tenho sentido a vida a abrandar para o ritmo certo. Um ritmo mais humano, mais inteiro, mais nosso. Ter os meus filhos comigo enche-me de uma felicidade profunda, daquelas que não fazem barulho, mas iluminam tudo. Basta vê-los pela casa, ouvir as suas vozes, partilhar os pequenos gestos do dia, para sentir que há uma espécie de milagre discreto nas coisas simples. Há uma alegria feita de presenças, de vozes pela casa, de passos conhecidos, de silêncios que não pesam. Há uma paz difícil de explicar quando os nossos estão perto. E, como se isso já não bastasse para me aquecer o coração, temos também a Mada connosco nestes dias. A minha querida ex-aluna, que a vida foi deixando ficar por perto de um modo tão bonito. Gosto muito de a ter na Academia. A Mada gosta do sossego, da calma e do bom ambiente que ali se vive, desse silêncio habitado que ajuda a estudar e a respirar melhor. Vai preparando os seus exames da faculdade, concentrada, serena, feliz no ...