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Somos nós

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O meu amor tem 31 anos. Trinta e um anos não são uma medida de tempo — são uma geografia. Uma casa construída devagar, com as mãos cheias de mundo e o coração inteiro. O nosso amor nasceu pequeno e teimoso. Não teve aplausos, teve resistência. Houve quem duvidasse, quem inventasse sombras, quem soprasse intrigas como se o vento pudesse derrubar o que ainda mal tinha aprendido a ficar de pé. Mas o amor — quando é amor — aprende cedo a criar raízes profundas. E nós criámos raízes. Entre olhares cúmplices e silêncios que diziam tudo, fomos ficando. Pelo caminho, houve dias de contas apertadas e sonhos maiores do que a carteira. Aprendemos a fazer muito com pouco, a transformar escassez em engenho, medo em plano, incerteza em promessa. Descobrimos que a riqueza nunca esteve no que faltava, mas no que insistia em permanecer: nós. Amar-te foi, e é, um exercício de coragem. Não a coragem ruidosa dos heróis, mas a coragem quieta de quem escolhe ficar. Ficámos. Contra expectat...

Aquilo que demorei anos a aprender

Demorei anos a aprender isto: nem todas as pessoas sabem escutar sem julgar. Durante muito tempo achei que escutar era um gesto simples, quase automático. Que bastava estar presente, ouvir as palavras, responder com empatia. Só mais tarde percebi que escutar de verdade exige uma espécie de ética silenciosa: a capacidade de não invadir, de não corrigir a emoção do outro, de não transformar a fragilidade alheia em matéria de conversa ou de opinião. Foram os meus alunos que me ensinaram isso. Os que ainda não aprenderam a interromper com certezas. Os que não sentem a urgência de explicar o mundo ao outro enquanto ele ainda está a tentar entender o seu. Escutam como quem guarda algo precioso — e ficam. Não pedem justificações. Não tentam traduzir o que digo para versões mais aceitáveis. Escutam-me apenas de coração aberto e genuíno. Há uma honestidade muito rara nesse gesto. Quando alguém esc...

Ensinar também é aprender a escutar

Foi num intervalo curto, encostada à porta da sala, que percebi isto. Uma aluna ficou para trás. Não tinha uma pergunta concreta. Tinha apenas aquele silêncio pesado de quem quer dizer algo, mas ainda não sabe como. Durante muito tempo achei que ensinar era saber explicar bem. Encontrar as palavras certas, os exemplos claros, a estrutura que fazia sentido. Achava que a escuta vinha depois — como um complemento, quase um gesto de simpatia. Hoje sei que estava enganada. Ensinar começa muito antes da matéria. Começa no momento em que percebemos que nem tudo o que chega à sala de aula vem em forma de perguntas. Há silêncios que pedem mais atenção do que qualquer resposta certa. Há olhares cansados, inquietos, ausentes. Há dias em que o conteúdo é apenas o pano de fundo de algo maior que precisa de ser escutado. Aprendi que escutar não é interromper com soluções. Não é...

Tréguas

Houve um tempo em que o céu parecia ter desaprendido a abrir-se. Não chovia apenas lá fora — chovia dentro das gavetas, entre as páginas dos livros, nos intervalos da respiração. A luz existia, claro, mas como uma lembrança antiga, dessas que sabemos ter sido felizes sem conseguirmos reconstruir o rosto exato da felicidade. A vida, nesse período, era uma sala com cortinas pesadas. E nós, habitantes pacientes, aprendíamos a mover-nos na penumbra. A chuva tem esse talento estranho: ensina-nos a ouvir. Cada gota é um metrónomo da espera. Ensina-nos que nem todo o silêncio é vazio, que há um tipo de crescimento que acontece na sombra — como as raízes que trabalham sem aplauso, aprofundando-se na terra escura enquanto a superfície parece imóvel. Há dias em que a alma se torna inverno. Não um inverno dramático e literário, mas um inverno doméstico, de meias grossas e cansaço sem nome. Acordamos e o mundo pesa como um casaco molhado. Chamam-lhe tristeza, chamam-lhe cansaço, cha...

Dia Internacional das Meninas e Mulheres na Ciência

​ Hoje celebramos muito mais do que uma data. Celebramos coragem. Celebramos persistência. Celebramos cada menina que ousa dizer: “Eu quero entender o mundo.” Ser professora de Matemática é, para mim, um privilégio imenso. Todos os dias entro na sala de aula e vejo ali cientistas em potência. Vejo nas minhas alunas a curiosidade inquieta de quem não aceita respostas superficiais. Vejo o brilho nos olhos quando um problema difícil finalmente faz sentido. Vejo a coragem de perguntar, de errar, de tentar outra vez. Elas talvez ainda não saibam, mas já carregam dentro de si a essência da ciência: questionar, investigar, persistir. O caminho das mulheres na ciência nunca foi simples. Foi feito de portas fechadas, de silêncios impostos, de reconhecimento negado. Foi construído com passos firmes sobre dúvidas alheias. Muitas vieram antes de nós e abriram trilhas onde só existiam muros. Lutaram para estudar, para publicar, para ensinar, para serem ouvidas. E cada conquista delas ecoa hoje em c...

Sobre a amizade num tempo que passa depressa demais

A amizade é uma coisa frágil. Não no sentido em que se quebra facilmente, mas no sentido em que precisa de cuidado. Como um copo pousado à beira da mesa: não cai por acaso, cai porque alguém passou a correr. Vivemos num tempo em que quase todos passam a correr. Corremos para cumprir prazos, para responder a mensagens que não pedimos, para sermos eficientes, disponíveis, produtivos. E, no meio dessa pressa, esquecemo-nos de algo essencial: ninguém constrói amizade por acidente. A amizade precisa de tempo. E o tempo, hoje, parece ser sempre coisa dos outros. Dizemos muitas vezes “temos de combinar”, como quem diz “não agora”. Prometemos cafés que nunca acontecem, conversas que ficam suspensas, abraços adiados para um dia qualquer que não chega. Não é por falta de carinho — é por excesso de ruído. O mundo fala alto demais e nós aprendemos a ouvir mal. As relações tornaram-se frágeis porque se tornaram rápidas. Trocam-se pessoas como se trocam aplicações: quando deixa de funciona...

E se eu não for capaz de viver sem ela?

“E se eu não for capaz de viver sem ela?” “Como faço?” Hoje, um adolescente ofereceu-me a sua dor ao telefone. Não veio embrulhada em teorias nem em frases bonitas. Veio crua, urgente, inteira. Veio com o medo próprio de quem ama pela primeira vez como se estivesse a aprender a respirar — e teme que, se o amor acabar, o ar acabe também. Há idades em que o amor não é apenas amor. É identidade. É chão. É a promessa silenciosa de que alguém nos vê por inteiro, mesmo quando ainda não sabemos quem somos. Na adolescência, ama-se com o corpo todo e com o futuro inteiro. Ama-se como se cada despedida fosse definitiva, como se cada ausência fosse um abismo. Perder alguém, nessa idade, não é só perder um amor — é perder um espelho, um rumo, uma versão possível de nós mesmos. E o medo não é apenas de ficar só. É o medo de não saber existir depois. Quando ...