A geografia da saudade
Chega uma idade em que começamos a compreender que a saudade não é propriamente o desejo de voltar. Durante muito tempo julgamos que sim. Pensamos que temos saudades de uma casa, de uma rua, de uma pessoa sentada diante de nós numa determinada tarde, de uma voz que pronunciava o nosso nome de uma maneira que ninguém mais soube repetir. Convencemo-nos de que, se pudéssemos regressar a esse lugar, abrir aquela porta, sentarmo-nos outra vez àquela mesa, qualquer coisa se recomporia dentro de nós. Mas não. Podemos regressar aos lugares. É esse, talvez, o erro mais cruel. A rua continua lá. A casa pode ainda existir. A árvore cresceu, naturalmente, e há outras cortinas nas janelas. O café onde nos esperavam às cinco da tarde talvez tenha mudado de nome, mas as mesas continuam encostadas à parede e, por alguns segundos, quase conseguimos acreditar que basta esperar. Depois percebemos. Não era daquele lugar que tínhamos saudades. Era de quem éramos quando estivemos ali. E dess...