Mensagens

Não comecei tarde. Comecei quando pude.

No currículo, as datas comportam-se bem. Formam colunas, aceitam parênteses e deixam-se ordenar da mais recente para a mais antiga. Não fazem perguntas inconvenientes nem revelam o que aconteceu entre uma linha e a seguinte. Um currículo tem essa habilidade extraordinária de transformar uma vida numa sucessão de acontecimentos aparentemente planeados. A vida, porém, tem a indelicadeza de não caber numa folha de cálculo. Entre a licenciatura e o mestrado há, no meu currículo, um espaço em branco. À primeira vista, parece apenas tempo decorrido. Mas aquele espaço não está vazio. Nele, perdi o meu pai e a minha avó no espaço de três meses. Três meses são uma estação do ano. Tempo suficiente para as árvores mudarem de roupa, mas demasiado pouco para um coração aprender duas ausências. O luto não aparece nos certificados. Não concede créditos, não atribui diplomas e raramente respeita calendários. Instala-se dentro de nós e muda silenciosamente a ordem das coisas. O mundo conti...

O resto da divisão dos dias

Há dias em que acordamos já atrasados para a nossa própria vida. Ainda não abrimos completamente os olhos e já o mundo nos bate à porta. Há mensagens por responder, decisões por tomar, trabalhos que não admitem demora, compromissos que se atropelam e pequenas urgências que se apresentam como se delas dependesse a rotação da Terra. Talvez a Terra continue a rodar sem a nossa ajuda, mas nem sempre nos lembramos disso. Levantamo-nos e começamos. Começamos porque é o que sabemos fazer. Porque esperam por nós. Porque alguém precisa de uma resposta, de uma palavra, de um gesto, de uma solução. E nós, que tantas vezes não sabemos resolver-nos, passamos os dias a tentar resolver o mundo. No peito, porém, mora uma ansiedade sem nome. Não sabemos exatamente de onde vem. Não anuncia uma tragédia concreta nem aponta para um perigo visível. Está apenas ali, como um pássaro escuro que tivesse entrado pela janela e não encontrasse a saída. Bate as asas contra as paredes do corpo, ag...

O verão muda de estado

Há um momento, todos os anos, em que o calendário pigarreia discretamente e nos chama à realidade. Setembro aproxima-se devagar, com ar inocente, mas traz escondidos atrás das costas os horários, os despertadores e uma quantidade pouco razoável de coisas para fazer. É então que percebo: as férias terminaram oficialmente. Gosto muito daquela frase: «Faz o que gostas e não terás de trabalhar um único dia da tua vida.» No meu caso, há nela uma boa dose de verdade. Ensinar nunca me pareceu trabalho, pelo menos não no sentido pesado e cinzento da palavra. Ensinar as disciplinas de que gosto, partilhá-las com pessoas de quem gosto, ajudá-las a crescer, celebrar cada pequena conquista, aprender com elas e ter o privilégio de fazer parte das suas vidas é uma das maiores bênçãos que conheço. Sou muito afortunada. Sei que sim. Há qualquer coisa de extraordinário no instante em que alguém deixa de dizer «não consigo» e, quase sem dar por isso, consegue. É uma espécie de reação química ...
O peso das perguntas (e a coragem de não ter todas as respostas) Sobre livros que nos inquietam, perguntas que nos desarrumam e a estranha aprendizagem de viver com o que ainda não compreendemos. Há dias, um jovem fez-me uma pergunta que ficou a ecoar dentro de mim. Estava a ler 1984 , de George Orwell, e confessou-me que, mesmo lendo pouco, sentia que o conhecimento e as questões mais profundas lhe provocavam alguma instabilidade emocional. Depois, perguntou-me como é que eu, lendo tanto e sabendo tantas coisas, conseguia manter a estabilidade mental e o controlo emocional. Sorri. Não pela ingenuidade da pergunta, mas pela extraordinária confiança que ela continha. E respondi-lhe: «Mas quem te disse que eu tenho sempre estabilidade mental e controlo emocional? Há dias em que também tenho vontade de fechar os livros, desligar o cérebro e ir conversar com a minha gata!» Rimo-nos. Mas a pergunta ficou. Porque há perguntas que não terminam quando encontramos pala...

Paula 1 — Horários Impossíveis 0

Finalmente. Estão feitos. Terminados. Encaixados. Alinhados com uma precisão que faria qualquer peça de Tetris chorar de emoção. Durante dias, vivi mergulhada em folhas, quadrículas, mensagens e frases que começavam quase sempre por: - Nesse dia não posso… - Àquela hora tenho futebol… - À quarta-feira é a catequese… - À terça há instituto de inglês… - À quinta só dá depois das sete… - E ao sábado talvez, mas depende… Cada aluno chegava acompanhado não apenas da mochila, mas de uma pequena comitiva de compromissos: escola, catequese, futebol, inglês, natação, música, consultas, transportes, irmãos, pais, avós e outras entidades com poder absoluto sobre o calendário familiar. Construir estes horários não foi propriamente organizar uma semana. Foi resolver um sistema de equações com demasiadas incógnitas, algumas variáveis emocionais e pelo menos três impossibilidades matemáticas. Houve momentos em que contemplei o horário com a mesma expressão de quem tenta desarmar uma...

Uma nota não pode ser o horizonte inteiro da educação

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Vejo, com frequência, nas redes sociais, discursos sobre o sucesso nos exames: estratégias, métodos, promessas de boas notas. Compreendo a preocupação das famílias e dos alunos. Os exames têm consequências concretas no acesso ao ensino superior, e preparar os estudantes para esse momento faz parte da nossa responsabilidade pedagógica. Mas preocupa-me uma educação que concentra todos os esforços no resultado e deixa para segundo plano a aprendizagem que lhe deveria dar sentido. Quando a nota se transforma na medida de tudo, o aluno corre o risco de desaparecer atrás dela. O seu ritmo, as suas dificuldades, a curiosidade e até a estabilidade emocional passam a ser considerados apenas em função do desempenho esperado. E falar de apoio emocional não basta: é preciso que esse cuidado se traduza na forma como se ensina, nas expectativas que se criam e no modo como se responde ao erro. Preparar para um exame e ensinar Matemática são tarefas que se cruzam, mas não se confundem. É po...

A arte de encaixar o impossível

Olho para os horários da Academia com a esperança de quem olha para uma mala cheia e ainda tem metade da roupa em cima da cama. Há de caber, penso. Se rodar isto, apertar aquilo, passar este para terça e puxar aquele para quinta… Não cabe. Considero-me uma boa jogadora de Tetris. Tenho alguma habilidade para descobrir espaços onde, à primeira vista, só existe uma parede. Mas este jogo está a pôr a minha reputação em causa. As peças têm escola, futebol, andebol, natação, inglês, dança e ginástica acrobática. E quase todas precisam de cair no mesmo quadradinho, entre as dezassete e as dezanove. Recebo horários esculpidos ao milímetro, com a precisão de uma peça de relojoaria. Às quatro acaba a escola, às cinco começa o treino, pelo meio há uma deslocação que já pressupõe uma relação bastante otimista com o trânsito. Procuro uma abertura. Uma nesga. Qualquer coisa por onde consiga fazer entrar a Matemática sem deixar a Físico-Química entalada na porta. A ginástica acro...