À altura de um abraço
A tristeza que mais me custa tem, quase sempre, alguma coisa de inesperado. Vem de uma voz junto da qual tinha baixado a guarda, de um gesto de quem julgava conhecer o cuidado de que sou feita. Às vezes, cabe inteira numa palavra. Outras, numa ausência: alguém que não está, que não pergunta, que deixa um silêncio precisamente onde eu precisava de uma resposta. Fico a pensar no pouco que é necessário para magoar uma pessoa. E no pouco que, em certos dias, teria bastado para a amparar. Gostava que algumas coisas não me atingissem tanto. Gostava de ter uma grandeza tranquila, qualquer coisa de árvore antiga que sabe do vento e permanece. Mas há palavras que me atravessam antes de eu conseguir compreendê-las. Quando tento perceber por que razão doeram tanto, já encontraram outras dores, já tocaram em lugares que eu julgava sossegados. O coração tem esta memória involuntária: um gesto de hoje pode abrir a porta a muitas tristezas antigas. Sei que nem tudo o que me fere foi fe...