O que a minha secretária diz sobre o estado da minha alma
Antes de começar a dar explicações, arrumo a minha secretária. Mas quando digo “arrumo”, não estou a falar de empurrar duas folhas para o lado com um ar resolvido e declarar que está tudo sob controlo. Não. Falo de um arrumar sério, meticuloso, quase cerimonial. Os livros no lugar certo, as fichas separadas por anos, as canetas alinhadas, a mesa limpa, a superfície respirável. Só depois consigo começar. Só depois sinto que o cérebro compareceu. Há pessoas que funcionam bem no caos. Eu vivo com uma delas. O meu marido é dessas criaturas que conseguem trabalhar rodeadas por papéis em camadas geológicas, livros abertos em várias direções, apontamentos misteriosos, objetos sem explicação aparente e uma certa estética de “isto parece caótico, mas eu sei exatamente onde está tudo”. E o mais irritante é que, muitas vezes, sabe mesmo. As nossas mesas são o retrato perfeito de duas maneiras opostas de existir. A minha parece dizer: serenidade, método, clareza, estrutura. A dele parece m...