Quantos anos demoramos a dizer adeus ?
Há ausências que não passam. Aprendemos a andar com elas, a dobrar-lhes a roupa, a sentá-las à mesa, a deixá-las dormir ao nosso lado sem fazer muito barulho. Mas passar, passar mesmo, não passam. Transformam-se. Mudam de nome, mudam de lugar, mudam de voz. Às vezes já não doem como faca; doem como inverno. Ficam no corpo, na memória, na maneira como olhamos o mundo quando ninguém está a ver. Faz trinta e dois anos que partiste, pai. Trinta e dois anos é quase uma vida inteira. E, no entanto, há em mim uma parte que continua parada no instante em que te foste. Como se o tempo, esse grande mentiroso, tivesse seguido para toda a gente menos para aquela filha que ficou a olhar para a porta, à espera de um regresso que a razão sabia impossível, mas o coração recusava aceitar. Demorei anos a fazer o luto. Talvez ainda o faça. Foram anos de pesadelos, de lágrimas sem aviso, de um sobressalto constante da alma. Anos em que a tua ausência não era uma ideia: e...