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Dez de Junho, Camões e as contas que ainda faltam fazer

Hoje é Dez de Junho. Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Dia de hastear a bandeira, de lembrar a língua, o mar, os versos, as partidas, os regressos e essa estranha capacidade portuguesa de atravessar tempestades com uma mão no leme e a outra a dizer: “isto amanhã resolve-se”. É feriado. Portanto, naturalmente, estou a trabalhar. Porque há patriotismos muito bonitos, com cravos, hinos e discursos solenes, e depois há o patriotismo silencioso de quem abre o computador num feriado, corrige exercícios, prepara exames, responde a mensagens e tenta convencer adolescentes de que uma função afim não é uma entidade maligna enviada para lhes destruir a juventude. Camões escreveu sobre mares nunca dantes navegados. Eu, hoje, navego em mares nunca dantes simplificados: equações, derivadas, probabilidades, limites, gráficos, dúvidas de última hora e alunos que, dois dias antes do exame, descobrem subitamente que a Matemática existe. Camões tinha...

Amor sem certidão

A minha sobrinha emprestada Há pessoas que nos chegam pela certidão de nascimento. E há pessoas que nos chegam por uma espécie de certidão invisível, escrita algures entre a vida, a amizade, as lágrimas e as gargalhadas. A essas, às vezes, chamamos família. Mesmo que ninguém tenha assinado nada. Mesmo que não haja apelidos em comum. Mesmo que o sangue, esse burocrata antigo, não tenha sido chamado a confirmar coisa nenhuma. Eu tenho uma sobrinha emprestada. Digo “emprestada” porque a vida, às vezes, gosta destas palavras pequenas para esconder coisas enormes. Mas a verdade é que não há nada de emprestado no que sinto por ela. Não há prazo, não há devolução, não há distância que mude isto. Gosto dela como se fosse minha. Como se entre nós houvesse uma linha antiga, dessas que não se veem ao microscópio, mas que se sentem quando ela me olha, quando me desafia, quando me faz rir, quando me obriga a ser melhor. Talvez po...

Começa hoje

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Hoje começa oficialmente a época mais famosa da Academia. A mais temida. A mais desejada. A mais intensa. A que chega todos os anos com cheiro a folhas sublinhadas, calculadoras em cima da mesa, cadernos gastos, dúvidas acumuladas, olheiras discretas e corações um bocadinho apertados. Começa a época dos exames. Matemática de 12.º ano. Duas palavras que parecem pequenas, mas que trazem dentro delas meses de trabalho, anos de caminho, medos antigos, expectativas da família, sonhos ainda meio tremidos e uma pergunta silenciosa que quase todos trazem nos olhos: “E se eu não conseguir?” E é aqui que entramos nós. Entramos com contas, funções, derivadas, probabilidades, geometria, equações, gráficos, raciocínios e estratégias. Mas entramos também com outra coisa, talvez mais difícil de explicar: entramos com calma. Com presença. Com paciência. E com a certeza de que ninguém aprende bem quando está assustado demais para pensar. São horas e horas de trabalho. Horas dedicadas a...

A frágil ilusão da meritocracia

Há uma ideia muito confortável para quem já chegou ao topo: a ideia de que chegou sozinho. A meritocracia tem qualquer coisa de sedutor. Faz-nos acreditar que o mundo é uma espécie de corrida justa, onde todos partem do mesmo lugar e onde o esforço basta para atravessar a meta. Quem vence merece. Quem perde não trabalhou o suficiente. Parece simples. Limpo. Organizado. Mas a vida raramente cabe em teorias bonitas. A verdade é que ninguém chega a lado nenhum sozinho. Há sempre mãos invisíveis no caminho. Pais cansados que trabalharam mais horas para pagar estudos. Professores que acreditaram antes do aluno acreditar em si próprio. Amigos que seguraram dias difíceis. Alguém que abriu uma porta, deu uma oportunidade, explicou outra vez, emprestou tempo, dinheiro, atenção ou cuidado. O sucesso nunca é obra de uma pessoa apenas. E o insucesso também não. Há pessoas que correm uma maratona com bons ténis, água fresca e estrada plana. Outras começam descalças, com fome, me...

O primeiro dia do resto das suas vidas

Ontem foi a bênção das pastas do meu 12.º ano do Centro de Estudos de Fátima. Há dias que parecem feitos de cerimónia, mas são, no fundo, feitos de despedida. Há flores, fitas, sorrisos, fotografias, abraços, vozes misturadas, pais emocionados, alunos a fingirem que estão tranquilos e professores a tentarem manter uma dignidade qualquer enquanto o coração faz das suas. Eu escrevi as fitas. Escrevi-as devagar, como quem não está apenas a escrever palavras, mas a deixar pequenos pedaços de si em tecido colorido. Cada fita era um voto, uma bênção, uma esperança. Escrevi-lhes sucesso, coragem, futuro, confiança. Mas, se pudesse escrever a verdade inteira, teria escrito: leva daqui um bocadinho do meu coração. Leva a certeza de que foste visto. Leva a memória de alguém que acreditou em ti, mesmo nos dias em que tu duvidaste. Comovo-me sempre neste dia. Talvez porque a bênção das pastas seja uma espécie de fronteira. Ainda estão aqui, mas já estão quase a partir. Ainda s...

Às vezes sou casa vazia

Às vezes sou casa vazia. Não daquelas casas abandonadas, com janelas partidas e ervas a crescerem onde antes havia caminho. Sou antes uma casa habitada por dentro, cheia de ruídos, de tarefas, de vozes, de gente que amo, de dias inteiros, de trabalho, de pressa, de abraços, de filhos, de estudantes, de amigas que são irmãs, de um grande amor que me segura o mundo quando o mundo parece inclinar-se. Sou uma casa com luz acesa, com mesa posta, com vida a acontecer. E, ainda assim, às vezes, sou casa vazia. Há ausências que não ocupam apenas um lugar. Ocupam uma divisão inteira da alma. Ocupam corredores, gavetas, fotografias, cheiros antigos, domingos, natais, aniversários, decisões importantes, dias banais. Ocupam até aquilo que nunca chegou a acontecer. Porque perder um pai é também perder o que ainda vinha: as conversas que não tivemos, os conselhos que ficaram por dar, os abraços que não chegaram a tempo, a mão no ombro nos dias difíceis, o orgulho nos dias bons. Ficar órfã é ...

O princípio do voo

Ontem foi a festa de final de ano do Colégio de São Miguel. Havia música, cor, palavras bonitas ditas com a voz um pouco tremida, sorrisos que tentavam ser inteiros e lágrimas que chegavam antes de serem chamadas. Havia aquela luz própria dos dias importantes: uma luz que não vem das lâmpadas, nem dos holofotes, nem sequer do palco. Vem dos olhos. Dos olhos de quem cresceu. Dos olhos de quem viu crescer. E eu vi-os ali. Alguns dos meus finalistas. Os meus meninos grandes. Aqueles que, durante anos, foram entrando pela porta com mochilas, dúvidas, pressas, medos, contas por resolver, fórmulas por decorar, testes à espreita e sonhos ainda meio escondidos dentro dos bolsos. Semana após semana, estivemos juntos na luta pela nota, pelo exame, pela média, pelo curso, pelo futuro. Mas, sem darmos por isso, estivemos também noutra luta maior: a de crescer. Eles cresceram. E eu, de alguma forma, também. Porque ensinar nunca é apenas explicar matéria. É aprender a ler silêncios. É pe...