Mensagens

Há muitas maneiras de aprender

Há dias longos que acabam com uma espécie de cansaço bom. Daqueles em que o corpo pede silêncio, mas o coração fica acordado, ainda a saborear uma mensagem, uma conquista, uma meta alcançada. Há mensagens que chegam ao fim do dia e nos lembram por que fazemos isto. Por que insistimos. Por que explicamos outra vez. Por que procuramos mais uma forma, mais um exemplo, mais um caminho para chegar à cabeça — e ao coração — de cada aluno. Ver um aluno chegar longe é uma alegria muito difícil de explicar. Não é apenas a nota. Não é apenas o teste. Não é apenas o exame vencido. É perceber que, algures no caminho, aquele aluno começou a acreditar um pouco mais em si. Começou a pensar melhor. A organizar-se melhor. A olhar para a Matemática não como um muro, mas como uma linguagem que, com esforço e método, também pode ser compreendida. Ensinar Matemática nunca foi, para mim, debitar conteúdos. Paulo Freire criticava essa ideia de educação como depósito, como se o professor...

Tempo

Há pessoas que medem a vida pelo que conseguem fazer. Eu começo a achar que talvez a vida se meça melhor pelo tempo que conseguimos dar. Não falo do tempo que sobra, porque esse quase nunca existe. Falo do tempo que se arranca à pressa, que se estica entre dois empregos, uma tese, uma casa, uma família, uma vida inteira a pedir-nos presença em sítios diferentes ao mesmo tempo. Falo daquele tempo pequeno, mas imenso, em que paramos para perguntar: como estás? E ficamos mesmo à espera da resposta. Tenho uma vida cheia. Cheia demais, às vezes. Trabalho muitas horas, divido-me, somo tarefas, levo dias ao limite como quem tenta fazer caber o mundo numa mala pequena. Sou mãe, filha, esposa, professora, estudante, trabalhadora. Mas também sou amiga. E algo de muito errado estaria na minha vida se, na ânsia de ser mais, eu me esquecesse dos que são meus. Porque de que valem os títulos, os sucessos, as conquistas, as metas cumpridas, se pelo caminho deixarmos de ter temp...

1000 ideias

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Há uma altura do ano em que a cabeça começa a fazer mais barulho do que a sala cheia. É quase verão. Os alunos ainda estão em testes, ainda faltam os exames, as contas ainda se fazem no quadro, as dúvidas ainda aparecem com aquele ar de urgência de quem descobriu, tarde demais, que a Matemática afinal existia desde setembro. Mas dentro de mim já há uma pequena revolução a acontecer. Trago mil ideias guardadas. Planos para a Academia. Planos para os alunos. Planos para textos. Planos para projetos. Planos para reorganizar, melhorar, inventar, fazer diferente. Ideias que aparecem no meio de uma explicação, entre uma derivada e uma gargalhada, entre um “tenho uma questão!” e um “professora, isto sai no exame?”. Às vezes penso que a minha cabeça devia ter uma sala de espera, porque há dias em que as ideias chegam todas ao mesmo tempo e nenhuma sabe aguardar a sua vez. Ensinar tem muito disto. Achamos que somos nós que vamos ensinar os alunos, mas depois eles entram pel...

10 anos depois

Faz dez anos que o medo me tocou à porta. Não entrou de rompante. Não partiu vidros, não gritou o meu nome, não fez escândalo. Chegou discreto, vestido de consulta de rotina, com aquele ar administrativo das coisas que mudam a vida sem pedir licença. Entrou pela voz de um médico, por uma expressão mais séria, por uma sequência de exames que de repente passaram a ter nomes grandes: biópsias, TACs, eletrocardiogramas, análises, relatórios, esperas. A vida, às vezes, vira-se do avesso num gabinete. Num momento estamos inteiras, ocupadas, atrasadas, cheias de tarefas, filhos, aulas, explicações, trabalhos, contas, mensagens por responder. No momento seguinte, percebemos que o corpo, esse companheiro silencioso que damos por garantido, pode tornar-se notícia. Pode falhar. Pode assustar-nos. Pode lembrar-nos, de forma brutal, que não somos imortais. Havia uma corda vocal em perigo. Havia nódulos na tiróide. Havia uma operação marcada de urgência no IPO de Coimbra. Havia filho...

origens

Sei de onde venho. E há uma paz antiga em poder dizê-lo sem vergonha, sem enfeites e sem necessidade de parecer maior do que sou. Sei onde nasci. Sei quem me trouxe até aqui. Sei as mãos que me ajudaram, as vozes que me ampararam, os gestos que me abriram caminho quando o caminho ainda era estreito. Não esqueço. Não esqueço quem me deu a mão. Quem acreditou. Quem me empurrou para a frente quando eu ainda não sabia bem que podia ir. Não esqueço os que me ensinaram, com pouco discurso e muito exemplo, que a dignidade não mora no que se tem, mas na forma como se vive. Sou neta de gente simples. Gente de trabalho, de palavra, de mãos gastas e costas direitas. Gente que talvez não tivesse muito para deixar em herança, mas deixou aquilo que mais importa: honestidade, resistência, coragem e uma certa maneira limpa de olhar os outros nos olhos. Há riquezas que não aparecem nos bancos. Passam-nos pelo sangue, pelo nome, pela memória, pela forma como entramos numa sala sem ...

31 anos

Há amores que começam como quem acende uma luz. Pequena, talvez. Quase tímida. Uma luz que ainda não sabe se vai resistir ao vento, à noite, às dúvidas dos outros, às nossas próprias fragilidades. Mas acende-se. E, de repente, há um antes e um depois. O mundo continua igual, mas nós já não. O nosso amor tem 31 anos. Trinta e um anos é uma vida inteira a aprender a caber dentro da vida. A vida, essa coisa tão pouco obediente, tão cheia de esquinas, contas, cansaços, trabalhos, medos, perdas, filhos, mudanças, dias bons, dias difíceis, silêncios, reconciliações e urgências. A vida nunca se ofereceu como uma casa pronta. Tivemos de a contornar. Tivemos de abrir portas onde havia paredes. Tivemos de mudar móveis de sítio, alargar corredores, inventar janelas, arranjar espaço para o amor quando parecia não haver espaço para mais nada. Porque amar também é isto: aprender a fazer caber. Fazer caber dois feitios. Duas histórias. Duas formas de ver o mundo. Duas maneiras ...

O que meio século nos obriga a desaprender

Chega uma idade em que já não fazemos anos: fazemos inventário. Meio século não é apenas uma data. É uma casa cheia de gavetas. Algumas arrumadas, outras nem por isso. Há gavetas com fotografias antigas, nomes que já não dizemos, sonhos que mudaram de forma, medos que perderam força e algumas verdades que, afinal, não eram verdades — eram apenas frases repetidas por quem também andava a tentar viver. Durante muito tempo, disseram-nos que crescer era aprender. Mas talvez crescer seja, sobretudo, desaprender. Desaprender a pedir desculpa por sentir muito. Desaprender a caber em lugares pequenos só para não incomodar. Desaprender a achar que ser forte é não cair, que ser boa é dizer sempre sim, que ser amada é ser útil, discreta, sem problemas e sempre disponível. Aos cinquenta, a vida começa a tirar-nos os enfeites. E isso também liberta. Liberta porque deixamos de querer agradar a toda a gente, porque finalmente percebemos que há pessoas que só ficam satis...