Herança
Os sonhos nunca me apareceram enquanto dormia. Sempre me chegaram acordada, quando a vida começava a pesar mais do que o corpo. Lembro-me de ser pequena e já sentir esse peso — não sabia nomeá-lo, mas reconhecia-o. Era como se alguma coisa em mim estivesse sempre a chamar-me para a frente, mesmo quando eu queria ficar. Cresci na serra, onde os dias começavam cedo e o frio ensinava a acordar depressa. No inverno, o chão gelava antes do sol nascer e as mãos aprendiam a trabalhar mesmo dormentes. Lembro-me das botas molhadas, do cheiro da lenha, do silêncio grande que só a serra sabe fazer. Ali aprendi que o mundo não se explica — atravessa-se. Nunca aprendi a sonhar sentada. Ainda criança, percebi que as coisas importantes exigiam corpo. Subir caminhos íngremes, ajudar no que fosse preciso, cair e levantar sem grande cerimónia. A vida ensinou-me cedo que querer não basta. É preciso insistir. É preciso aguentar. E, às vezes, é preciso ...