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O princípio do voo

Ontem foi a festa de final de ano do Colégio de São Miguel. Havia música, cor, palavras bonitas ditas com a voz um pouco tremida, sorrisos que tentavam ser inteiros e lágrimas que chegavam antes de serem chamadas. Havia aquela luz própria dos dias importantes: uma luz que não vem das lâmpadas, nem dos holofotes, nem sequer do palco. Vem dos olhos. Dos olhos de quem cresceu. Dos olhos de quem viu crescer. E eu vi-os ali. Alguns dos meus finalistas. Os meus meninos grandes. Aqueles que, durante anos, foram entrando pela porta com mochilas, dúvidas, pressas, medos, contas por resolver, fórmulas por decorar, testes à espreita e sonhos ainda meio escondidos dentro dos bolsos. Semana após semana, estivemos juntos na luta pela nota, pelo exame, pela média, pelo curso, pelo futuro. Mas, sem darmos por isso, estivemos também noutra luta maior: a de crescer. Eles cresceram. E eu, de alguma forma, também. Porque ensinar nunca é apenas explicar matéria. É aprender a ler silêncios. É pe...

Quantas horas tem o seu dia??

Hoje uma mãe perguntou-me: “Quantas horas tem o seu dia, professora?” Sorri. Porque há perguntas que parecem simples, mas trazem dentro uma vida inteira. A verdade é que o meu dia tem as mesmas horas que o de toda a gente. Vinte e quatro. Nem mais uma. Nem menos um minuto. A matemática, nesse aspeto, é implacável. O tempo distribui-se por todos com a mesma medida. Não há privilégios no relógio. Não há dias com elástico, nem semanas com gavetas escondidas onde se guardam horas suplentes. Mas há uma diferença entre ter tempo e fazer tempo. E, ao ouvir aquela pergunta, lembrei-me do Miguel, o meu filho, ainda pequeno, talvez com oito anos. Um dia, na escola, perante uma tarefa que precisava de ser dividida pelos pais, virou-se prontamente para a professora de matemática e disse, com aquela segurança absoluta que só as crianças têm: “A minha mãe faz isso… ela tem sempre tempo para tudo!” Na altura, talvez eu tenha sorrido com ternura. Hoje, penso muitas vezes ...

Vivemos numa época de contradições

Vivemos numa época de contradições. Dizemos que queremos jovens livres, autónomos, curiosos, capazes de pensar pela própria cabeça. Queremos que não vivam demasiado dependentes das tecnologias, mas, muitas vezes, não lhes damos em casa exemplos de leitura. Há ecrãs ligados, telemóveis sempre à mão, notificações a interromper conversas, mas poucos momentos em que uma criança veja um adulto sentado, tranquilamente, a ler. Depois estranhamos que não leiam. Estranhamos que não tenham paciência para livros, que fujam de textos longos, que prefiram vídeos curtos, respostas rápidas, estímulos imediatos. Mas quando fazem anos, ou chega o Natal, contam-se pelos dedos das mãos os que recebem um livro. Oferecemos tecnologia, roupa, dinheiro, acessórios, experiências, mas raramente oferecemos esse objeto simples e revolucionário que ensina uma das coisas mais difíceis: estar quieto por dentro. Também dizemos que os jovens vivem ocupados, cansados, ansiosos, sem tempo para si. E ...

Dia da Criança

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Hoje é Dia da Criança. Das crianças que criei e que hoje já são crescidas — embora, aos meus olhos, continuem a ter qualquer coisa de pequenos. Há uma parte de nós que nunca atualiza completamente a idade dos filhos. Crescem, estudam, trabalham, amam, escolhem caminhos, constroem vida. Mas dentro de uma mãe há sempre uma memória teimosa: a mão pequena dentro da nossa, o sono no colo, a primeira palavra, o primeiro medo, a primeira febre, a primeira vez em que percebemos que amar alguém é viver com o coração fora do corpo. Hoje é também o dia das crianças que ajudei a criar. Algumas já são adultas. Algumas já têm filhos. E há nisto uma ternura imensa: ver aqueles que um dia precisaram de nós a tornarem-se colo para outros. A vida tem destas voltas bonitas. Um dia seguramos uma criança pela mão; anos depois, essa criança segura outra. E percebemos que educar nunca acaba no momento em que alguém cresce. Fica. Passa de uns para os outros como uma espécie de herança invisível. ...

Regressar à cidade onde a neve sabe o meu nome

Há fins de semana que ficam Há lugares que não são apenas lugares. São uma espécie de gaveta antiga dentro do peito, onde guardamos cheiros, vozes, ruas inclinadas, frio nas mãos e uma versão de nós que nunca deixou verdadeiramente de existir. Este fim de semana voltei à minha cidade-neve. À minha Beira Interior. À minha serra. A esse lugar onde o ar parece mais limpo, mais antigo, mais inteiro. Talvez porque ali o frio não é só temperatura; é memória. Entra-nos no corpo como quem diz: ainda te lembras de mim? E eu lembro. Lembro-me da comida que ali sabe como em nenhum outro lado. Há sabores que não se repetem fora da terra onde nasceram. Podemos usar os mesmos ingredientes, seguir as mesmas receitas, aquecer o mesmo pão. Mas falta sempre qualquer coisa. Talvez falte a altitude. Talvez falte a infância. Talvez falte a mão invisível da serra a temperar tudo com pertença. Voltar a casa é isto: sentarmo-nos à mesa e percebermos que há alimentos que não alimentam ap...

A competição como mau gosto

Há uma competição silenciosa a atravessar os nossos dias. Não é apenas a competição pelo lugar, pela nota, pelo cargo, pelo reconhecimento. É uma competição mais subtil e, talvez por isso, mais perigosa: quem sofre mais, quem trabalha mais, quem sabe mais, quem é melhor aluno, melhor professor, melhor amigo, melhor mãe, melhor pessoa. Até a dor, que devia aproximar-nos, parece às vezes transformada em medalha. Vivemos numa época estranha. Uma época em que tudo precisa de ser mostrado, narrado, provado, comparado. Como se a vida só tivesse valor quando exposta numa montra. Como se o bem que fazemos só existisse se for anunciado. Como se a competência precisasse de aplauso permanente para se manter de pé. Lipovetsky ajuda-nos a pensar este tempo: um tempo marcado pelo individualismo, pelo excesso, pela sedução da imagem e pela necessidade constante de afirmação. Já não basta ser. É preciso parecer. Já não basta fazer. É preciso mostrar que se fez. Já não basta saber. É p...

Sobre saber esperar

O dia em que plantamos a semente não é o dia em que o fruto nasce. E talvez seja essa uma das aprendizagens mais difíceis da vida: aceitar que há coisas que precisam de tempo, silêncio, paciência e cuidado antes de se mostrarem inteiras. Gostávamos que o esforço desse logo flor, que a dedicação trouxesse logo resposta, que o amor fosse imediatamente reconhecido, que o trabalho se transformasse depressa em recompensa. Mas a vida não obedece sempre à nossa pressa. Há sementes que passam muito tempo debaixo da terra sem nos dizerem nada. Não vemos movimento, não vemos resultado, não vemos prova. E, no entanto, alguma coisa está a acontecer no escuro. Há raízes a procurar lugar. Há força a nascer devagar. Há vida a preparar-se antes de aparecer. Esperar não é não fazer nada. Esperar é continuar a regar sem garantias. É cuidar mesmo sem aplauso. É acreditar mesmo sem ver. É levantar todos os dias e fazer a parte que nos cabe, sabendo que o fruto não depende apenas da ...