Dia 1 e meio
Depois da longa viagem de ontem — 5h30 que, confesso, não me souberam nada mal — acordei hoje com a sensação rara de quem descansou a sério. E digo “rara” com a solenidade que o momento merece, porque dormir como uma pedra, numa vida em que a cabeça costuma insistir em continuar acordada mesmo quando o corpo já desistiu, é quase um acontecimento científico. Mas a verdade é que aquelas 5h30 de estrada tiveram qualquer coisa de inesperadamente precioso. Foram 5h30 de silêncio, a sós com os meus botões, o que hoje em dia quase parece uma experiência de luxo. Cinco horas e meia sem resolver uma conta, sem apagar um incêndio, sem ter de decidir nada urgente, sem ouvir o meu nome de cinco em cinco minutos, sem aquele ruído de fundo — exterior e interior — que tantas vezes nos acompanha sem pedirmos licença. Cinco horas e meia só comigo. Um luxo, direi. Um retiro espiritual em versão rodoviária. Depois, claro, veio o jantar animado, as conversas boas, as gargalhadas certas, aquela ...