Durante muito tempo pensei que a vida fosse uma linha reta. Talvez por deformação matemática, talvez por ingenuidade, imaginei que avançávamos de ponto em ponto, sempre em frente, como quem segue uma sequência lógica: infância, juventude, amor, filhos, trabalho, conquistas, perdas, recomeços. Um eixo bem definido, com origem algures no primeiro choro e destino num lugar que ninguém sabe nomear. Mas a vida, descobri mais tarde, não é uma reta. É uma geometria inteira. Feita de linhas que se cruzam, de pontos que nos fixam, de distâncias que nos doem, de paralelas que caminham lado a lado sem nunca se tocarem, de tangentes que nos roçam apenas por um instante e, ainda assim, mudam a nossa direção. Há pessoas que são pontos. Chegam e ficam. Marcam uma coordenada exata dentro de nós. Mesmo que o tempo passe, mesmo que os mapas se rasguem, sabemos sempre onde estão. Há amigos assim. Amores assim. Alunos assim. Pessoas que, um dia, entraram numa aula, numa casa, numa conversa ou...