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Londres, entre ruínas, jardins suspensos e saudades de casa

Há dias de viagem que parecem feitos de contrastes. Começámos por St Dunstan-in-the-East , esse lugar improvável onde Londres parece parar para respirar. Uma igreja em ruínas transformada em jardim. Pedras antigas, janelas abertas para o céu, plantas a crescerem por entre aquilo que ficou de pé. Gosto destes lugares que não escondem as marcas do tempo. Pelo contrário: fazem delas beleza. Como se dissessem que nem tudo o que se parte desaparece. Às vezes, transforma-se. Às vezes, floresce de outra maneira. Depois subimos ao Garden at 120 , e Londres apareceu-nos de cima, mais larga, mais luminosa, mais cidade. Há qualquer coisa de especial em ver uma cidade do alto. As ruas por onde andámos tornam-se linhas, os prédios tornam-se peças de um tabuleiro, e nós percebemos que somos pequenas dentro daquele movimento todo. Pequenas, mas inteiras. Pequenas, mas ali. A viver. E vivemos muito. Caminhámos. Muito. Muito mesmo. Londres é também isto: pés cansados, mapas abertos, estações d...

Londres, dia dois — entre museus, palcos e ruas que parecem cenários

Há cidades que não se visitam apenas com os olhos. Visitam-se com os pés cansados, com o riso fácil, com a curiosidade acesa e com aquela sensação boa de que cada esquina pode guardar uma história. Na sexta-feira, Londres leva-nos primeiro ao "British Museum". Gosto da ideia de começar o dia rodeada de tempo. De objetos que atravessaram séculos, de civilizações inteiras guardadas em salas, de pedras, estátuas, mapas, memórias e perguntas. Há qualquer coisa de profundamente humana num museu: percebemos que somos pequenos, mas também percebemos que deixamos marcas. Que tudo passa e, ainda assim, alguma coisa fica. Depois, seguimos para outro tipo de memória: o teatro. Vamos ver o musical  The Book of Mormon . Londres tem esta magia — num momento estamos diante da história antiga da humanidade, no outro estamos sentadas numa sala de espetáculo, à espera que o palco se acenda e que a vida nos arranque gargalhadas. E talvez seja isso que eu mais gosto nas viagens: a forma ...

Londres, nós e trinta e cinco anos de conversa

Há viagens que começam muito antes do aeroporto. Esta começou há trinta e cinco anos, talvez no primeiro minuto em que nos reconhecemos. Não sei se há amizades que nascem devagar. A nossa não. A nossa entrou pela vida dentro como quem já vinha atrasada para ficar. Desde o primeiro instante houve qualquer coisa de casa, de riso fácil, de cumplicidade sem esforço. Uma daquelas certezas raras: esta pessoa é minha. Não no sentido da posse, mas no sentido do abrigo. Hoje vamos para Londres. E escrevo isto com a alegria simples das primeiras vezes. Porque, apesar de tudo o que já vivemos juntas, esta será a nossa primeira viagem só nossa. A primeira vez que fazemos mala, aeroporto, ruas desconhecidas, mapas, cafés, mercados, fotografias e passos dados lado a lado noutra cidade. A primeira vez que levamos a nossa amizade para fora do país como quem leva uma coisa preciosa no bolso do casaco. Há qualquer coisa de bonito nisto: depois de tantos anos, ainda haver primeiras vezes. Vamos...

Ainda sobre ontem

Há noites que parecem inventadas para nos lembrar que a vida ainda sabe acender luzes. A noite de São João no Porto foi uma dessas noites. O dia já vinha bonito, mas foi ao cair da tarde, no Jardim do Morro , com a Serra do Pilar por perto e o Douro lá em baixo, que tudo começou a parecer maior do que nós. O sol desceu devagar, como se também ele quisesse ficar para a festa. Dourou as casas, tocou a água, atravessou a ponte, demorou-se nos telhados e ofereceu-me um dos pores do sol mais bonitos que já vi. Há momentos em que a paisagem não se olha: respira-se. E naquele fim de tarde respirei o Porto inteiro. Do outro lado, a Ribeira começava a acender-se. Gente por todo o lado. Música, vozes, passos, martelinhos, gargalhadas, cheiro a festa e aquela alegria coletiva que só algumas cidades sabem fazer. O Porto, no São João, não se limita a celebrar. O Porto entrega-se. Perde a compostura, abre as janelas da alma e vem para a rua inteiro, como se cada pessoa trouxesse dentro ...

S. João

Hoje é dia de exame de Matemática. Acordei cedo, como se o meu corpo já soubesse antes de mim que não era uma manhã qualquer. Há dias que não começam quando abrimos os olhos. Começam antes. Na véspera. Nas mensagens que ficam por escrever. Nos conselhos que ainda queremos repetir. Nas dúvidas que imaginamos do outro lado. No coração que, mesmo sem caneta nem calculadora, também entra em exame. De manhã, há mensagens para mandar. Aquelas mensagens de última hora, feitas de coisas simples e enormes: respira, lê tudo com calma, começa pelo que sabes, não desistas à primeira dificuldade, confia no que trabalhaste. No fundo, são sempre os mesmos conselhos, mas há frases que precisam de ser repetidas porque, em certos dias, funcionam como amuletos. Depois há o último abraço virtual. Aquele antes de eles desaparecerem durante três horas. Três horas é o tempo oficial do exame. Mas para quem fica cá fora, a três metros de distância ou a muitos quilómetros, três horas...

Dizer adeus ....

Hoje é o último dia de explicações do 12.º ano. Escrevo esta frase e ela pesa mais do que parecia. Porque não se despedem apenas alunos. Despedem-se rotinas, lugares ocupados à mesma hora, cadernos abertos, dúvidas trazidas à pressa, exercícios começados com medo e acabados com um sorriso, gargalhadas no meio do cansaço, ralhetes necessários, silêncios atentos, vitórias pequenas que só nós sabemos o tamanho que tiveram. Foram anos, para alguns. Meses intensos, para outros. Mas, de uma forma ou de outra, fomos construindo uma coisa muito nossa. Mais do que aulas. Mais do que Matemática. Mais do que uma professora e os seus alunos. Construímos uma tribo. Uma tribo feita de estudo, de confiança, de trabalho sério, de companheirismo e de presença. Partilhámos a vida de todos os dias: o que nos alegrava, o que nos preocupava, o que nos cansava, o que sonhávamos. Houve contas, claro. Muitas. Houve funções, probabilidades, derivadas, limites e tudo o que a Matemática decidiu colocar...

Começa o verão

Hoje começa o verão e há qualquer coisa de mágico nisso. Talvez seja a luz. Talvez seja esta forma estranha que junho tem de parecer uma porta entreaberta. Talvez seja o cansaço bom de quem atravessou muitos dias de chuva, muitos dias de quadro cheio, muitas horas de contas, vozes, perguntas, explicações, dúvidas, gargalhadas, chamadas de atenção, cafés bebidos depressa e sonhos empurrados com as duas mãos para a frente. Para muita gente, o ano acaba em dezembro. Para mim, não. Para mim, o verdadeiro fim do ano chega agora, quando o verão começa e o ano letivo se despede. O meu calendário interior nunca obedeceu muito aos calendários oficiais. Janeiro pode ter fogos de artifício, passas, champanhe e promessas escritas em guardanapos, mas é junho que me pede contas. É junho que se senta à minha frente, como quem sabe tudo, e me pergunta: então, o que fizeste da tua vida nestes seis meses? E eu respondo-lhe devagar. Fiz o que pude. Às vezes mais do que podia. Ensinei. Corrigi...