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Quartas-feiras

Comecei às oito e meia, sem grande cerimónia, e mergulhei de cabeça em quatro horas seguidas com o décimo segundo ano. Dar duro é a expressão certa: concentração cerrada, raciocínios longos, silêncio atento misturado com perguntas que chegam quando o pensamento tropeça. Há dias em que o tempo se mede assim — em exercícios resolvidos, em olhares que finalmente entendem, em pausas que não chegam a ser pausas. Almocei no lugar do costume das quartas-feiras. Rápido, como sempre, porque só há uma hora e ela passa depressa demais quando ainda se está dentro do dia. O prato veio, foi-se, e ficou a sensação de que comer é apenas um intervalo entre dois blocos de vida. A tarde começou com os mais novos. E há qualquer coisa de diferente em ensinar os mais pequenos, algo que não se explica bem, mas se sente logo à entrada. Dão abraços quentinhos, desses que não pedem autorização, sorriem felizes por me verem e contam o dia como se fosse uma história urgente. As novidades das férias chegam che...

Notas de um dia comum

O dia começou cedo, antes de o corpo perceber que já estava atrasado. Às oito da manhã já ensinava matemática, com a voz ainda a aquecer e o pensamento já a correr à frente. Há qualquer coisa de curioso em explicar números quando o dia ainda está por explicar. Às nove terminei, mas terminar é uma palavra enganadora — apenas mudei de andamento. Entrou o outro ritmo: fichas para preparar, cópias para tirar, listas mentais que nunca chegam a escrever-se. Pequenas vidas a pedir organização, mesmo quando não o dizem em voz alta. Almocei depressa, como quase sempre. Nunca me apetece perder tempo a comer, embora goste de comer — às vezes. É uma contradição que já aceitei. Talvez haja dias em que a fome é outra e não cabe num prato. O relógio avançava enquanto eu fingia que o ignorava. Às dezasseis voltei a começar. Um aluno doente atrasou o início, e esse atraso teve qualquer coisa de humano, como se o dia tivesse respirado fundo antes de continuar. E então aconteceram as visitas. Um alun...

Ensaio sobre a estupidez

Observando o mundo à nossa volta, percebemos que a estupidez humana tem formas variadas e surpreendentes. Não se manifesta apenas em grandes erros ou decisões catastróficas, mas também nos gestos do dia a dia, nos conflitos banais que surgem por pura ausência de noção. Na lavandaria da minha rua, ontem, vi essa estupidez em ação: gritos por um tambor de secar roupa, olhares fulminantes, quase à porrada para decidir quem lavava ou secava primeiro. E eu, parada, observava, sem conseguir acreditar como algo tão pequeno consegue transformar pessoas em animais, cegos para o outro, selvagens diante da própria urgência. Como se a pressa apagasse toda a lógica e toda a consciência de que somos apenas vizinhos, partilhando um espaço, uma cidade, um mundo que não nos pertence por inteiro. Não é só a lavandaria. É o assalto silencioso ao papel higiénico, as compras exageradas de comida, como se a abundância individual valesse mais que a necessidade coletiva, como se não houvesse ningu...

Quando o Conforto Não Chega a Todos

Dia Agridoce Hoje é segunda-feira. Chove. Faz frio. Há aulas para dar e, na minha sala, está quentinho. A água corre nas torneiras como se fosse um direito antigo, a luz acende-se sem hesitar, o chá fuma devagar, o café acorda o corpo. Tudo funciona. Tudo está no sítio. Há uma espécie de paz doméstica que nos embala e quase nos faz esquecer o mundo lá fora. Quase. Porque lá fora há casas que já não existem. Há portas que deixaram de dar para dentro. Há ruas transformadas em rios sem margens e aldeias suspensas num silêncio onde não chega nada — nem pão, nem médicos, nem notícias, nem promessas. Há pessoas ilhadas não pela água apenas, mas pela ausência. E há animais. Sempre os animais. Assustados, perdidos, com fome, à espera de alguém que não consegue chegar. Morrem devagar, que é a forma mais injusta de morrer. É estranho como a gratidão pode doer. Sinto-me grata por ter tudo isto — o calor, o abrigo, a possibilidade de ensinar, de cuidar, de dar....

Quem somos nós quando o outro nos pede um pouco mais de humanidade?

Domingo Cinzento O domingo caiu como um pano pesado sobre a cidade. A chuva não batia — insistia. Escorria pelas paredes, pelos telhados, pelas pessoas, como se quisesse ensinar alguma coisa que ninguém estava disposto a aprender. Na televisão, a voz neutra avisava novos temporais, mas o verdadeiro mau tempo não vinha do céu. Vinha de dentro. Um domingo cinzento tem esse poder: ilumina o que costumamos esconder à pressa durante a semana. Há dias assim em que o egoísmo sobe à superfície, como óleo em água suja. As pessoas recolhem-se, não para proteger os outros, mas para proteger apenas a si mesmas. Fecham portas, cruzam braços, desviam o olhar. Ajudar dá trabalho, compromete, obriga a sentir — e sentir dói. O mais duro é quando essa ausência vem de quem está próximo de nós. De quem devia ser abrigo, mas às vezes é apenas mais um lugar onde a chuva entra. Quando a indiferença tem rosto conhecido, a dor não grita:...

Manifesto — A Educação Não Acabou. Mas o Modelo, Sim

A educação não está em crise. Está em transição estrutural . O que se encontra esgotado não é o aprender nem o ensinar, mas o modelo educativo herdado da lógica industrial : linear, padronizado, centrado na transmissão de conteúdos e na avaliação quantitativa do desempenho. Um modelo pensado para a previsibilidade, não para a complexidade. Como apontam diversos autores da Sociedade do Conhecimento, o mundo deixou de ser estável, sequencial e controlável. Vivemos num contexto marcado pela incerteza, pela aceleração tecnológica e pela produção contínua de informação. Ainda assim, grande parte das instituições educativas continua a operar como se o conhecimento fosse escasso, estático e concentrado num único espaço: a sala de aula. Não é. O acesso à informação tornou-se ubíquo. O desafio deixou de ser aceder ao conhecimento e passou a ser compreender, avaliar criticamente, aplicar e criar . É neste contexto que emergem conceitos como literacia digital, competências do...

Sábado

O sábado começou cedo, como começam os dias que ainda não sabem bem ao que vêm. A luz entrou pela janela com cautela, como se também ela estivesse a testar se já era seguro ficar. Não houve pressa. Houve antes uma espécie de atenção miúda, um olhar mais demorado sobre as coisas simples, como quem reaprende o território depois de um abalo. A minha sala abriu as portas e, com elas, começaram a chegar os alunos. Alguns vinham para a aula, mochila às costas, caderno na mão, tentando recuperar a normalidade de sentar, ouvir, responder. Outros vieram só ver. Passaram pela porta, olharam para dentro, ficaram uns minutos, sorriram, perguntaram como estava tudo. Havia também os que vinham beber café, ligar o telemóvel, aproveitar uma tomada livre como quem aproveita uma tábua em mar revolto. Durante essas horas, a minha sala foi outra coisa. Não apenas um lugar de aprendizagem, mas um ponto de reencontro, um espaço d...