julho, ou a minha forma de nascer outra vez, mais um ano
Nasci em julho. Gosto de dizer isto como quem diz que nasceu com o sol do lado de dentro. Talvez seja exagero, mas eu tenho uma certa ternura pelos meus exageros. Nasci no meu mês preferido, na minha estação preferida, debaixo de uma luz que me parece sempre mais minha do que as outras. Há pessoas que pertencem à chuva, outras ao nevoeiro, outras aos dias curtos de inverno. Eu pertenço ao calor, às tardes demoradas, às cigarras, às noites claras, às janelas abertas e àquele cansaço doce de quem viveu o dia até ao fim. Sou de julho. Do mês sete. Logo eu, que adoro números pares. Mas há aqui uma pequena ironia cósmica que me diverte. O mês que me recebeu é ímpar, mas o dia em que nasci é par, como se o universo tivesse querido fazer uma espécie de negociação comigo: dou-te um mês solar, intenso, luminoso, mas deixo-te nascer num número certo, redondo, equilibrado, daqueles que se dividem melhor no meu coração matemático. Toda a gente sabe que gosto de números pares. Gosto da idei...