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Amor

Há amores que não começam quando encontramos alguém. Começam antes. Começam na forma como fomos olhados pela primeira vez. Na mão que nos segurou antes de sabermos caminhar. Na voz que nos chamou pelo nome quando ainda não sabíamos quem éramos. Começam no colo, no cuidado, na presença silenciosa de quem nos deu mundo antes de nós sabermos agradecer. O meu primeiro grande amor foi o amor do meu pai. Não sei se, na altura, eu sabia chamar-lhe amor. Talvez as crianças não saibam. As crianças vivem dentro do amor como se vivem dentro de uma casa: sem pensar nas paredes, no telhado, na luz que entra pela janela. Só quando a casa falta é que percebemos que ela nos segurava. Quando o meu pai morreu, não perdi apenas uma pessoa. Perdi o chão. E não há uma maneira mais bonita de dizer isto, até porque há dores que resistem à beleza das palavras. Há dores que não querem ser enfeitadas, querem apenas ser reconhecidas. A morte de um pai é uma dessas dores. Não é só ...

Regressar também é uma forma de amor

Há viagens que nos levam para longe e, sem darmos conta, nos devolvem ao lugar certo. Londres foi extraordinária. Cinco dias cheios. Cinco dias de ruas, passos, mapas, mercados, museus, teatros, musicais, luzes, conversas, gargalhadas, cansaço bom e aquela sensação rara de se estar exatamente onde se devia estar. Londres no seu melhor: imensa, viva, antiga e moderna ao mesmo tempo, sempre com pressa, sempre com charme, sempre a dizer-nos que o mundo é muito maior do que a nossa rotina. Foram dias de vida londrina. De andar sem parar. De entrar no metro e sair noutra cidade dentro da mesma cidade. De atravessar ruas com nomes que parecem saídos de livros. De olhar montras, fachadas, jardins, mercados, pontes, teatros e perceber que há lugares que nos acordam por dentro. Londres tem essa capacidade: faz-nos sentir pequenas diante da sua grandeza, mas também nos empresta uma espécie de coragem elegante, como se nos dissesse: vai, vê, experimenta, vive. E vivi. Vivemos. Porque...

Chegou ao fim …

A minha viagem chegou ao fim. Mas Londres não terminou hoje. Apenas fechou os olhos, como quem descansa depois de nos ter acolhido com a generosidade rara das cidades que sabem ser casa sem nos pertencerem. Partimos com sol. Céu azul, como se a cidade quisesse contrariar a sua própria fama e dizer-nos, em silêncio, que também ela sabe ser leve quando se despede. Chegámos assim. Partimos assim. Como se o tempo, por uns dias, tivesse decidido ser gentil. Mas o que realmente termina — ou talvez não — é esta espécie de regresso que fizemos a nós mesmas. Há amizades que resistem. A nossa não só resistiu — expandiu-se. Como uma cidade invisível que foi crescendo dentro do tempo, atravessando anos, silêncios, distâncias e as pequenas separações que a vida vai desenhando sem pedir licença. E, ainda assim, intacta. Ou melhor: mais inteira. Durante estes dias, voltámos aos dezassete anos. Não porque o tempo tenha recuado, mas porque nunca saiu verdadeiramente de nós. Há coisas que não envelhecem...

Londres, domingo — três amigas e uma cidade a dançar

Há domingos que parecem feitos para caminhar devagar, mesmo quando os pés já dizem o contrário. Este domingo começou em Brick Lane , essa rua onde Londres parece misturar tudo sem pedir licença: cheiros, línguas, cores, arte nas paredes, bancas, lojas improváveis, gente de todos os lados, vidas a cruzarem-se sem saberem que fazem parte da mesma fotografia. Gosto destes lugares que não se arrumam demasiado. Lugares com alma desalinhada, onde a cidade se mostra menos polida e mais verdadeira. Depois, Old Spitalfields Market . Mercados têm sempre qualquer coisa de promessa. Nunca sabemos exatamente o que vamos encontrar: uma peça bonita, uma comida nova, uma conversa inesperada, uma memória que acorda diante de um objeto qualquer. Caminhámos entre bancas, luz, movimento e aquela alegria simples de quem está longe de casa, mas acompanhada por pessoas que sabem fazer casa em qualquer lugar. E hoje éramos três. Eu, a minha irmã de vida, e a Ana. A Ana que nos acolheu. Que nos de...

Londres, entre ruínas, jardins suspensos e saudades de casa

Há dias de viagem que parecem feitos de contrastes. Começámos por St Dunstan-in-the-East , esse lugar improvável onde Londres parece parar para respirar. Uma igreja em ruínas transformada em jardim. Pedras antigas, janelas abertas para o céu, plantas a crescerem por entre aquilo que ficou de pé. Gosto destes lugares que não escondem as marcas do tempo. Pelo contrário: fazem delas beleza. Como se dissessem que nem tudo o que se parte desaparece. Às vezes, transforma-se. Às vezes, floresce de outra maneira. Depois subimos ao Garden at 120 , e Londres apareceu-nos de cima, mais larga, mais luminosa, mais cidade. Há qualquer coisa de especial em ver uma cidade do alto. As ruas por onde andámos tornam-se linhas, os prédios tornam-se peças de um tabuleiro, e nós percebemos que somos pequenas dentro daquele movimento todo. Pequenas, mas inteiras. Pequenas, mas ali. A viver. E vivemos muito. Caminhámos. Muito. Muito mesmo. Londres é também isto: pés cansados, mapas abertos, estações d...

Londres, dia dois — entre museus, palcos e ruas que parecem cenários

Há cidades que não se visitam apenas com os olhos. Visitam-se com os pés cansados, com o riso fácil, com a curiosidade acesa e com aquela sensação boa de que cada esquina pode guardar uma história. Na sexta-feira, Londres leva-nos primeiro ao "British Museum". Gosto da ideia de começar o dia rodeada de tempo. De objetos que atravessaram séculos, de civilizações inteiras guardadas em salas, de pedras, estátuas, mapas, memórias e perguntas. Há qualquer coisa de profundamente humana num museu: percebemos que somos pequenos, mas também percebemos que deixamos marcas. Que tudo passa e, ainda assim, alguma coisa fica. Depois, seguimos para outro tipo de memória: o teatro. Vamos ver o musical  The Book of Mormon . Londres tem esta magia — num momento estamos diante da história antiga da humanidade, no outro estamos sentadas numa sala de espetáculo, à espera que o palco se acenda e que a vida nos arranque gargalhadas. E talvez seja isso que eu mais gosto nas viagens: a forma ...

Londres, nós e trinta e cinco anos de conversa

Há viagens que começam muito antes do aeroporto. Esta começou há trinta e cinco anos, talvez no primeiro minuto em que nos reconhecemos. Não sei se há amizades que nascem devagar. A nossa não. A nossa entrou pela vida dentro como quem já vinha atrasada para ficar. Desde o primeiro instante houve qualquer coisa de casa, de riso fácil, de cumplicidade sem esforço. Uma daquelas certezas raras: esta pessoa é minha. Não no sentido da posse, mas no sentido do abrigo. Hoje vamos para Londres. E escrevo isto com a alegria simples das primeiras vezes. Porque, apesar de tudo o que já vivemos juntas, esta será a nossa primeira viagem só nossa. A primeira vez que fazemos mala, aeroporto, ruas desconhecidas, mapas, cafés, mercados, fotografias e passos dados lado a lado noutra cidade. A primeira vez que levamos a nossa amizade para fora do país como quem leva uma coisa preciosa no bolso do casaco. Há qualquer coisa de bonito nisto: depois de tantos anos, ainda haver primeiras vezes. Vamos...