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Yellow people ... A cor da presença

Esta semana li um post sobre o conceito de yellow person . A expressão ficou comigo. Falava daquelas pessoas a quem podemos confiar o que sentimos, que nos escutam com disponibilidade e atenção, sem julgar, sem diminuir a nossa inquietação, sem a cobrir depressa com uma frase que já foi dita a toda a gente. Pessoas que permitem que aquilo que trazemos no peito chegue inteiro, sem lhes atirar um "isso já passa", ou "Não penses nisso agora"... Reconheci algumas dessas presenças na minha vida. Ao pensar nelas, encontrei sobretudo uma sensação: a de poder falar antes de ter compreendido tudo, de entregar uma frase ainda incompleta e sentir que alguém me entende, de poder admitir uma contradição e não ser julgada por isso, de procurar, na companhia de alguém, o sentido daquilo que me acontece. Há uma intimidade verdadeiramente profunda em sermos recebidos antes de conseguirmos explicar-nos. Grande parte da vida passa-se nesse intervalo entre sentir e comp...

A vida tem os nomes de quem chega

Às sete da manhã, ainda o dia está a abrir os olhos e já eu lhe ando a arrumar as gavetas. Faço listas mentais, distribuo tarefas, tento encontrar lugar para tudo o que precisa de caber nas horas seguintes. A minha cabeça chega quase sempre primeiro que eu aos sítios. Quando finalmente me levanto, já ela abriu a sala, respondeu a perguntas e se esqueceu de alguma coisa que, naturalmente, só há de recordar quando eu estiver ocupada com outra. Depois, há o café. O de sempre, no lugar do costume. Gosto desta pequena certeza antes de começar a negociar com os imprevistos. E gosto, sobretudo, de encontrar a minha tribo: as amigas que fui acrescentando aos meus dias e que, com a generosidade de quem chega uma cadeira para o lado, me deram lugar nas suas vidas. Fomos ficando. Entre cafés, conversas e manhãs mais ou menos apressadas, fomos aprendendo a contar umas com as outras. Agora, quando falta uma, dou por isso e sinto-lhe a falta. O lugar vazio faz perguntas: estará bem? Te...

Tempo

Não tenho uma agenda. Tenho duas. Talvez porque uma só não suporte tudo o que peço aos dias. Numa página ficam as horas, noutra continuam as obrigações, os encontros, o trabalho que começa quando o outro termina. Tenho dois empregos, um horário exigente e as horas ocupadas ao milímetro. Trabalho catorze horas por dia, de segunda a sábado. Ao domingo, ainda encontro o que fazer, organizar, preparar, gerir. A semana seguinte começa a pedir coisas antes de a anterior acabar. Escrevo isto e vejo os números. Vivê-los é diferente. Por dentro dessas horas há pessoas, decisões, dúvidas, atenção. Há coisas que continuam a acontecer em mim depois de terminado o tempo que lhes estava destinado. O relógio separa os compromissos com uma facilidade que a cabeça desconhece. Sou professora, mãe e esposa. Sou cuidadora. Estas partes de mim convivem, cruzam-se, chamam umas pelas outras. Entre todas, a minha maior tarefa é ser mãe. Cuidar dos meus. Acompanhar os seus caminhos, estar prese...

Hoje, conto os anos por ti

Hoje farias setenta e oito anos, pai. Escrevo este número e demoro-me nele. Tento imaginar-te com a idade que não chegaste a ter. Como seria o teu rosto, que gestos terias conservado, o que o tempo teria feito à tua voz. Há uma parte de ti que só posso procurar assim, numa possibilidade. Conheço a tua ausência há tantos anos e continuo sem saber como serias hoje. Partiste com quarenta e quatro. E eu nunca mais contei os dias do mesmo modo. Desde então, cada data tem o que aconteceu e o que ficou por acontecer. Os anos avançaram, aconteceram tantas coisas, e tu continuaste a faltar de maneiras novas. Porque a saudade também muda com a vida. Há sempre alguma coisa que gostava de te contar pela primeira vez. Há sempre uma idade minha a que chego sem saber como seria ter-te ao lado. Hoje gostava de te dar os parabéns e ficar a ouvir-te. Falo contigo todos os dias. Às vezes, digo apenas «pai», e parece-me que já te disse muito. Outras vezes, conto-te o que me preocupa, ...

À altura de um abraço

A tristeza que mais me custa tem, quase sempre, alguma coisa de inesperado. Vem de uma voz junto da qual tinha baixado a guarda, de um gesto de quem julgava conhecer o cuidado de que sou feita. Às vezes, cabe inteira numa palavra. Outras, numa ausência: alguém que não está, que não pergunta, que deixa um silêncio precisamente onde eu precisava de uma resposta. Fico a pensar no pouco que é necessário para magoar uma pessoa. E no pouco que, em certos dias, teria bastado para a amparar. Gostava que algumas coisas não me atingissem tanto. Gostava de ter uma grandeza tranquila, qualquer coisa de árvore antiga que sabe do vento e permanece. Mas há palavras que me atravessam antes de eu conseguir compreendê-las. Quando tento perceber por que razão doeram tanto, já encontraram outras dores, já tocaram em lugares que eu julgava sossegados. O coração tem esta memória involuntária: um gesto de hoje pode abrir a porta a muitas tristezas antigas. Sei que nem tudo o que me fere foi fe...

Regressos

O calendário diz que entrámos no outono. O calor, pelos vistos, não recebeu o aviso. Ao fim da tarde, ainda há verão no ar. Entretanto, já se abriram os cadernos e se começaram a acertar horários. Ou a tentar. Ainda nem passou uma semana de explicações e a agenda já tem setas, rasuras e trocas. Há horas que mudam de lugar, mensagens a responder, encaixes por descobrir. Chego ao fim do dia cansada. O recomeço tem este lado menos bonito, feito de relógios desregulados e de contas que não aparecem nos manuais. Mas também tem uma alegria difícil de explicar a quem nunca esperou pelo regresso de um aluno. Os antigos voltam e, com eles, uma familiaridade construída devagar. É bom matar saudades, ouvir o que aconteceu entretanto e perceber que a confiança sobreviveu às férias. Aos novos abro a porta e dou as boas-vindas. Ainda estamos a conhecer-nos: eu procuro perceber como pensam, onde hesitam, o que já sabem sem se terem dado conta. Eles vão descobrindo que aqui podem fazer perguntas, ...

O amor também sabe sair da frente

Uma criança senta-se no chão para atar os atacadores. Demora. Faz uma laçada torta, desfaz o nó, troca as mãos, suspira e recomeça. O adulto olha para o relógio. Está atrasado. Ajoelha-se, afasta-lhe as mãos e, num gesto rápido e eficiente, ata-lhe os sapatos. Saímos a horas. Mas talvez aquela criança tenha perdido uma pequena oportunidade de crescer. É assim, muitas vezes, que a autonomia começa a ser adiada: não através de grandes proibições, mas por meio de pequenos gestos quotidianos feitos com a melhor das intenções. Fazemos por eles porque é mais rápido. Respondemos por eles porque receamos que se enganem. Escolhemos por eles porque acreditamos saber o que é melhor. Retiramos-lhes as pedras do caminho, antecipamos os obstáculos, evitamos-lhes a frustração e, se pudéssemos, talvez lhes preparássemos uma vida inteira revestida de plástico de bolhas. Tudo por amor. Mas o amor também pode prender. A autonomia não é uma capacidade que se entrega aos dezoito ...