Shhhhhhh
Vivemos numa sociedade estranha: primeiro manda-nos correr e depois vende-nos cursos para desacelerar. Pede-nos produtividade, rapidez, resposta imediata, presença em todo o lado, eficiência sem falhas, disponibilidade sem cansaço, paciência sem limites. Mas, ao mesmo tempo, diz-nos: respira, abranda, encontra o teu centro, fala devagar, não te exaltes, não sejas demais. Eu ouço isto desde pequena. “Fala menos.” “Acalma-te.” “Respira.” “Fala devagar.” “Pára quieta.” “Cala-te cinco minutos.” E eu, que achava que estava apenas viva, fui aprendendo que talvez estivesse a ocupar espaço a mais. Sempre me lembro de ser a mais faladora da aula. A mais entusiasmada. A que saía cedo para o intervalo e regressava depois da hora, com as mãos cheias de planos, ideias e urgências. Eu não ia para o recreio brincar apenas. Ia fundar mundos. Inventava teatros, escrevia os textos todos, distribuía papéis, organizava entradas e saídas, dizia quem ficava onde, quem fa...