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Sobre um 12 de maio

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É 12 de maio. Há peregrinos na rua. Muitos. Grupos e grupos a chegar a pé, vindos de todos os lados do país, e de outros lugares que talvez eu nunca saiba nomear. Vêm com mochilas, terços, coletes refletores, pés cansados, joelhos doridos, ombros gastos, olhos cheios de qualquer coisa que não se explica bem. Há quem venha em silêncio. Há quem venha a cantar. Há quem venha a rezar baixinho, como se cada palavra fosse um passo e cada passo fosse uma promessa. E há qualquer coisa de profundamente comovente nesta paisagem humana. Porque um peregrino nunca é apenas alguém que caminha. Um peregrino é alguém que leva o corpo até onde a alma precisa de chegar. Vejo-os passar e penso no que trarão dentro. Ninguém caminha tantos quilómetros apenas com os pés. Caminha-se com saudades. Com medos. Com doenças. Com promessas feitas em quartos de hospital. Com agradecimentos que não cabem na voz. Com filhos no pensamento. Com mães que já partiram. Com dores antigas. Com cu...

Filhos do coração

Quando alguém me diz: “a Paula cuida dos nossos filhos como se fossem seus”, eu fico sempre uns segundos sem saber onde pôr esse elogio. Há frases demasiado grandes para caberem no ouvido. Entram por nós dentro e vão pousar num lugar antigo, talvez o mesmo onde guardamos os medos, as promessas e aquilo que nos torna responsáveis. Porque confiar um filho a alguém é um ato imenso. É entregar um pedaço de futuro. É dizer: “toma, aqui está o que tenho de mais precioso; ajuda-o a crescer sem o partir.” E não há, de facto, maior elogio que me possam fazer. Eu sei que me entregam os filhos para aprender Matemática. Funções, equações, frações, gráficos, problemas, métodos, raciocínios. Mas quem ensina sabe que nunca ensina só a matéria. Ensina-se também a esperar. A tentar outra vez. A não desistir ao primeiro erro. A organizar o pensamento. A lidar com a frustração. A descobrir que o “não consigo” muitas vezes quer apenas dizer “ainda não consegui”. A Matemática é, muitas ve...

Segunda-feira, esse início dos inícios

É segunda-feira outra vez. Não sei bem como. Ainda agora era sexta, ou talvez sábado, ou talvez aquele "domingo-semana" que inventei para mim, porque trabalho ao sábado e o descanso, quando chega, já vem cansado. Há fins de semana que não são fins de semana. São intervalos. Pequenos parênteses entre duas urgências. Piscamos os olhos e já passaram. Este passou a voar. Mal estive com os meus filhos com tempo. Tempo verdadeiro, quero dizer. Daquele que não tem relógio a tossir no pulso, nem roupa por estender, nem mensagens por responder, nem a cabeça a fazer listas enquanto o corpo finge estar presente. Estive, sim. Mas queria ter estado mais. Queria ter tido uma tarde inteira para os ouvir respirar a vida deles, contar as novidades, rir das coisas pequenas, perguntar sem pressa, ficar sentada na cozinha como se o mundo pudesse esperar lá fora com educação. A vida tem destas crueldades discretas: dá-nos pessoas-casa e depois rouba-nos as tardes para as habitar...

Parentalidade positiva ou a delicada arte de não desistir de educar?

Há palavras que nascem boas e acabam gastas de tanto mau uso. “Parentalidade positiva” é uma delas. Em princípio, a ideia é luminosa: educar sem humilhar, corrigir sem esmagar, orientar sem ferir, escutar sem ridicularizar. Durante demasiado tempo confundiu-se autoridade com medo, disciplina com castigo e respeito com obediência muda. A parentalidade positiva veio lembrar-nos algo essencial: a criança é uma pessoa em desenvolvimento, não uma propriedade dos adultos; precisa de vínculo, segurança, linguagem, escuta, previsibilidade e cuidado. Até aqui, tudo bem. Aliás, tudo muito bem. O problema começa quando a parentalidade positiva deixa de ser uma ética do cuidado e passa a ser uma desculpa elegante para a desistência do adulto. Quando o “não quero traumatizar o meu filho” se transforma em “não consigo dizer não”. Quando validar emoções passa a significar aceitar todos os comportamentos. Quando escutar a criança se confunde com negociar tudo. Quando a criança deixa de ser...

Nós ou laços?

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Há uma diferença imensa entre conhecer pessoas e ter amigos. Conhecer pessoas é fácil. A vida oferece-nos colegas, vizinhos, contactos, grupos de WhatsApp, pessoas com quem tomamos café, pessoas com quem partilhamos corredores, tarefas, reuniões, aniversários, fotografias e pequenas indignações diárias. Há gente que nos sabe o nome, que nos pergunta se está tudo bem, que nos sorri por educação e até nos deseja um bom fim de semana à sexta-feira. Mas a amizade é outra coisa. A amizade não pergunta “está tudo bem?” como quem passa uma senha à porta de uma conversa. A amizade pergunta “como foi o teu dia?” e fica. Fica mesmo. Fica com tempo, com ouvidos, com corpo inteiro. Fica preparada para a possibilidade de a resposta não caber no “foi bom, obrigada”. Fica disponível para ouvir: “não me correu nada bem”. E, quando ouve isso, não foge para uma frase feita, não arruma a dor do outro com um “isso passa”, não tenta pôr verniz no que ainda está partido. A amizade verdade...

A minha Teoria da Cartografia Humana

Tenho uma teoria sobre as pessoas. Chamo-lhe, por agora, a Teoria da Cartografia Humana . Talvez porque sempre achei que as pessoas não são todas feitas da mesma geografia. Há pessoas que são montanha. Há pessoas que são planalto. Há pessoas que são planície. E há pessoas que são vale. Algumas trazem dentro mapas inteiros, com curvas de nível, falhas tectónicas, rios subterrâneos e altitudes que só se descobrem depois de muito caminho. As pessoas montanha são raras. Têm densidade e elevação. Não apenas altura, que isso qualquer ego mal resolvido consegue fingir. Têm elevação de caráter. Crescem para cima, mas também para dentro. São feitas de tempo, de silêncio, de resistência, de sabedoria acumulada como pedra antiga. Uma pessoa montanha não precisa fazer barulho para existir. Está lá. Firme. Inteira. Com sombra suficiente para abrigar e altitude suficiente para nos obrigar a olhar mais longe. As pessoas montanh...

A oliveira da Academia

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Às vezes perguntam-me porque escolhi uma oliveira como símbolo da Academia. Podia responder de forma simples. Dizer que foi por acaso. Que havia uma oliveira, que a plantei com um grupo de alunas, que a minha filha a pintou nas paredes da Academia, e que tudo isso, por si só, já bastava para lhe dar um lugar especial. Mas há símbolos que começam por acaso e acabam por explicar-nos melhor do que qualquer discurso. A oliveira não é uma árvore qualquer. É uma árvore antiga. Mediterrânica. Paciente. Uma árvore que sabe esperar. Cresce devagar, atravessa verões secos, resiste ao vento, suporta o tempo, perde folhas e volta a dar fruto. Dizem que a oliveira é uma árvore que nunca morre verdadeiramente. Mesmo quando parece vencida, mesmo quando o tronco envelhece, mesmo quando é cortada, há vida escondida nas suas raízes. Há sempre um rebento possível. Há sempre uma forma discreta de recomeçar. Talvez tenha sido por isso que ela...