A liberdade de andar
Quando me perguntam do que mais gostei no Caminho de Santiago, nunca sei responder como quem escolhe uma fotografia dentro de um álbum. Já o fiz três vezes e, ainda assim, a resposta continua a escapar-me das mãos, como água de rio. Talvez porque o Caminho não se deixe resumir. Talvez porque aquilo de que mais gostei não foi uma igreja, uma paisagem, uma cidade, uma chegada. Foi uma sensação. Uma espécie de liberdade antiga, quase primitiva, que talvez todos tenhamos dentro de nós e que só despertamos quando começamos a andar. Gostei da liberdade de andar e parar onde queria. De não ter de obedecer a relógios, agendas, campainhas, horários, compromissos, tarefas, notificações, vozes a chamar por mim. Gostei de poder chegar à hora que chegasse, parar onde me apetecesse, dormir onde houvesse cama, sombra, descanso ou simplesmente vontade. Gostei dessa possibilidade rara de caminhar sem destino, mesmo sabendo que Santiago estava lá, algures, como uma promessa. O destino existia, claro....