Mensagens

Sobre a amizade num tempo que passa depressa demais

A amizade é uma coisa frágil. Não no sentido em que se quebra facilmente, mas no sentido em que precisa de cuidado. Como um copo pousado à beira da mesa: não cai por acaso, cai porque alguém passou a correr. Vivemos num tempo em que quase todos passam a correr. Corremos para cumprir prazos, para responder a mensagens que não pedimos, para sermos eficientes, disponíveis, produtivos. E, no meio dessa pressa, esquecemo-nos de algo essencial: ninguém constrói amizade por acidente. A amizade precisa de tempo. E o tempo, hoje, parece ser sempre coisa dos outros. Dizemos muitas vezes “temos de combinar”, como quem diz “não agora”. Prometemos cafés que nunca acontecem, conversas que ficam suspensas, abraços adiados para um dia qualquer que não chega. Não é por falta de carinho — é por excesso de ruído. O mundo fala alto demais e nós aprendemos a ouvir mal. As relações tornaram-se frágeis porque se tornaram rápidas. Trocam-se pessoas como se trocam aplicações: quando deixa de funciona...

E se eu não for capaz de viver sem ela?

“E se eu não for capaz de viver sem ela?” “Como faço?” Hoje, um adolescente ofereceu-me a sua dor ao telefone. Não veio embrulhada em teorias nem em frases bonitas. Veio crua, urgente, inteira. Veio com o medo próprio de quem ama pela primeira vez como se estivesse a aprender a respirar — e teme que, se o amor acabar, o ar acabe também. Há idades em que o amor não é apenas amor. É identidade. É chão. É a promessa silenciosa de que alguém nos vê por inteiro, mesmo quando ainda não sabemos quem somos. Na adolescência, ama-se com o corpo todo e com o futuro inteiro. Ama-se como se cada despedida fosse definitiva, como se cada ausência fosse um abismo. Perder alguém, nessa idade, não é só perder um amor — é perder um espelho, um rumo, uma versão possível de nós mesmos. E o medo não é apenas de ficar só. É o medo de não saber existir depois. Quando ...

Hoje venceu a democracia

Hoje não venceu apenas um partido, nem uma sigla, nem um conjunto de promessas eleitorais. Hoje venceu algo maior, mais lento e mais profundo: venceu a democracia , venceu o bom senso , venceu a capacidade coletiva de um povo pensar para lá do medo e da raiva. Os portugueses foram chamados a escolher entre dois caminhos antigos como a própria história humana. De um lado, o populismo fácil, a demagogia que grita soluções simples para problemas complexos, que divide para ganhar força, que aponta o dedo para esconder o vazio. Do outro, a liberdade exigente, aquela que não se impõe aos berros, mas se constrói com responsabilidade, diálogo e consciência. Hoje, Portugal escolheu a liberdade. Escolheu a ideia de que a democracia não é perfeita — mas é o melhor lugar onde podemos discordar sem nos destruirmos. Onde podemos votar sem nos odiarmos. Onde podemos perder sem deixar de pertencer. A democracia venceu porque os portugueses...

Herança

Os sonhos nunca me apareceram enquanto dormia. Sempre me chegaram acordada, quando a vida começava a pesar mais do que o corpo. Lembro-me de ser pequena e já sentir esse peso — não sabia nomeá-lo, mas reconhecia-o. Era como se alguma coisa em mim estivesse sempre a chamar-me para a frente, mesmo quando eu queria ficar. Cresci na serra, onde os dias começavam cedo e o frio ensinava a acordar depressa. No inverno, o chão gelava antes do sol nascer e as mãos aprendiam a trabalhar mesmo dormentes. Lembro-me das botas molhadas, do cheiro da lenha, do silêncio grande que só a serra sabe fazer. Ali aprendi que o mundo não se explica — atravessa-se. Nunca aprendi a sonhar sentada. Ainda criança, percebi que as coisas importantes exigiam corpo. Subir caminhos íngremes, ajudar no que fosse preciso, cair e levantar sem grande cerimónia. A vida ensinou-me cedo que querer não basta. É preciso insistir. É preciso aguentar. E, às vezes, é preciso ...

PHDA - Quando vivemos em velocidade invisível

Viver em velocidade invisível Durante muito tempo pensei que o meu ritmo era apenas parte da minha personalidade. Diziam que eu era dinâmica, produtiva, apaixonada pelo que fazia. Eu também acreditava nisso — e, na verdade, continuo a acreditar que há beleza na intensidade com que vivo o mundo. Mas há intensidades que não são escolha. São sobrevivência. Viver com PHDA, para mim, é habitar um pensamento que raramente abranda. É ter ideias a nascerem ao mesmo tempo que outras ainda nem terminaram de existir. É sentir uma urgência constante, como se o tempo estivesse sempre um passo à frente de mim — e eu a correr para o alcançar, mesmo quando ninguém me pediu para correr. Durante anos, essa energia foi vista como capacidade. E muitas vezes também foi. Ajudou-me a construir, a criar, a cuidar, a ensinar, a estar presente para tantas pessoas. Mas existe um lado menos visível: o cansaço de quem nunca encontra verdadeiramente o botão de pausa. Descobri, co...

Aprender a ser casa

Sou mulher e aprendi cedo a não descansar dentro de mim. A exigir-me clareza quando estava confusa, força quando só queria colo, maturidade quando ainda doía. Como se falhar fosse um luxo que nunca me pertenceu. Como se existir tivesse de vir sempre acompanhado de desempenho — e como se esse desempenho tivesse sempre de ser irrepreensível. Cresci a aplaudir-me pouco e a cobrar-me muito. A transformar cansaço em culpa, silêncio em fraqueza, pausa em preguiça. A ser sempre exigente demais comigo. Na minha cabeça eu tinha que ser: a professora mais atenta e competente, a mãe sempre presente, a esposa dedicada, a filha mais disponível. Em cada papel, a mesma exigência silenciosa de perfeição. Sou perita em sobreviver — mas ainda aprendiz em permitir-me. E às vezes pergunto-me quando foi que comecei a tratar-me como projeto em constante correção, em vez de casa habitável. Ser mulher, para mim, tem sido...

Sobre o amor

A vida corre. Não anda, não passeia, não pede licença. Corre como quem sabe que o tempo é um animal inquieto. E eu corro com ela — às vezes ofegante, às vezes distraída, quase sempre feliz. Há dias em que acordo já atrasada para mim mesma. O café arrefece enquanto penso no que ainda não vivi. O amor, esse, não espera sentado: tropeça comigo nas escadas, manda mensagens sem pontuação, aparece quando estou cansada e diz “fica”. Fico. Mesmo quando não posso. Mesmo quando devia ir. Amar, aprendi, não é desacelerar o mundo. É aprender a respirar dentro dele. É aceitar que a felicidade não vem embalada em silêncios longos, mas em ruídos bons: risos fora de hora, discussões que acabam em abraço, a vida a bater à porta enquanto ainda estamos de pijama. Corremos porque queremos muito. Porque desejamos mais do que caberia numa vida parada. Corremos atrás de sonhos pequenos — um jantar improvisado, uma conversa que se prolonga, ...