Não comecei tarde. Comecei quando pude.
No currículo, as datas comportam-se bem. Formam colunas, aceitam parênteses e deixam-se ordenar da mais recente para a mais antiga. Não fazem perguntas inconvenientes nem revelam o que aconteceu entre uma linha e a seguinte. Um currículo tem essa habilidade extraordinária de transformar uma vida numa sucessão de acontecimentos aparentemente planeados. A vida, porém, tem a indelicadeza de não caber numa folha de cálculo. Entre a licenciatura e o mestrado há, no meu currículo, um espaço em branco. À primeira vista, parece apenas tempo decorrido. Mas aquele espaço não está vazio. Nele, perdi o meu pai e a minha avó no espaço de três meses. Três meses são uma estação do ano. Tempo suficiente para as árvores mudarem de roupa, mas demasiado pouco para um coração aprender duas ausências. O luto não aparece nos certificados. Não concede créditos, não atribui diplomas e raramente respeita calendários. Instala-se dentro de nós e muda silenciosamente a ordem das coisas. O mundo conti...