Londres, nós e trinta e cinco anos de conversa
Há viagens que começam muito antes do aeroporto. Esta começou há trinta e cinco anos, talvez no primeiro minuto em que nos reconhecemos. Não sei se há amizades que nascem devagar. A nossa não. A nossa entrou pela vida dentro como quem já vinha atrasada para ficar. Desde o primeiro instante houve qualquer coisa de casa, de riso fácil, de cumplicidade sem esforço. Uma daquelas certezas raras: esta pessoa é minha. Não no sentido da posse, mas no sentido do abrigo. Hoje vamos para Londres. E escrevo isto com a alegria simples das primeiras vezes. Porque, apesar de tudo o que já vivemos juntas, esta será a nossa primeira viagem só nossa. A primeira vez que fazemos mala, aeroporto, ruas desconhecidas, mapas, cafés, mercados, fotografias e passos dados lado a lado noutra cidade. A primeira vez que levamos a nossa amizade para fora do país como quem leva uma coisa preciosa no bolso do casaco. Há qualquer coisa de bonito nisto: depois de tantos anos, ainda haver primeiras vezes. Vamos...