Domingo
Há domingos que não pedem nada. Nem promessas, nem resoluções, nem grandes declarações. Pedem apenas presença. Hoje fui ver o mar à Ericeira como quem regressa a uma casa antiga. O sol brilhava sem excesso, com aquela delicadeza luminosa dos dias de inverno e que parece pousar nas coisas em vez de as invadir. O Atlântico respirava largo, paciente, como se tivesse todo o tempo do mundo — e talvez tenha. Caminhámos devagar. Não havia urgência. A vida, por uma vez, decidiu correr sem pressa ao nosso lado. O vento trazia sal e memória. E naquele instante percebi que a felicidade, afinal, não é um acontecimento extraordinário. É uma soma de pequenas coincidências: a mão certa na nossa mão, um riso familiar atrás de nós, o som do mar a repetir que tudo está exatamente onde deve estar. Pelo meio, houve doçura — literal e simbólica. Comi ouriços, daqueles doces típicos que parecem ter sido inventados para nos lembrar...