Mensagens

Amigos

Tenho um bom leque de amigos. Digo isto assim, com a serenidade de quem já percebeu que há coisas que não precisam de inventário. Não me interessa muito saber se são muitos ou poucos. Nunca fui boa a contar pessoas como quem conta moedas dentro de uma caixa. Interessa-me mais saber se são bons. Se são inteiros. Se estão. Se me acrescentam mundo. E, felizmente, os meus são bons. E são suficientes. Há amizades que vêm de longe, de tão longe que já não sei bem onde acabam as memórias e começam as pessoas. Amigos de há mais de trinta anos, que me conhecem antes de eu saber explicar-me. Que já me viram em versões antigas, em rascunhos, em dias sem legenda. Amigos que ficaram, não porque a vida tenha sido sempre fácil, mas porque algumas raízes têm a teimosia bonita das árvores antigas: dobram-se ao vento, mas não desistem da terra. Depois há os outros. Os que chegaram mais tarde. Amigos de meia dúzia de anos, de alguns meses, ou até aqueles que ainda estão a chegar, devagarinho, como...

Quase a fazer anos ... o balanço esperado

Há pessoas que nascem com tempo para serem crianças. Eu não tive essa sorte. Cresci depressa, como crescem certas árvores em sítios difíceis: inclinadas pelo vento, mas teimosas na raiz. Ainda antes de perceber bem o mundo, já o mundo me pedia compostura. Pediam-me juízo, silêncio, obediência, modos. Pediam-me que coubesse num lugar estreito, bem-comportado, sem arestas, sem perguntas a mais. À mesa, por exemplo, não se falava. A mesa era um território sério, quase militar. Os talheres tinham mais liberdade do que as palavras. Os adultos decidiam, eu ouvia. A minha opinião raramente era chamada, mesmo quando o assunto era eu. Principalmente quando o assunto era eu. Cresci a perceber que havia papéis previamente escritos para mim. Filha obediente. Menina calada. Mulher responsável. Pessoa adulta. Pessoa séria. Pessoa que sabe estar. Pessoa que não faz ondas, não levanta a voz, não ri alto, não se entusiasma demasiado, não sonha em voz alta, não acredita em coisas invisíveis. M...

A Sertã escreve-nos por dentro

Há lugares que nos recebem como quem abre uma porta antiga e diz: entra, já te esperávamos. A Sertã é, para mim, um desses lugares. Talvez seja a luz das Beiras, essa luz dura e bonita que cai sobre as pedras, sobre as árvores, sobre as ruas antigas, sobre os corpos cansados de tanto calor. Talvez seja o modo como a natureza ali parece aproximar-se das pessoas, como se a paisagem também viesse assistir às conversas, aos livros, aos concertos, às leituras, às palavras que se soltam devagar entre escritores, leitores, músicos, atores, curiosos, sonhadores e gente que ainda acredita que a cultura pode mudar a temperatura de um dia. Mesmo quando estão quarenta graus. E estavam. Quarenta graus daqueles que nos entram pela pele, que nos fazem procurar sombra, água, silêncio, uma cadeira fresca, uma piscina, uma praia fluvial, uma pausa. Mas há calores que cansam e há calores que ficam guardados como memória. O calor da Sertã foi dos dois: fez-nos abrandar o corpo, mas aqueceu...

Amor

Há amores que não começam quando encontramos alguém. Começam antes. Começam na forma como fomos olhados pela primeira vez. Na mão que nos segurou antes de sabermos caminhar. Na voz que nos chamou pelo nome quando ainda não sabíamos quem éramos. Começam no colo, no cuidado, na presença silenciosa de quem nos deu mundo antes de nós sabermos agradecer. O meu primeiro grande amor foi o amor do meu pai. Não sei se, na altura, eu sabia chamar-lhe amor. Talvez as crianças não saibam. As crianças vivem dentro do amor como se vivem dentro de uma casa: sem pensar nas paredes, no telhado, na luz que entra pela janela. Só quando a casa falta é que percebemos que ela nos segurava. Quando o meu pai morreu, não perdi apenas uma pessoa. Perdi o chão. E não há uma maneira mais bonita de dizer isto, até porque há dores que resistem à beleza das palavras. Há dores que não querem ser enfeitadas, querem apenas ser reconhecidas. A morte de um pai é uma dessas dores. Não é só ...

Regressar também é uma forma de amor

Há viagens que nos levam para longe e, sem darmos conta, nos devolvem ao lugar certo. Londres foi extraordinária. Cinco dias cheios. Cinco dias de ruas, passos, mapas, mercados, museus, teatros, musicais, luzes, conversas, gargalhadas, cansaço bom e aquela sensação rara de se estar exatamente onde se devia estar. Londres no seu melhor: imensa, viva, antiga e moderna ao mesmo tempo, sempre com pressa, sempre com charme, sempre a dizer-nos que o mundo é muito maior do que a nossa rotina. Foram dias de vida londrina. De andar sem parar. De entrar no metro e sair noutra cidade dentro da mesma cidade. De atravessar ruas com nomes que parecem saídos de livros. De olhar montras, fachadas, jardins, mercados, pontes, teatros e perceber que há lugares que nos acordam por dentro. Londres tem essa capacidade: faz-nos sentir pequenas diante da sua grandeza, mas também nos empresta uma espécie de coragem elegante, como se nos dissesse: vai, vê, experimenta, vive. E vivi. Vivemos. Porque...

Chegou ao fim …

A minha viagem chegou ao fim. Mas Londres não terminou hoje. Apenas fechou os olhos, como quem descansa depois de nos ter acolhido com a generosidade rara das cidades que sabem ser casa sem nos pertencerem. Partimos com sol. Céu azul, como se a cidade quisesse contrariar a sua própria fama e dizer-nos, em silêncio, que também ela sabe ser leve quando se despede. Chegámos assim. Partimos assim. Como se o tempo, por uns dias, tivesse decidido ser gentil. Mas o que realmente termina — ou talvez não — é esta espécie de regresso que fizemos a nós mesmas. Há amizades que resistem. A nossa não só resistiu — expandiu-se. Como uma cidade invisível que foi crescendo dentro do tempo, atravessando anos, silêncios, distâncias e as pequenas separações que a vida vai desenhando sem pedir licença. E, ainda assim, intacta. Ou melhor: mais inteira. Durante estes dias, voltámos aos dezassete anos. Não porque o tempo tenha recuado, mas porque nunca saiu verdadeiramente de nós. Há coisas que não envelhecem...

Londres, domingo — três amigas e uma cidade a dançar

Há domingos que parecem feitos para caminhar devagar, mesmo quando os pés já dizem o contrário. Este domingo começou em Brick Lane , essa rua onde Londres parece misturar tudo sem pedir licença: cheiros, línguas, cores, arte nas paredes, bancas, lojas improváveis, gente de todos os lados, vidas a cruzarem-se sem saberem que fazem parte da mesma fotografia. Gosto destes lugares que não se arrumam demasiado. Lugares com alma desalinhada, onde a cidade se mostra menos polida e mais verdadeira. Depois, Old Spitalfields Market . Mercados têm sempre qualquer coisa de promessa. Nunca sabemos exatamente o que vamos encontrar: uma peça bonita, uma comida nova, uma conversa inesperada, uma memória que acorda diante de um objeto qualquer. Caminhámos entre bancas, luz, movimento e aquela alegria simples de quem está longe de casa, mas acompanhada por pessoas que sabem fazer casa em qualquer lugar. E hoje éramos três. Eu, a minha irmã de vida, e a Ana. A Ana que nos acolheu. Que nos de...