Mensagens

Sobre o amor

A vida corre. Não anda, não passeia, não pede licença. Corre como quem sabe que o tempo é um animal inquieto. E eu corro com ela — às vezes ofegante, às vezes distraída, quase sempre feliz. Há dias em que acordo já atrasada para mim mesma. O café arrefece enquanto penso no que ainda não vivi. O amor, esse, não espera sentado: tropeça comigo nas escadas, manda mensagens sem pontuação, aparece quando estou cansada e diz “fica”. Fico. Mesmo quando não posso. Mesmo quando devia ir. Amar, aprendi, não é desacelerar o mundo. É aprender a respirar dentro dele. É aceitar que a felicidade não vem embalada em silêncios longos, mas em ruídos bons: risos fora de hora, discussões que acabam em abraço, a vida a bater à porta enquanto ainda estamos de pijama. Corremos porque queremos muito. Porque desejamos mais do que caberia numa vida parada. Corremos atrás de sonhos pequenos — um jantar improvisado, uma conversa que se prolonga, ...

Quartas-feiras

Comecei às oito e meia, sem grande cerimónia, e mergulhei de cabeça em quatro horas seguidas com o décimo segundo ano. Dar duro é a expressão certa: concentração cerrada, raciocínios longos, silêncio atento misturado com perguntas que chegam quando o pensamento tropeça. Há dias em que o tempo se mede assim — em exercícios resolvidos, em olhares que finalmente entendem, em pausas que não chegam a ser pausas. Almocei no lugar do costume das quartas-feiras. Rápido, como sempre, porque só há uma hora e ela passa depressa demais quando ainda se está dentro do dia. O prato veio, foi-se, e ficou a sensação de que comer é apenas um intervalo entre dois blocos de vida. A tarde começou com os mais novos. E há qualquer coisa de diferente em ensinar os mais pequenos, algo que não se explica bem, mas se sente logo à entrada. Dão abraços quentinhos, desses que não pedem autorização, sorriem felizes por me verem e contam o dia como se fosse uma história urgente. As novidades das férias chegam che...

Notas de um dia comum

O dia começou cedo, antes de o corpo perceber que já estava atrasado. Às oito da manhã já ensinava matemática, com a voz ainda a aquecer e o pensamento já a correr à frente. Há qualquer coisa de curioso em explicar números quando o dia ainda está por explicar. Às nove terminei, mas terminar é uma palavra enganadora — apenas mudei de andamento. Entrou o outro ritmo: fichas para preparar, cópias para tirar, listas mentais que nunca chegam a escrever-se. Pequenas vidas a pedir organização, mesmo quando não o dizem em voz alta. Almocei depressa, como quase sempre. Nunca me apetece perder tempo a comer, embora goste de comer — às vezes. É uma contradição que já aceitei. Talvez haja dias em que a fome é outra e não cabe num prato. O relógio avançava enquanto eu fingia que o ignorava. Às dezasseis voltei a começar. Um aluno doente atrasou o início, e esse atraso teve qualquer coisa de humano, como se o dia tivesse respirado fundo antes de continuar. E então aconteceram as visitas. Um alun...

Ensaio sobre a estupidez

Observando o mundo à nossa volta, percebemos que a estupidez humana tem formas variadas e surpreendentes. Não se manifesta apenas em grandes erros ou decisões catastróficas, mas também nos gestos do dia a dia, nos conflitos banais que surgem por pura ausência de noção. Na lavandaria da minha rua, ontem, vi essa estupidez em ação: gritos por um tambor de secar roupa, olhares fulminantes, quase à porrada para decidir quem lavava ou secava primeiro. E eu, parada, observava, sem conseguir acreditar como algo tão pequeno consegue transformar pessoas em animais, cegos para o outro, selvagens diante da própria urgência. Como se a pressa apagasse toda a lógica e toda a consciência de que somos apenas vizinhos, partilhando um espaço, uma cidade, um mundo que não nos pertence por inteiro. Não é só a lavandaria. É o assalto silencioso ao papel higiénico, as compras exageradas de comida, como se a abundância individual valesse mais que a necessidade coletiva, como se não houvesse ningu...

Quando o Conforto Não Chega a Todos

Dia Agridoce Hoje é segunda-feira. Chove. Faz frio. Há aulas para dar e, na minha sala, está quentinho. A água corre nas torneiras como se fosse um direito antigo, a luz acende-se sem hesitar, o chá fuma devagar, o café acorda o corpo. Tudo funciona. Tudo está no sítio. Há uma espécie de paz doméstica que nos embala e quase nos faz esquecer o mundo lá fora. Quase. Porque lá fora há casas que já não existem. Há portas que deixaram de dar para dentro. Há ruas transformadas em rios sem margens e aldeias suspensas num silêncio onde não chega nada — nem pão, nem médicos, nem notícias, nem promessas. Há pessoas ilhadas não pela água apenas, mas pela ausência. E há animais. Sempre os animais. Assustados, perdidos, com fome, à espera de alguém que não consegue chegar. Morrem devagar, que é a forma mais injusta de morrer. É estranho como a gratidão pode doer. Sinto-me grata por ter tudo isto — o calor, o abrigo, a possibilidade de ensinar, de cuidar, de dar....

Quem somos nós quando o outro nos pede um pouco mais de humanidade?

Domingo Cinzento O domingo caiu como um pano pesado sobre a cidade. A chuva não batia — insistia. Escorria pelas paredes, pelos telhados, pelas pessoas, como se quisesse ensinar alguma coisa que ninguém estava disposto a aprender. Na televisão, a voz neutra avisava novos temporais, mas o verdadeiro mau tempo não vinha do céu. Vinha de dentro. Um domingo cinzento tem esse poder: ilumina o que costumamos esconder à pressa durante a semana. Há dias assim em que o egoísmo sobe à superfície, como óleo em água suja. As pessoas recolhem-se, não para proteger os outros, mas para proteger apenas a si mesmas. Fecham portas, cruzam braços, desviam o olhar. Ajudar dá trabalho, compromete, obriga a sentir — e sentir dói. O mais duro é quando essa ausência vem de quem está próximo de nós. De quem devia ser abrigo, mas às vezes é apenas mais um lugar onde a chuva entra. Quando a indiferença tem rosto conhecido, a dor não grita:...

Manifesto — A Educação Não Acabou. Mas o Modelo, Sim

A educação não está em crise. Está em transição estrutural . O que se encontra esgotado não é o aprender nem o ensinar, mas o modelo educativo herdado da lógica industrial : linear, padronizado, centrado na transmissão de conteúdos e na avaliação quantitativa do desempenho. Um modelo pensado para a previsibilidade, não para a complexidade. Como apontam diversos autores da Sociedade do Conhecimento, o mundo deixou de ser estável, sequencial e controlável. Vivemos num contexto marcado pela incerteza, pela aceleração tecnológica e pela produção contínua de informação. Ainda assim, grande parte das instituições educativas continua a operar como se o conhecimento fosse escasso, estático e concentrado num único espaço: a sala de aula. Não é. O acesso à informação tornou-se ubíquo. O desafio deixou de ser aceder ao conhecimento e passou a ser compreender, avaliar criticamente, aplicar e criar . É neste contexto que emergem conceitos como literacia digital, competências do...