Nem sempre é primavera... nem sempre há sol
Há primaveras que não florescem: hesitam. Ficam à porta do mundo como alguém que perdeu a coragem de entrar. Trazem luz, sim, mas uma luz indecisa, como se o céu tivesse dúvidas sobre si mesmo. O vento muda de direção sem avisar, a manhã nasce com promessas que a tarde desmente, e nós, que julgávamos ter aprendido alguma coisa sobre permanência, descobrimos outra vez que até a estação das flores pode ser um lugar de incerteza. Talvez por isso haja dias em que nos parecemos com esta primavera. Dias em que acordamos sem a nitidez do entusiasmo, sem a musculatura invisível da vontade. Dias em que o corpo cumpre, mas a alma falta. Dias em que tudo pesa um pouco mais do que devia: a chávena, a conversa, a memória, o silêncio. Dias em que a tristeza não chega a ser tragédia, mas também não nos concede a delicadeza de ser apenas sombra. Fica ali, pousada em nós, como uma ave húmida. Vivemos num tempo que nos quer inteiros, firmes, luminosos, capazes, inspirados, produtivos, gratos...