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Memória

A memória é uma casa que muda de lugar. Às vezes aparece no cheiro da terra molhada, outras vezes no frio da primeira neve ou numa palavra antiga que alguém pronuncia por acaso. Há dias em que se esconde tão bem que julgamos ter perdido tudo. Depois, sem aviso, abre uma porta e devolve-nos uma voz, um rosto, uma tarde inteira. Passamos grande parte da vida à procura de nós próprios nessas divisões invisíveis. Eu procuro-me nas memórias que guardo do meu pai. Há pessoas que morrem apenas do lado de fora. Por dentro de nós continuam a levantar-se de manhã, a repetir palavras, a fazer pequenos gestos e a olhar para o mundo através dos nossos olhos. O meu pai vive nesse território onde a memória não paga renda e o tempo não consegue despejar ninguém. Procuro-me naquilo que dele ficou em mim. Talvez uma maneira de sentir. Talvez uma inquietação. Talvez esta necessidade de encontrar sentidos escondidos nas coisas mais pequenas. Não sei sempre distingui-lo de mim. Quando alguém ...

A criança que nos devolve a aldeia

Há um provérbio antigo que diz que é preciso uma aldeia inteira para criar uma criança. Eu costumo pensar que também é preciso uma criança para voltarmos a ser aldeia. Uma criança chega e, sem saber, começa a construir pontes. Faz com que os vizinhos se conheçam, que os avós regressem às histórias antigas, que os tios aprendam a sentar-se no chão e que os adultos voltem a reparar nas formigas, nas pedras com formas estranhas e nas nuvens que se parecem com animais. Antes dela, havia apenas pessoas a viver umas ao lado das outras. Depois dela, talvez exista uma aldeia. As crianças têm essa capacidade misteriosa de desarrumar o mundo para que possamos voltar a vê-lo. Interrompem conversas importantes para mostrar uma folha, fazem perguntas no momento menos conveniente, riem quando os adultos acham que é preciso manter a compostura e choram por coisas que nós já aprendemos a considerar pequenas. Mas talvez não sejam as coisas que são pequenas. Talvez tenhamos sido nós que, ao ...

Não sei

O que me move é a perplexidade, a inquietação, a dúvida. Nunca foram as respostas que me fizeram avançar. Foram as perguntas. As respostas, quando chegam, têm qualquer coisa de cadeira: convidam-nos a sentar. As perguntas, pelo contrário, são portas entreabertas. Obrigam-nos a espreitar, a atravessar, a procurar o que existe do outro lado. Talvez por isso eu nunca tenha sabido viver muito tempo em lugares fechados. Preciso de compreender. De voltar atrás. De olhar novamente para aquilo que todos dizem ser evidente e perguntar: será mesmo assim? Não por desconfiança do mundo, mas por espanto. Há em mim uma criança que ainda abre gavetas proibidas, desmonta os brinquedos (e os electrodomésticos) só para descobrir como funcionam por dentro e uma criança que acredita que cada resposta esconde uma pergunta mais profunda. A perplexidade é o princípio de quase tudo. É ela que nos detém diante do que julgávamos conhecer e nos obriga a olhar outra vez. É o instante em que o mundo de...

Duas semanas já lá vão

Disseram-me um dia que o tempo é uma convenção dos homens, uma invenção geométrica para dar ordem ao caos. Agora sei que é mentira. O tempo é um bicho elástico, feito de uma matéria moldável que estica ou encolhe conforme a distância de quem amamos. As duas semanas passaram. Duas semanas cabem em catorze páginas de um diário, em duas folhas de calendário arrancadas sem pressa. Dito assim, parece matemática exata. Mas a verdade é que já passou metade do tempo e a outra metade pesa na casa como se o silêncio tivesse decidido mudar-se para as divisões que ela deixou vazias. A saudade, agora, já não é aquela vertigem antecipada que escrevi antes de ela partir. É uma presença física. Sinto falta da minha filha, mas também da amiga que partilha os dias comigo, da companheira de todas as horas que desarma a solenidade da vida com um riso inesperado. Sinto falta do eco dos passos dela, das palavras soltas na cozinha, da cumplicidade que nos dispensa de dar explicações ao mundo. No enta...

31 anos depois...

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Há trinta e um anos, o mundo ainda não tinha um lugar para nós: Tivemos de o abrir. Não nos deram uma estrada, um mapa ou uma porta por onde pudéssemos entrar juntos. Havia dúvidas, avisos, juízos e pessoas demasiado certas de que sabiam como terminaria a nossa história. Olhavam para nós como quem olha para uma casa construída perto do mar e prevê a tempestade antes mesmo de ela chegar. Acreditavam que não duraríamos. Talvez porque fôssemos demasiado diferentes. Talvez porque fôssemos demasiado jovens. Talvez nos amássemos com uma intensidade que os outros confundiam com imprudência. Talvez ninguém compreendesse que há encontros que não pedem autorização à razão nem respeitam a ordem em que a vida deveria acontecer. Nós também não sabíamos se conseguiríamos. Mas sabíamos que queríamos. E há uma diferença enorme entre acreditar que tudo será fácil e decidir que, mesmo quando não for, continuaremos a tentar. Tivemos de desbravar o mundo para cabermos nele. Avançámos por ...

Livros e fatias de bolo de chocolate

Antes de ser professora, já dava aulas às bonecas. As bonecas eram alunas exemplares. Nunca chegavam atrasadas, não se esqueciam dos trabalhos de casa e ouviam todas as explicações com uma serenidade que raramente voltei a encontrar numa sala de aula. Também nunca faziam perguntas, o que, pensando melhor, talvez não fosse assim tão bom. Eu escrevia num quadro de giz, inventava exercícios e explicava a matéria com a solenidade de quem tinha uma missão importante. Naquele tempo, ainda não sabia que viria a ser professora, ou talvez soubesse, às vezes as crianças saibam muitas coisas antes de aprenderem a explicá-las. O futuro começa frequentemente como uma brincadeira. Eu tinha uma imaginação que nunca aprendeu a andar devagar. Construía países dentro do quarto, criava personagens e mudava o destino das histórias. Se alguém estava triste, inventava-lhe uma saída. Se alguém se perdia, desenhava-lhe um caminho. Se o mundo acabava, começava outro. A imaginação foi a minha prim...

Encolher para caber

Em criança diziam que eu falava muito. Diziam que nunca me calava, que tinha bichos carpinteiros e que era irrequieta. Durante muito tempo imaginei os bichos carpinteiros como pequenos animais a correrem dentro de mim. Uns viviam nas pernas, outros nas mãos e os mais indisciplinados instalavam-se na cabeça. Talvez fossem apenas pensamentos com pernas, incapazes de ficar sentados. Eu fazia perguntas. Inventava histórias. Falava com as bonecas, com as pessoas e, provavelmente, com o próprio ar quando mais ninguém estava disponível. Não era apenas uma criança faladora. Era uma criança cheia e intensa: Cheia de palavras, de ideias, de medos, de mundos e de uma energia que ainda não tinha aprendido a pedir licença, e intensa no que sentia e no modo como amava. Mas, como todas as crianças, eu queria ser a menina boa de quem todos gostavam e as meninas boazinhas não incomodavam, não falavam demasiado e não faziam muitas perguntas. Sentavam-se direitas, esperavam pela sua vez e sabi...