Mensagens

origens

Sei de onde venho. E há uma paz antiga em poder dizê-lo sem vergonha, sem enfeites e sem necessidade de parecer maior do que sou. Sei onde nasci. Sei quem me trouxe até aqui. Sei as mãos que me ajudaram, as vozes que me ampararam, os gestos que me abriram caminho quando o caminho ainda era estreito. Não esqueço. Não esqueço quem me deu a mão. Quem acreditou. Quem me empurrou para a frente quando eu ainda não sabia bem que podia ir. Não esqueço os que me ensinaram, com pouco discurso e muito exemplo, que a dignidade não mora no que se tem, mas na forma como se vive. Sou neta de gente simples. Gente de trabalho, de palavra, de mãos gastas e costas direitas. Gente que talvez não tivesse muito para deixar em herança, mas deixou aquilo que mais importa: honestidade, resistência, coragem e uma certa maneira limpa de olhar os outros nos olhos. Há riquezas que não aparecem nos bancos. Passam-nos pelo sangue, pelo nome, pela memória, pela forma como entramos numa sala sem ...

31 anos

Há amores que começam como quem acende uma luz. Pequena, talvez. Quase tímida. Uma luz que ainda não sabe se vai resistir ao vento, à noite, às dúvidas dos outros, às nossas próprias fragilidades. Mas acende-se. E, de repente, há um antes e um depois. O mundo continua igual, mas nós já não. O nosso amor tem 31 anos. Trinta e um anos é uma vida inteira a aprender a caber dentro da vida. A vida, essa coisa tão pouco obediente, tão cheia de esquinas, contas, cansaços, trabalhos, medos, perdas, filhos, mudanças, dias bons, dias difíceis, silêncios, reconciliações e urgências. A vida nunca se ofereceu como uma casa pronta. Tivemos de a contornar. Tivemos de abrir portas onde havia paredes. Tivemos de mudar móveis de sítio, alargar corredores, inventar janelas, arranjar espaço para o amor quando parecia não haver espaço para mais nada. Porque amar também é isto: aprender a fazer caber. Fazer caber dois feitios. Duas histórias. Duas formas de ver o mundo. Duas maneiras ...

O que meio século nos obriga a desaprender

Chega uma idade em que já não fazemos anos: fazemos inventário. Meio século não é apenas uma data. É uma casa cheia de gavetas. Algumas arrumadas, outras nem por isso. Há gavetas com fotografias antigas, nomes que já não dizemos, sonhos que mudaram de forma, medos que perderam força e algumas verdades que, afinal, não eram verdades — eram apenas frases repetidas por quem também andava a tentar viver. Durante muito tempo, disseram-nos que crescer era aprender. Mas talvez crescer seja, sobretudo, desaprender. Desaprender a pedir desculpa por sentir muito. Desaprender a caber em lugares pequenos só para não incomodar. Desaprender a achar que ser forte é não cair, que ser boa é dizer sempre sim, que ser amada é ser útil, discreta, sem problemas e sempre disponível. Aos cinquenta, a vida começa a tirar-nos os enfeites. E isso também liberta. Liberta porque deixamos de querer agradar a toda a gente, porque finalmente percebemos que há pessoas que só ficam satis...

A fé como lugar de repouso

A pergunta veio devagar ... quase num sussurro .... "A professora é católica? Vai à igreja>?" ... "É uma pessoa de fé?" Sorri à pergunta feita ... e respondi que a fé nem sempre cabe numa igreja. Às vezes cabe num raio de sol que entra pela janela numa manhã difícil. Cabe no cheiro da terra depois da chuva. Cabe no verde das árvores quando parecem respirar por nós. Cabe na bravura do mar, nessa forma antiga de nos lembrar que há forças maiores do que a nossa vontade. Cabe no silêncio de quem nos escuta sem pressa. Cabe num abraço que não resolve nada, mas segura tudo por uns instantes. Disse-lhe que durante muito tempo, talvez nos tenham ensinado a pensar a fé como um lugar fixo. Um edifício. Um ritual. Uma oração repetida. Um conjunto de gestos certos, palavras certas, horas certas, respostas certas. Mas a fé, quando é verdadeira, talvez não seja apenas repetição. Talvez seja presença. Talvez seja uma forma de olhar. Expliquei-lhe que não rejeito...

Quero ser uma janela

O meu pai pediu-me muitas vezes que estudasse sempre. Não era um pedido com solenidade. Era daqueles conselhos que os pais deixam cair na vida dos filhos como quem planta uma árvore e espera que, um dia, ela dê sombra. Estuda. Nunca pares de estudar. Aprende. Aprende sempre. Porque aquilo que aprendes, aquilo que constróis por ti, aquilo que fazes crescer dentro de ti, ninguém te tira. E talvez esta tenha sido uma das maiores heranças que ele me deixou. Não uma herança guardada em gavetas, contas ou papéis. Uma herança mais funda. A certeza de que o conhecimento é uma forma de liberdade. Uma espécie de casa interior. Podemos perder coisas, lugares, pessoas, certezas, forças, juventude, tempo. Mas aquilo que aprendemos verdadeiramente fica connosco. Passa a fazer parte da forma como olhamos o mundo, como pensamos, como escolhemos, como nos levantamos depois das quedas. Estudar depois dos 50 tem uma beleza estranha. Talvez porque já não se estuda apenas para chegar a ...

A vida também tem incógnitas

A vida também tem incógnitas. Talvez seja por isso que nunca conseguimos resolvê-la por completo. Podemos estudar, planear, organizar, prever, fazer listas, desenhar caminhos, calcular riscos, medir possibilidades. Podemos até convencer-nos, durante algum tempo, de que temos tudo sob controlo. Mas depois a vida chega, muda uma variável, troca-nos o sinal, apaga uma linha do quadro e obriga-nos a recomeçar a conta. A vida raramente se deixa resolver à primeira. Há problemas que parecem simples até começarmos a olhar para eles com atenção. Há decisões que julgávamos certas e que, mais tarde, revelam outros lados. Há caminhos que pareciam desvios e afinal eram passagem. Há perdas que nos desmontam. Há encontros que nos reorganizam. Há silêncios que dizem mais do que respostas inteiras. E há perguntas que ficam. Quem sou eu agora? O que faço com aquilo que me aconteceu? Como se continua depois de uma dor? Como se escolhe quando todos os caminhos têm qualquer ...

A mesa onde a família aumentou

Começar uma família nova, ou acrescentar pessoas à família, tem qualquer coisa de milagre discreto. Não acontece sempre com certidões, apelidos, documentos ou árvores genealógicas. Às vezes acontece num domingo. Numa mesa comprida. Num aniversário. Num abraço que se abre sem fazer perguntas. Num lugar posto para nós como se já estivesse à nossa espera há muito tempo. Este domingo foi assim. A Cristina fez anos. E, de repente, a Cristina deixou de ser apenas a mãe do Rafael. Passou a ser a minha comadre. Palavra antiga, bonita, cheia de casa por dentro. Comadre. Uma palavra que não se limita a nomear uma relação; parece antes acrescentar uma divisão nova à vida, uma sala com luz, uma cadeira onde nos podemos sentar, uma pertença que não sabíamos que nos fazia falta até alguém nos oferecer. E a Cristina ofereceu-me isso. Abriu os braços. Acolheu-me. Acolheu os meus. Juntou-nos todos à mesa. Fez do seu aniversário não apenas uma festa sua, mas também um lugar de enco...