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O que cabe num «mas»

Ontem ouvi uma frase que me incomodou: «É importante saber resolver equações, mas mais importante é ter educação emocional.» Fiquei a pensar nela. Na facilidade com que algumas frases recebem a aprovação de uma sala inteira, enquanto deixam, algures, uma pequena injustiça por esclarecer. Soam bem, parecem generosas, trazem palavras de que todos gostamos. E, no entanto, talvez mereçam que lhes façamos perguntas antes de lhes oferecermos o nosso acordo. Mais importante em que circunstâncias? Para quê? E por que razão precisamos de colocar estas duas aprendizagens numa competição? Compreendo a preocupação que pode estar na origem da frase. Uma escola absorvida pelos resultados pode esquecer o que se passa dentro de quem aprende. Pode reparar na descida de uma classificação e não reparar na tristeza que a antecedeu. Pode ensinar um aluno a responder a todas as perguntas de um teste sem lhe dar espaço para dizer que está assustado. Essa preocupação é necessária. Como profess...

Há fins de semana que passam depressa demais…

Há fins de semana que deviam ter mais horas. Não necessariamente mais dias, porque isso seria pedir demasiado ao calendário, mas umas horas escondidas nos bolsos do tempo, daquelas que pudéssemos tirar quando a vida nos oferece aquilo que verdadeiramente importa. Este foi um desses fins de semana. Um fim de semana cheio de trabalho, de responsabilidades, de tarefas que não sabem esperar e de relógios que parecem correr sempre um bocadinho mais depressa do que nós. Sábado, trabalhei até tarde. Domingo, a manhã voltou a pertencer aos compromissos. Há semanas assim, imparáveis, em que os dias se atropelam uns aos outros e as listas de coisas por fazer parecem reproduzir-se durante a noite, sem pedir autorização. Mas, no meio desta correria toda, aconteceu uma daquelas coisas simples que fazem uma mãe sentir que tem o mundo inteiro dentro de casa. Tive os meus dois filhos comigo. Ao mesmo tempo. Debaixo do mesmo teto. E isto, que durante tantos anos foi a coisa mais natural do m...

O sol do lado de dentro

Há sábados que começam às oito da manhã e só pousam o lápis às oito da noite. Pelo meio, cabem muitos alunos, muitas horas de Matemática, vários níveis de ensino e uma quantidade de dúvidas que, se fosse possível arrumar em caixas, exigiria uma sala maior. Este foi um desses sábados. Longo, cheio, diverso. E vivido com a mesma alegria e o mesmo entusiasmo em cada hora dada. Lá fora, o sol brilhou. Cá dentro, também. Há uma luz muito particular naquele instante em que um aluno levanta os olhos do caderno e diz: «Ahhh… agora faz sentido!» Gosto de assistir a esse momento. A expressão muda, os ombros descontraem-se, o lápis regressa ao papel com outra vontade. Uma coisa que parecia impossível começa a ganhar contornos. E, por alguns segundos, até uma equação pode iluminar uma sala. Ensinar é ter o privilégio de acompanhar estas pequenas mudanças. Perceber onde se perdeu o fio, recuar o necessário, escolher outro exemplo, experimentar outra pergunta. Há quem precise de ...

Roubaram-me uma página. A história continua.

No dia em que me hackearam as contas do Instagram, senti-me como quem chega a casa e encontra as gavetas das memórias vazias. Na página da Academia estavam anos de partilhas. Anos de trabalho, de dedicação, de momentos únicos que tinham encontrado ali uma maneira de ficar. Pequenos pedaços da nossa história, guardados com a confiança de quem acredita que poderá voltar para os visitar. De repente, deixei de lhes poder chegar. Há uma tristeza muito particular em perder assim aquilo que fomos construindo devagar. Nós sabemos o que estava dentro de cada publicação. Sabemos o tempo que lhe demos, a alegria com que a escrevemos, o motivo pelo qual quisemos guardar aquele instante. Para quem invade, talvez tudo se resuma a uma conta. Para quem fica deste lado, há vida lá dentro. E é isso que me custa compreender: o que leva alguém a entrar no espaço de outra pessoa e a estragá-lo? Que satisfação pode haver em causar esta tristeza? Em tocar no trabalho dos outros com tamanh...

Os bichinhos carpinteiros também vão à escola

Eu fui uma daquelas alunas que acabavam depressa as tarefas só para poder ir brincar mais depressa e ficar com o resto do tempo livre para dar espaço às minhas ideias e criatividade. Conversava com quem estava ao lado, combinava brincadeiras para o intervalo, encontrava assuntos que, naquele instante, me pareciam demasiado importantes para esperar pelo toque. Tinha os chamados «bichinhos carpinteiros». Imagino que trabalhassem por turnos, porque havia sempre algum de serviço. Os meus professores percebiam isso. Davam-me outras tarefas, propunham-me um desafio, pediam-me que ajudasse um colega. Encontravam maneira de dar uma direção àquela energia. E, quando me confiavam a tarefa de explicar alguma coisa a alguém, ofereciam-me também uma responsabilidade: precisava de escutar, de ter paciência, de procurar palavras que o outro compreendesse. Aprendia enquanto ajudava. Nunca me fizeram sentir que havia qualquer coisa de errado comigo por ter vontade de falar, por estar content...

Dias sem fim

Há semanas que começam antes de termos acabado de respirar as anteriores. Esta começou assim: comigo ainda a tentar pousar o que trazia nas mãos, e a vida a entregar-me mais coisas. Os dias passam dentro da minha sala, entre números, perguntas, cadernos abertos. Ensino Matemática. Procuro maneiras de tornar compreensível aquilo que, ao princípio, parece impossível. Digo que vamos por partes, que podemos voltar atrás, que ninguém tem de perceber tudo à primeira. E, enquanto ofereço aos outros esse tempo, vou fazendo contas ao pouco tempo que me concedo a mim. Há qualquer coisa de profundamente humano em saber ser paciente com quem aprende, mas ao mesmo tempo, há algo de profundamente triste quando sou tão impaciente comigo. Entre uma explicação e outra, penso no que ficou por fazer. O trabalho de casa começa muito antes de eu chegar a casa: acompanha-me durante as aulas, senta-se ao fundo da sala, levanta o braço quando tento pensar noutra coisa. Há sempre uma tarefa à esp...

É tempo de guardar

O outono chegou. A chuva ameaçou, demorou-se na promessa, mas caiu. O outono chegou. Sente-se na luz de cada dia, nesse ouro mais inclinado que entra pelas horas dentro; na tarde que escurece cedo; na brisa fria que, de manhã e ao fim do dia, nos procura a pele. Hoje assei castanhas e maçãs com canela. E o cheiro delas trouxe consigo qualquer coisa muito antiga, como se a casa se tivesse lembrado de uma história que ninguém chegou a contar-lhe. Há gestos que parecem vir de longe. Reconhecemo-los nas mãos antes de encontrarmos palavras para eles. A terra começa a recolher-se. Abranda, guarda, prepara o escuro. Debaixo do que vemos, prossegue uma vida discreta: raízes, sementes, o trabalho miúdo de tudo o que precisa de silêncio para continuar. À superfície, oferece-nos os últimos excessos de cor. As romãs guardam uma multidão vermelha dentro de um só fruto. Os dióspiros parecem ter recolhido a luz das tardes para a deixar amadurecer devagar. Os cogumelos surgem com...