Mensagens

S. João

Hoje é dia de exame de Matemática. Acordei cedo, como se o meu corpo já soubesse antes de mim que não era uma manhã qualquer. Há dias que não começam quando abrimos os olhos. Começam antes. Na véspera. Nas mensagens que ficam por escrever. Nos conselhos que ainda queremos repetir. Nas dúvidas que imaginamos do outro lado. No coração que, mesmo sem caneta nem calculadora, também entra em exame. De manhã, há mensagens para mandar. Aquelas mensagens de última hora, feitas de coisas simples e enormes: respira, lê tudo com calma, começa pelo que sabes, não desistas à primeira dificuldade, confia no que trabalhaste. No fundo, são sempre os mesmos conselhos, mas há frases que precisam de ser repetidas porque, em certos dias, funcionam como amuletos. Depois há o último abraço virtual. Aquele antes de eles desaparecerem durante três horas. Três horas é o tempo oficial do exame. Mas para quem fica cá fora, a três metros de distância ou a muitos quilómetros, três horas...

Dizer adeus ....

Hoje é o último dia de explicações do 12.º ano. Escrevo esta frase e ela pesa mais do que parecia. Porque não se despedem apenas alunos. Despedem-se rotinas, lugares ocupados à mesma hora, cadernos abertos, dúvidas trazidas à pressa, exercícios começados com medo e acabados com um sorriso, gargalhadas no meio do cansaço, ralhetes necessários, silêncios atentos, vitórias pequenas que só nós sabemos o tamanho que tiveram. Foram anos, para alguns. Meses intensos, para outros. Mas, de uma forma ou de outra, fomos construindo uma coisa muito nossa. Mais do que aulas. Mais do que Matemática. Mais do que uma professora e os seus alunos. Construímos uma tribo. Uma tribo feita de estudo, de confiança, de trabalho sério, de companheirismo e de presença. Partilhámos a vida de todos os dias: o que nos alegrava, o que nos preocupava, o que nos cansava, o que sonhávamos. Houve contas, claro. Muitas. Houve funções, probabilidades, derivadas, limites e tudo o que a Matemática decidiu colocar...

Começa o verão

Hoje começa o verão e há qualquer coisa de mágico nisso. Talvez seja a luz. Talvez seja esta forma estranha que junho tem de parecer uma porta entreaberta. Talvez seja o cansaço bom de quem atravessou muitos dias de chuva, muitos dias de quadro cheio, muitas horas de contas, vozes, perguntas, explicações, dúvidas, gargalhadas, chamadas de atenção, cafés bebidos depressa e sonhos empurrados com as duas mãos para a frente. Para muita gente, o ano acaba em dezembro. Para mim, não. Para mim, o verdadeiro fim do ano chega agora, quando o verão começa e o ano letivo se despede. O meu calendário interior nunca obedeceu muito aos calendários oficiais. Janeiro pode ter fogos de artifício, passas, champanhe e promessas escritas em guardanapos, mas é junho que me pede contas. É junho que se senta à minha frente, como quem sabe tudo, e me pergunta: então, o que fizeste da tua vida nestes seis meses? E eu respondo-lhe devagar. Fiz o que pude. Às vezes mais do que podia. Ensinei. Corrigi...

A estrada que me trouxe até aqui

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A vida é muitas vezes uma estrada acidentada. Não daquelas estradas bonitas, lisas, de postal, onde o horizonte parece obedecer-nos e o sol pousa devagar sobre tudo. Falo das outras. Das estradas de terra batida, com curvas apertadas, contracurvas inesperadas, buracos que aparecem onde julgávamos haver chão firme. Estradas onde se levanta pó, onde às vezes escorregamos, onde nem sempre há placas a indicar o caminho. A minha vida foi, muitas vezes, uma dessas estradas. Nem sempre houve alcatrão. Nem sempre houve luz. Nem sempre houve infância fácil, nem casa interior arrumada, nem explicações simples para aquilo que doía. Houve dias em que o caminho parecia feito de pedras pequenas, daquelas que entram no sapato e nos obrigam a continuar mesmo assim. Houve momentos em que a vida não perguntou se eu estava pronta. Apenas apareceu com uma curva fechada e disse: agora vira. E eu virei. Às vezes com medo, às vezes sem saber e muitas vezes com medo e quase sem forças. ...

A sala mais bonita e feliz da cidade

São 21h30 quando o dia começa a terminar. Ainda há explicações. Ainda há vozes. Ainda há cadernos abertos, contas por acabar, dúvidas que resistem, lápis cansados e aquela estranha energia que aparece quando todos devíamos estar mais quietos, mas ainda há um objetivo à nossa frente. Hoje foi dia cheio. Sala cheia. Alunos que entram. Alunos que saem. Outros que chegaram de manhã e ficaram quase como quem se muda temporariamente para dentro de uma possibilidade. Há quem diga: “Aqui estudo mais focado.” E eu sorrio, porque sei que é verdade. Aqui há foco. Há método. Há trabalho. Há uma espécie de pacto silencioso entre eles e eu: ninguém se abandona. Aqui até pode haver preguiça, claro. Somos todos humanos. Mas, se há, disfarçam melhor, porque eu ando por perto. E quando a preguiça tenta sentar-se à mesa, eu empurro-a para o lado e digo: “Vamos. Sempre em frente, meninos.” Há dias em que ensinar é isto: empurrar sem magoar. Puxar sem parti...

Os vossos sonhos são os meus

Às 8h20 chego ao café da minha rua. O café vem primeiro. Combustível. Pequeno ritual de sobrevivência antes de começar o dia. Há quem precise de silêncio, há quem precise de meditação, há quem precise de correr dez quilómetros. Eu preciso daquele café, naquele balcão, àquela hora, antes de entrar na minha sala e começar mais uma travessia. Às 8h30 entro. A sala ainda está quase intacta. As mesas alinhadas, os cadernos à espera, o quadro limpo, como se o dia ainda não tivesse decidido que forma vai ter. Mas eu sei. Vai ter a forma deles. Encontro o primeiro grupo. Chegam com sono, com pressa, com dúvidas, com mochilas pesadas e aquela expressão de quem traz dentro da cabeça uma guerra silenciosa entre o medo e a esperança. Começam as primeiras perguntas, os primeiros enganos, os primeiros acertos. E, felizmente, as primeiras gargalhadas. Porque uma sala onde se aprende sem rir é uma sala onde qualquer coisa ficou por ensinar. Depois vêm outros. Um grupo a ...

A ingenuidade de dizer que as notas não importam

Há frases que parecem muito bonitas até ao momento em que batem de frente com a realidade. “Não vale a pena sofrer por uma nota.” É verdade. Não vale mesmo. Nenhuma nota vale a saúde mental de um filho. Nenhuma pauta deve roubar o sono, a alegria, a autoestima ou a certeza de que se é amado independentemente do resultado. Uma criança ou um jovem não é um número. Não cabe numa média. Não se mede por uma prova de noventa minutos, nem por uma classificação lançada numa plataforma qualquer. Mas também é verdade que, no sistema em que vivemos, as notas contam. E contam muito. É aqui que começa a parte menos confortável da conversa. Gostávamos que a escola fosse apenas um espaço de descoberta, crescimento, curiosidade e construção pessoal. E deve ser. Gostávamos que cada estudante pudesse seguir o seu sonho apenas porque tem vocação, vontade e brilho nos olhos. E devia poder. Gostávamos que uma média não tivesse o poder de abrir ou fechar portas. Ma...