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Ensino Matemática com rigor, mas não ensino números a cadeiras vazias....Ensino pessoas.

Ensino Matemática há 35 anos. Escrever esta frase obriga-me a parar um pouco. Trinta e cinco anos são muitos cadernos abertos, muitos quadros escritos e apagados, muitas funções desenhadas, muitas equações resolvidas, muitas dúvidas repetidas, muitos exames preparados, muitos estudantes que chegaram assustados e saíram um pouco mais confiantes. São muitas horas de explicação, de insistência, de silêncio, de gargalhadas, de ansiedade, de vitórias pequenas e de algumas lágrimas também. Ensinar Matemática durante tanto tempo ensinou-me uma coisa que talvez não venha escrita nos programas: ninguém aprende só com a cabeça. Aprende-se com a cabeça, sim. Com raciocínio, método, memória, treino, atenção, disciplina e persistência. Mas aprende-se também com o coração. Aprende-se quando há confiança. Quando há vínculo. Quando o estudante sente que pode errar sem ser humilhado. Quando percebe que a pergunta dele não é ridícula. Quando sabe que há alguém ali, do outro lado, que não vai desi...

Quem sou eu quando o dia termina e o quadro se apaga?

Quando o dia termina, o quadro apaga-se. E há qualquer coisa de estranho num quadro apagado depois de doze horas a ensinar Matemática. Parece limpo, parece vazio, parece que nada aconteceu. Mas aconteceu tudo. Aconteceram números. Aconteceram dúvidas. Aconteceram erros, tentativas, silêncios, gargalhadas, chamadas de atenção, pequenas vitórias. Aconteceram alunos. As cadeiras voltam ao lugar, as mesas alinham-se, os papéis desaparecem, a sala ganha outra respiração. Fica quieta, como se também ela precisasse de descansar do futuro que passou ali o dia inteiro sentado. E eu fico. Fico uns minutos sozinha, em silêncio, e pergunto-me, sem grande cerimónia: quem sou eu quando o quadro se apaga? Sou a professora que passou doze horas a traçar caminhos por entre os números. A que procura pontes onde eles só veem muros. A que transforma uma equação num mapa, uma função numa estrada, uma derivada numa forma de perceber o movimento das coisas. A que insiste que a...

Sobre duas rosas

A Rosa de Jericó e a aluna que viu uma metáfora Tenho uma Rosa de Jericó. Foi-me oferecida por uma amiga, dessas pessoas que nos deixam nas mãos pequenos objetos e, sem saberem, entregam também uma história. Há presentes assim: parecem coisas, mas são perguntas. Uma planta dentro de uma taça, uma água que começa a ficar verde, uma raiz antiga à espera de ser compreendida. A Rosa de Jericó não é bem uma rosa. Talvez por isso seja tão verdadeira. Há seres que não precisam de corresponder ao nome para cumprirem o seu destino. Esta chama-se rosa sem o ser, vive sem parecer viva, seca sem morrer, fecha-se sem desistir. Fica cinzenta, encolhida, quase mineral, como se tivesse decidido transformar-se em pedra para sobreviver ao excesso de mundo. Depois, basta água. Não muita. Não milagrosa. Não solene. Apenas água. E ela começa a abrir-se devagar, como quem regressa de muito longe. Primeiro, uma hesitação. Depois, uma dobra. Depois, uma folha que se lembra ...

Sobre acreditar sempre

Há textos que não nos ensinam apenas conceitos. Confirmam-nos. Li recentemente um documento sobre aprendizagem académica e aprendizagem socioemocional e senti, em muitas linhas, que estava ali escrita uma parte daquilo que sempre acreditei sobre educação. Não como teoria distante, não como moda pedagógica, não como palavra bonita para colocar em documentos oficiais, mas como chão. Como prática. Como forma de estar diante de quem aprende. Porque eu nunca consegui separar a cabeça do coração. Nunca consegui olhar para um estudante e ver apenas uma nota, uma ficha, um teste, um exame, uma dificuldade em Matemática, uma falta de método, uma distração ou uma resposta errada. Vejo sempre uma pessoa inteira. E as pessoas inteiras não entram na sala de aula deixando a vida lá fora. Entram com sono, medo, insegurança, entusiasmo, pressa, vergonha, histórias familiares, expectativas, feridas, sonhos, dúvidas e, tantas vezes, uma enorme vontade de conseguir, mesmo quando dizem que não quere...

Dez de Junho, Camões e as contas que ainda faltam fazer

Hoje é Dez de Junho. Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Dia de hastear a bandeira, de lembrar a língua, o mar, os versos, as partidas, os regressos e essa estranha capacidade portuguesa de atravessar tempestades com uma mão no leme e a outra a dizer: “isto amanhã resolve-se”. É feriado. Portanto, naturalmente, estou a trabalhar. Porque há patriotismos muito bonitos, com cravos, hinos e discursos solenes, e depois há o patriotismo silencioso de quem abre o computador num feriado, corrige exercícios, prepara exames, responde a mensagens e tenta convencer adolescentes de que uma função afim não é uma entidade maligna enviada para lhes destruir a juventude. Camões escreveu sobre mares nunca dantes navegados. Eu, hoje, navego em mares nunca dantes simplificados: equações, derivadas, probabilidades, limites, gráficos, dúvidas de última hora e alunos que, dois dias antes do exame, descobrem subitamente que a Matemática existe. Camões tinha...

Amor sem certidão

A minha sobrinha emprestada Há pessoas que nos chegam pela certidão de nascimento. E há pessoas que nos chegam por uma espécie de certidão invisível, escrita algures entre a vida, a amizade, as lágrimas e as gargalhadas. A essas, às vezes, chamamos família. Mesmo que ninguém tenha assinado nada. Mesmo que não haja apelidos em comum. Mesmo que o sangue, esse burocrata antigo, não tenha sido chamado a confirmar coisa nenhuma. Eu tenho uma sobrinha emprestada. Digo “emprestada” porque a vida, às vezes, gosta destas palavras pequenas para esconder coisas enormes. Mas a verdade é que não há nada de emprestado no que sinto por ela. Não há prazo, não há devolução, não há distância que mude isto. Gosto dela como se fosse minha. Como se entre nós houvesse uma linha antiga, dessas que não se veem ao microscópio, mas que se sentem quando ela me olha, quando me desafia, quando me faz rir, quando me obriga a ser melhor. Talvez po...

Começa hoje

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Hoje começa oficialmente a época mais famosa da Academia. A mais temida. A mais desejada. A mais intensa. A que chega todos os anos com cheiro a folhas sublinhadas, calculadoras em cima da mesa, cadernos gastos, dúvidas acumuladas, olheiras discretas e corações um bocadinho apertados. Começa a época dos exames. Matemática de 12.º ano. Duas palavras que parecem pequenas, mas que trazem dentro delas meses de trabalho, anos de caminho, medos antigos, expectativas da família, sonhos ainda meio tremidos e uma pergunta silenciosa que quase todos trazem nos olhos: “E se eu não conseguir?” E é aqui que entramos nós. Entramos com contas, funções, derivadas, probabilidades, geometria, equações, gráficos, raciocínios e estratégias. Mas entramos também com outra coisa, talvez mais difícil de explicar: entramos com calma. Com presença. Com paciência. E com a certeza de que ninguém aprende bem quando está assustado demais para pensar. São horas e horas de trabalho. Horas dedicadas a...