Mensagens

A medida de um abraço

Há ausências que se medem em dias e outras que não obedecem ao calendário. Um mês, por exemplo, não é muito tempo. Trinta dias. Quatro semanas. Uma pequena porção de vida, se pensarmos nos anos que já passaram e nos que, com alguma sorte, ainda teremos pela frente. Mas há pessoas cuja ausência altera a geografia dos lugares. De repente, há um lugar vazio, uma voz que deixou de atravessar os dias, uma gargalhada que não acontece onde deveria acontecer. E então um mês pode ser uma eternidade. Ela estava na Roménia, a fazer o seu estágio de verão, a viver aquela parte da vida que já não me pertence — e ainda bem. As mães passam muitos anos a ensinar os filhos a atravessar a rua e depois chega um momento estranho em que precisam de aprender a vê-los atravessar fronteiras sem nós. É esse, talvez, um dos paradoxos mais difíceis do amor: passamos a infância inteira dos nossos filhos a prepará-los para partir e, quando finalmente partem, descobrimos que não tínhamos prepara...

A geografia da saudade

Chega uma idade em que começamos a compreender que a saudade não é propriamente o desejo de voltar. Durante muito tempo julgamos que sim. Pensamos que temos saudades de uma casa, de uma rua, de uma pessoa sentada diante de nós numa determinada tarde, de uma voz que pronunciava o nosso nome de uma maneira que ninguém mais soube repetir. Convencemo-nos de que, se pudéssemos regressar a esse lugar, abrir aquela porta, sentarmo-nos outra vez àquela mesa, qualquer coisa se recomporia dentro de nós. Mas não. Podemos regressar aos lugares. É esse, talvez, o erro mais cruel. A rua continua lá. A casa pode ainda existir. A árvore cresceu, naturalmente, e há outras cortinas nas janelas. O café onde nos esperavam às cinco da tarde talvez tenha mudado de nome, mas as mesas continuam encostadas à parede e, por alguns segundos, quase conseguimos acreditar que basta esperar. Depois percebemos. Não era daquele lugar que tínhamos saudades. Era de quem éramos quando estivemos ali. E dess...

A vida não fica à espera

Passamos uma parte absurda da vida à espera. Esperamos pelo fim de semana, pelas férias, por uma resposta, por uma oportunidade, por uma notícia boa. Esperamos que a dor passe, que o medo diminua, que alguém regresse, que uma porta se abra. Esperamos ter mais tempo, mais coragem, menos cansaço ou uma versão de nós próprios que finalmente saiba o que está a fazer. Como se essa pessoa existisse. Como se, algures no futuro, houvesse uma versão adulta de nós, serena e organizada, que não perdesse as chaves, não respondesse impulsivamente, não tivesse medo e soubesse sempre qual era a decisão certa. Tenho más notícias: essa pessoa também deve andar à nossa procura. Há alturas em que a vida parece transformar-se numa enorme sala de espera. Sentamo-nos com os nossos pensamentos, folheamos preocupações antigas e olhamos constantemente para uma porta que teima em não se abrir. Será hoje? Chegará finalmente a resposta? Vai correr bem? Os filhos estarão felizes? Terão escolh...

Rotinas

Hoje bebi café no sítio do costume. Comi o mesmo de sempre e sentei-me com as minhas pessoas — aquelas que, sem termos combinado nada de especial, passaram a fazer parte das minhas manhãs. Chegamos, ocupamos os nossos lugares, contamos pedaços da vida e ajudamos o dia a começar. Talvez as rotinas sejam casas construídas sem tijolos. Fazem-se de mesas repetidas, chávenas pousadas no mesmo lugar, perguntas simples e gargalhadas que já sabemos reconhecer ao longe. Aos poucos, sem darmos por isso, tornámo-nos parte da paisagem umas das outras. E agora, quando uma não aparece, fica qualquer coisa fora do sítio. Uma cadeira vazia pode ser uma coisa muito pequena e, ainda assim, desarrumar uma manhã inteira. Há lugares aos quais pertencemos não por causa da morada, mas por causa das pessoas que lá nos esperam. O café pode ser o mesmo, a comida também, mas nenhuma manhã se repete verdadeiramente. Levamos sempre uma história nova, uma preocupação diferente, uma a...

Nunca tive medo de dizer NÃO

Não foram as grandes revoluções que me salvaram, já que nunca subi a uma barricada nem derrubei governos (embora na juventude tenha organizado manifestações por causas que defendia e nas quais acreditava profundamente). As grandes desobediências que mudaram a minha vida manifestaram-se em alguns “não” ditos em voz firme, em perguntas incómodas quando todos pareciam satisfeitos com a resposta e na decisão de permanecer de pé quando teria sido mais cómodo concordar, baixar os olhos e seguir o caminho que já tinham traçado para mim. Houve muitas vezes em que disse aquilo que pensava, mesmo sabendo que as minhas palavras seriam polémicas. Não porque goste particularmente de provocar, embora reconheça que também nunca tive grande talento para a concordância decorativa, mas porque há silêncios que nos custam demasiado. Ficar calada teria sido, em certos momentos, uma forma de me abandonar. Conheço bem, no entanto, a solidão de estar em minoria. Conheço o desconforto de defender uma c...

Ainda não autorizo o fim do verão

Hoje choveu. Não uma chuva séria, dessas de novembro que chegam com credenciais, casaco vestido e intenções de ficar. Foi uma chuva de fim de agosto, ainda meio indecisa, como quem bate à porta e pergunta se já pode entrar. Eu disse que não. Porque esta chuva trazia qualquer coisa de suspeito. Um cheiro a terra molhada, uma frescura no ar, uma luz mais baixa. Um certo ar de outono a ensaiar a entrada em cena antes do tempo. E eu não estou preparada. Nem para o outono, nem para o fim do verão, nem — sobretudo — para aquilo que vem agarrado aos dois pelas costas: o início do ano letivo . Recuso-me. Ainda não houve verão suficiente para isto. Há qualquer coisa em mim que ainda precisa de sal no cabelo, areia nos pés e chinelos atirados para qualquer lado. Ainda preciso de fins de tarde que não tenham hora, de jantares que começam tarde porque ninguém reparou nas horas, de dias em que a pergunta mais urgente seja se vamos à praia de manhã ou depois do almo...

Agosto, esse mês que não acaba

Agosto tem sido um mês comprido. Não sei se os meses se medem em dias ou em saudades, mas, se forem as saudades a decidir, este agosto deve ter para aí noventa e sete dias. A minha azulinha está longe. Longe é uma palavra estranha nos tempos que correm. Uma pessoa pode estar a milhares de quilómetros e, ainda assim, aparecer-nos dentro do telefone vinte vezes antes do pequeno-almoço. Há chamadas, fotografias, áudios e aproximadamente mil mensagens por dia — algumas importantes, outras absolutamente indispensáveis, como saber o que comeu, onde está, se dormiu bem e porque é que demorou sete minutos a responder. As mães possuem uma relação muito particular com o conceito de distância. A geografia diz uma coisa. O coração diz outra. E o WhatsApp faz o possível para mediar o conflito. Pelo meio, houve férias. Salamanca, estradas, a Beira Interior, paisagens onde parece que o tempo anda mais devagar. Houve dias de praia, muito sol, areia que aparece em casa mesmo quando juramos ...