O peso das perguntas (e a coragem de não ter todas as respostas) Sobre livros que nos inquietam, perguntas que nos desarrumam e a estranha aprendizagem de viver com o que ainda não compreendemos. Há dias, um jovem fez-me uma pergunta que ficou a ecoar dentro de mim. Estava a ler 1984 , de George Orwell, e confessou-me que, mesmo lendo pouco, sentia que o conhecimento e as questões mais profundas lhe provocavam alguma instabilidade emocional. Depois, perguntou-me como é que eu, lendo tanto e sabendo tantas coisas, conseguia manter a estabilidade mental e o controlo emocional. Sorri. Não pela ingenuidade da pergunta, mas pela extraordinária confiança que ela continha. E respondi-lhe: «Mas quem te disse que eu tenho sempre estabilidade mental e controlo emocional? Há dias em que também tenho vontade de fechar os livros, desligar o cérebro e ir conversar com a minha gata!» Rimo-nos. Mas a pergunta ficou. Porque há perguntas que não terminam quando encontramos pala...
Mensagens
Paula 1 — Horários Impossíveis 0
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Finalmente. Estão feitos. Terminados. Encaixados. Alinhados com uma precisão que faria qualquer peça de Tetris chorar de emoção. Durante dias, vivi mergulhada em folhas, quadrículas, mensagens e frases que começavam quase sempre por: - Nesse dia não posso… - Àquela hora tenho futebol… - À quarta-feira é a catequese… - À terça há instituto de inglês… - À quinta só dá depois das sete… - E ao sábado talvez, mas depende… Cada aluno chegava acompanhado não apenas da mochila, mas de uma pequena comitiva de compromissos: escola, catequese, futebol, inglês, natação, música, consultas, transportes, irmãos, pais, avós e outras entidades com poder absoluto sobre o calendário familiar. Construir estes horários não foi propriamente organizar uma semana. Foi resolver um sistema de equações com demasiadas incógnitas, algumas variáveis emocionais e pelo menos três impossibilidades matemáticas. Houve momentos em que contemplei o horário com a mesma expressão de quem tenta desarmar uma...
Uma nota não pode ser o horizonte inteiro da educação
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Vejo, com frequência, nas redes sociais, discursos sobre o sucesso nos exames: estratégias, métodos, promessas de boas notas. Compreendo a preocupação das famílias e dos alunos. Os exames têm consequências concretas no acesso ao ensino superior, e preparar os estudantes para esse momento faz parte da nossa responsabilidade pedagógica. Mas preocupa-me uma educação que concentra todos os esforços no resultado e deixa para segundo plano a aprendizagem que lhe deveria dar sentido. Quando a nota se transforma na medida de tudo, o aluno corre o risco de desaparecer atrás dela. O seu ritmo, as suas dificuldades, a curiosidade e até a estabilidade emocional passam a ser considerados apenas em função do desempenho esperado. E falar de apoio emocional não basta: é preciso que esse cuidado se traduza na forma como se ensina, nas expectativas que se criam e no modo como se responde ao erro. Preparar para um exame e ensinar Matemática são tarefas que se cruzam, mas não se confundem. É po...
A arte de encaixar o impossível
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Olho para os horários da Academia com a esperança de quem olha para uma mala cheia e ainda tem metade da roupa em cima da cama. Há de caber, penso. Se rodar isto, apertar aquilo, passar este para terça e puxar aquele para quinta… Não cabe. Considero-me uma boa jogadora de Tetris. Tenho alguma habilidade para descobrir espaços onde, à primeira vista, só existe uma parede. Mas este jogo está a pôr a minha reputação em causa. As peças têm escola, futebol, andebol, natação, inglês, dança e ginástica acrobática. E quase todas precisam de cair no mesmo quadradinho, entre as dezassete e as dezanove. Recebo horários esculpidos ao milímetro, com a precisão de uma peça de relojoaria. Às quatro acaba a escola, às cinco começa o treino, pelo meio há uma deslocação que já pressupõe uma relação bastante otimista com o trânsito. Procuro uma abertura. Uma nesga. Qualquer coisa por onde consiga fazer entrar a Matemática sem deixar a Físico-Química entalada na porta. A ginástica acro...
É tempo de colher
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Apesar de ser neta de pessoas ligadas à agricultura nunca tinha vindimado. Há coisas que chegam tarde à nossa vida e, talvez por isso mesmo, chegam na altura certa. A vindima foi uma delas. Fui sem saber muito bem o que fazer com as mãos, para além de provavelmente atrapalhar quem sabia. Aprendi que há uma maneira certa de pegar nos cachos, de escolher o que se corta, de respeitar a videira. E descobri que há trabalhos que se aprendem melhor quando se fazem acompanhados. Porque, no fundo, vindimar é uma espécie de metáfora da vida. Passamos anos a plantar. Algumas coisas crescem, outras não. Há sementes que esquecemos e que, um dia, aparecem em lugares onde não esperávamos. Há pessoas que chegam devagar, quase sem darmos por isso, e acabam por criar raízes. E depois há a família. Não apenas aquela que nos calhou à nascença, mas aquela que a vida nos oferece pelo caminho. A que acrescentamos sem pedir licença ao coração. Pessoas que um dia eram apenas pessoas e q...
Na nossa Academia ninguém aprende sozinho
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Os testes têm um nome escrito no canto da folha. As notas aparecem numa pauta, alinhadas umas por baixo das outras, como se cada número pertencesse inteiramente a uma única pessoa. No momento da avaliação, é o aluno quem segura a caneta, lê as perguntas e tenta encontrar, dentro de si, aquilo que aprendeu. Mas ninguém chega verdadeiramente sozinho àquela folha. Por trás de uma resposta certa há muitas vezes uma explicação repetida, uma dúvida finalmente confessada, um exercício feito em conjunto, um adulto que acreditou, um colega que ajudou ou alguém que disse, precisamente no dia em que era necessário: “Tenta outra vez.” O nome escrito no teste é apenas o último de uma história onde cabem muitas pessoas. Na nossa Academia, ninguém aprende sozinho. Isto não significa que o esforço possa ser delegado. Ainda não descobrimos uma forma de alguém estudar Matemática por outra pessoa, fazer um exame em representação do aluno ou transferir conhecimentos por proximidade. A Em...
As dez resoluções da aluna Emília
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Depois de observar atentamente vários anos letivos - quase sempre de olhos fechados -, a Emília decidiu partilhar connosco o seu plano para o novo ano. Considera-se preparada para esta responsabilidade. Tem experiência prolongada na ocupação de cadeiras, conhece todos os lugares da Academia onde o sol bate durante a tarde e domina uma técnica avançada de concentração que, vista por pessoas menos esclarecidas, pode parecer sono profundo. É uma incompreendida. Como qualquer aluna dedicada, a Emília estabeleceu dez resoluções. Algumas são pedagogicamente defensáveis. Outras exigiriam alterações profundas ao sistema educativo e um aumento preocupante do número de almofadas nas salas de aula. Ainda assim, talvez haja alguma sabedoria escondida entre tantos bocejos. Começar o dia sem entrar imediatamente em pânico. A Emília não consulta calendários, não conta os dias que faltam para os testes e nunca acordou sobressaltada por se ter esquecido de entregar um trabalho. ...