A Sertã escreve-nos por dentro
Há lugares que nos recebem como quem abre uma porta antiga e diz: entra, já te esperávamos. A Sertã é, para mim, um desses lugares. Talvez seja a luz das Beiras, essa luz dura e bonita que cai sobre as pedras, sobre as árvores, sobre as ruas antigas, sobre os corpos cansados de tanto calor. Talvez seja o modo como a natureza ali parece aproximar-se das pessoas, como se a paisagem também viesse assistir às conversas, aos livros, aos concertos, às leituras, às palavras que se soltam devagar entre escritores, leitores, músicos, atores, curiosos, sonhadores e gente que ainda acredita que a cultura pode mudar a temperatura de um dia. Mesmo quando estão quarenta graus. E estavam. Quarenta graus daqueles que nos entram pela pele, que nos fazem procurar sombra, água, silêncio, uma cadeira fresca, uma piscina, uma praia fluvial, uma pausa. Mas há calores que cansam e há calores que ficam guardados como memória. O calor da Sertã foi dos dois: fez-nos abrandar o corpo, mas aqueceu...