Mensagens

A vida tem os nomes de quem chega

Às sete da manhã, ainda o dia está a abrir os olhos e já eu lhe ando a arrumar as gavetas. Faço listas mentais, distribuo tarefas, tento encontrar lugar para tudo o que precisa de caber nas horas seguintes. A minha cabeça chega quase sempre primeiro que eu aos sítios. Quando finalmente me levanto, já ela abriu a sala, respondeu a perguntas e se esqueceu de alguma coisa que, naturalmente, só há de recordar quando eu estiver ocupada com outra. Depois, há o café. O de sempre, no lugar do costume. Gosto desta pequena certeza antes de começar a negociar com os imprevistos. E gosto, sobretudo, de encontrar a minha tribo: as amigas que fui acrescentando aos meus dias e que, com a generosidade de quem chega uma cadeira para o lado, me deram lugar nas suas vidas. Fomos ficando. Entre cafés, conversas e manhãs mais ou menos apressadas, fomos aprendendo a contar umas com as outras. Agora, quando falta uma, dou por isso e sinto-lhe a falta. O lugar vazio faz perguntas: estará bem? Te...

Tempo

Não tenho uma agenda. Tenho duas. Talvez porque uma só não suporte tudo o que peço aos dias. Numa página ficam as horas, noutra continuam as obrigações, os encontros, o trabalho que começa quando o outro termina. Tenho dois empregos, um horário exigente e as horas ocupadas ao milímetro. Trabalho catorze horas por dia, de segunda a sábado. Ao domingo, ainda encontro o que fazer, organizar, preparar, gerir. A semana seguinte começa a pedir coisas antes de a anterior acabar. Escrevo isto e vejo os números. Vivê-los é diferente. Por dentro dessas horas há pessoas, decisões, dúvidas, atenção. Há coisas que continuam a acontecer em mim depois de terminado o tempo que lhes estava destinado. O relógio separa os compromissos com uma facilidade que a cabeça desconhece. Sou professora, mãe e esposa. Sou cuidadora. Estas partes de mim convivem, cruzam-se, chamam umas pelas outras. Entre todas, a minha maior tarefa é ser mãe. Cuidar dos meus. Acompanhar os seus caminhos, estar prese...

Hoje, conto os anos por ti

Hoje farias setenta e oito anos, pai. Escrevo este número e demoro-me nele. Tento imaginar-te com a idade que não chegaste a ter. Como seria o teu rosto, que gestos terias conservado, o que o tempo teria feito à tua voz. Há uma parte de ti que só posso procurar assim, numa possibilidade. Conheço a tua ausência há tantos anos e continuo sem saber como serias hoje. Partiste com quarenta e quatro. E eu nunca mais contei os dias do mesmo modo. Desde então, cada data tem o que aconteceu e o que ficou por acontecer. Os anos avançaram, aconteceram tantas coisas, e tu continuaste a faltar de maneiras novas. Porque a saudade também muda com a vida. Há sempre alguma coisa que gostava de te contar pela primeira vez. Há sempre uma idade minha a que chego sem saber como seria ter-te ao lado. Hoje gostava de te dar os parabéns e ficar a ouvir-te. Falo contigo todos os dias. Às vezes, digo apenas «pai», e parece-me que já te disse muito. Outras vezes, conto-te o que me preocupa, ...

À altura de um abraço

A tristeza que mais me custa tem, quase sempre, alguma coisa de inesperado. Vem de uma voz junto da qual tinha baixado a guarda, de um gesto de quem julgava conhecer o cuidado de que sou feita. Às vezes, cabe inteira numa palavra. Outras, numa ausência: alguém que não está, que não pergunta, que deixa um silêncio precisamente onde eu precisava de uma resposta. Fico a pensar no pouco que é necessário para magoar uma pessoa. E no pouco que, em certos dias, teria bastado para a amparar. Gostava que algumas coisas não me atingissem tanto. Gostava de ter uma grandeza tranquila, qualquer coisa de árvore antiga que sabe do vento e permanece. Mas há palavras que me atravessam antes de eu conseguir compreendê-las. Quando tento perceber por que razão doeram tanto, já encontraram outras dores, já tocaram em lugares que eu julgava sossegados. O coração tem esta memória involuntária: um gesto de hoje pode abrir a porta a muitas tristezas antigas. Sei que nem tudo o que me fere foi fe...

Regressos

O calendário diz que entrámos no outono. O calor, pelos vistos, não recebeu o aviso. Ao fim da tarde, ainda há verão no ar. Entretanto, já se abriram os cadernos e se começaram a acertar horários. Ou a tentar. Ainda nem passou uma semana de explicações e a agenda já tem setas, rasuras e trocas. Há horas que mudam de lugar, mensagens a responder, encaixes por descobrir. Chego ao fim do dia cansada. O recomeço tem este lado menos bonito, feito de relógios desregulados e de contas que não aparecem nos manuais. Mas também tem uma alegria difícil de explicar a quem nunca esperou pelo regresso de um aluno. Os antigos voltam e, com eles, uma familiaridade construída devagar. É bom matar saudades, ouvir o que aconteceu entretanto e perceber que a confiança sobreviveu às férias. Aos novos abro a porta e dou as boas-vindas. Ainda estamos a conhecer-nos: eu procuro perceber como pensam, onde hesitam, o que já sabem sem se terem dado conta. Eles vão descobrindo que aqui podem fazer perguntas, ...

O amor também sabe sair da frente

Uma criança senta-se no chão para atar os atacadores. Demora. Faz uma laçada torta, desfaz o nó, troca as mãos, suspira e recomeça. O adulto olha para o relógio. Está atrasado. Ajoelha-se, afasta-lhe as mãos e, num gesto rápido e eficiente, ata-lhe os sapatos. Saímos a horas. Mas talvez aquela criança tenha perdido uma pequena oportunidade de crescer. É assim, muitas vezes, que a autonomia começa a ser adiada: não através de grandes proibições, mas por meio de pequenos gestos quotidianos feitos com a melhor das intenções. Fazemos por eles porque é mais rápido. Respondemos por eles porque receamos que se enganem. Escolhemos por eles porque acreditamos saber o que é melhor. Retiramos-lhes as pedras do caminho, antecipamos os obstáculos, evitamos-lhes a frustração e, se pudéssemos, talvez lhes preparássemos uma vida inteira revestida de plástico de bolhas. Tudo por amor. Mas o amor também pode prender. A autonomia não é uma capacidade que se entrega aos dezoito ...

Os filhos crescem para fora de nós

Este verão passou depressa demais. O mais estranho é que houve dias que me pareceram longos. Muito longos. Mas, quando dei por isso, o verão tinha acabado e eu ficara com a sensação de que me faltava um pedaço dele. Faltava-me um mês. O mês em que a minha filha esteve na Roménia. Eu sabia que era apenas um mês. Disse isso a mim própria várias vezes, com aquele tom sensato que usamos quando tentamos convencer o coração de alguma coisa que a cabeça já percebeu há muito. Um mês passa depressa. E passou. Mas foi um mês a menos da companhia dela. Um mês sem a sua presença nos meus dias, sem as conversas que surgem sem serem marcadas, sem aqueles pequenos momentos que parecem não ter importância até deixarem de acontecer. A ausência vive muito dessas coisas pequenas. Não é feita apenas da falta que alguém nos faz nas grandes ocasiões. É feita, sobretudo, da vontade de dizer qualquer coisa e perceber que a pessoa não está ali; de uma casa que continua igual, mas parece ter m...