Dois pais

Hoje é Dia do Pai.

E hoje penso muito em dois.

No pai que os meus filhos tiveram a sorte de encontrar — e no pai que eu tive a sorte de ter.

O pai que dei aos meus filhos é tudo aquilo que eu sempre desejei que fosse.

Companheiro.
Divertido.
Brincalhão.
Parceiro de aventuras.

Um pai presente desde o primeiro instante.

Daqueles que não ficam apenas à margem da infância, mas entram nela com os dois pés. Que se sentam no chão para brincar, que escutam com atenção, que sabem quando é preciso rir e quando é preciso explicar o mundo com calma.

Foi ele quem esteve ao lado deles nos trabalhos de História e de Geografia. Quem passou horas a explicar conceitos de Física e de Geometria Descritiva, não apenas para resolver exercícios, mas para despertar curiosidade.

Porque há pais que ensinam respostas. E há pais que ensinam a pensar.

Também houve longas conversas. Partilhas. E aquelas chamadas de atenção que todos os filhos precisam de ouvir — mas dadas sempre com uma paciência e um carinho enormes.

Ser pai não é apenas estar.

É saber estar.

E nisso ele foi, e continua a ser, extraordinário.

Hoje, ao honrar o pai que escolhi para os meus filhos, lembro-me inevitavelmente do meu.

O primeiro homem que me ensinou a caminhar pelo mundo.

Hoje passei no cemitério.

Sentei-me ao lado dele.

E conversei.

Na verdade, converso com ele todos os dias.

Conto-lhe o meu dia. As pequenas coisas. Os pequenos nadas que fazem a vida acontecer.

Às vezes peço-lhe inspiração para resolver aqueles desafios mais complicados que aparecem sem aviso: uma decisão difícil, uma dúvida, um momento em que o caminho parece menos claro.

Gosto de acreditar que ele me ouve.

E que me responde à sua maneira.

Em pequenos sinais.
Em coincidências improváveis.
Em intuições súbitas que parecem vir de um lugar mais fundo.

Talvez sejam apenas formas de saudade.

Mas prefiro pensar que é outra coisa.

Prefiro acreditar que ele continua por perto.

Que nunca me deixa verdadeiramente sozinha.

Que, quando o caminho se torna mais turvo ou mais sinuoso, encontra sempre uma maneira de me dar a mão.

Talvez seja isso que os pais são na nossa vida: uma espécie de bússolas invisíveis.

Mesmo quando já não caminham fisicamente ao nosso lado, continuam a orientar-nos. Estão nas decisões que tomamos, nas palavras que escolhemos, na forma como aprendemos a cuidar dos outros.

E talvez seja por isso que hoje, neste Dia do Pai, penso também no homem que escolhi para caminhar comigo e para ensinar os nossos filhos a olhar o mundo com curiosidade, com humor e com generosidade.

Às vezes olho para ele enquanto fala com eles — nas conversas demoradas, nas explicações pacientes, nas gargalhadas partilhadas — e penso que há heranças que não passam apenas de pais para filhos.

Passam também de geração em geração através do amor.

E talvez seja assim que a vida continua: um pai que inspira uma filha, uma filha que escolhe um homem que será um bom pai, e dois filhos que crescem rodeados desse mesmo cuidado.

No fundo, os pais são isso: um ponto de partida e uma direção.

E, às vezes também, a forma mais bonita de continuar o caminho.

PB ✨

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