Carta aberta aos meus alunos
Há alunos que chegam com os cadernos organizados e o olhar focado, como quem já sabe que o caminho se constrói linha a linha.
Há outros que chegam em tempestade, desafiantes, inquietos, a medir o mundo com perguntas e silêncios.
Há os trabalhadores incansáveis, os que hesitam, os que adiam, os que riem, os sérios, os sonhadores.
Há os que me dão abraços e beijinhos sem aviso, como quem diz sem palavras: “estou aqui”.
Há os que já sabem para onde vão, e os que ainda estão a aprender que também é legítimo não saber.
E todos, absolutamente todos, têm um lugar na minha vida.
Ao longo dos anos, fui percebendo que ensinar Matemática nunca foi apenas sobre números, fórmulas ou resultados certos. Foi sempre sobre pessoas. Sobre encontros. Sobre caminhos que se cruzam sem acaso, como se cada um de vocês chegasse no momento exato em que precisava de chegar — e eu também.
Vocês pensam que sou eu que vos ensino.
Mas a verdade mais profunda é outra: nós crescemos juntos.
Transformaram-me com as vossas dúvidas, com as vossas conquistas silenciosas, com os vossos medos antes dos testes e com os vossos sorrisos depois de perceberem, finalmente, “aquela matéria difícil”.
Transformaram-me com a vossa confiança, com a vossa lealdade, com a coragem de dizer “não percebi” e voltar a tentar.
Ser adolescente é ser ponte.
Entre o que se é e o que se sonha ser.
Entre a insegurança e a descoberta.
Entre o medo de falhar e a vontade imensa de conseguir.
E eu tenho o privilégio raro de assistir a esse atravessar de pontes todos os dias.
Aos mais pequenos, que chegam como folhas em branco, cheios de ternura e olhos curiosos, lembro-me sempre da responsabilidade imensa que é escrever bem nas primeiras páginas da vossa história.
Porque ensinar não é apenas explicar contas — é semear confiança, paciência, coragem e amor pelo aprender.
Aos que já estão comigo há anos, que cresceram diante dos meus olhos, que passaram de crianças a jovens, e de jovens a adultos, levo-vos comigo como quem guarda capítulos de um livro precioso.
E aos que começaram agora, acolho-vos com a mesma certeza: ainda vamos construir laços que nem imaginam.
Há também aqueles que já são pais e mães, que um dia foram meus alunos e que agora me confiam os seus filhos, e todos os “sobrinhos” que a vida me foi oferecendo.
E nesse ciclo silencioso, compreendo que educar é um gesto que atravessa gerações.
Na sala de estudo, partilhamos mais do que exercícios.
Partilhamos dúvidas, crescimentos, cansaços, vitórias pequenas e gigantes.
Partilhamos dias difíceis e dias luminosos.
Partilhamos humanidade.
E, sem percebermos, vamos apoiando-nos mutuamente.
Vocês aprendem a acreditar mais em vocês.
E eu aprendo, todos os dias, a ser uma professora melhor, mais paciente, mais humana, mais consciente da missão que abracei.
Porque sim, ser professora e explicadora de Matemática é, para mim, a melhor profissão do mundo.
Não pelos resultados.
Mas pelos laços.
Pelos olhares que mudam quando algo faz sentido.
Pelos “já consegui” ditos em voz baixa.
Pela confiança construída com tempo, presença e verdade.
Ninguém entra na nossa vida por acaso.
Nem o aluno mais distraído.
Nem o mais exigente.
Nem o mais silencioso.
Nem o mais carinhoso.
Cada um chega para ensinar algo que nenhum manual contém.
Vocês ensinaram-me que educar é acompanhar, não apressar.
É apoiar sem julgar.
É acreditar mesmo quando o próprio aluno duvida.
É estar — com constância, com lealdade, com coração.
E se vos mudo um pouco, com conhecimento, estrutura e confiança,
vocês mudam-me profundamente com a vossa verdade, a vossa energia e a vossa presença.
Esta é a minha missão.
Caminhar ao vosso lado enquanto crescem.
Ajudar-vos a transformar dúvidas em compreensão, medo em coragem e esforço em conquista.
E lembrar-vos, sempre, que valem muito mais do que qualquer nota.
Porque, no fim, mais do que ensinar Matemática,
o que eu faço — com amor imenso —
é acreditar em pessoas.
E amar, profundamente, cada aluno que a vida me confiou. ♥️♥️
PB
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