10 anos depois

Faz dez anos que o medo me tocou à porta.

Não entrou de rompante. Não partiu vidros, não gritou o meu nome, não fez escândalo. Chegou discreto, vestido de consulta de rotina, com aquele ar administrativo das coisas que mudam a vida sem pedir licença. Entrou pela voz de um médico, por uma expressão mais séria, por uma sequência de exames que de repente passaram a ter nomes grandes: biópsias, TACs, eletrocardiogramas, análises, relatórios, esperas.

A vida, às vezes, vira-se do avesso num gabinete.

Num momento estamos inteiras, ocupadas, atrasadas, cheias de tarefas, filhos, aulas, explicações, trabalhos, contas, mensagens por responder. No momento seguinte, percebemos que o corpo, esse companheiro silencioso que damos por garantido, pode tornar-se notícia. Pode falhar. Pode assustar-nos. Pode lembrar-nos, de forma brutal, que não somos imortais.

Havia uma corda vocal em perigo. Havia nódulos na tiróide. Havia uma operação marcada de urgência no IPO de Coimbra. Havia filhos pequenos. Havia a Academia. Havia um curso a meio. Havia uma vida inteira a correr e eu, pela primeira vez, a sentir que talvez não conseguisse acompanhá-la.

O medo antes do diagnóstico é um país sem mapa.

Não sabemos onde estamos, nem para onde vamos. Tudo é hipótese. Tudo é espera. Tudo é palavra por confirmar. O futuro, que antes parecia uma coisa mais ou menos garantida, passa a caber numa chamada telefónica, num resultado, numa frase que alguém ainda não disse.

E há algo de profundamente assustador quando tomamos consciência da nossa finitude.

Não da finitude em abstrato, essa ideia filosófica que discutimos como quem fala do tempo. Falo da finitude concreta. A nossa. A que tem filhos com mochilas, horários para cumprir, contas para pagar, alunos à espera, uma casa onde somos precisas. A finitude que nos pergunta, sem piedade: e se faltares?

Foi isso que mais me assustou.

Não foi apenas a operação. Não foi apenas o hospital. Não foi apenas o medo da palavra que ninguém quer ouvir. Foi imaginar os meus sem mim. Foi pensar que podia faltar-lhes. Que podia deixá-los sem chão, como eu própria ficara anos antes quando perdi o meu pai.

Esse foi o meu primeiro grande medo.

Quando perdi o meu pai, o medo veio misturado com uma dor tão grande que parecia não haver corpo suficiente para a conter. Era uma dor com raízes, uma dor que me arrancou chão, telhado e bússola. Anos depois, naquele tempo de exames e hospital, o medo voltou diferente. Não vinha acompanhado da perda de alguém. Vinha acompanhado da possibilidade de ser eu a perda de alguém.

E isso tem outro peso.

Antes da operação, continuei. Porque é isso que fazemos, muitas vezes. Continuamos. Trabalhei na Academia, dei aulas, expliquei Matemática, acompanhei alunos, cuidei dos filhos, respondi ao que havia para responder. Talvez por coragem. Talvez por teimosia. Talvez porque parar era deixar o medo falar mais alto. Talvez porque ensinar Matemática, naquele tempo, era ainda uma forma de me sentir viva, útil, inteira.

Mas por dentro eu estava assustada e nada preparada para me ver tão frágil.

Há pessoas que passam a vida a segurar tudo e, quando chega a sua vez de precisar de ser seguradas, não sabem muito bem como se faz. Eu não sabia. Não sabia ficar doente. Não sabia ser limitada. Não sabia aceitar que o corpo mandasse mais do que a vontade. Não sabia estar ausente do meu lugar de trabalho. Não sabia esperar.

A operação foi difícil.

Fragilizou-me. O internamento foi longo. Desgastante. Os resultados não vinham como eu esperava. A alta teimava em não chegar. E quando finalmente chegou, não trouxe o alívio inteiro. Trouxe-me para casa, sim, mas trouxe-me também a convalescença, esse tempo estranho em que já não estamos no hospital, mas ainda não voltámos à vida.

A convalescença é uma espécie de sala de espera dentro de casa.

Tudo parece familiar, mas nós não estamos iguais. A casa é a mesma, mas o corpo não obedece da mesma maneira. A vida continua lá fora, e nós ficamos a olhar para ela através de uma janela. Os dias parecem compridos. O descanso, que antes parecia um luxo, torna-se uma obrigação difícil de aceitar.

E fazia-me falta ensinar.

Fazia-me falta a Matemática. Faziam-me falta os alunos, as dúvidas, os cadernos, o barulho da sala, a vida a acontecer à volta de uma conta que não dá certo. Fazia-me falta aquela parte de mim que se acende quando explica, quando orienta, quando vê alguém compreender. Estar longe da Academia foi uma das partes mais duras. Porque o trabalho, quando é feito com amor, não é apenas trabalho. É identidade. É chão. É uma forma de existir.

Depois, no meio da tempestade, as notícias começaram a melhorar.

O tumor era benigno.

A palavra benigno tem uma luz própria. Não apaga tudo, não devolve imediatamente o corpo antigo, não elimina as sequelas, não desfaz o medo vivido. Mas abre uma janela. Deixa entrar ar. O nó na garganta começou, devagar, a desfazer-se. O aperto no peito foi perdendo força. A vida, que tinha estado suspensa, começou a regressar com passos pequenos.

Ficaram sequelas, porque há coisas que a doença leva e não devolve exatamente como encontrou. Mas também há coisas que ela nos deixa. Algumas duras. Outras inesperadamente bonitas.

Trouxe-me gente boa.

E talvez isto seja uma das coisas mais misteriosas do sofrimento: às vezes, no lugar onde a vida nos fere, aparecem pessoas a trazer luz.

Recebi mensagens de colegas que davam explicações como eu e que nem me conheciam pessoalmente. Pessoas da mesma profissão, do mesmo universo, que poderiam ter sido vistas como concorrência por quem vê o mundo pequeno. Mas não foram. Enviaram-me palavras, ajuda e cuidado. Alguns ficaram amigos. Outros ficaram como prova silenciosa de que ainda há uma bondade limpa entre pessoas que fazem o mesmo caminho.

Houve quem se oferecesse para ir buscar os meus filhos à escola.

E isso eu nunca esqueci.

Porque quando uma pessoa está frágil, há gestos que parecem enormes. Uma mensagem pode ser colo. Um ramo de flores pode ser companhia. Um “precisas de alguma coisa?” pode ser uma ponte. Um oferecimento simples pode dizer aquilo que as palavras às vezes não conseguem: não estás sozinha.

Foi também por isso que nunca aprendi a falar de rivalidade entre colegas da mesma profissão.

Não é assim que os vejo.

Vi solidariedade. Vi apoio. Vi pessoas a reconhecerem noutra pessoa o mesmo esforço, a mesma missão, a mesma entrega. Vi colegas que, em vez de apagarem a luz do outro, acenderam uma vela ao lado. E talvez seja por isso que acredito tanto que nenhum de nós precisa diminuir ninguém para existir melhor.

A dor ensina-nos muitas coisas, mas uma das mais importantes é esta: percebemos quem fica humano quando a vida se torna difícil.

Dez anos depois, olho para trás e ainda sinto qualquer coisa no peito. Não é o mesmo medo. É memória. É gratidão. É espanto. É a consciência de que houve um tempo em que a vida me obrigou a parar e a olhar para aquilo que eu mais temia perder.

Talvez todos tenhamos um dia em que deixamos de nos sentir imortais.

Um dia em que percebemos que o corpo é casa, mas também é vidro. Que a vida é forte, mas não é garantida. Que os planos podem ser interrompidos por um resultado médico. Que a coragem não é ausência de medo; é continuar a respirar dentro dele.

Faz dez anos. Dez anos desde que o medo me bateu à porta.

Hoje, talvez eu saiba que ele nunca vem só para nos assustar. Às vezes vem também para nos acordar. Para nos lembrar que o tempo é precioso. Que o amor deve ser dito. Que a saúde não é garantida. Que a fragilidade não nos diminui. Que há uma força estranha em aceitar que precisamos dos outros.

E que, mesmo depois da tempestade, há sempre qualquer coisa que fica.

Uma cicatriz. Uma lição. Uma amizade. Uma gratidão. Uma forma mais profunda de olhar a vida.

A doença não me levou o chão, abalou-o, mas também me mostrou quantas mãos estavam dispostas a segurá-lo comigo.

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