O peso das perguntas (e a coragem de não ter todas as respostas)
Sobre livros que nos inquietam, perguntas que nos desarrumam e a estranha aprendizagem de viver com o que ainda não compreendemos.
Há dias, um jovem fez-me uma pergunta que ficou a ecoar dentro de mim.
Estava a ler 1984, de George Orwell, e confessou-me que, mesmo lendo pouco, sentia que o conhecimento e as questões mais profundas lhe provocavam alguma instabilidade emocional. Depois, perguntou-me como é que eu, lendo tanto e sabendo tantas coisas, conseguia manter a estabilidade mental e o controlo emocional.
Sorri.
Não pela ingenuidade da pergunta, mas pela extraordinária confiança que ela continha.
E respondi-lhe:
«Mas quem te disse que eu tenho sempre estabilidade mental e controlo emocional? Há dias em que também tenho vontade de fechar os livros, desligar o cérebro e ir conversar com a minha gata!»
Rimo-nos.
Mas a pergunta ficou.
Porque há perguntas que não terminam quando encontramos palavras para lhes responder. Algumas instalam-se discretamente em nós e continuam a trabalhar, como sementes de inquietação.
E aquela merecia mais do que uma resposta apressada.
Porque, de facto, há livros que nos desarrumam por dentro. Há livros que nos fazem companhia. Outros que nos entretêm. E há aqueles que entram na nossa vida sem pedir licença e começam a deslocar os móveis da nossa consciência.1984 é um desses livros.
Orwell coloca-nos perante um mundo onde a verdade pode ser fabricada, a linguagem manipulada e até o pensamento se torna um território vigiado.
É difícil atravessar aquelas páginas sem olhar de outra maneira para o mundo que habitamos.
De repente, começamos a interrogar aquilo que antes aceitávamos sem grande resistência. Questionamos a informação que recebemos, a liberdade que julgamos possuir, as palavras que utilizamos e até a segurança das nossas próprias convicções.
E isso pode ser profundamente desconfortável.
O conhecimento tem esta particularidade: nem sempre chega para nos tranquilizar.
Por vezes, chega precisamente para nos retirar a tranquilidade.
Durante algum tempo, aquilo que julgávamos compreender deixa de fazer sentido, enquanto aquilo que começamos a perceber ainda não encontrou um lugar dentro de nós.
Ficamos numa espécie de território intermédio.
Já não somos exatamente quem éramos antes daquela leitura, mas ainda não sabemos quem seremos depois dela.
Talvez seja por isso que alguns livros nos acompanham muito para além da última página.
Não porque nos tenham dado respostas.
Mas porque modificaram as nossas perguntas.
Saber mais não significa sofrer menos
O jovem parecia acreditar que a quantidade de livros que lemos nos oferece uma espécie de imunidade emocional.
Como se, a determinada altura, adquiríssemos conhecimentos suficientes para deixar de nos perturbar com as contradições do mundo.
Gostava de lhe poder dizer que sim.
Que existe um número mágico de livros a partir do qual tudo se torna claro. Que, depois de algumas centenas de leituras, conseguimos compreender a natureza humana, aceitar as injustiças, resolver os dilemas da existência e dormir tranquilamente todas as noites.
Infelizmente, ainda não cheguei a esse capítulo.
E começo a suspeitar de que ele não existe. 😄
Ler não me tornou imune à inquietação.
Talvez me tenha ensinado, isso sim, a reconhecê-la.
A perceber que não preciso de compreender tudo imediatamente. Que posso encontrar uma ideia que me desconcerta e deixá-la repousar. Que posso discordar de um autor sem precisar de o destruir. Que posso mudar de opinião sem sentir que perdi uma parte de mim.
E, sobretudo, que não tenho a obrigação de resolver, numa única noite, os problemas que a humanidade acumula há séculos.
Há uma forma de humildade que nasce do conhecimento.
Quanto mais lemos, mais descobrimos aquilo que ignoramos.
E talvez a verdadeira maturidade intelectual comece precisamente aí: quando deixamos de confundir a necessidade de compreender com a obrigação de ter respostas.
Também precisamos de fechar os livros
Há, contudo, uma distinção que considero essencial.
Uma coisa é uma leitura inquietar-nos, desafiar as nossas convicções ou obrigar-nos a pensar de maneira diferente.
Outra, muito diferente, é o sofrimento tornar-se tão intenso que começa a roubar-nos o sono, a serenidade ou a capacidade de viver o quotidiano.
Não precisamos de sofrer para demonstrar que pensamos profundamente.
Nem a angústia é uma medida da inteligência.
Por vezes, a atitude mais sensata perante um livro é simplesmente fechá-lo.
Ir caminhar. Ouvir música. Conversar com alguém. Fazer uma coisa perfeitamente banal, como preparar o jantar ou observar uma gata que, aparentemente, resolveu todos os problemas filosóficos da existência e concluiu que o mais importante é encontrar um lugar confortável ao sol.
Também isso é sabedoria.
A vida não acontece apenas dentro dos livros.
E há perguntas que se tornam menos pesadas quando as levamos connosco para o mundo, em vez de permanecermos fechados dentro delas.
Partilhar uma inquietação não a resolve necessariamente, mas pode torná-la mais habitável.
Talvez seja também essa uma das funções mais bonitas da educação: criar lugares onde seja possível pensar sem medo e perguntar sem vergonha.
Onde um jovem possa dizer «isto que estou a descobrir perturba-me» e encontrar, do outro lado, alguém que não lhe responda com uma lição sobre a importância de ser forte.
Mas que lhe diga, simplesmente:
«Percebo. Vamos conversar sobre isso.»
Aprender a viver com as perguntas
Voltei várias vezes à conversa com aquele jovem.
E ocorreu-me que talvez ele me tenha feito uma pergunta sobre os livros quando, no fundo, estava também a perguntar-me qualquer coisa sobre a vida.
Como continuamos a viver quando descobrimos que o mundo é mais complexo do que imaginávamos?
Como preservamos a alegria depois de tomarmos consciência de tanta injustiça, contradição e sofrimento?
Como encontramos serenidade sem fechar os olhos?
Não sei se existe uma resposta definitiva.
Mas acredito que não precisamos de escolher entre a lucidez e a alegria.
Podemos conhecer as imperfeições do mundo e continuar a maravilhar-nos com ele.
Podemos reconhecer a crueldade e, ainda assim, acreditar na importância da bondade.
Podemos compreender que a existência é frágil, incerta e muitas vezes incompreensível, sem deixar de encontrar beleza num gesto inesperado, numa conversa, numa manhã de sol ou numa página particularmente bonita.
A consciência das sombras não nos obriga a renunciar à luz.
Talvez nos ensine, até, a reconhecê-la melhor.
E talvez seja essa a aprendizagem mais difícil: não permitir que aquilo que sabemos sobre o mundo nos impeça de continuar a habitá-lo com ternura.
Não sei se consegui responder verdadeiramente àquele jovem.
Sei apenas que a sua pergunta me recordou uma coisa que, por vezes, esquecemos enquanto ensinamos: os nossos alunos não procuram em nós apenas conhecimentos.
Procuram também maneiras de lidar com aquilo que o conhecimento desperta.
E nós, professores, não precisamos de representar uma serenidade que não possuímos. Podemos mostrar-lhes que também temos dúvidas, que também nos inquietamos e que continuamos a aprender a viver com ambas.
Talvez a nossa tarefa não seja ensinar os jovens a não se perturbarem com o mundo.
Talvez seja ajudá-los a descobrir que podem questioná-lo sem se perderem de si próprios.
Que podem continuar a fazer perguntas sem transformar cada uma delas num abismo.
Que podem fechar um livro, descansar e regressar a ele quando estiverem preparados.
E que não precisam de carregar sozinhos o peso de tudo aquilo que começam a compreender.
Porque o conhecimento não tem de ser uma forma de sofrimento. Pode ser, apesar de todas as inquietações, uma forma de liberdade.
E a liberdade também inclui o direito de parar, de respirar, de não saber.
De ser, simplesmente, humano.
Quanto ao controlo emocional absoluto...
Se algum dia o encontrar numa livraria, prometo que compro dois exemplares.
Um para mim.
Outro para aquele jovem que, sem se aperceber, me fez uma das perguntas mais importantes que recebi enquanto professora.
Paula Braçais
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