A arte de encaixar o impossível

Olho para os horários da Academia com a esperança de quem olha para uma mala cheia e ainda tem metade da roupa em cima da cama. Há de caber, penso. Se rodar isto, apertar aquilo, passar este para terça e puxar aquele para quinta…

Não cabe.

Considero-me uma boa jogadora de Tetris. Tenho alguma habilidade para descobrir espaços onde, à primeira vista, só existe uma parede. Mas este jogo está a pôr a minha reputação em causa. As peças têm escola, futebol, andebol, natação, inglês, dança e ginástica acrobática. E quase todas precisam de cair no mesmo quadradinho, entre as dezassete e as dezanove.

Recebo horários esculpidos ao milímetro, com a precisão de uma peça de relojoaria. Às quatro acaba a escola, às cinco começa o treino, pelo meio há uma deslocação que já pressupõe uma relação bastante otimista com o trânsito. Procuro uma abertura. Uma nesga. Qualquer coisa por onde consiga fazer entrar a Matemática sem deixar a Físico-Química entalada na porta.

A ginástica acrobática, afinal, também é minha. Dou por mim a fazer a espargata entre segunda e quarta, um mortal à retaguarda para recuperar uma vaga e duas piruetas para tentar acomodar mais um aluno. Tudo isto sentada, que é uma modalidade pouco reconhecida, mas de enorme desgaste.

E há aquele momento maravilhoso em que parece resultar.

Mudo um aqui, passo outro para ali, encontro uma combinação e penso: «Agora sim!»

Depois há inglês.

O inglês, evidentemente, já lá estava. Eu é que, num breve episódio de euforia, deixei de o ver.

Desfaz-se a combinação. Recomeço. O aluno que cabia já não cabe, a hora que sobrava afinal não sobra, e a solução brilhante de há cinco minutos dependia de eu estar em dois sítios ao mesmo tempo. Uma competência que, apesar do esforço, ainda não consegui desenvolver.

O mais difícil é que cada nome traz uma necessidade concreta. Há dificuldades para ultrapassar, confiança para recuperar, exames para preparar. E eu sei que encontrar lugar no horário é apenas o princípio: é preciso que naquele lugar também caibam a atenção, as perguntas, o tempo de tentar outra vez. Aprender exige algum espaço para respirar.

Penso nisso enquanto tento resolver este quebra-cabeças. Nos alunos que chegam depois de dias compridos. Nas famílias que fazem malabarismos com transportes, trabalho e horários de irmãos. E nas minhas próprias horas, que também têm limites, embora eu continue a negociar com elas como se fossem ceder por insistência.

Os dias são pequenos para tanta necessidade.

Talvez seja isso que mais me custa nesta tarefa: a vontade de chegar a todos esbarra numa coisa tão prosaica como o relógio. Posso mudar nomes, trocar grupos, experimentar outras combinações. Acrescentar uma hora à tarde é que continua fora das minhas competências, o que considero uma falha grave na formação de professores.

Por enquanto, a luta continua. Há tentativas, contas refeitas e alguns suspiros que já deviam contar como exercícios respiratórios. Luz ao fundo do túnel, ainda nenhuma. Desconfio que também esteja à espera de uma vaga.

Volto a olhar para a semana. Talvez, se passar este para quinta…

É assim que começa mais uma pirueta.

Siga ... ou como diz um aluno meu "Carrega Benfica!!" :D

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