O resto da divisão dos dias

Há dias em que acordamos já atrasados para a nossa própria vida.

Ainda não abrimos completamente os olhos e já o mundo nos bate à porta. Há mensagens por responder, decisões por tomar, trabalhos que não admitem demora, compromissos que se atropelam e pequenas urgências que se apresentam como se delas dependesse a rotação da Terra. Talvez a Terra continue a rodar sem a nossa ajuda, mas nem sempre nos lembramos disso.

Levantamo-nos e começamos.

Começamos porque é o que sabemos fazer. Porque esperam por nós. Porque alguém precisa de uma resposta, de uma palavra, de um gesto, de uma solução. E nós, que tantas vezes não sabemos resolver-nos, passamos os dias a tentar resolver o mundo.

No peito, porém, mora uma ansiedade sem nome.

Não sabemos exatamente de onde vem. Não anuncia uma tragédia concreta nem aponta para um perigo visível. Está apenas ali, como um pássaro escuro que tivesse entrado pela janela e não encontrasse a saída. Bate as asas contra as paredes do corpo, agita o pensamento, perturba o sono. Às vezes, quase conseguimos esquecê-lo. Outras vezes, basta uma pequena coisa, uma mensagem, um prazo, uma pergunta inocente, para o ouvirmos de novo.

E então perguntamo-nos:

Serei capaz?

Serei capaz de atravessar este dia, esta semana, este tempo? Serei capaz de corresponder ao que esperam de mim? De fazer tudo aquilo que precisa de ser feito? De não falhar com ninguém? De não me falhar?

A vida, nesses momentos, parece um sistema de equações com demasiadas incógnitas e dados insuficientes. Procuramos o valor de x, tentamos isolar o medo, eliminar a culpa, simplificar o cansaço. Mas há sempre uma variável que nos escapa. Talvez porque a vida não seja uma ciência exata. Talvez porque nós próprios não sejamos números inteiros, mas frações imperfeitas, dízimas infinitas, cálculos iniciados por aqueles que vieram antes de nós e que outros continuarão quando já não estivermos aqui.

Há dias em que tudo pesa mais porque sentimos falta dos que amámos.

A saudade aparece sem avisar. Pode esconder-se numa música, num cheiro, numa fotografia encontrada por acaso. Pode estar numa frase que alguém diz, num modo de rir, na luz de uma determinada hora da tarde. E, de súbito, regressam aqueles que já não podemos abraçar.

Os mortos não deixam verdadeiramente de existir. Mudam de gramática. Deixam de se conjugar no presente e passam a habitar todos os tempos dentro de nós.

Continuam num gesto que repetimos sem saber de quem o herdámos. Numa expressão que nos sai da boca e que reconhecemos, um segundo depois, como sendo deles. Na vontade absurda de lhes telefonar para contar uma coisa pequena. Porque são precisamente as coisas pequenas que mais doem: aquilo que já não podemos dizer, a pergunta que ficou por fazer, o café que não voltaremos a partilhar.

A saudade é talvez o único teorema que se demonstra pela ausência.

Sabemos que amámos porque dói. Sabemos que fomos felizes porque alguma coisa em nós continua a regressar àqueles dias, como quem volta a uma casa onde já não pode entrar. Espreitamos pelas janelas da memória e vemos versões antigas de nós próprios. Mais novos. Talvez mais ingénuos. Rodeados de pessoas que, naquele momento, julgávamos eternas.

A nostalgia tem essa crueldade delicada: devolve-nos o instante, mas não nos permite tocá-lo.

E, no entanto, precisamos dela. Não para vivermos presos ao passado, mas para sabermos de onde vem a matéria de que somos feitos. Cada pessoa que amámos deixou em nós uma coordenada. Cada perda alterou a geometria do nosso mundo. Continuamos a caminhar, mas os mapas já não são os mesmos.

Talvez seja por isso que algumas exigências do presente nos parecem tão difíceis. Não chegamos aos dias apenas com aquilo que somos agora. Trazemos connosco todas as idades que já tivemos, todos os medos que não resolvemos, todas as despedidas que não compreendemos. Trazemos a criança que precisou de colo, a jovem que acreditou que teria tempo para tudo, a mulher que aprendeu que nem tudo depende da vontade.

E ainda assim exigimos de nós uma espécie de perfeição impossível.

Queremos cumprir todos os prazos, responder a todos, cuidar de todos, antecipar todos os problemas. Queremos ser fortes, disponíveis, lúcidas e competentes. Queremos dividir-nos em mil pedaços eficientes e produtivos… Mas há divisões que não nasceram para ser exatas e, por isso, sobra sempre um resto: a resposta que ficou para amanhã, a decisão que adiámos, a roupa por arrumar, o livro que não terminámos, o plano que falhou…

Talvez viver seja aprender a aceitar esse resto.

Aceitar que não conseguimos estar em todos os lugares nem corresponder a todas as solicitações. Que, por vezes, teremos de dececionar as expectativas dos outros para não desaparecermos de nós. Que há dias em que ser capaz não significa vencer, produzir ou resolver. Significa apenas levantar-se, respirar e dar o passo possível.

Não o passo perfeito. O possível.

O medo continuará a visitar-nos. A ansiedade continuará, por vezes, a bater as asas contra o peito. A saudade continuará a abrir portas que julgávamos fechadas. Não existe uma fórmula que nos proteja de tudo isso.

Mas talvez a coragem não seja a ausência de medo. Talvez seja esta forma imperfeita e profundamente humana de avançar com ele. De lhe oferecer um lugar no banco de trás, sem permitir que conduza.

Ao fim do dia, algumas tarefas permanecerão por cumprir. O mundo não ficará resolvido. Haverá mensagens por responder e novas exigências à nossa espera. Mas talvez possamos pousar, por instantes, o lápis com que tentamos acertar todas as contas e lembrar-nos de uma verdade simples:

Nós também fazemos parte da vida que tanto nos esforçamos por organizar.

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