Paula 1 — Horários Impossíveis 0

Finalmente.

Estão feitos. Terminados. Encaixados. Alinhados com uma precisão que faria qualquer peça de Tetris chorar de emoção.

Durante dias, vivi mergulhada em folhas, quadrículas, mensagens e frases que começavam quase sempre por:

- Nesse dia não posso…
- Àquela hora tenho futebol…
- À quarta-feira é a catequese…
- À terça há instituto de inglês…
- À quinta só dá depois das sete…
- E ao sábado talvez, mas depende…

Cada aluno chegava acompanhado não apenas da mochila, mas de uma pequena comitiva de compromissos: escola, catequese, futebol, inglês, natação, música, consultas, transportes, irmãos, pais, avós e outras entidades com poder absoluto sobre o calendário familiar.

Construir estes horários não foi propriamente organizar uma semana. Foi resolver um sistema de equações com demasiadas incógnitas, algumas variáveis emocionais e pelo menos três impossibilidades matemáticas.

Houve momentos em que contemplei o horário com a mesma expressão de quem tenta desarmar uma bomba:

- Se passar este para terça, consigo colocar aquele na quinta. Mas, se colocar aquele na quinta, entra em conflito com o futebol. E, se mexer no futebol, cai a catequese. E ninguém quer ser responsável por fazer cair a catequese.

O Tetris, comparado com isto, é um jogo para principiantes. No Tetris, pelo menos, as peças descem em silêncio. Não enviam mensagens a dizer:

- Professora, esqueci-me de avisar que afinal também não posso à sexta.

Há uma frase - “afinal, não posso” - que devia vir acompanhada por música de filme de terror.

Mas venci.

Depois de muitas tentativas, alterações, setas, círculos, cores, mensagens, negociações diplomáticas e pequenos milagres logísticos, tudo encontrou o seu lugar. A catequese não colide com o inglês. O inglês não atropela o futebol. O futebol não expulsa ninguém das explicações. E eu consegui encaixar-me algures no meio disto tudo, o que também não deixa de ser uma proeza.

Confesso que olhar agora para o horário completo me provoca uma emoção difícil de explicar. É uma mistura de orgulho, alívio e receio de que alguém me escreva, nos próximos cinco minutos, a dizer:

- Professora, houve uma pequena alteração…

Por enquanto, porém, está tudo certo.

Talvez se mantenha unido por clips, boa vontade e uma fé pouco científica na estabilidade dos acontecimentos. Mas está feito. Cada nome tem uma hora, cada hora tem um nome e nenhuma peça ficou esquecida no fundo da caixa.

O ano pode, finalmente, começar.

Paula, 1.
Horários impossíveis, 0.

Pelo menos até à próxima mensagem.

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