É tempo de colher

Apesar de ser neta de pessoas ligadas à agricultura nunca tinha vindimado.

Há coisas que chegam tarde à nossa vida e, talvez por isso mesmo, chegam na altura certa. A vindima foi uma delas.

Fui sem saber muito bem o que fazer com as mãos, para além de provavelmente atrapalhar quem sabia. Aprendi que há uma maneira certa de pegar nos cachos, de escolher o que se corta, de respeitar a videira. E descobri que há trabalhos que se aprendem melhor quando se fazem acompanhados.

Porque, no fundo, vindimar é uma espécie de metáfora da vida.

Passamos anos a plantar. Algumas coisas crescem, outras não. Há sementes que esquecemos e que, um dia, aparecem em lugares onde não esperávamos. Há pessoas que chegam devagar, quase sem darmos por isso, e acabam por criar raízes.

E depois há a família. Não apenas aquela que nos calhou à nascença, mas aquela que a vida nos oferece pelo caminho. A que acrescentamos sem pedir licença ao coração. Pessoas que um dia eram apenas pessoas e que, entretanto, passaram a ser casa, mesa cheia, gargalhada, abraço e memória.

Foi assim que me encontrei, de tesoura na mão e rodeada de gente que a vida foi acrescentando à minha.

E gostei.

Gostei da terra nas mãos, do cheiro das uvas, do cansaço bom no corpo e, sobretudo, daquela sensação tão antiga de estarmos juntos a fazer uma coisa simples. Sem pressa. Sem grandes planos. Apenas a trabalhar, a conversar, a rir e a colher.

Talvez a amizade seja também isto.

Uma espécie de vinha que se vai cuidando sem grande alarde. Umas vezes com sol, outras com chuva. Com podas, com silêncios, com reencontros. E, quando chega o tempo certo, percebemos que afinal havia ali muito mais do que imaginávamos.

Há amizades que são vinho novo. Outras são vinho já feito, daqueles que o tempo não estraga, antes melhora.

E há pessoas que são como uma boa vindima: chegam com as mãos cheias e deixam-nos a alma um bocadinho mais cheia também.

No fim do dia, percebi que talvez não tenha ido apenas vindimar uvas.

Fui colher momentos. Colher afectos. Colher família. Colher a alegria simples de estar com quem nos faz bem.

E talvez seja isso que fazemos, sem perceber, ao longo da vida: vamos andando pelos dias com a tesoura na mão, escolhendo o que queremos guardar.

Eu, que nunca tinha vindimado, descobri que gostei imenso.

Talvez porque há experiências que não precisam de fazer parte da nossa história desde sempre.

Basta que, quando chegam, saibamos reconhecê-las como nossas.

E esta vindima já ficou, na pele, nas mãos, nas fotografias.

E naquele lugar bonito onde guardamos as pessoas que a vida nos deu de presente. 🍇❤️

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