Negligência que deixa marcas
Há uma forma de negligência que não faz barulho. Não parte vidros, não levanta a voz, não deixa marcas visíveis. Instala-se devagar, como pó sobre os móveis, até que tudo parece naturalmente baço. É a arte triste de fazer pela metade, de cumprir calendário em vez de cumprir missão.
Ensinar mal não é apenas explicar mal uma matéria. É muito mais do que isso. É entrar numa sala como quem entra num elevador: carregar num botão, esperar que o tempo passe, sair no andar seguinte sem ter verdadeiramente estado ali. É repetir palavras sem lhes dar raiz. É cumprir horários sem cumprir consciência. E, no entanto, há sempre alguém do outro lado — olhos abertos, cadernos prontos, futuros frágeis como porcelana fina.
Preparar mal é uma forma de abandono elegante. Fica tudo aparentemente em ordem: conteúdos dados, avaliações feitas, papéis assinados. Mas falta o essencial — a responsabilidade de saber que cada descuido é uma pedra colocada no caminho de quem ainda nem aprendeu a desviar-se. Não se trata de perfeição. Trata-se de ética. De carácter. De compreender que o trabalho nunca é apenas trabalho quando lida com vidas em construção.
Há quem receba o salário como se fosse um prémio por presença. Como se bastasse estar para merecer. Produz-se pouco ou nada em algumas aulas, mas produz-se ruído suficiente para se parecer ocupado. E, enquanto isso, o tempo — que é o recurso mais precioso de quem aprende — escorre pelo chão sem que ninguém se incline para o recolher.
O que mais inquieta não é o erro honesto. O erro nasce da tentativa, da vontade de acertar. O que inquieta é a indiferença. O gesto mecânico. O “tanto faz”. A preguiça que se encosta ao esforço dos outros e espera que alguém compense a falha. A ausência de brio. A falta de vergonha em saber que se podia fazer melhor — e escolher não fazer.
Ensinar é um acto profundamente moral. Não porque exija heroísmo, mas porque exige presença inteira. Quem ensina segura destinos invisíveis nas mãos. Pode não ver imediatamente as consequências do descuido, mas elas existem — acumulam-se, silenciosas, até se tornarem limitações, inseguranças, portas fechadas.
Há uma violência discreta em preparar mal alguém para o mundo. Uma violência que não deixa hematomas, mas deixa lacunas. E as lacunas, mais tarde, cobram o seu preço.
Falta ética quando se esquece que o que se faz — ou não se faz — reverbera muito para além do momento. Falta carácter quando se troca responsabilidade por conforto. Falta humanidade quando se ignora que cada aula mal dada é uma oportunidade roubada.
Talvez o mais grave seja isto: habituarmo-nos. Aceitar o mínimo como suficiente. Chamar normal ao que é apenas descuidado. E continuar, dia após dia, como se o futuro não estivesse a ser moldado ali mesmo, entre quatro paredes, à mercê da consciência — ou da ausência dela — de quem deveria cuidar.
Porque ensinar não é apenas transmitir conteúdos. É assumir que cada gesto tem peso. E que há trabalhos que não se medem pelo que se recebe ao fim do mês, mas pelo que se deixa — ou se falha em deixar — na vida dos outros.
Aos que ainda insistem e trabalham com amor e dedicação parabéns. Não desistam. O caminho é por aí. PB
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