Novembro, do lado da primavera
Há três dias que novembro me chega com outro cheiro. Aqui, no Paraná, tem calor, humidade, terra molhada e pão de queijo. Deixei o outono em Portugal e vim encontrar a primavera deste lado do Atlântico. O calendário continua a dizer novembro, mas o corpo desconfia. Há qualquer coisa de deliciosamente estranho em descobrir que um mês também pode ter outra temperatura, outra luz, outra maneira de nos tocar a pele.
Hoje apresentei a minha conferência, em Cambará. Correu muito bem. Escrevo isto com a cautela de quem costuma ser a mais exigente das suas próprias avaliadoras. A minha crítica interior também atravessou o Atlântico; aparentemente, não havia forma de a deixar em casa. Ainda assim, hoje dou-me licença para estar contente. Houve muito trabalho até aqui, muitas leituras, muitas dúvidas, muitas frases pensadas e repensadas. Sabe bem sentir que conseguimos dar forma ao que nos move.
E, no entanto, o melhor de cada conferência começa muito antes de terminarmos de falar e continua muito depois. Chego com perguntas, algumas certezas, ideias que já aprenderam a manter-se de pé. Depois escuto alguém e uma dessas ideias inclina-se. Outra ganha uma janela. Outra precisa de ser inteiramente reconstruída. Vou juntando novas questões às que trouxe, e sei que algumas me acompanharão durante muito tempo.
É uma das coisas de que mais gosto na vida académica: esta possibilidade de continuar a ser surpreendida. A pedagogia, a educação, a didática e as competências digitais dos professores do ensino superior apaixonam-me porque, por detrás de cada conceito, estão pessoas. Está alguém a tentar ensinar melhor. Alguém a procurar uma maneira de compreender. Alguém que precisa de tempo, de oportunidade, de uma pergunta feita de outra forma.
A matemática continua, naturalmente, a ter o seu lugar nesta história. Gosto da sua exigência, da beleza de uma relação que finalmente se revela, daquele instante em que o raciocínio encontra caminho. Reconheço uma alegria semelhante quando uma conversa sobre educação me ajuda a compreender alguma coisa que, até então, permanecia confusa. Talvez seja essa procura que une os meus interesses: perceber como aprendemos e como podemos ajudar outros a aprender.
Tenho conhecido professores extraordinários, apaixonados pelo ensino, conscientes das dificuldades que atravessam as universidades e dispostos a pensar sobre elas. Há uma força particular em conversar com quem conhece o cansaço desta profissão e conserva a vontade de experimentar, de escutar os estudantes, de rever uma prática. Essa dedicação merece tempo, condições e reconhecimento. O amor pelo ensino também precisa de ser cuidado.
Falamos de um mundo que aproxima pessoas e faz circular conhecimento com uma rapidez extraordinária, enquanto deixa tantas oportunidades distribuídas de forma desigual. A globalização entra nas universidades, nas escolhas, nas expectativas, nas tecnologias que usamos. A mesma plataforma pode chegar a lugares onde as condições de acesso, de trabalho e de aprendizagem são profundamente diferentes. Há muito a interrogar nessa aparente proximidade.
Por isso, quando penso nas competências digitais dos professores, penso nas decisões que tomamos e nas consequências dessas decisões. Para que serve uma ferramenta? Que aprendizagem permite? Quem consegue participar? Que espaço fica para a dúvida, para a criação, para o pensamento próprio? A inteligência artificial acrescenta novas possibilidades e novas perguntas a esta conversa. Interessa-me uma educação em que os estudantes possam compreender, questionar e intervir no mundo que habitam.
Cada pessoa chega à sala de aula com uma história já começada. Traz conhecimentos, receios, experiências, maneiras de olhar. Ensinar implica conhecer um pouco desse mundo e aceitar que o encontro também nos pode transformar. Gosto desta responsabilidade de estudar muito e, ao mesmo tempo, conservar a humildade de escutar. Há tanto que só compreendemos quando outra pessoa nos empresta, por instantes, o seu ponto de vista.
Nestes dias, esse encontro tem rostos novos, vozes animadas e uma simpatia que me faz sentir acolhida. Há nomes que há três dias me eram desconhecidos e que agora já associo a uma ideia, a uma conversa, a um sorriso. Vou reconhecendo afinidades a milhares de quilómetros de casa. Isso tem sido uma das grandes alegrias desta viagem.
Também tenho aprendido à mesa, com um empenho que considero digno de registo. A comida é diferente e tão boa que a curiosidade raramente precisa de incentivo. Quanto ao pão de queijo, talvez fosse prudente não divulgar os números. A matemática acompanha-me em quase tudo, mas aqui suspendi deliberadamente a contagem. Ainda estou a estudar o fenómeno que me leva a pensar «só mais um» tantas vezes seguidas.
Do café português, porém, tenho saudades. Bebo café por aqui, bastante até, e continuo a sentir falta daquele café curto, intenso, servido numa chávena pequena, com o sabor exato de uma pausa conhecida. É curioso sentir isso numa região com uma história tão ligada ao cultivo do café. A saudade, pelos vistos, também tem os seus métodos de preparação.
Londrina guarda outras curiosidades. O seu nome homenageia Londres, através da ligação britânica à companhia que participou na formação da cidade: uma «pequena Londres» no norte do Paraná. Gosto de pensar nestes nomes que atravessam oceanos e acabam por ganhar uma vida própria. Há lugares que transportam uma viagem dentro do nome.
E há uma linha que atravessa o município sem precisar de se desenhar no chão: o Trópico de Capricórnio. Sei que é uma referência geográfica, mas gosto de lhe dar, por momentos, uma existência quase visível. Imaginar que se pode caminhar sobre uma linha estudada nos mapas. A menina que aprendeu os trópicos na escola ainda vive algures dentro da professora que agora veio dar uma conferência ao Brasil.
Por estes dias, o céu também se tem mostrado expansivo. A chuva cai de uma vez, avassaladora, como se alguém tivesse aberto todas as torneiras lá em cima. Pouco depois, aparece um sol brilhante e o calor volta a ocupar o ar. A humidade cola-se à pele. Fica o cheiro da terra molhada, tão intenso que apetece guardá-lo num frasco e levá-lo connosco.
Esta região tem ainda a sua terra roxa, formada pela alteração de rochas basálticas, uma terra que se apresenta em tons avermelhados. Debaixo dos nossos passos há uma história muito mais antiga do que a nossa. Talvez seja por isso que gosto tanto do cheiro que sobe do chão depois da chuva: dá-me a sensação de que, por breves instantes, a terra se torna mais próxima.
Estar noutro hemisfério acorda também aquelas perguntas que julgávamos arrumadas. A água rodará ao contrário no ralo do lavatório? Afinal, num lavatório comum, pode rodar em qualquer dos sentidos, dos dois lados do equador. A forma do recipiente e o movimento inicial da água têm muito mais influência do que o efeito de Coriolis, demasiado pequeno a esta escala para determinar o que observamos no quotidiano.
Achei graça à pequena lição. Podemos atravessar um oceano com uma ideia muito convincente na cabeça e descobrir que ela precisa de revisão. A curiosidade leva-nos até ao lavatório; o rigor obriga-nos a fazer mais perguntas. A professora de Física que fui aprova esta parte da viagem.
Estão a ser dias muito bons. Dias cheios, de aprendizagem, de crescimento académico e dessa alegria simples de conhecer pessoas com quem apetece continuar a conversar. Sinto que a investigação ganha outra espessura quando encontro quem vive as questões que procuro estudar. O Paraná vai deixando de ser apenas o nome de um lugar nos meus textos: vai ganhando vozes, rostos, calor, cheiro e memória.
Ainda tenho dias pela frente. Quero escutar mais, conhecer mais, deixar que alguma coisa me surpreenda sem ter de a compreender imediatamente. Quando regressar, levarei perguntas que ainda não sei formular por inteiro, ideias para trabalhar devagar e a lembrança destas pessoas. Talvez, num dia frio em Portugal, ao voltar às notas da conferência, me lembre de repente deste calor e me pareça ouvir a chuva.
Por agora, estou aqui. Feliz por ter vindo, contente com o trabalho de hoje e com muito para pensar. Novembro tem luz de primavera. E ainda há pão de queijo. .... (e caipirinhas!!)
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