Londrina, às cinco da tarde
São cinco da tarde em Londrina e o céu fechou-se. Há pouco, o calor pousava nos ombros, entrava pela roupa, acompanhava cada passo. Agora troveja. As árvores agitam-se, o ar muda de cheiro e a chuva começa a cair. Fico a ouvi-la. Depois de um dia inteiro de vozes, de ruas, de descobertas, sabe-me bem este som que não me pede resposta.
Estou no norte do Paraná, numa cidade que traz Londres no nome e a história do café entranhada na sua terra vermelha. Chamam-lhe a pequena Londres. Acho curioso ter atravessado o Atlântico para encontrar um nome que olha para a Europa, enquanto tudo à minha volta me convida a conhecer este lado do mundo: a luz, a vegetação, a maneira como o calor se demora na pele.
Londrina tem um verde que participa na vida da cidade. Cresce entre os edifícios, acompanha as ruas, debruça-se sobre o movimento. Por vezes, levanto os olhos e as copas ocupam quase tudo. Debaixo delas, o passo abranda. Apetece ficar mais um bocadinho à sombra, olhar a forma de uma folha, seguir o voo de um pássaro, deixar passar os minutos.
Entre as aves que vivem por aqui estão os bem-te-vis, os sabiás-laranjeira e os sanhaços-cinzentos. Ainda não sei dar nome a todos os cantos que me acompanham ao longo do dia, mas gosto de pensar que vou conhecendo a cidade também pelos ouvidos. E gosto especialmente de existir um pássaro chamado bem-te-vi. Tão longe de casa, há qualquer coisa de acolhedor nessas três pequenas palavras. Como se, do alto de uma árvore, alguém desse pela minha passagem.
Amanhece cedo. A luz chega quando uma parte de mim ainda quer ficar deitada, e os pássaros parecem ter combinado começar o dia sem esperar por ninguém. Ao fim da tarde, espanta-me a rapidez com que anoitece. Habituada à demora de certos entardeceres nossos, quase me apetece pedir ao céu que espere. Ainda estou a olhar. Ainda não acabei de guardar esta cor.
Vou guardando o Brasil assim, em coisas pequenas. O cheiro do café, por exemplo. No Armazém do Café, apetece demorar a respiração, deixar que o aroma do grão torrado se agarre à memória. Penso na história desta região, nas plantações, nas colheitas, nas mãos de tanta gente. E penso também na intimidade de uma chávena: na facilidade com que, à volta de uma mesa, um lugar desconhecido começa a tornar-se familiar.
No Mercado Shangri-lá, os sentidos têm dificuldade em escolher por onde começar. Há mil cores a disputar os olhos: verdes de folhas, amarelos de fruta, vermelhos vivos, os tons quentes das especiarias. Os cheiros cruzam-se nos corredores. O doce aproxima-se do picante, o café mistura-se com outros aromas, e eu caminho devagar, curiosa, com vontade de perguntar o nome das coisas. Algumas parecem conhecidas e, no entanto, basta aproximar-me para descobrir uma diferença. Até o que julgamos reconhecer pode ensinar-nos qualquer coisa.
Gosto dessa diversidade que se encontra à escala de uma banca, de uma receita, de uma conversa. Londrina foi sendo construída por gente vinda de muitos lugares, trazendo maneiras de cozinhar, palavras, hábitos, lembranças. Imagino as saudades que também terão chegado nas suas malas. Talvez algumas receitas tenham sobrevivido por isso: porque alguém, muito longe, precisou de voltar a casa durante uma refeição.
Nos museus, essa vontade de conhecer ganha outro ritmo. Demoro-me mais. Procuro nas imagens e nos objetos os sinais da vida de quem esteve aqui antes de mim. A cidade por onde passeio teve outras ruas, outros ruídos, outras manhãs. Gosto de sair de um museu e voltar a olhar para o que me rodeia: até uma fachada que antes me passara despercebida pode, de repente, fazer-me parar.
E, entre os lugares bonitos que vou conhecendo, tenho tido a sorte de uma companhia muito bonita também.
A professora Catarina é uma pessoa tão querida, tão divertida, tão das matemáticas como eu, que damos por nós a descobrir geometria pelo caminho. Uma forma numa fachada, um desenho no chão, a repetição de um padrão. Basta uma de nós reparar para a outra olhar também. Depois há as horas em capicua, essas pequenas simetrias que nos fazem rir com um entusiasmo provavelmente difícil de explicar a quem passa. Estamos no Brasil e conseguimos entreter-nos com os algarismos de um relógio. Acho isto maravilhoso.
A cumplicidade vai crescendo nestas coisas. Num comentário que a outra entende logo, numa curiosidade partilhada, no riso que regressa mais tarde quando nos lembramos do que aconteceu. Viajar juntas é ir aprendendo o passo uma da outra. Com a Catarina, tenho-me sentido acompanhada de uma forma leve e boa. Tive muita sorte.
E agora, enquanto a chuva cai, sinto o cansaço dos dias tão cheios. A minha bateria social está quase no fim. Ainda quero ver, aprender, conversar, mas começo a precisar de intervalos maiores. De estar um pouco calada. De pousar o telemóvel, tirar os sapatos, deixar que o corpo descanse antes de lhe pedir mais uma descoberta.
Tenho saudades de casa.
Dos meus filhos. Do meu amor. Da proximidade simples de estarmos no mesmo lugar, de poder tocar num braço enquanto falo, de ouvir uma voz sem um aparelho pelo meio. Faz-me falta poder dar um abraço no preciso instante em que tenho vontade de o dar.
E tenho saudades dos meus alunos. Falo neles o dia inteiro. Aparecem nas conversas, nas comparações, nas coisas que vejo e logo imagino como lhes mostraria. Às vezes, dou por mim a pensar numa aula no meio de uma rua brasileira. Uma forma, uma pergunta, uma maneira diferente de explicar. Conheço-me: quando voltar, vou querer contar-lhes tanta coisa. Talvez tenha de me lembrar de que também há matéria para dar.
Nas lojas, ando acompanhada por todos eles. Pego numa lembrança e penso logo em alguém. Isto é a cara dele. Ela ia gostar desta cor. Aquilo faria os meus alunos rir. Vou comprando pequenos presentes, experimentando levar comigo um bocadinho do que me encanta. Imagino o momento de os entregar, as mãos a abrir o embrulho, a explicação que virá agarrada ao objeto. Antes de caberem na mala, estas lembranças já passaram muitas vezes pelo meu pensamento.
É curioso descobrir tanta coisa nova e, ao mesmo tempo, desejar com tanta força aquilo que conhecemos. Continuo feliz por estar aqui. Quero guardar estas ruas, os cheiros do mercado, o café, os museus, as conversas, o riso da Catarina. E quero sentar-me à mesa com os meus, ouvi-los falar do dia, recuperar os pequenos acontecimentos que a distância me faz perder.
Lá fora, a chuva engrossa. O verde escurece, o calor começa a ceder, e sobe aquele cheiro de terra molhada que reconheço tão bem. Respiro fundo. Durante um instante, uma rua de Londrina e um lugar da minha vida em Portugal ficam estranhamente próximos.
Talvez amanhã encontremos outra capicua. Talvez a Catarina me chame a atenção para uma geometria que me escapou. Havemos de rir, de caminhar, de encontrar mais alguma coisa que eu queira levar para casa.
Por agora, fico a ouvir chover, enquanto me preparo para mais um jantar.
Mas o que queria mesmo, era que os meus estivessem todos aqui, ao meu lado.
Paula Braçais
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