Do outro lado da chuva
Voltou a chover em Londrina. Troveja como se o céu tivesse guardado para hoje tudo o que ficou por dizer. Gosto de imaginar que a cidade se despede de nós, que este alvoroço lá em cima é uma maneira de nos pedir que fiquemos mais um pouco. Eu ficava. E, ao mesmo tempo, já tenho o coração à porta de casa.
Hoje passeámos pelo lado mais novo da cidade. Houve tempo para olhar, para andar sem a pressa dos primeiros dias, para comprar as últimas lembranças. As últimas, digo eu, sabendo que no aeroporto hei de encontrar mais qualquer coisa absolutamente desnecessária e, por isso mesmo, impossível de deixar para trás. Um pequeno objeto onde caiba o pretexto de voltar a falar desta viagem.
Mas há tanto que não sei arrumar numa mala. Os cheiros desta terra. Os seus verdes, que parecem ter sido inventados com mais generosidade. As aves, os animais, as árvores diante das quais me apeteceu demorar. A comida, os sabores que agora terão também uma data e um rosto na minha memória. Levo tudo misturado, como acontece às coisas vividas: uma cor encostada a uma conversa, um sabor preso a um lugar, a chuva atravessada pela voz de alguém.
Sobretudo, levo pessoas.
Pessoas que há pouco tempo não me conheciam e me abriram a porta de casa. Penso nisso com uma gratidão difícil de explicar sem parecer que digo apenas as palavras habituais. Deixaram-me entrar no seu quotidiano, deram-me tempo, atenção, lugar. Fizeram-me sentir esperada num sítio onde eu nunca tinha chegado. Há uma confiança muito bonita nesse gesto de acolher alguém que vem de longe. Espero que a vida me permita, um dia, ser eu a abrir-lhes a porta. Gostava de poder dizer: entrem, agora é a minha vez.
Gostei tanto de vir. E já desejo voltar. Ainda aqui estou e começo a reconhecer a falta que este lugar me vai fazer. Imagino que, daqui a algum tempo, um cheiro ou uma palavra me devolverá subitamente a estes dias, talvez no meio de uma tarefa qualquer, e terei de parar um instante para deixar passar Londrina.
Trago o que aprendi e a alegria do que pude partilhar. Trago perguntas novas, ideias a que quero dar tempo, uma vontade renovada de continuar a estudar. Gosto de ensinar. Gosto desse trabalho paciente de procurar uma explicação, de escutar uma dúvida, de descobrir outra maneira de chegar a alguém. E gosto de aprender, de me sentar do outro lado, de admitir que não sei e sentir a curiosidade a fazer o resto.
Também volto mais consciente do que desejo para o meu futuro e da pessoa que nunca quero ser. Quero poder avançar sem me afastar de mim. Que o conhecimento me torne mais atenta aos outros. Que, por muitos lugares a que chegue, continue a saber agradecer, a escutar até ao fim, a reconhecer o trabalho de quem está ao meu lado. Há uma educação dos gestos que desejo conservar em todas as circunstâncias.
Não quero confundir o à-vontade com a «à vontadinha». A proximidade merece cuidado; a confiança de alguém merece respeito. A minha humildade há de continuar a ter lugar em tudo o que fizer, incluindo nos dias em que as coisas me correrem bem. Quero continuar capaz de perguntar, de corrigir o caminho, de pedir ajuda. Há dimensões minhas que reconheço como casa e das quais não me quero ausentar.
Dentro de pouco tempo, atravessarei o Atlântico. Passarei de um hemisfério para o outro, deixarei esta primavera a caminho do nosso outono. É estranho pensar que a vida pode mudar de estação durante uma viagem de avião, enquanto levamos as mesmas roupas, o mesmo livro, as mesmas saudades.
Sei que dificilmente conseguirei dormir. Tentarei ler. Talvez avance algumas páginas e depois dê por mim a olhar para a mesma frase, distraída pela antecipação de um abraço. Haverá o rumor contínuo do avião, a luz sobre o livro aberto, as horas que custam a passar quando já sabemos exatamente onde queremos estar.
Quero chegar aos meus filhos. Ouvir-lhes as vozes de perto, reparar no que me contam e no que lhes passa pelo rosto, abraçá-los com tempo. Por mais crescidos que sejam, há em mim uma alegria muito antiga que desperta sempre que os vejo. Nesta viagem, tantas vezes pensei que gostariam de ver isto, de provar aquilo, de estar aqui. Também os fui trazendo comigo dessa maneira.
Quero voltar ao meu amor. À intimidade de quem conhece o meu cansaço, o meu entusiasmo, os silêncios em que ainda estou a organizar o que sinto. Apetece-me contar tudo e adormecer a meio, ter a mala por desfazer e nenhuma urgência em resolver esse assunto. Saber que posso pousar o corpo, finalmente, junto de quem me conhece.
E quero regressar aos meus alunos. Às suas perguntas, à energia dos encontros, ao instante em que uma explicação encontra lugar e o olhar se ilumina. Vou levar-lhes também um pouco desta viagem. Há de aparecer numa história, num exemplo, numa forma diferente de olhar para o que estamos a aprender.
Lá fora, Londrina continua a chover. Vou sentir saudades. Sei-o já, enquanto reúno as minhas coisas e descubro que uma parte da despedida começou antes de sair daqui.
Levo esta terra comigo, a caminho da minha. Atravessarei o mar com a gratidão por quem me recebeu e a impaciência terna de quem deseja chegar. Do outro lado estarão os meus filhos, o meu amor, a vida que reconheço como minha.
E eu, que terei tantas coisas para contar, talvez comece por pousar a mala e ficar um bocadinho calada, dentro de um abraço.
6 Paula B
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