Ainda não parti e já levo saudades

As horas passam. Estou no lounge de um hotel no Porto, com um mojito à minha frente e menos de vinte e quatro horas entre mim e a viagem. O gelo vai cedendo devagar. Penso que amanhã estarei a muitos quilómetros daqui e a distância, que até agora era uma coisa abstrata, começa a fazer-se sentir no corpo.

Ainda não atravessei o oceano e já tenho saudades.

É curioso como, na véspera de uma partida, a vida habitual ganha uma nitidez inesperada. Apetecem-nos as vozes de todos os dias, as conversas que interrompemos porque haveria tempo para as continuar, a presença dos nossos filhos, mesmo quando estão apenas noutra divisão da casa, ocupados com a sua própria vida. Basta sabê-los ali. Agora, sentada neste hotel, penso nessa felicidade discreta de estarmos perto sem precisarmos de fazer nada de especial.

Ser mãe é o maior feito da minha vida. E digo-o com a consciência de que os meus filhos são pessoas a descobrir os seus próprios caminhos, a fazer escolhas, a tornar-se quem desejam ser. Poder acompanhá-los, amá-los e vê-los crescer é o privilégio que mais profundamente me transformou.

Depois, há este outro amor, que também cresceu comigo: ser professora.

Chamo-lhe vocação, mas a palavra parece-me pequena para tantos anos de vida. Ser professora entrou na maneira como olho para as pessoas, como escuto uma dúvida, como procuro explicar uma ideia. Está nos livros que escolho, nas perguntas que levo para casa, na alegria que sinto quando um aluno ergue os olhos e diz: «Percebi.» Às vezes, basta aquele instante para dar sentido a um dia inteiro.

É o meu projeto de vida. Continuo a construí-lo, com entusiasmo, com cansaço, com erros que me obrigam a aprender e com uma vontade persistente de fazer melhor.

Talvez seja por isso que esta viagem me comove tanto. Vou falar sobre aquilo que me apaixona, partilhar investigação, inquietações e possibilidades. Espero encontrar pessoas que vivam a educação com este mesmo envolvimento, que reconheçam o trabalho e a esperança que cabem numa sala de aula, mesmo quando essa sala existe através de um ecrã.

Tenho expectativas. Imagino as palestras, as conversas nos intervalos, uma pergunta que fique a trabalhar dentro de mim muito depois de a sessão terminar. Gostava de regressar com páginas escritas nas margens do programa e ideias que ainda precisem de tempo para ganhar forma.

Algumas pessoas pensarão como eu. Outras olharão para os mesmos problemas de uma maneira que nunca me ocorreu. Quero escutá-las. Uma perspetiva diferente pode ajudar-nos a perceber melhor a nossa, a descobrir onde assenta, o que a sustenta e aquilo que deixámos por interrogar. Há convicções que amadurecem nesse encontro. Há outras que precisam de ser revistas. Aprender também exige essa coragem.

Vou para o Brasil de Paulo Freire. Levo comigo a ideia de que ensinar implica reconhecer no outro alguém capaz de compreender, perguntar e participar na transformação da sua própria vida. O diálogo pede atenção e humildade: aceitar que a experiência de quem temos à frente pode trazer à conversa qualquer coisa que os nossos livros ainda não nos ensinaram a ver.

Penso também em como cada pessoa reúne histórias, afetos, circunstâncias e contradições. Na educação, tudo isso se encontra. O estudante que tenta concentrar-se traz consigo a noite que dormiu mal, uma preocupação, uma descoberta, o desejo de conseguir. Investigar obriga-nos a distinguir, organizar e analisar; compreender pede-nos também que procuremos as relações entre essas partes. Interessa-me essa exigência de olhar com rigor sem perder de vista a pessoa.

E depois há as letras.

Eu, que venho das matemáticas, encontro nas palavras uma alegria antiga. Gosto da precisão de uma demonstração e demoro-me numa frase que me faz pousar o livro. Há criatividade na procura de uma solução, sensibilidade na escolha de um caminho, beleza numa relação que finalmente se torna visível. Reconheço esse prazer quando escrevo: experimentar, apagar, voltar atrás, procurar a palavra que se aproxima daquilo que ainda só consigo sentir.

Talvez o meu amor pelos números e pelas letras venha dessa mesma vontade de compreender. De me aproximar um pouco mais das coisas. De aceitar o esforço e a incerteza de aprender alguma coisa que ontem ainda me era desconhecida.

É com tudo isto que vou.

Com gratidão por esta oportunidade, por poder falar, ouvir, estudar, conhecer. Com a expectativa de encontrar pessoas com quem uma conversa possa continuar para lá do tempo previsto. Com o desejo de regressar acrescentada por aquilo que viver.

O gelo encolheu no copo. Daqui a pouco retomarei os pequenos gestos práticos de quem vai viajar, verificarei documentos, horários, coisas que provavelmente já verifiquei.

Por agora, fico mais um instante.

Penso nos meus filhos. Penso nos meus alunos. Penso nas pessoas que ainda não conheço e nas perguntas que talvez venham a fazer-me.

Ainda não parti. E já há tanta coisa a viajar comigo.

Comentários