Yellow people ... A cor da presença

Esta semana li um post sobre o conceito de yellow person. A expressão ficou comigo. Falava daquelas pessoas a quem podemos confiar o que sentimos, que nos escutam com disponibilidade e atenção, sem julgar, sem diminuir a nossa inquietação, sem a cobrir depressa com uma frase que já foi dita a toda a gente. Pessoas que permitem que aquilo que trazemos no peito chegue inteiro, sem lhes atirar um "isso já passa", ou "Não penses nisso agora"...

Reconheci algumas dessas presenças na minha vida. Ao pensar nelas, encontrei sobretudo uma sensação: a de poder falar antes de ter compreendido tudo, de entregar uma frase ainda incompleta e sentir que alguém me entende, de poder admitir uma contradição e não ser julgada por isso, de procurar, na companhia de alguém, o sentido daquilo que me acontece.

Há uma intimidade verdadeiramente profunda em sermos recebidos antes de conseguirmos explicar-nos.

Grande parte da vida passa-se nesse intervalo entre sentir e compreender. Acontece-nos alguma coisa e, durante algum tempo, sabemos apenas que nos dói, que nos inquieta, que mudou a maneira como entramos num dia. As palavras chegam depois, por vezes, chegam devagar, e quem nos escuta com atenção dá-nos tempo para as encontrar.

Mas é fácil interromper esse caminho. Basta responder depressa, oferecer uma solução antes de conhecer a pergunta, comparar uma dor com outra "Há quem esteja pior ...". Talvez o façam com boa intenção. Talvez os perturbe a ideia de estarem diante de um sofrimento que não sabem aliviar. Uma frase pronta pode ser a sua maneira de procurar uma saída para esse desconforto.

Penso, no entanto, que escutar exige aceitar essa demora, exige suportar o instante em que ainda não temos uma resposta, permitir que alguém hesite, se repita ou se cale. Há silêncios onde uma pessoa consegue, pela primeira vez, ouvir o que se passa dentro de si. A presença de quem escuta sustém esse silêncio e torna-o habitável.

Uma yellow person talvez seja alguém diante de quem a nossa vida ganha esse espaço, como uma luz pousada sobre uma mesa, suficiente para vermos o que ali está, e essencial para nos aproximarmos do outro, para observar melhor e distinguir os contornos que a pressa confunde e baralha. Há certas presenças que fazem isso por nós: ajudam-nos a olhar para o que sentimos sem exigir que o afastemos imediatamente com meia dúzia de frases feitas.

Há também uma humildade nesta maneira de estar. Cada pessoa vive por dentro uma história a que os outros têm acesso apenas por fragmentos. Vemos um gesto, ouvimos uma frase, conhecemos uma decisão. Muito do que conduziu até ali permanece fora do nosso alcance. Escutar é reconhecer a dimensão desse desconhecimento e continuar a ter curiosidade pela vida que existe para lá do que conseguimos ver.

O julgamento chega muitas vezes antes dessa curiosidade. Arruma o outro numa explicação e dá-nos a tranquilidade de julgarmos que o compreendemos. Mas uma pessoa continua a existir para além da conclusão que tirámos sobre ela. Tem lembranças que ignoramos, receios que nunca nos contou, possibilidades que ainda não descobriu. Há qualquer coisa de profundamente humano em deixar uma interpretação em aberto, em escutar sem definir ou avaliar.

A confiança nasce desse lugar onde podemos revelar uma fragilidade sem recear que ela passe a definir-nos, onde podemos reconhecer um erro e continuar a ter voz na conversa, onde entregamos a nossa imperfeição ao outro sem medo de julgamento. O que confiamos a alguém torna-se parte do que essa pessoa sabe de nós, guardado com a delicadeza de quem recebeu alguma coisa que lhe foi entregue livremente.

A confiança também suporta a discordância. Quem nos escuta pode fazer uma pergunta difícil, ajudar-nos a reconhecer uma injustiça, mostrar-nos uma perspetiva que evitávamos. Conseguimos pensar melhor nessa presença porque sentimos que há cuidado na maneira como somos interpelados. Temos espaço para mudar de opinião sem perder a dignidade, temos espaço para sermos diferentes sem nos sentirmos estranhos.

Foi ao pensar nestas pessoas que uma outra pergunta me acompanhou durante o dia:

Serei eu uma yellow person na vida de alguém?

Demorei-me nesta questão todo o dia... Quando alguém me fala, quanto espaço consigo dar ao que está a dizer? consigo aceitá-lo na sua diversidade e dou-lhe o tempo que precisa para existir na sua diferença ou para me contar aquilo que o preocupa sem o interromper?

Talvez a atenção comece quando conseguimos suspender, por um momento, a vontade de conduzir a conversa. Quando deixamos que a conversa seja sobre o outro e menos sobre nós. Escutar pode transformar também quem escuta: altera uma certeza, abre uma pergunta, torna mais vasto o nosso entendimento da vida.

Pensei muito sobre isso e pensei sobre as yellow person da minha vida. Pensei com gratidão no tempo que me oferecem e no cuidado com que me escutam ou lêem. O tempo de uma pessoa tem a medida exata dos seus dias. Quando alguém se demora connosco e partilha uma porção dessa existência irrepetível que é o tempo, mostra uma grandeza profunda. Ao dar-nos tempo significa que escolheu estar ali, atento ao que outro ser humano procura dizer, e talvez uma parte da nossa solidão se torne mais suportável quando descobrimos que o que nos acontece pode ter lugar na atenção de alguém. Continuamos a viver a nossa própria vida, com perguntas que ninguém poderá responder por nós, mas conseguimos interrogá-las com companhia. E nessa companhia encontramos, por vezes, uma maneira mais generosa de olhar também para nós.

Não sei se o amarelo pertence às pessoas ou se nasce entre elas. Gosto de imaginar que aparece num encontro: uma voz encontra atenção, uma hesitação encontra tempo, uma confidência encontra cuidado.

Reconheço essa luz na minha vida ... tenho muitas yellow person à minha volta.

Penso agora no que acontece quando alguém se aproxima de mim, trazendo uma frase que ainda lhe custa dizer, um receio escondido, um desabafo tímido... sei ouvir sem julgar, respeito o espaço e o tempo que precisam para deixar a conversa fluir? Que lugar e cor encontram em mim?

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Quando a Inveja Fala Mais Alto: Ética, Educação e o Silêncio do Mérito

Carta aberta aos meus alunos

10 anos depois