Uma tarde por preencher
Há crianças que sabem de cor os dias da natação, do inglês, da música e do treino. Sabem em que saco vão as sapatilhas, em que mochila ficou a flauta e a que horas é preciso estar à porta. Transportam pequenos calendários dentro da cabeça. Se lhes perguntarmos quando podem não ter nada marcado, talvez precisem de consultar um adulto.
Os adultos, entretanto, fazem o melhor que sabem. Conduzem, esperam, preparam lanches, procuram horários compatíveis com outros horários que, por sua vez, já eram incompatíveis com quase tudo. Há famílias que mereciam uma medalha de logística ao domingo à noite. E, no meio desta engenharia, existe quase sempre uma intenção bonita: dar oportunidades aos filhos, ajudá-los a descobrir talentos, oferecer-lhes aquilo que, por vezes, os próprios pais não puderam ter.
Aprender é, de facto, uma das grandes aventuras da vida. E essa aventura acontece em muitos lugares. Na escola, num campo de jogos, numa sala de música, num palco, num passeio. O desporto permite conhecer o corpo, enfrentar dificuldades, cooperar, aprender a ganhar e a perder. As atividades extracurriculares podem abrir interesses, criar amizades e revelar capacidades que uma criança ainda desconhecia em si.
Tudo isso merece lugar na infância.
A questão é saber quanto lugar fica para a própria criança.
Na ânsia de lhe proporcionar uma vida cheia de possibilidades, podemos acabar por lhe entregar uma vida cheia de compromissos. Queremos que nada lhe falte e, sem darmos conta, começa a faltar-lhe tempo. Tempo para descansar. Para estar com a família sem ser a caminho de qualquer coisa. Para brincar sem ouvir, a meio da brincadeira, que é preciso calçar os sapatos porque já estamos atrasados.
É importante que a escola, o desporto e as outras atividades se articulem numa rotina possível. Que caibam nela o estudo, o sono, as refeições tranquilas e a vontade de participar. Uma atividade pode ser excelente e, ainda assim, ser excessiva naquele momento. O entusiasmo também precisa de fôlego. Quando tudo disputa as mesmas horas, até aquilo de que se gosta pode começar a pesar.
E há uma frase que costuma inquietar os adultos:
«Não tenho nada para fazer.»
Quase imediatamente, sentimos vontade de resolver o problema. Sugerimos uma atividade, entregamos um ecrã, inventamos uma saída. Tratamos aquele intervalo como se fosse uma avaria no funcionamento do dia.
Mas podemos escutar a frase antes de lhe responder. Talvez exista ali cansaço. Talvez a criança procure companhia. Talvez esteja, simplesmente, perante uma coisa a que se habituou pouco: poder escolher o que fazer com o seu tempo.
O tédio, por si só, não faz milagres. Algumas crianças precisam de ajuda para começar, de alguém por perto, de materiais simples ou de um convite. Ainda assim, quando há espaço e segurança, uma tarde sem programa pode dar lugar a descobertas inesperadas. Uma caixa transforma-se numa casa. Duas cadeiras sustentam um continente feito de mantas. Inventa-se um jogo, discutem-se as regras, acrescenta-se uma regra nova porque a primeira estava, evidentemente, a favorecer demasiado o irmão.
A criatividade também se exercita assim: experimentando, combinando, falhando, mudando de ideias.
E faz-nos muita falta quando nos sentamos a aprender.
Na Matemática, por exemplo, há criatividade no gesto de desenhar um problema de outra maneira, de procurar um padrão, de perguntar se existe um caminho mais simples. Uma criança precisa de aprender procedimentos, mas também de ter oportunidades para explorar e compreender. Imaginar uma solução e verificar se ela funciona são partes do mesmo trabalho. O rigor ajuda a testar aquilo que a imaginação propõe.
Em Português, a criatividade permite encontrar palavras para uma experiência, construir uma história, aproximar ideias que pareciam distantes. Para escrever, faz falta ter o que dizer. E isso também se alimenta de conversas, de leituras feitas por gosto, de brincadeiras, de pequenas observações que ninguém mandou registar. Uma criança que olha demoradamente para o mundo vai encontrando matéria para o contar.
Na Filosofia, esse espaço abre-se à pergunta. Porque é que uma regra é justa? Será que a mesma coisa parece diferente a outra pessoa? Posso estar enganado, mesmo quando tenho muita certeza? Uma conversa sobre as regras de um jogo pode chegar bastante longe, se houver tempo para ouvir e pensar.
O pensamento nem sempre acompanha a velocidade do horário. Uma pergunta feita de manhã pode ganhar outra forma ao fim da tarde. Uma dificuldade pode voltar à memória durante um passeio e encontrar uma saída que não apareceu diante do caderno. Precisamos de momentos em que seja possível demorarmo-nos numa ideia, sem a urgência de passar logo à seguinte.
Também os adolescentes precisam desse tempo. De interesses que possam explorar sem classificação, de conversas que não sejam interrompidas por mais uma obrigação, de momentos em que possam perceber do que gostam e aquilo que os inquieta. Crescer inclui aprender a habitar o próprio tempo.
E convém resistir à tentação de transformar até o tempo livre numa tarefa com objetivos. A criança não tem de aproveitar cada tarde para demonstrar criatividade. Pode olhar pela janela. Pode começar uma construção e abandoná-la. Pode estar um pouco sem saber o que lhe apetece. Nem tudo precisa de produzir um resultado que os adultos consigam avaliar.
Talvez valha a pena revermos, de vez em quando, os horários com os nossos filhos. Ouvi-los. Perceber o que lhes dá alegria, o que os desafia e o que já fazem apenas porque ficou combinado. Escolher implica, por vezes, deixar alguma coisa de fora.
Podemos continuar a oferecer-lhes livros, desporto, música, ciência e tantas outras possibilidades. E guardar também algumas horas sem destino marcado.
Uma tarde em que ninguém pergunte o que aprenderam.
Em que possam aparecer à porta da sala, com uma manta aos ombros e uma ideia ainda mal explicada, a pedir duas cadeiras.
Convém que não estejamos já de saída.
Comentários
Enviar um comentário