Roubaram-me uma página. A história continua.
No dia em que me hackearam as contas do Instagram, senti-me como quem chega a casa e encontra as gavetas das memórias vazias.
Na página da Academia estavam anos de partilhas. Anos de trabalho, de dedicação, de momentos únicos que tinham encontrado ali uma maneira de ficar. Pequenos pedaços da nossa história, guardados com a confiança de quem acredita que poderá voltar para os visitar.
De repente, deixei de lhes poder chegar.
Há uma tristeza muito particular em perder assim aquilo que fomos construindo devagar. Nós sabemos o que estava dentro de cada publicação. Sabemos o tempo que lhe demos, a alegria com que a escrevemos, o motivo pelo qual quisemos guardar aquele instante. Para quem invade, talvez tudo se resuma a uma conta. Para quem fica deste lado, há vida lá dentro.
E é isso que me custa compreender: o que leva alguém a entrar no espaço de outra pessoa e a estragá-lo? Que satisfação pode haver em causar esta tristeza? Em tocar no trabalho dos outros com tamanho desprezo?
Desconheço quem o fez e o que procurava. Conheço, porém, a mágoa que deixou. A sensação de ter sido invadida. A impotência de olhar para um ecrã e perceber como pode ser frágil um lugar onde depositámos tanto de nós.
Apetece-me chamar-lhe maldade. Daquela que magoa ainda mais porque nem sequer conseguimos encontrar-lhe uma explicação.
Tenho pena. Muita. Das partilhas a que perdi acesso, dos momentos que pareciam ter ali uma morada, das palavras que talvez nunca consiga reconstruir exatamente como nasceram. Há coisas que só acontecem uma vez. E dói perder o lugar onde as tínhamos guardado.
Entretanto, criei uma página nova.
Levo para ela esta tristeza, ainda. E levo também a vontade de ensinar, de partilhar, de acompanhar os nossos alunos e de continuar a dar à Academia o melhor de mim.
Vou voltar a escrever. A fotografar. A celebrar. A guardar pequenos momentos, mesmo sabendo agora quanto podem ser vulneráveis.
Criei uma página nova. E criarei todas as que forem precisas.
Porque ainda temos muita história para viver. E eu quero continuar a contá-la. 💙
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