Quem sou quando alguém me olha

Não sei em que parte da vida nos perdemos. Desconfio de que raramente acontece de uma vez. Vamos ficando um pouco para trás nos lugares onde tivemos de ser fortes, nas palavras que engolimos, nas despedidas para as quais ninguém nos ensinou uma resposta. Um dia, ao dizermos o nosso nome, demoramos um instante a reconhecer a pessoa que responde.

Também não sei exatamente como nos encontramos. Há encontros connosco que acontecem muito discretamente: numa conversa em que baixamos a guarda, numa gargalhada que nos surpreende, na liberdade de dizer que estamos cansados sem acrescentar uma justificação.

Já vivi coisas que ninguém deveria precisar de viver. Vi e senti o que ainda hoje tenho dificuldade em acomodar dentro das palavras. Algumas lembranças continuam sem nome. Sei onde estão, reconheço-lhes o peso, mas nem sempre consigo abrir a porta do lugar onde as guardo.

Reconstruí-me muitas vezes sozinha. Houve dias em que fui apanhando do chão os cacos da pessoa que era, sem saber por onde começar. Alguns cortaram-me as mãos. Outros já não encontraram lugar. Durante muito tempo, julguei que recuperar seria conseguir voltar a ser exatamente quem tinha sido. Só mais tarde percebi que também precisava de conhecer aquela mulher que sobrevivera. Tinha a minha voz, os meus gestos, mas havia coisas que já não aceitava e outras que começara, finalmente, a pedir.

Não tenho saudades de tudo o que fui. Tenho, porém, uma ternura imensa por quem fui sendo, mesmo nas versões de mim que hoje me custa compreender. Cada uma sabia apenas o que a vida lhe tinha permitido aprender até então.

Entretanto, cresci. Ganhei amigos, construí uma família e fui encontrando pessoas com quem o parentesco nasceu depois do encontro. Há quem nos pertença pelo sangue e há quem se torne família pela maneira como fica. Gosto desses laços que apertam sem estrangular, que nos deixam espaço para mudar de ideias, envelhecer, ter dias difíceis. Com essas pessoas, posso chegar sem ter preparado uma versão apresentável de mim.

Ainda assim, pergunto-me muitas vezes o que veem os outros quando me olham.

Dizem que sou dura. Exigente. A professora mais temida. Ouço essas palavras e procuro-me nelas. Reconheço uma parte: gosto do trabalho bem feito, insisto, peço atenção, volto a uma dificuldade até encontrarmos uma maneira de a atravessar. Às vezes, a minha voz chega primeiro do que a minha ternura. Talvez haja quem conheça apenas essa voz.

Mas serei eu tão simples que caiba num adjetivo?

Sou exigente, mas consigo escutar uma razão e mudar de posição. Resisto a muita coisa, embora haja dias em que uma palavra pequena me magoa de uma maneira desproporcionada. Sou teimosa, persistente; também tenho dúvidas, também volto atrás. Há decisões que tomo com firmeza e que depois levo comigo para casa, revendo por dentro o que disse, a expressão de quem me ouviu, a possibilidade de ter sido injusta.

Seria confortável acreditar que todos os equívocos pertencem aos outros. Que quem me acha dura não soube olhar melhor. Mas também me cabe perguntar se consegui mostrar o que queria dar. A intenção, por mais bonita que seja, não chega intacta a todas as pessoas. Posso querer encorajar todos os dias os meus alunos a serem melhores e eles nem sempre o perceberem. Posso acreditar tanto na capacidade deles que às vezes, me esqueça, por um instante, de lhes perguntar quanto medo têm de não conseguir.

Quero poder reconhecer isso sem sentir que deixo de ser eu.

Talvez me preocupe tanto a pessoa que sou porque sei quanto uma pessoa pode ficar dentro de outra. Lembro-me de palavras antigas com uma nitidez que já não consigo dar ao rosto de quem as disse. Por isso, quando explico, quando corrijo, quando peço que tentem outra vez, gostava de saber o que vai ficando para lá da matéria. Que lembrança de mim levarão quando já não precisarem de resolver aquelas contas?

Vejo os olhos que me acompanham enquanto falo. Uns atentos, outros cansados, alguns à espera de que uma explicação lhes abra finalmente uma passagem. Há instantes em que um rosto muda e eu percebo que chegámos ao mesmo lugar. É uma alegria muito particular, essa de assistir ao momento em que alguém compreende. Durante uns segundos, esqueço quase tudo o resto.

Depois há os braços que me abraçam no fim de uma explicação.

Pergunto-me o que me dizem. Não quero atribuir-lhes palavras que nunca pronunciaram, nem transformar cada abraço numa resposta às minhas perguntas. Recebo-os. Por vezes, surpreendem-me. Trazia a cabeça ocupada com o que ainda faltava ensinar e, de repente, alguém aproxima-se e lembra-me de que estivemos ali inteiros, com muito mais do que dúvidas sobre a matéria.

Talvez quem me conhece realmente também não tenha uma definição de mim. Talvez tenha histórias. Saiba como me rio, quando me calo, o que me comove. Conheça a diferença entre o silêncio em que preciso de companhia e aquele em que preciso apenas de estar. E talvez eu própria tenha de aprender a conhecer-me assim, com menos pressa de chegar a uma conclusão.

Não sei em que parte da vida nos tornamos a pessoa que queremos ser. Suspeito de que essa pessoa também muda enquanto caminhamos na sua direção.

Hoje, gostava de continuar a ensinar com exigência e de conseguir que ninguém tivesse medo de me dizer: «Ainda não percebi.» Gostava de reconhecer o meu cansaço antes de ele falar por mim. De deixar que aqueles que amo me conhecessem também nos dias em que não sei resolver o medo dentro de mim.

E, quando uns braços se fecharem à minha volta, gostava de não me apressar a voltar à tarefa seguinte.

Ficar ali mais um instante.

Eu também preciso desse abraço.

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