Que haja lugar para ti querida M.

Na semana passada, perguntaste-me pelo sentido da vida. Perguntaste-me também se, ao tentares aproximar-te das pessoas que admiras, poderias perder a tua identidade pelo caminho. E receaste que fosse pateta pensar em tudo isto.

Há uma delicadeza nessa preocupação: queres crescer e, ao mesmo tempo, queres continuar a reconhecer-te.

Nenhuma destas perguntas é pateta. Às vezes, chamamos «patetas» às coisas que nos importam muito, para que uma eventual resposta nos magoe menos. Pomos a pergunta a rir à porta, enquanto, lá dentro, estamos cheios de medo.

Gostava de poder explicar-te o sentido da vida com a clareza de quem explica um exercício. Mas desconfio das respostas que dão tudo por resolvido. Há perguntas que precisam de continuar connosco, a mudar de tamanho à medida que crescemos.

Talvez o sentido se vá fazendo naquilo a que damos atenção. No trabalho em que pomos cuidado. Na coragem de corrigir uma injustiça pequena, daquelas por que quase toda a gente passa sem reparar. Na maneira como escutamos alguém, mesmo quando não sabemos o que dizer. E também no prazer de descobrir, de rir, de fazer alguma coisa sem ter de provar que somos extraordinários.

Há pessoas que nos abrem janelas. A sua coragem deixa-nos ver uma possibilidade que desconhecíamos; a sua delicadeza ensina-nos uma maneira de estar; o seu pensamento obriga-nos a rever o nosso. É natural querer aprender com elas. Somos feitos também destes encontros. Até as palavras com que dizemos «eu» nos chegaram pela voz de alguém.

A admiração torna-se dolorosa quando começamos a acreditar que só teremos valor se formos como a pessoa que admiramos. Nesse momento, cada diferença parece um defeito a corrigir. Vamos escondendo o nosso modo de falar, os nossos gostos, as nossas hesitações. E pode acontecer que os outros gostem muito daquilo em que nos tornámos, enquanto nós nos sentimos cada vez menos presentes.

Por isso, vale a pena demorares-te no que admiras. Talvez descubras que desejas aprender a coragem de alguém e que essa coragem, em ti, terá outra forma. Uma pessoa pode ser corajosa ao subir a um palco; outra, ao dizer em voz baixa uma verdade difícil. Há muitas maneiras de viver a mesma qualidade.

A tua identidade vai-se formando também nessas escolhas. Mudar de opinião, aprender com os outros, abandonar uma ideia antiga: tudo isso pode aproximar-te de ti. Ser fiel a quem és exige espaço para aquilo que ainda estás a descobrir.

Quanto à comparação, ela pode ajudar-nos a perceber o que queremos aprender. Mas faz uma conta injusta quando pretende medir o nosso valor. Vemos uma parte da vida do outro e colocamos ao lado dela tudo o que sabemos da nossa: os embaraços, as tentativas falhadas, as dúvidas que ninguém ouviu. E esquecemo-nos de perguntar se desejamos sequer aquilo em que estamos a tentar ser melhores. A vida de alguém pode inspirar-te sem se tornar a medida da tua.

Podes, sim, afastar-te de ti pelo caminho. Acontece em qualquer idade. Às vezes, a vontade de sermos aceites torna tão baixinha a nossa própria voz que deixamos de a ouvir.

Se isso acontecer, procura escutá-la sem te repreenderes. Pode começar num desconforto: alguma coisa em ti já não cabe naquela escolha. Pode começar numa alegria inesperada, ao voltares a fazer o que tinhas posto de lado. Pode precisar de uma conversa com alguém junto de quem consigas dizer o que pensas sem receio de parecer ridícula.

Não precisas de resolver a vida inteira para teres direito a vivê-la. Podes levar estas perguntas contigo, voltar a elas, encontrar respostas que mais tarde terás de rever. E podes pedir companhia.

Enquanto tua professora, gostava que soubesses isto: há lugar para ti nesta conversa, mesmo quando não sabes explicar bem o que sentes.

Que as pessoas que admiras te abram janelas. E que, depois de entrarem os outros, continue a haver lugar para ti mesma.

PB

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