Quando a máscara cai

Há uma forma silenciosa de gostar de alguém: continuar a cuidar dessa pessoa quando ela não está presente. No modo como se fala dela, no respeito com que se guarda o que nos confiou, na delicadeza de não transformar as suas fragilidades em assunto de conversa. Dou muito valor a isso. Gosto de sentir que posso sair de uma sala sem que o afeto mude de voz assim que fecho a porta.

Com o tempo, fui percebendo quanto me fazem falta pessoas junto de quem posso descansar. Pessoas cujas palavras têm morada nos gestos. Que sabem discordar de mim olhando-me nos olhos e que conservam, na minha ausência, o respeito que me mostram quando estamos juntas. Essa coerência dá-me uma tranquilidade difícil de explicar: permite-me estar numa relação sem ter de andar sempre a verificar se o chão continua lá.

Vivemos tempos em que parece haver uma personagem adequada para cada ocasião. Escolhe-se a opinião que fica bem à mesa, o entusiasmo que aproxima das pessoas certas, a indignação que reúne mais aprovação. Há quem vá ajustando tanto a sua maneira de ser ao olhar dos outros que acaba por viver de empréstimo dentro de si.

Compreendo a vontade de pertencer. Todos sabemos alguma coisa sobre o medo de ficar de fora, sobre o desejo de sermos escolhidos, acolhidos, estimados. Mas preocupa-me o preço de uma aceitação que nos exige ausências constantes de nós próprios. Deve ser cansativo passar a vida a decorar o papel e a vigiar quem está na plateia.

Gosto de pessoas com ideias próprias. Daquelas com quem posso ter uma conversa que me desarrume certezas, que me faça pensar, que me obrigue até a reconhecer que estava enganada. Gosto da frontalidade acompanhada de cuidado, porque a verdade também merece ser dita com humanidade. Uma pessoa pode ser transparente sem fazer das palavras pedras.

E há espaço, claro, para mudar. Para aprender, voltar atrás, pedir desculpa. A coerência que valorizo permite tudo isso. Reconheço-a em quem consegue dizer «pensei melhor» e assumir o caminho que fez. Há uma honestidade muito bonita em deixar que os outros vejam as nossas emendas.

O que me magoa é descobrir que alguém guarda versões incompatíveis do mesmo afeto. Que a proximidade depende de eu estar a assistir. Que aquilo que recebi como confiança era apenas uma representação bem conseguida.

As máscaras acabam por cair, às vezes sem qualquer estrondo. O tempo vai soltando os fios: uma promessa repetidamente esquecida, um gesto que desmente as palavras, uma lealdade que desaparece quando deixa de ser conveniente. E dói perceber que nos tínhamos afeiçoado a um rosto que precisava de ser segurado.

Por isso, cuido tanto de quem pode estar comigo de rosto inteiro. Com dúvidas, imperfeições, dias difíceis e a liberdade de ser quem é. Pessoas cuja presença me permite também baixar a guarda e respirar.

Na minha vida, essas pessoas têm um valor imenso. São elas que me dão a alegria tranquila de saber que, quando saio da sala, o carinho fica.

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