O sol do lado de dentro

Há sábados que começam às oito da manhã e só pousam o lápis às oito da noite. Pelo meio, cabem muitos alunos, muitas horas de Matemática, vários níveis de ensino e uma quantidade de dúvidas que, se fosse possível arrumar em caixas, exigiria uma sala maior.

Este foi um desses sábados. Longo, cheio, diverso. E vivido com a mesma alegria e o mesmo entusiasmo em cada hora dada.

Lá fora, o sol brilhou. Cá dentro, também.

Há uma luz muito particular naquele instante em que um aluno levanta os olhos do caderno e diz: «Ahhh… agora faz sentido!» Gosto de assistir a esse momento. A expressão muda, os ombros descontraem-se, o lápis regressa ao papel com outra vontade. Uma coisa que parecia impossível começa a ganhar contornos. E, por alguns segundos, até uma equação pode iluminar uma sala.

Ensinar é ter o privilégio de acompanhar estas pequenas mudanças. Perceber onde se perdeu o fio, recuar o necessário, escolher outro exemplo, experimentar outra pergunta. Há quem precise de desenhar, quem precise de explicar em voz alta, quem precise de mais tempo para organizar o pensamento. A diversidade que entra pela porta pede-nos atenção, criatividade e uma boa capacidade de mudar de caminho sem perder de vista o destino.

Às vezes, pede-nos também que expliquemos a mesma coisa de três maneiras diferentes. A quarta costuma aparecer precisamente quando já estávamos convencidos de que tínhamos esgotado o repertório. A pedagogia tem destas coisas: mantém-nos em formação permanente.

A Emília acompanhou-nos a dormir, com uma tranquilidade que merecia ser estudada. Enquanto nós procurávamos soluções, ela parecia ter resolvido a questão fundamental do sábado: encontrar uma posição confortável e confiar que alguém trataria do resto.

A minha filha estava na sala, a estudar. A Madalena, minha aluna, veio também estudar e fazer companhia. O Miguel cuidou dos seus alunos, eu cuidei dos meus e o pai cuidou dos seus. Cada um com os seus desafios e os seus objetivos, numa casa onde o trabalho e a vida de família se foram encontrando ao longo do dia.

Gosto desta proximidade. De saber que estamos ali, ocupados com coisas diferentes, a partilhar o esforço, a presença e as pequenas pausas. Há uma companhia silenciosa em estudar ao lado de alguém. E há uma alegria muito minha em ver o Miguel acompanhar os seus alunos, a construir a sua maneira de explicar, de escutar e de ensinar.

Houve testes para preparar, questões-aula no horizonte, dúvidas e mais dúvidas. Houve medos, ansiedades e aquela pressa de perceber tudo que, por vezes, precisa primeiro de aprender a respirar.

E houve gargalhadas.

O riso também tem lugar numa sala onde se trabalha a sério. Ajuda a descontrair, aproxima-nos, dá à pergunta espaço para sair. Quando um aluno se sente à vontade para mostrar que ainda não percebeu, temos um ponto de partida precioso. Podemos trabalhar sobre a dificuldade, dar-lhe nome, descobrir de onde vem.

Foi um sábado de pensamento em movimento: questionar, formular hipóteses, testar caminhos, analisar resultados, reavaliar. Errar, perceber o erro, começar de novo. O método científico em ação, nessa disposição para investigar e rever o que julgávamos saber. E, em Matemática, o cuidado de justificar: compreender por que razão um caminho funciona e em que condições podemos confiar nele.

Tudo isto exige tempo. Atenção. Método. Persistência. E uma dose generosa de humanidade.

Doze horas depois, o cansaço também tem direito a sentar-se. As costas fazem as suas observações, a cabeça pede silêncio e até os números parecem agradecer que fechemos os cadernos.

Fica, porém, a alegria de ter acompanhado mais um pedaço do caminho de cada um.

Lá fora, o sol cumpriu o seu horário.

Cá dentro, acendeu-se de cada vez que alguém disse: «Agora faz sentido.»

É uma luz que gosto de levar comigo para casa.

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