O que não cabe numa definição
Sou capaz de ser muito exigente com a resolução de um problema e, pouco depois, chamar os meus alunos à janela porque o sol se está a pôr. Não sinto que tenha mudado de personalidade no intervalo. Há lugar em mim para a necessidade de encontrar uma resposta e para o prazer de ficar a olhar para uma coisa que não precisa de ser resolvida.
Ontem, por causa de um texto meu, a conversa foi ter às pessoas que somos quando estamos com pessoas diferentes. Mudamos de postura? Adaptamo-nos? Queremos ser aceites? E quem permanece igual, independentemente da companhia, será mais livre, mais verdadeiro, ou apenas menos capaz de se deixar tocar pelos outros?
Há palavras que só nos ocorrem na presença de determinada pessoa. Há amigos com quem recuperamos um humor que julgávamos perdido, outros diante de quem conseguimos finalmente falar de um medo, e outros na presença de quem nos sentimos sempre pequenos.
Talvez a dificuldade comece quando já não estamos a descobrir uma parte de nós, mas a vigiar aquela que pode aparecer. Quando, antes de rir, verificamos se a nossa alegria é adequada à mesa; antes de discordar, calculamos o preço a pagar pela nossa decisão; antes de dizer que estamos tristes, procuramos uma versão mais conveniente do que sentimos. Podemos tornar-nos muito competentes neste exercício. Tão competentes que os outros ficam satisfeitos e nós deixamos de perceber por que razão chegamos a casa tão cansados.
Na idade adulta, estas negociações podem ser particularmente silenciosas. A vontade de pertencer não desaparece quando crescemos. Passa a conviver com empregos, relações, reputações, coisas que custaram a construir. Por vezes, uma pessoa cala-se porque já aprendeu, de uma maneira dolorosa, o que acontece quando fala. Seria mais fácil exigir-lhe transparência sem conhecer a história dessa reserva.
Por isso, quero ter cuidado com a ideia de que quem se mostra é necessariamente mais verdadeiro do que quem se guarda. Há silêncios que protegem uma intimidade. Ninguém deve ter de contar tudo para provar que é sincero. A confiança precisa de tempo, e cada pessoa tem o direito de decidir a quem entrega aquilo que ainda lhe dói.
Eu tenho, por natureza, pouca habilidade para estas formas de disfarce. Sou alegre, livre e imprevisível, digo o que sinto, como sinto, e o que penso costuma chegar depressa às palavras. Não preparo uma personalidade para cada grupo. Sou muito séria no trabalho, exigente comigo e com os outros, mas fora dos números, posso ser meio louca, desconcertante, capaz de um entusiasmo e uma energia que nem sempre se comporta à altura da idade que tenho.
Reconheço-me em tudo isso.
Sei que, vista de fora, esta combinação nem sempre é fácil de arrumar. Uma pessoa exigente deveria, aparentemente, conservar uma certa solenidade. Uma pessoa alegre deveria poupar os outros à sua tristeza. Uma professora deveria saber sempre o que fazer com as próprias lágrimas. Esperamos uma coerência tão estreita dos outros que, às vezes, basta vê-los inteiros para nos parecerem contraditórios.
Já fui chamada de "diferente" algumas vezes. Esquisita, muitas outras. A palavra pode até conter ternura, mas também pode ter aquela distância com que se observa qualquer coisa para a qual não se encontrou uma explicação. Ser considerada esquisita não me torna melhor nem pior. Diz alguma coisa sobre o encontro entre a minha maneira de estar e as expectativas de quem me vê. Às vezes, há um desencontro. Outras vezes, há apenas pouco tempo de conhecimento.
Nunca organizei a minha vida em torno da necessidade de ser aceite. Isso não significa que me seja indiferente a forma como sou recebida. Uma coisa é não querer viver à medida da aprovação dos outros, outra é deixar de sentir o efeito de um olhar, de um afastamento, de uma interpretação injusta. Podemos estar seguros do que somos e ainda assim ficarmos magoados com a ausência dos outros.
A opinião dos outros importa-me sobretudo quando vem sobretudo dos que mais amo. Escuto de maneira diferente quem me conhece, quem se preocupa, quem consegue dizer-me uma coisa difícil sem aproveitar a ocasião para me diminuir. Esse olhar pode mostrar-me o que eu própria não vejo e isso posiciona-me na vida.
Dizer «eu sou assim» pode ser uma afirmação de liberdade e ser eu própria inclui essa responsabilidade. Inclui ainda a possibilidade de poder mudar opinião, de aprender outra maneira de dizer as coisas, de reconhecer que houve uma ocasião em que confundi coragem com impaciência. Não me interessa conservar intactos todos os meus gestos apenas para garantir que ninguém me acusa de ter mudado. Espero que a vida, e as pessoas que fazem parte dela, me mudem e tenham consequências em mim, espero semmpre que o mundo e os outros me acrescentem...
Os que são meus conhecem-me para lá dos números. Sabem da exigência, do trabalho, da alegria e das fragilidades. Não preciso que concordem comigo em tudo para sentir que me aceitam, aliás, preciso de poder discordar sem que o afeto fique imediatamente em causa. E preciso de lhes oferecer essa mesma liberdade, mesmo quando a diferença deles me obriga a rever alguma certeza minha.
Talvez seja aí que um grupo se torna um lugar bom para estar: quando conseguimos respirar sem estar continuamente a representar. Ser o diferente pode ser divertido, pode abrir espaço a outras conversas, pode trazer qualquer coisa que faltava, mas é bom que se perceba que quem é imprevisível e diferente, tem igualmente direito a ter um dia vulgar e normal, a estar triste, a sentir desconforto.
Há coisas pequenas a que dou uma importância enorme e que sei que poucos entendem. O sol a pôr-se, visto da janela da minha sala, por exemplo, ou o cheiro a terra molhada depois dos primeiros aguaceiros. Não sei se os outros lhes dão menos valor ou se falamos tão pouco destas coisas que acabamos por desconhecer aquilo que, em silêncio, nos aproxima.
Eu chamo os meus alunos para ver o pôr do sol quase todos os dias. Estamos ali, ocupados com contas, dificuldades, resultados, e acontece aquela mudança de luz mágica. Apetece-me que a vejam. Que possam interromper por um momento a preocupação com aquilo que ainda não sabem fazer. Há tanta coisa a solicitar-lhes uma resposta que me parece bom partilhar com eles alguma coisa diante da qual basta estar em silêncio e observar o bonito que é.
Talvez a minha maneira de ser deixe algumas pessoas desconfortáveis. A espontaneidade expõe-nos a interpretações que não controlamos, a vulnerabilidade também. Gostava de ser compreendida por todos, claro, mas também nunca fiz questão de passar o tempo a corrigir a imagem que os outros fazem de mim. Prefiro ter tempo para viver e ser feliz a ser quem sou e como sou.
Amanhã, quando a luz mudar e vir o pôr do sol à janela da minha sala, é provável que volte a chamar os meus alunos. Haverá um problema em cima da mesa. Deixá-lo-emos, por instantes, por resolver, e permitir-nos-emos apenas estar e ser.
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