Gostaria sempre de ti ...

Preocupo-me cada vez menos em parecer. Parecer mais segura, mais conveniente, mais próxima daquilo que os outros esperam de mim. Há um cansaço particular em vigiar cada palavra, em esconder o entusiasmo, em disfarçar uma tristeza só para sermos mais fáceis de aceitar. E eu gosto demasiado da liberdade de ser quem sou.

Gosto de poder dizer que não sei. De me comover com uma coisa pequena, de fazer perguntas, de mudar de opinião quando descubro alguma coisa que me obriga a pensar melhor. Gosto de rir sem calcular a elegância do riso. De conversar sem estar a preparar uma personagem que possa agradar a quem me ouve.

Talvez a profundidade comece aí, nessa disponibilidade para estar inteiro diante de alguém. Pode existir numa conversa simples, numa brincadeira, numa pergunta cuja resposta se quer verdadeiramente ouvir.

Há pessoas que entram na nossa vida e acrescentam espaço. Ao lado delas, conseguimos pensar com mais liberdade, dizer o que nos custa, experimentar uma versão de nós que ainda está a nascer. Conseguem discordar sem nos diminuir. E sabem ficar quando a conversa perde a graça e chega à parte difícil.

Outras pessoas são tão difíceis que se tornam um peso. E dessas quero distância.

Quanto a ser compreendida por toda a gente, já consigo viver com essa impossibilidade. Há pessoas que conhecerão apenas um momento meu, uma frase solta, um dia menos feliz. A vida de cada um é demasiado extensa para caber na impressão que deixa num encontro.

Depois, há quem nos conheça de perto. Quem tenha visto o nosso cansaço, a impaciência, as tentativas falhadas. Um filho, por exemplo. E um dia esse filho diz:

“Gosto de ti… e mesmo que não fosses minha mãe ia gostar de ti e de te conhecer pela pessoa bonita que és!”

Fiquei com aquele “mesmo que” dentro de mim.

Imaginei-o a encontrar-me no mundo, sem o parentesco a apresentar-nos, sem a história de uma vida em comum. A conhecer-me aos poucos e a gostar de ficar. Foi isso que ouvi nas palavras dele. E soou-me ao maior elogio.

Às vezes volto àquela frase. Ouço-a de novo na voz do meu filho e sinto uma serenidade difícil de explicar. Há toda uma liberdade naquela frase… a liberdade de poder sempre que quiser continuar a ser eu.

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