Paradoxalmente

"És um paradoxo" disse-me ontem uma amiga.

Fiquei a pensar naquilo. Talvez ela tenha razão. Gosto de resolver exercícios de matemática e de me demorar numa página de filosofia que me deixa mais perguntas do que aquelas com que comecei. Gosto da precisão de um cálculo e da liberdade de uma frase. Há dias em que preciso de compreender o funcionamento das coisas; noutros, basta-me ficar a olhar para elas. Um pôr do sol, por exemplo. Conhecer a explicação do porquê daquelas cores nunca me diminuiu o espanto.

A verdade é que sou uma mulher com várias camadas. Algumas reconheço desde pequena, outras foram-se formando com os anos, com as pessoas, com aquilo que escolhi e com aquilo que a vida decidiu sem me consultar. Tenho convicções que amadureceram e certezas de que hoje me rio. Tenho uma coragem que, por vezes, chega depois do medo, e uma fragilidade que continua aqui, mesmo nos dias em que todos me acham forte.

Essa força foi-se reunindo devagar, e veio de resolver o que parecia impossível, de atravessar dias difíceis sem saber muito bem como e de descobrir que podia recomeçar. Mas também veio de saber aceitar ajuda, de admitir o cansaço e de aprender a deixar alguma coisa para amanhã. Com os anos, fui percebendo que posso ser capaz de muito e, ainda assim, precisar de descanso.

E, no entanto, continuo disponível para a alegria.

O cheiro da terra molhada ainda me faz respirar mais fundo. O céu, ao fim da tarde, ainda consegue interromper-me. O sorriso dos meus filhos chega a lugares onde os argumentos não chegam. E há aquele instante numa aula em que o olhar de um aluno muda: a hesitação abranda, os olhos acendem-se e ele diz, com uma alegria que quase lhe desarruma o rosto:

Percebi!

Eu conheço o caminho que houve até ali. As tentativas, os enganos, a vontade de desistir, a explicação que precisou de encontrar outra forma. Talvez por isso aquela palavra me comova tanto. Durante um instante, vejo alguém descobrir que consegue. E volto para casa um pouco menos cansada.

Entre os sonhos que fui realizando e os que ainda acalento, há um que parece crescer sempre: continuar a estudar.

Dos números às letras, das engenharias às Ciências da Educação, da Química às competências digitais, vou seguindo perguntas. Algumas levam-me para lugares que nunca imaginei frequentar. Outras obrigam-me a regressar ao princípio, a procurar significados, a aceitar que ainda não sei fazer. Gosto dessa aventura. Gosto de sentir que há uma parte do mundo à qual ainda não tenho acesso e que, com tempo, esforço e curiosidade, posso começar a conhecer.

Estudo também pelo prazer da viagem. Pelo gosto de uma ideia que se esclarece, de uma ligação que aparece entre assuntos que pareciam distantes, de uma dificuldade que me acompanha durante dias e acaba por ceder numa tarde qualquer. Há uma alegria muito particular em aprender uma coisa que ninguém nos pediu que aprendêssemos.

Talvez seja por isso que gosto de me aventurar para fora de pé. Sinto receio, naturalmente. Há momentos em que me pergunto se precisava de me ter metido em mais aquele desafio. Mas conheço-me: se ficar demasiado tempo apenas onde já sei estar, começo a sentir falta de alguma coisa.

Os ensaios filosóficos e os exercícios de matemática encontram-se em mim com uma naturalidade que talvez surpreenda quem me vê de fora. Ambos me pedem atenção, paciência, disponibilidade para rever um raciocínio. E ambos me oferecem aquele prazer de descobrir uma passagem onde antes parecia haver uma parede.

Quanto mais conheço, mais vasto se torna o que desconheço. Cada aprendizagem abre outras possibilidades, outros caminhos que gostaria de percorrer. Às vezes, falta-me tempo para a dimensão da minha curiosidade. Vou escolhendo, deixando apontamentos, guardando livros, adiando perguntas com a esperança de regressar a elas.

Com as pessoas acontece-me algo semelhante ao que acontece com o conhecimento: quantas mais conheço, mais rica fico. Descubro outras maneiras de pensar, de amar, de suportar a dor, de encontrar alegria. Surpreende-me o que alguém revela quando se sente escutado. Uma opinião que eu julgava compreender muda de significado quando conheço a história de quem a tem.

Não te desapontas também? perguntou-me a mesma amiga.

Demorei um pouco a responder.

Acho que já não da mesma maneira. Fui deixando de esperar que os outros correspondessem àquilo que eu teria feito no lugar deles. Hoje sei que nunca estou inteiramente nesse lugar. Conheço apenas uma parte da história, da capacidade, dos limites de cada pessoa.

Talvez cada um tenha um banco dentro de si. Há quem saiba fazer empréstimos de tempo, de atenção, de ternura. Há quem esteja mais habituado a receber depósitos. E há quem tenha tão pouco disponível, naquele momento da vida, que mal consiga acudir a si próprio. Tento lembrar-me disso antes de fazer contas.

Sempre fui mais de dar do que de receber. Raramente guardo um registo do que ofereci. Gosto de ajudar quando posso, de partilhar o que sei, de estar presente. Também vou aprendendo a reconhecer quando me falta energia e preciso de a recompor. A generosidade inclui esse cuidado comigo.

Continuo a ter dias de chuva e de sol no coração. Às vezes, tudo no mesmo dia. Posso estar desanimada e rir-me pouco depois; sentir-me segura numa escolha e cheia de dúvidas noutra; querer companhia e precisar de silêncio. Vou aceitando essas nuances com mais ternura. Elas fazem parte da pessoa que sou e da pessoa em que ainda me estou a tornar.

Talvez amanhã volte a encontrar a minha amiga e lhe diga que sim, que sou um paradoxo, se ela quiser chamar-lhe assim.

Depois contar-lhe-ei o que ando a estudar, a dificuldade que ainda não consegui resolver, qualquer coisa que um dos meus filhos me disse e me ficou no pensamento. A conversa há de levar-nos por vários caminhos. Se entretanto começar a chover, talvez me distraia por um instante.

Gosto tanto daquele cheiro da terra quando recebe as primeiras gotas.

Há coisas que conheço há uma vida inteira e que ainda me fazem parar.

Comentários