É tempo de guardar
O outono chegou.
A chuva ameaçou, demorou-se na promessa, mas caiu. O outono chegou. Sente-se na luz de cada dia, nesse ouro mais inclinado que entra pelas horas dentro; na tarde que escurece cedo; na brisa fria que, de manhã e ao fim do dia, nos procura a pele.
Hoje assei castanhas e maçãs com canela.
E o cheiro delas trouxe consigo qualquer coisa muito antiga, como se a casa se tivesse lembrado de uma história que ninguém chegou a contar-lhe. Há gestos que parecem vir de longe. Reconhecemo-los nas mãos antes de encontrarmos palavras para eles.
A terra começa a recolher-se. Abranda, guarda, prepara o escuro. Debaixo do que vemos, prossegue uma vida discreta: raízes, sementes, o trabalho miúdo de tudo o que precisa de silêncio para continuar.
À superfície, oferece-nos os últimos excessos de cor. As romãs guardam uma multidão vermelha dentro de um só fruto. Os dióspiros parecem ter recolhido a luz das tardes para a deixar amadurecer devagar. Os cogumelos surgem como pequenas moradas de um povo invisível. E as maçãs assadas espalham pela casa uma doçura que quase se pode vestir.
Há uma abundância particular nestas colheitas. Cada fruto traz consigo o tempo que passou entre a primeira promessa e a mão que o recebe. Houve terra preparada, houve espera, houve dias em que nada parecia acontecer. Agora, o que esteve escondido pesa nas nossas mãos.
Talvez seja essa uma das magias de plantar: confiar à terra uma coisa tão pequena e continuar a cuidar do lugar onde a deixámos. Entre a semente e a colheita cabe uma estação inteira de atenção. O outono chega com os frutos e com novas sementes. Alguma coisa termina; outra já procura onde começar.
As árvores vestem-se de laranja, cobre e dourado. Depois, deixam cair essa riqueza, folha a folha, e fazem tapetes no chão. Há uma generosidade tranquila nesse gesto. O ouro fica ao alcance dos passos e, lentamente, regressa à terra. O bosque vai preparando o lugar onde a próxima primavera encontrará alimento.
Apetece acompanhar este movimento. Preparar o inverno com as mãos: arrumar, guardar, trazer para perto o que aquece. Há uma solenidade mansa em cuidar da casa quando os dias encolhem. Como se cada pequeno gesto ajudasse a manter aceso o lume de todos os que ali vivem.
Mudam-se os armários. A roupa leve dobra-se e leva consigo vestígios de verão: a forma dos nossos ombros, a memória dos dias compridos. Abre-se espaço para outros tecidos, para o peso bom de uma camisola, para as mangas que nos cobrem as mãos.
As mantas regressam ao sofá. A casa ganha espessura. Lá fora, a tarde vai fechando as suas portas; cá dentro, há um lugar onde pousar o corpo e deixar que o calor chegue devagar.
Sinto nesta estação uma espécie de encantamento doméstico, ligado à terra. Frutos à mesa, folhas no chão, sementes guardadas. A luz que acendemos ao fim da tarde parece participar de um acordo silencioso com a noite: haverá calor para quem chegar.
O outono chegou.
Hoje assei castanhas e pareceu-me que, por um instante, todo esse ciclo coube num gesto tão simples.
Uma árvore a entregar o que fez crescer.
E nós a receber, na palma da mão, um pouco de calor para o tempo que vem.
PB
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