É primavera do outro lado

Faltam dois dias para ir para o Brasil e ainda não fiz a mala.

Tenho roupa por escolher, coisas por organizar e uma extraordinária capacidade de passar de uma divisão para outra sem me lembrar do que lá fui buscar. Os planos continuam por fazer. A ansiedade, em contrapartida, já tratou de tudo: chegou ao aeroporto, procurou a porta de embarque, contou as horas de voo e imaginou pequenas dificuldades para as quais ainda nem sequer existem palavras.

Olho para mim e quase me rio. A mulher que vai atravessar o Atlântico para falar numa conferência anda pela casa à procura de uma tranquilidade que deve ter pousado em qualquer lado.

Por fora, pareço-me bastante com uma pessoa capaz.

E sou. Tenho aprendido, ao longo dos anos, a resolver problemas, a tomar decisões, a entrar em salas desconhecidas, a encontrar palavras quando alguém espera que eu diga alguma coisa. Essa parte de mim existe e merece a minha confiança. Mas há outra que, nestes dias, me puxa discretamente pela manga. Uma parte mais pequena, mais sensível, que gostaria de perguntar se podemos levar os nossos connosco.

Só para estarem ali.

Só para, no meio de tudo o que vai ser novo, haver um rosto onde eu possa descansar.

Vou viajar com uma pessoa que ainda não conheço. Penso na estranheza desses primeiros momentos, nas conversas que começam com cuidado, nos silêncios cuja medida ainda ignoramos. Talvez venhamos a rir de alguma coisa muito simples. Talvez um café partilhado num aeroporto comece a tornar familiar aquilo que agora me inquieta. Gosto de deixar essa possibilidade aberta: a de encontrar delicadeza onde, por enquanto, apenas consigo imaginar o desconhecido.

Depois haverá o avião. As horas dentro do avião.

Levarei um livro, embora me conheça o suficiente para saber que posso passar muito tempo na mesma página. Olharei para o pequeno mapa do percurso, para aquele avião minúsculo que parece avançar tão devagar sobre uma extensão imensa de azul. Cá em baixo, na minha vida habitual, gosto de perceber os caminhos. Lá em cima, terei de aceitar que, durante algumas horas, me cabe apenas deixar-me levar.

A certa altura, atravessarei o equador.

Penso nisso com uma espécie de espanto infantil. Uma linha que aprendi nos livros, que desenhei em mapas, que expliquei como quem explica uma coisa arrumada, vai passar por baixo de mim. Não haverá um traço sobre a água, uma costura na paisagem, uma porta entre as duas metades da Terra. Talvez alguém esteja a dormir. Talvez outra pessoa peça água. E eu, no meio desses gestos tão comuns, estarei a mudar de hemisfério.

Apetece-me estar acordada para esse instante, mesmo sabendo que os olhos não poderão distingui-lo.

Vou deixar o outono e chegar à primavera.

Há qualquer coisa de profundamente bonita nesta desobediência aparente do calendário. O mesmo novembro em que, deste lado, os dias encolhem e as folhas se desprendem dos ramos guarda, do outro lado, uma primavera. Enquanto preparo a roupa entre os sinais do frio que se aproxima, há uma parte do mundo a caminhar em direção ao verão.

Vou até lá, pela rota de São Paulo. Digo o nome devagar e tento imaginar o momento em que deixará de ser uma palavra no bilhete para se tornar um lugar à minha volta: vozes, passos, janelas, pessoas com pressa de chegar à sua própria vida. Depois, o caminho continuará até ao Paraná, onde me esperam encontros que ainda não têm rosto e dias dos quais ainda não conheço a história.

Haverá também um céu que não sei ler tão bem. Um céu onde o Cruzeiro do Sul ajuda a encontrar o sul. Gosto de pensar que posso aprender uma maneira diferente de me orientar, eu que, nestes dias, me sinto tão necessitada de referências.

As minhas mais importantes ficam cá.

Vou ter saudades do meu marido, dos meus filhos, da intimidade desarrumada de uma casa onde ninguém precisa de marcar hora para um abraço. Dos ruídos conhecidos. De ouvir chamar «mãe» e responder sem sequer interromper o que estou a fazer. Da facilidade de estar ao pé de quem me conhece antes de eu começar a explicar-me.

No dia da conferência, hão de fazer-me muita falta.

Imagino aquele instante antes de começar, os olhos a percorrerem a sala, o desejo de encontrar um dos seus sorrisos. Bastaria um. Um rosto conhecido entre tantos outros, um pequeno aceno, aquela maneira silenciosa de dizer: estamos aqui.

E depois, quando terminar, vou querer contar-lhes tudo. A primeira frase, o nervosismo, a pergunta inesperada, o momento em que finalmente respirei melhor. Vou querer aproximar a alegria deles da minha, encostar-lhe a voz, diminuir o oceano durante uma chamada.

Entretanto, ainda estou aqui. A dois dias de partir, com a mala vazia e o coração cheio de antecipações contraditórias. Quero ir. Tenho medo. Estou contente. Já tenho saudades.

Cabe tudo nesta mulher que sou.

Talvez, logo à noite, comece por dobrar um vestido. Ponha os sapatos no fundo da mala, escolha um livro, confirme os documentos. Gestos pequenos, ao alcance das mãos, enquanto o resto de mim se habitua à ideia de atravessar o mar.

E, quando chegar, antes de saber bem o que dizer sobre o cansaço, o espanto ou a distância, escreverei aos meus:

«Já cheguei.»

Ficarei uns instantes com o telefone na mão, à espera de os sentir perto.

Depois terei uma primavera inteira para lhes contar.

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