Dias sem fim
Há semanas que começam antes de termos acabado de respirar as anteriores. Esta começou assim: comigo ainda a tentar pousar o que trazia nas mãos, e a vida a entregar-me mais coisas.
Os dias passam dentro da minha sala, entre números, perguntas, cadernos abertos. Ensino Matemática. Procuro maneiras de tornar compreensível aquilo que, ao princípio, parece impossível. Digo que vamos por partes, que podemos voltar atrás, que ninguém tem de perceber tudo à primeira. E, enquanto ofereço aos outros esse tempo, vou fazendo contas ao pouco tempo que me concedo a mim.
Há qualquer coisa de profundamente humano em saber ser paciente com quem aprende, mas ao mesmo tempo, há algo de profundamente triste quando sou tão impaciente comigo.
Entre uma explicação e outra, penso no que ficou por fazer. O trabalho de casa começa muito antes de eu chegar a casa: acompanha-me durante as aulas, senta-se ao fundo da sala, levanta o braço quando tento pensar noutra coisa. Há sempre uma tarefa à espera, uma mensagem, um prazo para cumprir. Mesmo nos pequenos intervalos que não tenho, a cabeça continua a trabalhar, como uma torneira que já ninguém consegue fechar completamente.
Tenho tentado sorrir. Há momentos em que o sorriso vem sozinho, porque ensinar me dá de facto alegria, porque alguém compreendeu um exercício, porque uma pergunta me surpreendeu. Noutros, tenho de o ir buscar muito longe. E custa-me esse caminho que ninguém vê: sair por instantes da minha aflição para conseguir estar inteira diante de alguém.
Por dentro, a ansiedade ocupa espaço. Às vezes chega de repente e torna pequeno tudo o que, à minha volta, parecia suficiente. Falta-me lugar dentro do próprio peito. Tento continuar, organizar, responder. Gostava de conseguir apontar-lhe uma causa, como aponto um erro numa conta, e dizer: foi aqui, podemos começar a resolver por aqui. Mas há dias em que só sei que dói. E que me rouba a paz.
À noite, faço promessas à manhã seguinte.
Amanhã levanto-me mais cedo. Amanhã adianto trabalho. Amanhã consigo.
Vou buscar horas ao sono como quem procura moedas no fundo de uma gaveta. Talvez ainda haja ali qualquer coisa que permita pagar o que falta. Mas a manhã chega e encontra um corpo cansado, pesado de dias que não terminaram quando deviam. Quando não consigo levantar-me à hora prometida, acrescento a frustração àquilo que já transportava. Até o descanso acaba por chegar acompanhado de culpa.
Tenho vivido assim, a cumprir, a gerir, a tentar chegar a todos. Sei o que cada tarefa precisa de mim, mas tenho dificuldade em perceber aquilo de que eu própria preciso. Vou adiando essa pergunta, porque entretanto há uma coisa urgente, e depois outra, e quando finalmente fica silêncio já me faltam forças para escutar a resposta.
Vou no princípio da semana e já estou exausta.
Custa-me escrever isto tão cedo. Parece que o cansaço precisava de cumprir um calendário para merecer ser reconhecido. Mas está aqui. E esta tristeza sem nome está pousada sobre os gestos mais pequenos. Levo-a comigo enquanto explico uma equação, arrumo a sala, preparo o dia seguinte. Às vezes quase me esqueço dela. Depois basta um instante de silêncio para voltar a senti-la.
Hoje, gostava de poder dizer que me sinto assim sem ter de acrescentar imediatamente que vai passar, que sou forte, que amanhã estarei melhor. Gostava de deixar estas palavras abertas, sem lhes exigir uma conclusão bonita.
Hoje, gostava apenas de adormecer sem estar já atrasada para amanhã. De pousar a cabeça na almofada e não encontrar ali, à minha espera, tudo o que ficou por fazer.
Gostava de conseguir falar comigo com a paciência com que acompanho um aluno que ainda não compreendeu. Sentar-me ao meu lado, por assim dizer, e dar-me tempo. Sem suspirar de impaciência. Sem olhar para o relógio. Sem me pedir, uma vez mais, um esforço maior.
Talvez esta noite consiga deixar algumas coisas por fazer, mesmo com a inquietação de as saber à minha espera. E deitar-me sem marcar o despertador ainda mais cedo.
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