Da matemática à FQ ...

Estamos em outubro. Passou quase um mês desde o início das aulas. Há expectativas a ganhar luz, medos e ansiedades a ganhar forma, sonhos que começam a desenhar-se. E, pelo meio, uma preocupação que parece ocupar cada vez mais espaço: os resultados.

Fala-se de testes, de médias, de exames. O exame surge tantas vezes como um “bicho-papão”, uma ameaça à espera no fim do percurso. Fala-se dos rankings das escolas e das notas de acesso ao ensino superior. Tudo isto tem consequências reais na vida dos alunos, e seria ingénuo desvalorizá-lo. Mas inquieta-me sentir que, no meio de tanta preocupação em medir, vamos deixando de fora da equação o seu termo mais importante: a aprendizagem.

Sou engenheira química e lecionei Física e Química durante muitos anos. Talvez por isso me custe tanto olhar para os cadernos de alguns alunos e mal reconhecer, naquelas páginas, a disciplina que sempre me fascinou.

Vejo conceitos apresentados em sequência, fórmulas copiadas, exercícios arrumados por tipologia. Vejo matérias trabalhadas como compartimentos fechados, com poucas pontes entre si e ainda menos ligações ao mundo. Como se a energia de um capítulo não fosse a mesma que permite compreender os fenómenos do capítulo seguinte. Como se a Física e a Química existissem sobretudo dentro de um manual.

Fazem-se poucas experiências ou, quando se fazem, nem sempre há tempo para verdadeiramente as explorar. E uma experiência que corre de forma diferente da prevista pode ser uma oportunidade extraordinária: o que esperávamos observar? O que aconteceu? Que condições não controlámos? O que precisamos de repetir? A aprendizagem está também nessa investigação, nesse confronto entre uma ideia e aquilo que os dados nos mostram.

Conheço alguns professores que continuam a ensinar com entusiasmo e rigor, muitas vezes sob uma enorme pressão de tempo, programas e avaliações. Essa dedicação merece ser reconhecida, mas a minha inquietação dirige-se também a uma outra forma de organizar o ensino que parece deixar cada vez menos espaço para perguntar, relacionar e compreender. Continua a fazer-me falta encontrar, em algumas práticas de ensino, a paixão e o cuidado científico que estas disciplinas merecem.

Porque explicar Física e Química é abrir uma janela para o mundo.

Lembro-me de que, depois de compreender a aceleração e as forças, conduzir ganhou outro significado. Travar, fazer uma curva, manter uma distância de segurança: tudo passou a ter uma explicação mais clara. Acelerar significa alterar a velocidade, seja aumentando-a, diminuindo-a ou mudando de direção. Numa curva, mesmo que o velocímetro marque sempre o mesmo valor, há aceleração. E o atrito entre os pneus e a estrada, tantas vezes reduzido a uma palavra num exercício, é essencial para conseguirmos controlar o carro.

Com a Química aconteceu-me algo semelhante. Abrir a torneira e observar a água a correr passou a despertar outro fascínio. Aquela molécula aparentemente tão simples, H2O, acompanha-nos em estados tão diferentes! À pressão atmosférica normal, a água pura congela a cerca de 0 °C e ferve a cerca de 100 °C. Nas mudanças de estado, continua a ser água: mudam a organização e o movimento das moléculas. A sua estrutura e as interações entre elas ajudam até a explicar porque flutua o gelo.

E há tanto mais para descobrir. O cabo metálico de uma colher aquece numa sopa porque a energia se transfere por condução. Um prego enferruja porque o ferro participa em reações químicas com o oxigénio, na presença de água. Uma bateria permite transformar energia química em energia elétrica. A cozinha, a rua, o nosso corpo e os objetos que usamos estão cheios de perguntas às quais estas disciplinas nos ajudam a responder.

Na Matemática encontro o mesmo encanto. Há simetrias nas flores, hexágonos nos favos de mel que encaixam sem deixar espaços e formas semelhantes que reaparecem, a diferentes escalas, nas folhas dos fetos. A trajetória de uma bola lançada pode aproximar-se de uma parábola. De repente, uma função estudada na aula ajuda-nos a descrever um movimento que os nossos olhos acompanham.

Aprender permite-nos reconhecer estas ligações. Uma fórmula ganha significado quando percebemos o que relaciona, em que condições se aplica e o que nos permite compreender.

Tive sorte. Tive um pai que me abriu os olhos para a Física e a Química enquanto estudava comigo. Tive professores que se animavam a ensinar, que voltavam a explicar e partilhavam connosco o entusiasmo pelas descobertas da ciência. Deixaram-me conhecimentos e uma vontade de continuar a saber.

Procurei fazer o mesmo com os meus filhos. E é esse espírito que, todos os dias, tentamos levar para o trabalho com os nossos alunos na academia.

Importam-nos os resultados, pois sabemos que uma nota pode abrir uma porta e aproximar um aluno do seu sonho. Mas trabalhamos também para que consigam explicar o seu raciocínio, reconhecer uma ligação entre matérias, usarem o que aprenderam numa situação nova e sentirem confiança para fazer perguntas. Que tenham espaço para errar, perceber o erro e avançar assim, com maior autonomia.

Este ano, gostava de sentir que havia mais lugar para essa aprendizagem em todas as aulas: exigente, acompanhada, curiosa e cheia de sentido. Que se preocupassem menos com a quantidade e mais com a qualidade do que é verdadeiramente compreendido. Porque, nesta equação, existem seres humanos, com ritmos, dúvidas e sonhos próprios: cientistas em miniatura, aprendizes que precisam de ser estimulados, surpreendidos e maravilhados com a ciência.

Que os nossos alunos alcancem os resultados pelos quais trabalham. E que, ao longo desse caminho, descubram o prazer de compreender, a coragem de perguntar e a capacidade de olhar à sua volta com outros olhos. Cada aprendizagem pode ser uma oportunidade para crescer. Ensinar é também ajudá-los a descobri-la.

Todos os dias, procuro, através do incentivo, da determinação e da persistência, ajudá-los a chegar mais longe do que alguns alguma vez imaginaram ser capazes. Um aluno que se apaixona pelo que aprende encontra novas razões para se empenhar, ultrapassar dificuldades e aprofundar o seu conhecimento.

Aprender vai além de decorar conceitos: é relacionar ideias, explicar por palavras próprias, experimentar e usar o que se sabe para compreender uma situação nova. É esse o caminho que quero ajudar a construir com cada aluno: conhecimentos sólidos, autonomia e uma curiosidade que continue viva muito depois do último exame.

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