Até sermos velhotas
Eu já nos tinha imaginado velhotas.
A repetir histórias, a corrigir a memória uma da outra, a rir antes de chegar à parte que tinha graça. Haveríamos de ter opiniões sobre tudo e tempo para as discutir. Quando lhe disse que a queria comigo por muitos e bons anos, era nesse futuro que eu estava. Tinha-lhe guardado um lugar.
Ela respondeu que não.
Viver muitos anos não fazia parte dos seus planos. Era grata pela vida, pelos amigos, pelos dons que Deus lhe ia concedendo. Mas a sua fé permitia-lhe imaginar, para lá do que conhecemos, uma existência luminosa. Quando a vida chegasse ao fim, aceitaria partir. Não sentia a minha vontade de prolongar a demora.
Compreendi o que me disse. E fiquei angustiada. Há coisas que conseguimos compreender sem que o coração encontre maneira de se acomodar a elas.
Enquanto ela falava da sua paz perante o fim, eu pensava na falta que me faria. Talvez estivéssemos a ter duas conversas dentro da mesma conversa: ela a falar da relação com a própria morte; eu a falar do meu amor pela sua vida.
Desde então, pergunto-me qual de nós terá razão.
Eu quero chegar aos cem. Digo-o com a ressalva que fazemos quando o futuro ainda aceita todas as nossas condições: com lucidez, com autonomia, com capacidade de reconhecer quem amo e de me reconhecer no que faço. Gostava de continuar a ler, de aprender uma coisa difícil, de mudar de opinião. Há qualquer coisa de extraordinário em imaginar que, aos noventa e sete anos, ainda poderei descobrir que estava enganada.
Sei que o tempo não me promete nada disso. A velhice que imagino é escolhida por mim, cuidadosamente poupada às perdas que receio. A verdadeira virá como puder. Talvez também por isso me perturbe a tranquilidade da minha amiga: ela parece aceitar uma incerteza com a qual eu ainda negoceio.
Mas o meu desejo de ficar merece ser ouvido. Quero saber o que acontece às pessoas que amo. Quero conhecer as pessoas que ainda não amo porque ainda não chegaram. Há livros que ninguém escreveu, conversas que dependem de um encontro improvável, alegrias que hoje não tenho imaginação suficiente para desejar.
Custa-me prescindir dessa possibilidade de surpresa.
Pergunto-me, entretanto, quem é este eu que deseja durar tanto. A menina que fui reconheceria a mulher que sou? E a mulher que serei, se me for dado envelhecer, reconhecerá nestas palavras os seus desejos? Mudamos de corpo, de convicções, de medos. Algumas certezas desaparecem tão discretamente que só damos pela sua falta quando alguém nos recorda que um dia as defendemos.
Talvez chegar aos cem seja também querer conhecer essas outras mulheres que ainda poderei ser.
Em cada uma delas haverá, espero, qualquer coisa das pessoas que me acompanharam. Um gesto aprendido, uma expressão que ficou, uma coragem que alguém teve primeiro por mim. Somos menos separados do que os nossos corpos sugerem. A minha amiga já faz parte da maneira como penso o mundo. Foi por isso que o seu «não» chegou tão dentro: tocou num futuro que, sem lhe pedir licença, eu tinha construído com a presença dela.
De onde vimos? Sei que venho também de vozes. De quem me chamou pelo nome quando eu ainda não sabia responder. De quem me ensinou a distinguir uma árvore, a segurar um lápis, a pedir desculpa. Conhecer a matéria de que somos feitos não esgota a história do que nos fez pessoas. Há uma parte da nossa origem que continua a acontecer em cada encontro.
E para onde vamos?
A minha amiga encontra na fé uma esperança que eu respeito. Quanto a mim, há dias em que consigo pensar no mistério com serenidade e outros em que me basta imaginar uma cadeira vazia para perder toda a competência filosófica.
Posso admitir a possibilidade de uma eternidade e continuar a desejar uma tarde. Uma tarde vulgar, sem revelações, com alguém de quem gosto. O afeto prende-se a coisas muito concretas: uma voz ao telefone, uma gargalhada, a maneira de alguém dizer «cheguei».
Se existe essa luz em que ela acredita, gosto de pensar que querer permanecer junto destas pequenas luzes também pode ser uma forma de gratidão.
Talvez nenhuma de nós saiba inteiramente o que deseja quando fala da duração da vida. Ela não conhece todos os dias que ainda poderiam fazê-la querer ficar. Eu não conheço todos os cansaços que poderiam alterar o meu desejo de chegar aos cem. Falamos a partir de hoje, com a coragem e o receio que hoje temos. Amanhã poderá encontrar-nos diferentes.
Há humildade em aceitar isso.
Quanto ao que andamos cá a fazer, desconfio que esperamos uma resposta demasiado grandiosa. Uma finalidade capaz de justificar, de uma só vez, o nascimento, o sofrimento, o amor e a perda. Entretanto, alguém precisa de companhia. Há uma criança à espera que a escutem, um amigo a quem não telefonamos há demasiado tempo, uma pessoa sentada à nossa frente a tentar dizer-nos uma coisa difícil.
Talvez o sentido se vá fazendo também aí, enquanto procuramos explicações maiores. No cuidado que conseguimos ter, nas perguntas que não calamos, na atenção com que recebemos a existência dos outros. Não sei se isso responde ao universo. Sei que muda um dia. Às vezes, muda uma vida.
Continuo a querer envelhecer com a minha amiga. Compreendê-la não fez desaparecer esse desejo. Também não me dá o direito de lhe exigir que sinta como eu.
Quero, porém, dizer-lhe que a sua presença me importa. Que, quando lhe falei em sermos velhotas, estava a tentar dizer-lhe quanto gosto de estar viva com ela. Talvez tenha sido isso que ficou por dizer, entre a sua serenidade e o meu espanto.
Por agora, estamos ambas aqui. Podemos voltar à conversa, discordar, falar de outra coisa, combinar um encontro. Não sabemos quanto tempo temos, mas ainda podemos decidir dar algum desse tempo uma à outra.
Se chegarmos a velhotas, gostava de lhe ler estas palavras.
Tenho curiosidade em saber o que pensaremos então.
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