A vida tem os nomes de quem chega

Às sete da manhã, ainda o dia está a abrir os olhos e já eu lhe ando a arrumar as gavetas. Faço listas mentais, distribuo tarefas, tento encontrar lugar para tudo o que precisa de caber nas horas seguintes. A minha cabeça chega quase sempre primeiro que eu aos sítios. Quando finalmente me levanto, já ela abriu a sala, respondeu a perguntas e se esqueceu de alguma coisa que, naturalmente, só há de recordar quando eu estiver ocupada com outra.

Depois, há o café.

O de sempre, no lugar do costume. Gosto desta pequena certeza antes de começar a negociar com os imprevistos. E gosto, sobretudo, de encontrar a minha tribo: as amigas que fui acrescentando aos meus dias e que, com a generosidade de quem chega uma cadeira para o lado, me deram lugar nas suas vidas.

Fomos ficando. Entre cafés, conversas e manhãs mais ou menos apressadas, fomos aprendendo a contar umas com as outras. Agora, quando falta uma, dou por isso e sinto-lhe a falta. O lugar vazio faz perguntas: estará bem? Terá adoecido? Precisará de alguma coisa? É curioso como o carinho nos altera a geografia. Um sítio pode continuar exatamente igual e, ainda assim, faltar-lhe tanto porque uma pessoa não veio.

Temos idades diferentes. Cada uma traz o seu tempo, as suas histórias, uma maneira própria de olhar para o que acontece. À mesa, esses anos todos conversam. Há coisas que uma já atravessou e outra ainda está a tentar compreender. Há partilhas, desabafos e muitas gargalhadas também. Gosto profundamente de cada uma delas. Talvez nem sempre o diga com a frequência que devia, mas sinto que elas sabem.

Depois, o dia ganha velocidade e eu entro na sala de Matemática mais bonita da cidade.

Sei que sou suspeita. Tenho afetos a interferir com a avaliação.

É ali que passo grande parte da minha vida, entre contas, dúvidas, gargalhadas e aquele alvoroço de quem chega com muito mais do que uma mochila. Cada aluno traz um dia inteiro lá dentro. Às vezes, até um mundo inteiro, ainda sem saber muito bem onde o pousar.

Por isso, devagar e com calma, vou encaminhando e ajudando a encontrar espaço.

Aos poucos abrem-se os cadernos, começam as perguntas, chega a preocupação com um teste. Há ansiedades que se sentam à frente do exercício e quase não deixam ver os números. É preciso ir devagar, perceber em que passo se perdeu o caminho, experimentar outra maneira. E há a alegria imensa e inexplicável que sinto ao ver alguém compreender um novo exercício: por instantes, a expressão muda, o corpo descontrai-se, a mão já sabe como continuar.

Pelo meio, surgem aquelas vozes pequeninas a dizer coisas enormes. Uma reflexão inesperada, uma pergunta que atravessa a sala e me deixa a pensar. Eu tenho matéria para lhes ensinar, mas eles têm maneiras de olhar que me obrigam a abrir espaço no que sei. Felizmente, ainda há muito em mim que pode ser surpreendido.

Ao longo dos anos fomos construindo uma família neste quotidiano de encontros. Os laços ganharam força sem precisarem de anúncio. Reconheço-os nos abraços que recebo, na confiança com que me procuram, na atenção que também têm comigo.

«Já lanchou, stora?»

«Quer que lhe vá comprar lanche?»

E eu, que ando tantas vezes a organizar o dia de toda a gente dentro da minha cabeça, descubro que alguém guardou um bocadinho do seu para cuidar de mim.

Há uma ternura muito particular nestas perguntas. Faz-me bem saber que, entre equações e testes, aprendemos a reparar uns nos outros. Que o cuidado circula pela sala e encontra caminho de volta.

Trabalho mais de doze horas por dia. Escrevo o número e parece-me imenso. Lá dentro, porém, as horas têm um comportamento pouco rigoroso para uma sala de Matemática. Distraio-me a explicar qualquer coisa, acompanho uma resolução, respondo a mais uma dúvida e, quando olho para o relógio, ele já deu um salto que ninguém autorizou.

«Mas já são oito horas? Como assim?»

Os testes começam a chegar. A matéria avança. Há sempre outra questão, outro aluno, outra descoberta. O cansaço também chega, claro. Por vezes, só lhe presto atenção quando o alvoroço abranda e começo, finalmente, a fechar o dia.

Termino tarde. Um bocadinho tarde demais é certo.

Nem tudo ficou resolvido. Algumas tarefas transitam, certas preocupações vêm comigo, e a lista da manhã ganhou acrescentos que eu não tinha previsto. Mas o dia acaba em bom, com a memória de uma gargalhada, um abraço ainda demorado nos ombros, uma pergunta que continuo a escutar.

Amanhã haverá mais Matemática. Mais café, novos alunos, outras dúvidas. Às sete, voltarei a tentar organizar tudo.

Sei, porém, que o melhor do dia chegará mais tarde e muitas vezes sem estar na lista.

Terá o nome de alguém e deixará, com toda a certeza, a sua marca indelével em mim

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