viver com empatia ou prisioneiro da aparências?

Há pessoas que acordam todos os dias e, antes de abrirem a janela, vestem uma personagem. Não escolhem apenas a roupa, o gesto ou o tom de voz. Escolhem a pessoa que vão fingir ser. Ensaiam o sorriso diante do espelho, ajustam as palavras ao público que as espera e saem de casa como quem entra em cena. Talvez já nem sintam o peso do disfarce. Talvez o tenham usado durante tanto tempo que lhes pareça pele.

Penso muitas vezes no cansaço que deve ser viver assim. Passar os dias a vigiar aquilo que se diz, não por delicadeza, mas por medo. Controlar cada reação, não por respeito, mas para proteger uma imagem. Inventar versões de si próprio para cada circunstância e, depois, ter de recordar o que mostrou a uns, o que ocultou de outros, o que prometeu ser em cada lugar. Uma vida inteira transformada numa sala cheia de espelhos, onde nenhuma imagem devolve um rosto verdadeiro.

Deve chegar uma altura em que a pessoa já não sabe quem é quando ninguém está a olhar.

Talvez esse seja o preço mais alto do fingimento. Não o risco de os outros descobrirem a verdade, mas o risco de a própria pessoa a perder. Porque uma máscara usada de vez em quando continua a ser uma máscara. Uma máscara usada todos os dias acaba por reclamar o rosto.

Não sei que lucro poderá justificar uma vida assim. Talvez haja quem conquiste aprovação, pertença, estatuto, conforto ou aquela respeitabilidade que tantas vezes não passa de uma mentira bem vestida. Talvez haja portas que só se abram a quem aprendeu a representar o papel certo. Mas que valor tem entrar em todas as salas se, para o conseguir, somos obrigados a deixar quem somos do lado de fora?

Eu não quero viver em estado de representação.

Quero que exista uma linha reconhecível entre o que sinto, o que penso, o que digo e o modo como vivo. Não uma linha perfeita, porque também há dias em que hesito, mudo de ideias e falho. Sou humana. Mas quero que seja uma linha honesta. Quero poder olhar para as minhas escolhas e reconhecer nelas a minha voz, mesmo quando essa voz treme, incomoda ou não recebe aplausos.

Ser livre, para mim, não é dizer tudo o que me passa pela cabeça. Isso não seria liberdade, seria apenas falta de cuidado. Também não é agir como se os outros não existissem, invocando a autenticidade para justificar a crueldade. Há palavras verdadeiras que podem ser ditas com ternura. Há silêncios que não são cobardia, mas respeito. Há gestos que podemos conter porque compreendemos que a nossa liberdade termina no lugar onde começamos a ferir inutilmente alguém.

Viver em sociedade exige filtros. A empatia é um deles. A delicadeza é outro. O sentido de justiça, a consciência das consequências e a capacidade de nos colocarmos no lugar dos outros também. Esses filtros não nos escondem. Tornam possível a convivência. Não apagam o nosso rosto, apenas impedem que o usemos como uma arma.

Mas uma coisa é escolher as palavras para não magoar. Outra, muito diferente, é escolher uma vida inteira para parecer adequado.

Uma coisa é não dizer uma verdade no momento errado. Outra é construir a existência sobre uma mentira. Uma coisa é adaptar a linguagem ao lugar onde estamos. Outra é alterar convicções, afetos, lealdades e princípios conforme a plateia. A boa educação pede contenção. O medo da aparência exige encenação. E entre uma coisa e outra existe toda a distância que separa o cuidado da falsidade.

Há quem viva obcecado com aquilo que fica bem. Não com aquilo que é justo, verdadeiro ou inteiro, mas com aquilo que parece bem aos olhos dos outros. Essas pessoas não perguntam a si próprias se são felizes. Perguntam se parecem felizes. Não se preocupam tanto em amar como em representar o amor. Não procuram ser boas, procuram ser vistas como boas. E, pouco a pouco, trocam a consciência por uma montra.

A aparência tem uma fome insaciável. Nunca lhe basta um gesto. Exige coerência cénica, vigilância permanente e novas provas. Quem vive para convencer os outros de que é alguma coisa acaba prisioneiro da obrigação de continuar a convencer toda a gente. E talvez por isso certas pessoas reajam com tanta violência quando alguém se aproxima da verdade. Não estão apenas a defender uma mentira. Estão a defender a construção inteira onde aprenderam a morar.

Deve ser terrível acordar com medo de que alguém abra uma janela nessa casa.

Eu prefiro a imperfeição exposta. Prefiro que saibam que tenho dias de coragem e dias de medo, certezas que se desfazem, perguntas que regressam, afetos intensos e opiniões que nem sempre cabem nos lugares mais cómodos. Prefiro ser julgada pelo que sou a ser admirada pelo que nunca fui. A admiração por uma personagem não chega à pessoa que a representa. Fica à porta, juntamente com as flores destinadas ao espetáculo.

Ser livre talvez seja isto: não precisar de decorar falas para atravessar o dia.

É poder ser quem sou sem fingir ser de outra maneira. É reconhecer um erro sem sentir que todo o nosso valor desaba com ele. É não escolher a opinião mais aplaudida apenas para garantir um lugar à mesa. É aceitar que algumas pessoas se afastarão quando perceberem que não fomos feitas para caber na expectativa que construíram para nós.

Há uma solidão própria de quem escolhe ser inteiro. Nem toda a gente gosta de pessoas que são felizes consigo mesmas. São difíceis de domesticar, de usar e de organizar nas prateleiras tranquilas das conveniências. Uma pessoa livre pode ser delicada, generosa e atenta, mas conserva dentro de si um lugar que não está à venda. É desse lugar que vêm as suas escolhas. E é precisamente por não estar à venda que tantas vezes incomoda.

Contudo, a solidão de sermos verdadeiros é menos dolorosa do que a solidão de sermos amados por engano. Poucas coisas devem ser tão tristes como receber afeto por uma pessoa que inventámos, sabendo, no fundo, que se conhecessem o nosso rosto talvez não ficassem. Nesse caso, nunca somos realmente escolhidos. É a máscara que recebe o abraço.

Não quero que amem em mim uma versão domesticada, conveniente ou silenciosa. Quero ser amada sem ter de diminuir a minha voz, pedir desculpa pela intensidade com que sinto ou fingir indiferença para parecer mais forte. E quero oferecer aos outros a mesma liberdade. Amar alguém não é exigir que represente um papel. É permitir que essa pessoa exista fora do guião.

Talvez a liberdade mais profunda não consista em fazer tudo o que queremos, mas em não sermos obrigados a abandonar quem somos para merecer um lugar. Nem em casa, nem no amor, nem na amizade, nem no trabalho, nem diante de nós próprios.

Claro que há riscos. A verdade não oferece a segurança do disfarce. Quem se mostra pode ser recusado. Quem fala pode ser mal interpretado. Quem vive de acordo com o que acredita pode perder aplausos, convites e cumplicidades convenientes. Mas também ganha uma coisa rara: a paz de não ter de se esconder de si.

No fim do dia, quando a casa fica em silêncio e já não existe público, resta sempre esse encontro. Podemos evitar muitas pessoas, mas não podemos fugir para sempre de nós próprios. E talvez a vida comece verdadeiramente quando deixamos de temer esse momento. Quando já não precisamos de apagar a luz para suportar o espelho. Quando aquilo que somos em segredo não desmente aquilo que mostramos ao mundo.

Não desejo uma vida sem filtros. Desejo uma vida sem máscaras. Quero o filtro da ternura, não o da aparência. O filtro da consciência, não o da conveniência. O filtro que me ajuda a não ferir, nunca aquele que me obriga a desaparecer.

Quero continuar a dizer o que penso, aceitando que posso aprender e mudar. Quero agir de acordo com aquilo em que acredito, mesmo quando seria mais fácil representar o papel esperado. Quero sentir sem vergonha, falar sem cálculo e viver sem o medo permanente de ser descoberta. Afinal, se alguém descobrir quem realmente sou, encontrará apenas a pessoa que sempre esteve diante dos seus olhos.

Talvez ser livre seja apenas isto, embora este "isto" seja quase tudo: ter a coragem de fazer coincidir quem somos com o que mostramos de nós aos outros.

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