Setembro chega sempre com duas mãos
Setembro entrou pela casa sem bater.
Não trouxe ainda o outono inteiro. Trouxe apenas uma luz mais baixa a pousar nas paredes, um sopro de ar fresco pela janela e aquela sensação quase impercetível de que alguma coisa está prestes a mudar.
Há anos em que o verão parece esquecer-se de acabar. Demora-se nos dias, aquece excessivamente as casas e torna o ar pesado, como se o próprio tempo precisasse de se sentar um pouco para recuperar o fôlego. Depois chega setembro e alguém parece carregar num interruptor invisível. O calor não desaparece de repente, mas perde arrogância. As manhãs ficam mais frescas, as noites chegam mais cedo e respirar volta a ser uma coisa simples.
Setembro é uma ponte.
De um lado, permanece o verão, ainda agarrado às mangas curtas, às janelas abertas e à vontade de ficar lá fora até tarde. Do outro, aproxima-se o outono, com a sua luz dourada, os seus silêncios e a promessa de recolhimento.
Talvez por isso setembro seja um mês tão bonito: porque não nos obriga ainda a escolher entre a claridade e a sombra. Dá-nos um pouco das duas.
A minha mudança preferida é a luz. O Sol começa a baixar no céu e entra pelas janelas de uma forma diferente, mais inclinada e mais generosa. Há divisões da casa que parecem acender-se por dentro. Curiosamente, por vezes setembro consegue encher uma sala de mais brilho do que o meio de junho.
Também o ar muda. Nas primeiras manhãs frescas, há qualquer coisa de novo no cheiro da terra. Um pouco de humidade, talvez. Um primeiro nevoeiro sobre os campos. A promessa da chuva. Caminhamos e começamos a encontrar folhas caídas, bolotas e os primeiros frutos maduros. As amoras escurecem nas silvas e os campos adquirem aquele tom dourado de quem cumpriu o seu trabalho.
As noites, entretanto, vão chegando cada vez mais cedo. Voltamos a acender os candeeiros antes do jantar. Reaparecem as velas, as mantas guardadas e os chinelos confortáveis, à espera de pés que começam a ter frio. Aos poucos, a casa deixa de ser apenas o lugar onde regressamos e volta a ser abrigo.
Há uma espécie de alívio nisto.
Setembro convida-nos a varrer o pó acumulado durante o verão — o das casas e o da vida. A abrir gavetas, afastar excessos, reorganizar horários e recuperar rotinas. Não porque seja obrigatório começar tudo de novo, mas porque há meses que nos oferecem essa possibilidade. Setembro é um deles.
Talvez seja, para muitos de nós, o verdadeiro início do ano.
O regresso às aulas traz sempre uma emoção difícil de explicar. Há mochilas, cadernos novos, horários ainda por decorar e aquela mistura de entusiasmo e receio que acompanha todos os começos. Mas o regresso à escola nunca pertence apenas às crianças e aos jovens. Famílias inteiras voltam a acertar os seus relógios. E quem vive de perto o mundo da educação sabe que setembro traz consigo uma energia própria: novas perguntas, novos rostos e a esperança, sempre renovada, de que alguma coisa importante possa acontecer.
Há também uma pequena tristeza. Mais um verão passou. As férias, os dias longos e o tempo partilhado parecem ter durado menos do que prometiam. Talvez todos os verões nos deixem esta impressão: a de que acabaram precisamente quando começávamos a habitá-los verdadeiramente.
Mas setembro ensina-nos que terminar não é o mesmo que perder.
Algumas coisas acabam apenas para que outras possam começar.
Com os dias a encurtar, regressam também os pequenos cuidados que o calor empurrou para segundo plano. Voltamos a olhar para o corpo, para o descanso e para as rotinas de bem-estar.
E existe ainda uma espécie de milagre disponível nesta altura do ano: as noites já são suficientemente escuras para vermos as estrelas, mas ainda suficientemente amenas para permanecermos no exterior. Setembro é perfeito para acender uma fogueira, reunir quem amamos, olhar demoradamente para o céu e recordar a nossa pequenez, não como quem se sente insignificante, mas como quem finalmente descansa de ter de ser o centro de tudo.
É também o mês certo para começar a imaginar os meses seguintes. Pensar nos encontros de outono, nas celebrações, nos espetáculos, nas luzes de Natal e nas pessoas com quem desejamos partilhar esse tempo. Há planos que parecem prematuros em setembro, mas que, quando damos por isso, já chegaram tarde. Planear não retira magia às coisas. Às vezes, é precisamente o que permite que elas aconteçam.
Gosto de setembro por tudo isto.
Porque ainda guarda calor, mas já nos deixa respirar. Porque devolve luz à casa e ordem aos dias. Porque traz consigo o cheiro dos começos sem nos obrigar a esquecer o que terminou. Porque nos chama para dentro, sem fechar completamente a porta para o mundo.
Setembro não chega a fazer barulho.
Muda apenas a luz, e, de repente, somos nós que vemos tudo de outra maneira.
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