Sangria, mojitos e outras formas de dizer «gosto de ti»
Esta semana foi escandalosamente feliz.
Digo escandalosamente porque, com o estado do mundo, as notícias a cair-nos em cima antes mesmo do primeiro café e a vida sempre atrasada em relação à agenda, ser feliz começa a parecer uma pequena forma de insubordinação. Quase uma falta de respeito. Mas a verdade é que esta semana foi, sem dúvida, muito feliz.
Primeiro porque houve um jantar cá em casa. E se é verdade que eu gosto de cozinhar, cozinhar para alguém de quem gosto está noutro patamar... está muitos níveis acima. É uma espécie de declaração de amor num lugar onde a comida deixa de ser apenas comida e passa a ser linguagem.
Gosto de pensar na ementa, escolher o vinho, comprar os ingredientes, decidir quais as frutas que irão mergulhar na sangria de verão. Há frutas com vocação para a felicidade. Uma framboesa dentro de uma sangria parece saber mais sobre a vida do que muitos de nós.
Depois escolho a loiça, ponho flores na mesa, mudo um copo de lugar, volto a colocá-lo exatamente onde estava e convenço-me de que fiz uma alteração decisiva. Receber alguém também é isto: uma sucessão de gestos quase invisíveis que, somados, querem dizer uma única coisa:
- Pensei em ti antes de chegares.
Há pessoas que dizem «gosto de ti» com presentes. Outras escrevem mensagens enormes, cheias de corações. Eu ponho a mesa.
Não se trata de impressionar ninguém. Trata-se de cuidar. De abrir a porta da minha casa, que é também uma porta para dentro de mim, e dizer: entra. Senta-te. Aqui não precisas de pedir licença para existir. Há comida para ti, há vinho, há flores e, sobretudo, há lugar para ti.
A casa é talvez a parte mais exterior da nossa intimidade. Tem os nossos cheiros, os livros interrompidos, os objetos que sobreviveram às mudanças e aquela desordem pequena que denunciamos como «momentânea», embora viva connosco há anos. Deixar alguém entrar na minha casa é permitir-lhe conhecer a minha vida e fazer parte da família.
Talvez seja esse o verdadeiro significado de receber: não é mostrar uma casa, é oferecer abrigo.
Depois, a meio da semana, houve um mojito com uma amiga especial. Uma daquelas pessoas que entram devagarinho na nossa vida, embora já andassem há algum tempo pelas imediações. Porque há pessoas que conhecemos durante anos sem percebermos logo que um dia serão casa.
As amizades não obedecem ao calendário. Algumas chegam como tempestades, viram tudo do avesso e deixam-nos a procurar os móveis. Outras aproximam-se em silêncio. Primeiro são uma conversa, depois uma coincidência, mais tarde uma presença. Quando damos por isso, já têm uma chávena preferida dentro de nós.
Esta amiga chegou assim. Devagarinho. E agora faz parte dos meus dias, ocupa um lugar especial no meu quotidiano e merece aquilo que tenho de mais raro: o meu tempo.
A minha agenda, devo confessar, tem frequentemente o aspeto de um jogo de Tetris organizado por alguém mal-intencionado. Tudo encaixa por pouco, qualquer imprevisto ameaça provocar uma derrocada e uma hora livre é quase uma espécie protegida.
Por isso, quando paro para estar com alguém, estou verdadeiramente a escolher essa pessoa.
Não lhe ofereço apenas um mojito, um jantar ou um café. Ofereço-lhe uma parte da minha vida que não poderei usar outra vez. O tempo é o único bem que gastamos sem nunca sabermos exatamente quanto ainda temos. Não se guarda, não se recupera, não aceita devoluções. É um comerciante pouco simpático e nunca dá troco.
Talvez seja por isso que dar tempo seja uma das formas mais sérias de amar.
Quando te dou duas horas da minha vida, essas horas deixam de me pertencer para passarem a ser nossas. Ficam numa conversa, numa gargalhada, num silêncio confortável ou no tilintar do gelo dentro de um copo. Desaparecem do relógio, mas entram na memória.
Depois há as minhas manhãs e as minhas queridas amigas do café do costume no lugar de sempre.
Somos de gerações diferentes, mas as gargalhadas nunca nos pediram a data de nascimento. Sentamo-nos à mesma mesa e, por algum tempo, as idades deixam de fazer contas. Levamos connosco os nossos mundos, as nossas histórias, as preocupações, a boa disposição e os males do planeta, que analisamos com a seriedade de um conselho de segurança e resolvemos, quase sempre, antes de acabar o café.
Infelizmente, o mundo ainda não percebeu que estamos disponíveis para o governar durante as manhãs.
Falamos. Rimos. Escutamo-nos. Partilhamos pequenas coisas que, vistas de fora, talvez pareçam insignificantes. Mas a vida é quase toda feita dessas insignificâncias: alguém que pergunta se estamos bem e fica tempo suficiente para ouvir a resposta; alguém que percebe uma tristeza escondida atrás de uma piada; alguém que guarda para nós uma história porque sabe que vamos gostar de a ouvir.
Em poucos meses, construímos uma espécie de aldeia matinal.
Já sentimos a falta umas das outras quando alguma não aparece. Fica uma cadeira vazia e a mesa perde um pouco o equilíbrio.
Tenho por cada uma delas um carinho especial. São diferentes, únicas, generosas, atentas, disponíveis. Pessoas de coração bom, e um coração bom continua a ser uma das inteligências mais raras que conheço.
Não sei explicar exatamente quando deixámos de ser apenas mulheres que coincidiam num café e passámos a fazer parte da vida umas das outras. Talvez as amizades verdadeiras nasçam assim: enquanto estamos distraídas. Vão criando raízes por baixo das conversas, até que um dia percebemos que já nos dão sombra.
Esta semana houve um jantar, flores na mesa, uma sangria de verão, um mojito e muitos cafés. Dito assim, pode parecer apenas uma semana agradável.
Mas não foi apenas isso. Foi uma semana cheia de pessoas a quem abri a casa, os dias e o coração. Pessoas com idades diferentes, histórias diferentes e lugares únicos na minha vida. Pessoas a quem dei o meu tempo e que me ofereceram o delas.
E houve nisso uma felicidade profunda. Uma felicidade sem fogo de artifício, mas com gelo nos copos. Sem grandes acontecimentos, mas com cadeiras ocupadas pelas pessoas certas.
Dizemos muitas vezes que passámos tempo com alguém. Eu acho que o tempo não passa quando estamos verdadeiramente juntos. Senta-se connosco. Bebe um copo. Escuta as conversas. E, por algumas horas, esquece-se de nos envelhecer.
Esta semana gastei tempo com quem amo. E talvez a amizade seja precisamente isto: escolhermos gastar juntos aquilo que a vida nunca nos devolverá.
Há quem lhe chame tempo perdido.
Eu chamo-lhe vida ganha.
PB
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