Regressos
O calendário diz que entrámos no outono. O calor, pelos vistos, não recebeu o aviso. Ao fim da tarde, ainda há verão no ar. Entretanto, já se abriram os cadernos e se começaram a acertar horários. Ou a tentar.
Ainda nem passou uma semana de explicações e a agenda já tem setas, rasuras e trocas. Há horas que mudam de lugar, mensagens a responder, encaixes por descobrir. Chego ao fim do dia cansada. O recomeço tem este lado menos bonito, feito de relógios desregulados e de contas que não aparecem nos manuais. Mas também tem uma alegria difícil de explicar a quem nunca esperou pelo regresso de um aluno.
Os antigos voltam e, com eles, uma familiaridade construída devagar. É bom matar saudades, ouvir o que aconteceu entretanto e perceber que a confiança sobreviveu às férias. Aos novos abro a porta e dou as boas-vindas. Ainda estamos a conhecer-nos: eu procuro perceber como pensam, onde hesitam, o que já sabem sem se terem dado conta. Eles vão descobrindo que aqui podem fazer perguntas, mesmo aquelas que julgavam demasiado simples.
E depois há os encontros em que o tempo parece dobrar-se um pouco: chegam filhos de antigos alunos. Acolho-os debaixo da minha asa, como acolhi outrora os pais. Com a ternura de reconhecer uma história que continua e com o cuidado de não a confundir com a que agora começa. Cada filho traz a sua própria maneira de olhar para o mundo. Merece ser conhecido por si.
Talvez ensinar comece precisamente aí. Antes da resposta certa, há alguém a tentar encontrá-la. Há a dúvida que custa a dizer em voz alta, o erro que parece maior do que é, a coragem necessária para voltar a tentar. A Matemática e a Físico-Química pedem rigor. E o rigor cresce melhor quando um aluno se sente suficientemente seguro para pensar, experimentar e perguntar «porquê?».
Explico, claro. Volto atrás, procuro outra maneira, desenho, faço perguntas. Às vezes, a parte mais importante é esperar um instante e deixar que seja o aluno a chegar lá. Nesse momento, qualquer coisa muda: o resultado já não é apenas uma resposta no caderno. É uma pequena prova de que consegue.
Os horários ainda vão precisar de acertos. Eu também precisarei de descanso. Mas esta semana, apesar do cansaço, lembrou-me por que continuo a abrir a porta: para receber quem chega pela primeira vez, para reencontrar quem regressa e para oferecer a cada um espaço para crescer.
Lá fora, o verão resiste ao outono. Cá dentro, recomeçamos.
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