Os filhos crescem para fora de nós

Este verão passou depressa demais.

O mais estranho é que houve dias que me pareceram longos. Muito longos. Mas, quando dei por isso, o verão tinha acabado e eu ficara com a sensação de que me faltava um pedaço dele.

Faltava-me um mês.

O mês em que a minha filha esteve na Roménia.

Eu sabia que era apenas um mês. Disse isso a mim própria várias vezes, com aquele tom sensato que usamos quando tentamos convencer o coração de alguma coisa que a cabeça já percebeu há muito.

Um mês passa depressa. E passou.

Mas foi um mês a menos da companhia dela. Um mês sem a sua presença nos meus dias, sem as conversas que surgem sem serem marcadas, sem aqueles pequenos momentos que parecem não ter importância até deixarem de acontecer.

A ausência vive muito dessas coisas pequenas.

Não é feita apenas da falta que alguém nos faz nas grandes ocasiões. É feita, sobretudo, da vontade de dizer qualquer coisa e perceber que a pessoa não está ali; de uma casa que continua igual, mas parece ter mudado ligeiramente de tamanho; da consciência de que alguém que amamos está a viver dias dos quais não fazemos parte.

Eu sabia que ela estava bem. Sabia que aquela viagem era importante, que fazia parte do seu caminho e que lhe permitiria crescer, aprender e conhecer outro lugar. Estava feliz por ela. Muito orgulhosa, até.

Mas o orgulho não cura a saudade.

Os dois sentimentos convivem. Nem sempre pacificamente.

Acho sempre que esta filha cresce depressa demais. Olho para ela e, por vezes, tenho a sensação absurda de que o tempo lhe deu autorização para avançar sem me consultar.

Claro que os filhos crescem. Sempre soube isso. Só não sabia que acontecia tão depressa.

Durante muito tempo, imaginamos que haverá sempre mais um verão, mais um jantar, mais uma tarde sem pressa. Pensamos que ainda falta muito para os filhos serem adultos, até ao dia em que percebemos que já são. Não houve qualquer cerimónia oficial. Ninguém nos enviou um aviso. Aconteceu enquanto estávamos ocupadas a tratar da vida.

Primeiro precisam de nós para tudo. Depois começam a resolver pequenas coisas sozinhos. Um dia tomam decisões importantes, fazem planos, escolhem os seus caminhos e compram bilhetes de avião.

E nós ficamos muito contentes.

E um pouco desamparadas.

Passei anos a ensinar os meus filhos a serem independentes e autónomos. Quis que fossem decididos, responsáveis e capazes de construir a sua própria vida. Nunca quis que tivessem medo do mundo nem que permanecessem perto de mim apenas porque não sabiam partir.

Fiz, portanto, aquilo que acreditava ser certo.

O que não percebi foi que a independência tinha passaporte.

Talvez, numa parte pouco confessável de mim, eu imaginasse filhos autónomos, sim, mas dentro de um raio geográfico razoável. Independentes, mas não demasiado longe. Capazes de seguir o seu caminho, desde que o caminho, por gentileza, passasse aqui perto.

A Roménia não constava desse acordo secreto.

O problema é que só eu conhecia o acordo.

Ela fez exatamente aquilo para que foi educada: avançou, aceitou uma oportunidade, entrou num avião e foi viver uma experiência sua. Não esperou que eu estivesse preparada.

E ainda bem.

Se os filhos esperassem que as mães estivessem preparadas, provavelmente nunca sairiam de casa.

Não estava preparada para a falta que ela me fez. Também não estava preparada para perceber que ela conseguia estar longe, organizar-se e viver os seus dias sem mim.

Eu queria que conseguisse. Claro que queria.

Só não sabia que ver concretizado aquilo que desejamos também pode doer.

Talvez seja esta uma das contradições da maternidade: queremos criar filhos capazes de caminhar sozinhos, mas uma parte de nós continua a procurar a mão pequena que segurávamos quando atravessávamos a rua.

Não quero prendê-la. Não quero que reduza os seus sonhos para ficar mais perto de mim. Se amanhã surgir outra oportunidade importante, voltarei a dizer-lhe que vá, e depois, provavelmente, ficarei cheia de saudades outra vez.

As duas coisas são verdadeiras.

Posso querer que ela parta e desejar que fique. Posso sentir orgulho pela mulher em que se está a transformar e ter saudades da menina que ainda encontro nela. Posso saber que a distância lhe faz bem e, ao mesmo tempo, não gostar nada da distância.

Ser mãe também é aprender a viver com verdades que parecem contradizer-se.

Quando ela regressou, fiquei feliz por voltar a tê-la perto. Mas aquele mês não regressou com ela. O verão tinha avançado e eu continuava com a sensação de que o tempo me fugia por entre os dedos.

Talvez porque não tenha sido apenas a viagem à Roménia.

A viagem tornou visível aquilo que já estava a acontecer: a minha filha está a crescer, a construir uma vida que lhe pertence e a afastar-se, não de mim, mas da infância.

E eu ainda não me habituei.

Passo demasiado tempo sem ela e não me habituo à ideia. Talvez nunca me habitue completamente. Talvez não seja suposto habituarmo-nos à ausência de quem amamos, como se a saudade fosse uma falha que precisasse de ser corrigida.

Podemos aprender a aceitá-la. Podemos continuar os nossos dias, trabalhar, conversar, rir e fazer tudo o que precisa de ser feito. Mas haverá sempre momentos em que a falta se senta ao nosso lado sem pedir licença.

Os filhos não deixam de precisar de nós. Passam a precisar de outra maneira.

Já não precisam que lhes escolhamos o caminho ou que resolvamos cada dificuldade. Talvez precisem apenas de saber que continuamos aqui. Que podem partir sem perder o lugar de onde partiram. Que existe uma casa, um abraço e uma mãe onde não têm de justificar o regresso.

Estou a tentar aprender esta nova forma de ser mãe. Uma mãe que não segura, mas acompanha, que não impede a partida, mesmo quando custa, que confia na educação que deu e na pessoa que ajudou a crescer.

Continuarei a dizer-lhe que vá, sempre que ir for importante para ela e continuarei também a ter saudades.

Ensinei-a a seguir o seu caminho.

Agora estou a aprender a ser o lugar onde pode sempre voltar.

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