O primeiro teste não é uma sentença
Há um momento, no início de cada ano letivo, em que o primeiro teste regressa às mãos dos alunos.
Antes de a folha chegar à mesa, já o coração fez várias contas, quase todas erradas. O professor aproxima-se, o silêncio aumenta e, durante alguns segundos, parece que aquele número escrito no canto superior da página está prestes a revelar não apenas o resultado de um teste, mas o futuro inteiro.
Há quem olhe imediatamente.
Há quem vire a folha ao contrário, como se a nota pudesse melhorar alguns valores enquanto permanece escondida.
Há quem espreite discretamente a classificação do colega, porque a comparação é uma tentação rápida e raramente pede autorização.
E há quem descubra, naquele instante, que afinal rezar continua a ser uma estratégia de avaliação bastante popular.
Depois, vê-se o número.
Às vezes chega o alívio. Outras vezes, a alegria. Há também a desilusão, a vergonha, a raiva ou aquele silêncio de quem tinha estudado e não compreende o que correu mal.
O primeiro teste tem este poder excessivo: acontece cedo demais e, ainda assim, convence-nos de que já sabe tudo sobre o resto do ano.
Não sabe.
O primeiro teste não é uma sentença.
É uma fotografia tirada num determinado dia, sob determinadas condições, a uma parte daquilo que um aluno conseguiu mostrar. Pode ser uma fotografia nítida ou tremida. Pode apanhar um momento bom ou um dia particularmente difícil. Pode revelar trabalho, lacunas, distrações, ansiedade ou uma estratégia de estudo que parecia resultar até ser posta à prova.
Mas uma fotografia não é um filme inteiro.
E setembro - ou outubro - ainda não conhece o final da história.
Isto não significa que uma nota baixa deva ser ignorada. Dizer “não faz mal” e arrumar o teste no fundo da mochila pode ser tão inútil como transformar a classificação numa tragédia familiar com banda sonora e três atos.
Faz mal, sim, se o resultado ficou abaixo do que era possível. Pode custar. Pode desiludir. Pode obrigar a admitir que o estudo não foi suficiente ou que a forma de estudar não estava a funcionar.
Mas fazer mal não é o mesmo que estar tudo perdido.
Uma nota baixa é um sinal. E os sinais servem para orientar, não para humilhar.
Depois do primeiro impacto, é preciso voltar à folha. Não apenas ao número, mas ao que está por baixo dele.
Onde se perderam os pontos? Faltou compreender a matéria ou faltou praticar? Houve perguntas que não foram bem lidas? O tempo foi mal gerido? Estudou-se apenas na véspera? Decoraram-se respostas sem perceber verdadeiramente as ideias? O nervosismo apagou aquilo que se sabia?
Dois alunos podem ter exatamente a mesma nota e precisar de mudanças completamente diferentes.
Um precisa de estudar mais. Outro precisa de estudar de outra maneira. Outro precisa de começar mais cedo. Outro sabe a matéria, mas bloqueia quando recebe o teste. E há ainda aquele que conhece todos os conteúdos, exceto precisamente os que saíram, um fenómeno estatístico misterioso que os estudantes atribuem geralmente a perseguição pessoal.
Por isso, olhar apenas para a classificação é ficar à porta da informação.
O teste corrigido pode ser um mapa. Mostra-nos o lugar onde estamos e sugere o caminho que falta percorrer. Mas um mapa só é útil quando temos coragem de olhar para ele sem o confundir com o território inteiro.
“Tive um 8” não significa “sou um aluno de 8”.
Parece uma pequena diferença de palavras, mas não é.
No primeiro caso, falamos de um resultado que pode ser analisado e transformado. No segundo, colamos uma etiqueta a uma pessoa. E as etiquetas, quando são repetidas demasiadas vezes, começam a parecer destinos.
Nenhuma criança ou jovem deve ser reduzido ao número que trouxe num teste. Nem pelos professores, nem pela família, nem pelos colegas. Muito menos por si próprio.
Há alunos que passam anos a viver dentro de uma classificação antiga. Alguém lhes disse que não tinham jeito para Matemática, que não sabiam escrever, que eram distraídos, lentos ou pouco inteligentes. A frase ficou. Cresceu com eles. E, sempre que aparece uma dificuldade, essa voz regressa para confirmar aquilo que nunca deveria ter sido decretado.
Mas não ter conseguido ainda não é o mesmo que não ser capaz.
É apenas o lugar de onde se parte.
Também uma boa nota precisa de ser recebida com inteligência. Deve ser celebrada, claro. O esforço merece alegria. Mas um bom primeiro teste não concede imunidade para o resto do período, por muito injusto que isso possa parecer.
Um 18 não aprende sozinho a matéria seguinte.
O sucesso também precisa de continuidade. Não para viver obcecado com a possibilidade de descer, mas para compreender o que resultou: estudar com antecedência, praticar, esclarecer dúvidas, descansar antes da prova. Uma boa nota não é apenas um prémio. Pode ser uma pista.
Se dependesse da Emília, todos os testes seriam avaliados segundo critérios diferentes. Seriam valorizadas a capacidade de encontrar o lugar mais confortável da sala, a permanência prolongada sobre os apontamentos e a serenidade perante qualquer prazo. Nesta escala, seria certamente aluna de excelência.
Mas, como ainda não conseguimos convencer o Ministério da Educação a incluir a sesta nos critérios de avaliação, teremos de continuar a lidar com números, percentagens e valores.
Convém apenas não lhes dar mais poder do que aquele que têm.
Aos alunos, diria isto: quando receberem o primeiro teste, respirem antes de decidirem o que ele significa.
Se a nota for boa, alegrem-se. Não a escondam atrás de um “foi sorte” ou “o teste era fácil”. Reconhecer o próprio esforço não é vaidade. É justiça.
Se a nota for má, deixem que custe durante algum tempo. Não é obrigatório sorrir imediatamente nem fingir que não se importam. Mas, depois, regressem à folha. Procurem o que precisa de mudar. Falem connosco. Façam perguntas. Reorganizem o plano.
Uma má nota pode ser um ponto de viragem, desde que não a transformemos num ponto final.
Às famílias, pediria uma coisa ainda mais simples e talvez mais difícil: recebam primeiro o aluno e só depois a classificação.
Antes de perguntarem quanto teve o colega, perguntem o que aconteceu. Antes do sermão, escutem. Antes de concluírem que não estudou, tentem perceber como estudou. Uma criança que regressa a casa com uma nota baixa já conhece o número. O que ainda não sabe é se continuará a ser vista para além dele.
Isso não significa desculpar tudo nem retirar responsabilidade. Amar um aluno também é ajudá-lo a reconhecer quando podia ter trabalhado mais. Mas a exigência não precisa de humilhação para ser séria.
Podemos dizer “isto não foi suficiente” sem dizer “tu não és suficiente”.
Há uma diferença imensa entre as duas frases. Às vezes, uma vida inteira.
Na nossa Academia, queremos boas notas. Trabalhamos para elas, celebramo-las e sabemos que não aparecem por magia, apesar de alguns alunos continuarem a testar esta hipótese com admirável persistência.
Mas sabemos também que aprender é um processo. Há conhecimentos que chegam depressa e outros que precisam de dar várias voltas antes de encontrarem lugar. Há alunos que arrancam rapidamente e outros que começam devagar, ganhando força pelo caminho.
O importante é que o primeiro resultado não os convença a abandonar a viagem.
Uma sentença encerra uma história. Um teste deve abrir perguntas.
O que já sei?
O que ainda não compreendi?
O que preciso de fazer de outra maneira?
Quem me pode ajudar?
Qual é o próximo passo?
É assim que uma classificação deixa de ser uma pedra e se transforma num degrau.
O primeiro teste não diz quem somos. Diz apenas onde estávamos naquele dia, perante aquelas perguntas, com a preparação que tínhamos naquele momento.
Ainda há matéria por aprender, erros por corrigir, métodos por descobrir e confiança por construir.
Ainda há tempo.
E, sobretudo, ainda há um ano inteiro por escrever.
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