Não comecei tarde. Comecei quando pude.
No currículo, as datas comportam-se bem.
Formam colunas, aceitam parênteses e deixam-se ordenar da mais recente para a mais antiga. Não fazem perguntas inconvenientes nem revelam o que aconteceu entre uma linha e a seguinte. Um currículo tem essa habilidade extraordinária de transformar uma vida numa sucessão de acontecimentos aparentemente planeados.
A vida, porém, tem a indelicadeza de não caber numa folha de cálculo.
Entre a licenciatura e o mestrado há, no meu currículo, um espaço em branco. À primeira vista, parece apenas tempo decorrido. Mas aquele espaço não está vazio.
Nele, perdi o meu pai e a minha avó no espaço de três meses.
Três meses são uma estação do ano. Tempo suficiente para as árvores mudarem de roupa, mas demasiado pouco para um coração aprender duas ausências.
O luto não aparece nos certificados. Não concede créditos, não atribui diplomas e raramente respeita calendários. Instala-se dentro de nós e muda silenciosamente a ordem das coisas. O mundo continua a abrir lojas, a marcar reuniões e a exigir respostas a emails, com uma normalidade quase ofensiva. E nós continuamos também, embora já não sejamos exatamente a mesma pessoa que começou o caminho.
Entretanto, fui mãe. Primeiro de um filho e, mais tarde, de uma filha.
Trabalhei para sustentar os dois. Não como figura de estilo nem como nota de rodapé num relato de superação. Trabalhei porque era preciso pagar contas, cuidar, ensinar, alimentar, proteger e fazer com que a vida continuasse a acontecer, mesmo nos dias em que eu própria não sabia muito bem de onde retirava forças para a empurrar.
Também abdiquei de ir mais longe porque tinha uma mãe para apoiar.
Há renúncias que, vistas de fora, parecem falta de ambição. Mas nem todas as pessoas que param desistiram. Algumas apenas ficaram para trás porque alguém precisava que elas ficassem.
Não adiei por falta de sonhos. Adiei porque havia pessoas que eu não podia adiar.
Os estudos podiam esperar. A minha mãe precisava de mim naquele presente.
Há escolhas que não fazemos entre o bem e o mal, nem sequer entre aquilo que queremos e aquilo que não queremos. Fazemo-las entre duas formas de amor. E depois vivemos com a que deixámos à espera.
Durante muito tempo, ensinaram-nos que uma vida bem-sucedida deveria obedecer a uma cronologia rigorosa: estudar na idade certa, escolher cedo a profissão certa, construir uma carreira sem interrupções e saber, de preferência aos dezoito anos, quem queremos ser para o resto da vida.
Como se a identidade viesse acompanhada de manual de instruções, garantia e assistência técnica.
Como se mudar de caminho fosse sinal de desorientação e não, tantas vezes, prova de que finalmente começámos a prestar atenção.
O meu percurso começou na Engenharia Química. Mais tarde, levou-me à Educação e à Supervisão Pedagógica. Muito depois, trouxe-me ao doutoramento em Estudos Globais, na área das Ciências da Educação.
Escrito assim, parece um trajeto pensado com régua: uma linha com princípio, meio e uma seta muito competente a indicar o futuro.
Não foi.
Felizmente.
As linhas retas são excelentes para ligar dois pontos, mas pouco sabem sobre aquilo que encontramos pelo caminho.
Entre o mestrado e o doutoramento não existiu uma pausa. Existiu uma vida inteira.
Houve dois filhos para criar e sustentar. Houve uma mãe que precisava de apoio. Houve centenas de alunos, cada um com as suas dificuldades, perguntas e pequenas vitórias. Houve horas infindáveis de Físico-Química e de Matemática, problemas resolvidos em folhas, quadros e ecrãs, noites de preparação e dias em que um exercício com solução exata parecia quase uma delicadeza.
As equações, ao contrário da vida, costumam ter a boa educação de nos dizer o que procuram.
A vida raramente oferece dados suficientes. Obriga-nos a avançar com incógnitas, muda as condições a meio do problema e, por vezes, ainda nos retira a calculadora.
Houve trabalho. Muito trabalho. Houve cansaço, responsabilidade, medo e uma vida que não deu tréguas. Mas houve também aprendizagem, afeto, encontros, alunos que deixaram marcas e a estranha felicidade de perceber que ensinar alguém pode ser uma das formas mais discretas de mudar o mundo.
Por isso, não cheguei ao doutoramento depois de um intervalo.
Cheguei depois de uma vida.
Não trouxe apenas a formação académica anterior. Trouxe os meus filhos, mesmo quando não estavam fisicamente comigo. Trouxe o meu pai e a minha avó nas ausências que me ensinaram. Trouxe a minha mãe e a escolha de ter ficado. Trouxe a perda do meu avô e trouxe centenas de alunos, milhares de exercícios, horas de aulas e todas as perguntas que só aprendemos a formular depois de vivermos o suficiente para perceber que as respostas simples quase nunca chegam.
Talvez o mais importante numa investigação não seja encontrar rapidamente respostas. Talvez seja ter vivido o suficiente para fazer perguntas que valham a pena.
Às vezes penso que nunca mudei verdadeiramente de área. A Engenharia Química ensinou-me a observar transformações. A Educação ensinou-me que as transformações humanas são mais lentas, mais imprevisíveis e muito menos obedientes às leis conhecidas.
As moléculas, pelo menos, não têm crises existenciais.
Continuo, portanto, interessada na transformação: naquilo que acontece quando alguém aprende, quando um professor muda a sua prática, quando uma tecnologia abre uma possibilidade ou quando uma pessoa, depois de muitos anos a acreditar que já era tarde, decide começar.
Talvez por isso reconheça tão bem os meus estudantes adultos que regressam à universidade depois de anos afastados dos livros. Muitos chegam com receio, quase a pedir desculpa pelo tempo decorrido. Dizem que já não estudam há muito, que a memória não é a mesma, que talvez tenham deixado passar a sua oportunidade.
Mas ninguém regressa verdadeiramente ao ponto de partida.
Quem volta a estudar traz consigo tudo o que viveu: o trabalho, a família, as dificuldades, os erros, as perdas, as responsabilidades e uma coragem que raramente aparece nas pautas.
Não começa do zero.
Começa do lugar onde a vida o trouxe.
A universidade sabe contar créditos. Nem sempre sabe contar coragem.
O mundo, por sua vez, gosta muito de relógios. Há um relógio para terminar um curso, outro para encontrar trabalho, outro para construir uma família e outro para progredir na carreira.
E há uma crueldade particular nesse modo de medir o tempo quando se trata das mulheres. Exige-se que avancemos depressa, embora tantas vezes nos ocupem as mãos com o cuidado dos filhos, dos pais, da casa, dos alunos e de todos aqueles que precisam de nós. Depois, estranham que cheguemos mais tarde aos lugares onde também queríamos chegar.
Esquecem-se de que não estivemos paradas.
Estávamos a sustentar vidas.
Não comecei este novo caminho apesar de tudo o que aconteceu antes.
Comecei também por causa de tudo o que aconteceu antes.
Há conhecimentos que só amadurecem depois de atravessarem a vida. Há ideias que precisam de permanecer algum tempo no escuro, como se estivessem a ganhar olhos. E há sonhos que não desistem de nós. Ficam sossegados num canto, cobertos por uma fina camada de pó, até ao dia em que voltamos a reconhecê-los.
Não nos censuram pela demora.
Os sonhos têm, por vezes, mais paciência do que nós.
Hoje, quando olho para trás, vejo um caminho que foi recolhendo matéria: pessoas, experiências, perdas, perguntas, falhas, afetos e aprendizagens. Tudo aquilo que parecia afastar-me acabou, de algum modo, por chegar comigo.
Nem todos os caminhos mais longos estão errados.
Alguns precisam apenas de passar pelos lugares onde nos tornamos quem somos.
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