Manifesto para um ano que ainda não sabe do que somos capazes
Há um instante estranho no início de cada ano letivo em que tudo parece ainda possível.
Os cadernos não têm erros, as canetas conservam as tampas, os horários ainda não foram amarrotados no fundo das mochilas e há uma espécie de confiança com cheiro a papel novo. Fazemos planos. Estabelecemos metas. Compramos marcadores de várias cores, convencidos de que a organização cromática resolverá grande parte dos nossos problemas.
Durante alguns dias, acreditamos sinceramente que nunca deixaremos matéria acumular, que estudaremos sempre com antecedência e que nenhum trabalho será iniciado na véspera da entrega.
É uma fase bonita.
Na nossa Academia, a Emília também começa o ano cheia de boas intenções. Tenciona dormir mais, ocupar um maior número de cadeiras e aperfeiçoar a técnica de se deitar precisamente sobre a folha de que alguém precisa. Cada um estabelece as metas que estão ao alcance das suas patas.
Mas este texto não é sobre a Emília. Pelo menos, não inteiramente.
É sobre os alunos que regressam às aulas com sonhos, receios e mochilas onde, além dos livros, transportam coisas que não aparecem nos horários: a expectativa da família, a memória de uma nota que doeu, o medo de não estar à altura, a vontade de fazer melhor e aquela dúvida silenciosa que tantas vezes os acompanha: será que sou capaz?
A resposta mais honesta é esta: ainda não sabemos.
E isso é uma excelente notícia.
Não sabemos porque o ano ainda não aconteceu. As dificuldades ainda não tiveram a última palavra. Os testes ainda não foram escritos. As matérias que hoje parecem impossíveis talvez venham a tornar-se claras. E a pessoa que chegará a junho não é exatamente a mesma que agora entra em setembro. Entre uma e outra haverá aulas, erros, perguntas, cansaço, descobertas, alguma irritação, várias contas riscadas e muitas pequenas vitórias que ninguém conseguirá prever.
Por isso, este é um manifesto para um ano que ainda não sabe do que somos capazes.
Comecemos por admitir que queremos boas notas.
Não é preciso fingir que as classificações não importam. Importam. Reconhecem o trabalho, abrem portas e aproximam-nos dos caminhos que desejamos seguir. Eu quero que os meus alunos tenham boas notas. Quero vê-los descobrir que conseguem chegar mais longe do que julgavam.
Mas quero também que saibam que uma nota não contém uma pessoa inteira.
Um 12 não mede a coragem necessária para voltar a tentar. Um 15 não revela todas as horas de trabalho que ficaram escondidas. Um 18 não torna ninguém mais digno. E uma classificação baixa não apaga a inteligência, a sensibilidade ou as possibilidades de quem a recebeu.
As notas dizem alguma coisa. Nunca dizem tudo.
Comecemos antes de nos sentirmos completamente preparados.
Há quem passe tanto tempo à espera do momento ideal para estudar que, quando ele finalmente chega, já é quase hora do teste. Esperamos pela mesa arrumada, pelo silêncio absoluto, pela disposição certa, pelo alinhamento dos planetas e, se possível, por uma intervenção divina de pequena dimensão.
O problema é que a vontade nem sempre chega primeiro.
Às vezes, começa-se sem vontade. Abre-se o livro. Resolve-se um exercício. Lê-se uma página. E é durante esse pequeno movimento que a motivação, encontrando a porta aberta, decide entrar.
Não precisamos de começar de forma brilhante. Precisamos apenas de começar.
Não deixemos todo o trabalho para a pessoa que seremos amanhã.
Temos uma confiança comovente no nosso “eu do futuro”. Acreditamos que amanhã teremos mais energia, mais tempo, mais paciência e uma vontade extraordinária de estudar tudo aquilo que hoje decidimos adiar.
É uma injustiça. Essa pessoa de amanhã já terá os seus próprios problemas e ainda receberá os nossos.
O sucesso escolar raramente nasce de gestos heroicos. Constrói-se em dias vulgares: numa terça-feira em que se revê a matéria, numa dúvida esclarecida antes que ela se torne uma confusão, num exercício repetido até deixar de parecer impossível. As grandes mudanças gostam de se disfarçar de pequenos hábitos.
Estudar regularmente não significa viver curvado sobre os livros. Significa evitar que a matéria se transforme numa avalanche precisamente na semana dos testes. Significa fazer hoje uma parte pequena, para não exigir amanhã de nós aquilo que nenhum ser humano descansado aceitaria fazer.
Perguntem.
Perguntem quando não perceberem. Perguntem outra vez se a primeira explicação não chegar. Digam “não sei” sem vergonha e “preciso de ajuda” antes de o desânimo se instalar.
A inteligência não está em compreender tudo à primeira. Está também em reconhecer uma dificuldade e procurar outra forma de chegar até ela.
Há perguntas que parecem pequenas e abrem janelas inteiras. Há silêncios que, quando duram demasiado, acabam por construir paredes.
Na nossa Academia, ninguém perde valor por não saber. Estamos ali precisamente porque há coisas que ainda não sabemos. Se todos chegassem ensinados, restar-nos-ia fechar os livros e entregar a gestão pedagógica à Emília, que tem grande disponibilidade de horário, embora pouca apetência para reuniões.
Não façam da comparação uma disciplina obrigatória.
Haverá sempre alguém que parece aprender mais depressa, responder primeiro ou conseguir melhores resultados com uma facilidade irritante. Mas nós vemos apenas a superfície da vida dos outros. Não conhecemos todas as suas horas, medos, apoios ou dificuldades.
O colega do lado não é a nossa unidade de medida.
A pergunta importante não é “fui melhor do que os outros?”. É essencialmente: “aprendi?”, “avancei?”, “fiz melhor do que antes?”, “sei agora alguma coisa que ainda não sabia?”.
Nem todos começam no mesmo lugar. O mérito não está apenas na distância alcançada, mas também no caminho que foi necessário vencer.
Quando falharem, não façam do erro uma morada.
Um teste pode correr mal. Um plano pode falhar. Haverá semanas em que a organização ficará esquecida ao lado dos marcadores coloridos. Isso não transforma ninguém num fracasso. Apenas prova que somos humanos e que os seres humanos, ao contrário das máquinas e de alguns enunciados de Matemática, raramente funcionam de forma linear.
O erro deve ser visitado, não habitado.
Olhem para ele. Percebam o que aconteceu. Faltou estudo? Faltou tempo? A estratégia não resultou? Houve ansiedade? Não se compreendeu verdadeiramente a matéria? Depois mudem alguma coisa. Uma nota só se torna uma sentença quando desistimos de escrever o que vem a seguir.
Descansem sem abandonar o caminho.
O descanso não é preguiça. Dormir, parar, conversar, rir e fazer coisas que não contam para a média são também formas de cuidar da pessoa que precisa de aprender.
Um cérebro cansado pode permanecer duas horas diante de um livro e passar esse tempo a reler a mesma frase, enquanto pensa em bolachas ou no sentido da existência. Nem sempre estar sentado a estudar significa estar realmente a aprender.
Devemos, contudo, evitar o extremo defendido pela Emília, para quem qualquer período de atividade superior a sete minutos exige uma recuperação de três horas.
Equilíbrio é saber parar. E saber voltar.
Este ano, não prometam nunca ter medo.
Prometam avançar apesar dele.
Não prometam compreender tudo à primeira. Prometam perguntar.
Não prometam nunca falhar. Prometam regressar depois da queda.
Não prometam estudar todos os dias com entusiasmo. Prometam não entregar todas as decisões à falta de vontade.
Não prometam ser perfeitos. A perfeição é uma criatura antipática: chega tarde, critica tudo e nunca ajuda a resolver os exercícios.
Prometam apenas estar presentes no vosso próprio caminho.
Um ano escolar não se vence num único dia. Constrói-se devagar, entre aquilo que desejamos e aquilo que estamos dispostos a fazer por esse desejo. Haverá momentos bons e outros difíceis. Haverá dias em que avançaremos muito e dias em que o maior triunfo será não desistir.
E, quando for preciso, estaremos aqui.
Para explicar de outra maneira. Para recordar que uma dificuldade não é uma identidade. Para celebrar uma nota boa, compreender uma nota menos boa e ajudar a transformar um “não consigo” num “ainda não consigo”.
Setembro entrega-nos uma página em branco, mas não exige que escrevamos imediatamente uma obra-prima. Pede-nos apenas a primeira frase.
Por isso, arrumem a mochila, escolham uma meta que vos faça crescer e comecem. Sem esperar pela coragem perfeita, pelo plano perfeito ou pelo dia perfeito.
Comecem apenas. O desafio está lançado...
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