Hoje, conto os anos por ti

Hoje farias setenta e oito anos, pai.

Escrevo este número e demoro-me nele. Tento imaginar-te com a idade que não chegaste a ter. Como seria o teu rosto, que gestos terias conservado, o que o tempo teria feito à tua voz. Há uma parte de ti que só posso procurar assim, numa possibilidade. Conheço a tua ausência há tantos anos e continuo sem saber como serias hoje.

Partiste com quarenta e quatro. E eu nunca mais contei os dias do mesmo modo.

Desde então, cada data tem o que aconteceu e o que ficou por acontecer. Os anos avançaram, aconteceram tantas coisas, e tu continuaste a faltar de maneiras novas. Porque a saudade também muda com a vida. Há sempre alguma coisa que gostava de te contar pela primeira vez. Há sempre uma idade minha a que chego sem saber como seria ter-te ao lado.

Hoje gostava de te dar os parabéns e ficar a ouvir-te.

Falo contigo todos os dias. Às vezes, digo apenas «pai», e parece-me que já te disse muito. Outras vezes, conto-te o que me preocupa, o que me alegra, aquilo que não sei resolver. Vou falando contigo no meio da vida, sem precisar de escolher uma hora. Há pensamentos meus que ainda te procuram antes de procurarem palavras.

Não sei o que chega até ti. Sei que continuo a dirigir-te o meu amor, mas me faz falta a tua resposta. Por mais que te traga comigo, há dias em que precisava de te ouvir com os meus ouvidos, de te ver ocupar um lugar à mesa, de poder olhar para ti sem recorrer à memória. Manter-te vivo em mim é uma forma de te amar; e continuo a desejar, com a mesma simplicidade impossível, que estivesses aqui.

Gostava de conhecer o teu envelhecer. De acompanhar as pequenas mudanças do teu rosto, de descobrir aquilo em que nos teríamos tornado um para o outro. Também tenho saudades dessa vida que não chegámos a ter. De conversas que nunca aconteceram, de momentos em que te teria procurado, de um abraço teu à pessoa que sou agora.

Tu conheceste-me até certo ponto do caminho. Eu tenho continuado a levar-te pelo resto. Conto-te a minha vida como quem mantém aberta uma conversa. Preciso que haja nela lugar para ti. Que possas continuar a ser o meu pai nos dias comuns, nas dúvidas, nas alegrias que me dão vontade de chamar por alguém. Digo o teu nome, lembro-me de ti, falo contigo. São gestos pequenos, repetidos ao longo dos anos, e neles o nosso vínculo continua a encontrar uma maneira de existir.

Há tanto tempo que te amo na ausência que ainda me espanta que o amor tenha conseguido atravessar tantos anos sem a tua presença a renová-lo. Que continue a procurar-te, a comover-me, a doer. Não ficou intacto: conhece agora a saudade, o esforço de recordar, a fragilidade de certas lembranças. Mas permanece. Faz parte da maneira como vivo, como me ligo aos meus, como sei que um momento junto de alguém pode vir a valer uma vida inteira.

Hoje vou cantar-te os parabéns baixinho.

Talvez a voz me falhe. Há palavras que custam a atravessar a garganta quando trazem tantos anos consigo. Cantarei até ao fim, mesmo baixinho, mesmo com lágrimas, porque hoje nasceste. Antes deste dia ser marcado pela tua falta, foi o dia em que chegaste ao mundo. E eu quero celebrar também isso: teres existido. Teres sido o meu pai. Ter havido um tempo em que pude estar contigo sem saber que, um dia, haveria de o procurar tantas vezes dentro de mim.

É difícil cantar os parabéns a quem não podemos abraçar, mas ainda assim, cantarei. Não sei outra maneira de te entregar este instante. É o que posso fazer com a minha voz, com a saudade, com o amor que continua a querer chegar a ti.

Setenta e oito anos, pai.

Eu conto-os por ti. Guardo o teu aniversário entre os dias que me importam. E amanhã, quando esta data tiver passado, voltarei a falar contigo. Haverá alguma coisa para te contar, uma pergunta, um simples «pai» dito em silêncio.

Parabéns, pai.

Hoje canto-te baixinho e demoro-me, mais um pouco, no teu nome, porque é o mais perto que consigo chegar de um abraço.

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