Cadernos de Setembro — Pequeno guia para um grande ano

Setembro tem esta estranha maneira de chegar: traz cadernos ainda sem erros, horários que ninguém decorou, mochilas demasiado pesadas e uma quantidade generosa de promessas. Este ano vou estudar desde o primeiro dia. Este ano não vou deixar acumular matéria. Este ano vou fazer resumos, organizar os apontamentos e nunca começar um trabalho na véspera.

Depois, naturalmente, a vida acontece.

Há dias em que a vontade não aparece, matérias que parecem escritas numa língua desconhecida, testes que não correm como esperávamos e manhãs em que sair da cama já merecia classificação. A Emília, a aluna mais dorminhoca da nossa Academia, conhece particularmente bem estas últimas. Continua convencida de que uma sesta prolongada sobre os cadernos constitui uma forma legítima de aprendizagem por contacto. Até ao momento, não conseguimos confirmar cientificamente a eficácia do método.

Talvez por isso tenha nascido esta série: Cadernos de Setembro — Pequeno guia para um grande ano.

Não será um manual com fórmulas infalíveis para conseguir boas notas. Se essas fórmulas existissem, seriam certamente mais procuradas do que as resoluções dos testes. Será antes um conjunto de textos sobre aquilo que verdadeiramente ajuda a construir um ano escolar: a vontade de começar, a disciplina nos dias vulgares, a coragem de pedir ajuda, a capacidade de aprender com os erros e a determinação para continuar quando os resultados ainda não mostram todo o esforço realizado.

Falaremos de sucesso e de boas notas, evidentemente. As classificações importam. Abrem portas, reconhecem o trabalho e ajudam-nos a perceber até onde conseguimos chegar. Mas um aluno nunca cabe inteiramente num número escrito no canto de uma folha. Há progressos que nenhum teste consegue medir: vencer o medo de uma disciplina, fazer finalmente uma pergunta, descobrir uma forma própria de estudar, recuperar depois de uma desilusão ou deixar de acreditar que não se é capaz.

Começaremos com “Manifesto para um ano que ainda não sabe do que somos capazes”, porque nenhum setembro conhece ainda a história que escreveremos até junho. Um novo ano não exige que cheguemos perfeitos. Pede apenas que estejamos dispostos a começar.

Depois falaremos sobre uma ideia que nos engana muitas vezes: a de que precisamos de sentir motivação antes de agir. Em “A motivação não vem primeiro”, veremos que a vontade aparece frequentemente depois do primeiro passo, quando abrimos o caderno, resolvemos o primeiro exercício ou começamos finalmente aquilo que passámos demasiado tempo a adiar.

Quando chegarem as primeiras avaliações, recordaremos que “O primeiro teste não é uma sentença”. Uma classificação pode mostrar o que já conseguimos fazer e aquilo que ainda precisamos de melhorar, mas não tem o direito de decidir, tão cedo, a história de um ano inteiro.

A Emília terá também direito a apresentar as suas propostas em “As dez resoluções da aluna Emília”. Entre sestas, refeições e uma vigilância muito pouco discreta dos materiais escolares, talvez tenha alguma coisa a ensinar-nos sobre pausas, tranquilidade e a importância de não viver permanentemente assustado. O seu conceito de equilíbrio, contudo, deverá ser aplicado com prudência: a Emília não tem exames nacionais.

Haverá ainda uma “Carta a quem começa o ano com medo”. Porque nem todos regressam às aulas apenas com entusiasmo. Alguns alunos levam na mochila dificuldades antigas, mudanças, inseguranças ou a memória de um ano que não correu bem. A esses não podemos prometer que tudo será fácil. Podemos lembrar-lhes que não precisam de resolver o ano inteiro no primeiro dia.

Por fim, falaremos daquilo que sustenta verdadeiramente a nossa Academia: as pessoas. Em “Na nossa Academia ninguém aprende sozinho”, celebraremos essa pequena comunidade feita de alunos, professores, famílias, dúvidas partilhadas, conquistas discretas, nervos antes dos testes, gargalhadas nos intervalos e uma gata que participa em tudo, embora quase sempre de olhos fechados.

Este pequeno guia será, portanto, um convite. A estabelecer metas sem permitir que elas nos esmaguem. A trabalhar com seriedade sem perder o humor. A querer chegar mais longe sem esquecer que aprender também é hesitar, falhar, perguntar e recomeçar.

No dia 7 abrimos o primeiro caderno.

Tragam os sonhos, as dúvidas, alguma determinação e uma mochila onde ainda caibam novas possibilidades. A Emília levará o sono e a vontade de lanchar.

Cada um começa com aquilo que tem.

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