As dez resoluções da aluna Emília
Depois de observar atentamente vários anos letivos - quase sempre de olhos fechados -, a Emília decidiu partilhar connosco o seu plano para o novo ano.
Considera-se preparada para esta responsabilidade. Tem experiência prolongada na ocupação de cadeiras, conhece todos os lugares da Academia onde o sol bate durante a tarde e domina uma técnica avançada de concentração que, vista por pessoas menos esclarecidas, pode parecer sono profundo.
É uma incompreendida.
Como qualquer aluna dedicada, a Emília estabeleceu dez resoluções. Algumas são pedagogicamente defensáveis. Outras exigiriam alterações profundas ao sistema educativo e um aumento preocupante do número de almofadas nas salas de aula.
Ainda assim, talvez haja alguma sabedoria escondida entre tantos bocejos.
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Começar o dia sem entrar imediatamente em pânico.
A Emília não consulta calendários, não conta os dias que faltam para os testes e nunca acordou sobressaltada por se ter esquecido de entregar um trabalho. A ausência de obrigações escolares ajuda, evidentemente, mas não explica tudo.
Ela sabe uma coisa que nós esquecemos muitas vezes: o dia não precisa de ser resolvido inteiro logo de manhã.
Há apenas que começar pela primeira coisa. Levantar. Respirar. Preparar a mochila. Chegar à escola. Abrir o caderno. Nenhum aluno precisa de carregar setembro, dezembro e junho às oito da manhã de uma segunda-feira.
Um dia de cada vez já pesa o suficiente.
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Comparecer às aulas, mesmo sem entusiasmo.
A Emília considera que comparecer significa estar fisicamente presente numa divisão, ainda que adormecida e ocupando o lugar de outra pessoa. É uma interpretação generosa do conceito de assiduidade.
Para os restantes alunos, convém acrescentar alguma participação.
Nem todos os dias trazem vontade. Haverá manhãs em que a cama parecerá ter desenvolvido sentimentos e não querer deixar ninguém partir. Ainda assim, aparecer conta. Escutar conta. Copiar o sumário conta. Fazer uma pergunta conta.
Muitas aprendizagens começam antes de estarmos verdadeiramente preparados para elas.
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Escolher cuidadosamente o lugar onde estudar.
Neste domínio, a Emília é especialista. Uma mesa com livros, folhas organizadas e um computador aberto parece-lhe sempre um local excelente para se instalar, sobretudo se alguém estiver a tentar trabalhar.
Não recomendamos esta estratégia aos alunos. Contudo, escolher um lugar minimamente tranquilo, afastar aquilo que distrai e ter por perto os materiais necessários evita muitas fugas.
Porque ir buscar uma caneta pode transformar-se facilmente numa visita ao frigorífico, seguida de uma mensagem, três vídeos e uma investigação inesperada sobre a vida dos pinguins.
O cérebro tem uma imaginação extraordinária quando quer evitar um exercício difícil.
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Fazer pausas regulares.
A Emília leva esta resolução muito a sério. Em certos dias, faz uma pausa antes de começar, outra durante a primeira pausa e uma terceira para recuperar do esforço de ter mudado de posição.
Nós não precisamos de ir tão longe.
Mas estudar cansado, sem intervalos e durante horas intermináveis não é necessariamente estudar bem. A atenção precisa de respirar. Levantar, beber água, esticar as pernas ou olhar por alguns minutos para uma coisa que não tenha perguntas no fim pode ajudar-nos a regressar com mais clareza.
Uma pausa deve devolver-nos ao trabalho. Caso contrário, chama-se abandono temporário com paradeiro desconhecido.
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Não desistir só porque alguma coisa caiu ao chão.
Os gatos mantêm uma relação particular com objetos colocados em superfícies. Observam-nos. Aproximam uma pata. Testam a gravidade. E, quando o objeto cai, contemplam o resultado com a serenidade de um cientista que acaba de confirmar uma hipótese.
Talvez os alunos possam aprender alguma coisa com esta curiosidade, embora devam poupar os copos e as canetas dos colegas.
Errar não significa que a experiência terminou. Significa que obtivemos informação. Uma conta errada mostra onde o raciocínio se desviou. Uma resposta incompleta revela o que falta compreender. Um teste menos bom pode indicar que é preciso mudar o método.
O erro não é o contrário da aprendizagem. Muitas vezes, é o lugar onde ela começa.
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Pedir ajuda sempre que for necessário.
A Emília não perde tempo com subtilezas. Quando quer alguma coisa, comunica-a com a convicção de quem acredita que todo o edifício existe para responder às suas necessidades.
Os alunos, pelo contrário, hesitam frequentemente. Têm medo de fazer uma pergunta “parva”, de admitir que não perceberam ou de serem os únicos com dúvidas.
Quase nunca são os únicos.
Uma pergunta feita a tempo pode evitar horas de confusão. Pedir ajuda não é confessar incapacidade. É recusar que uma dificuldade cresça sozinha, às escuras, até parecer maior do que realmente é.
Há muita inteligência numa boa pergunta.
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Não viver em comparação permanente com os outros.
A Emília não parece preocupada com a possibilidade de existirem gatos mais rápidos, mais elegantes ou com melhor currículo. Nunca a vimos consultar classificações felinas nem comparar o número das suas sestas com o desempenho dos animais da vizinhança.
Talvez saiba que cada criatura tem o seu ritmo.
Na escola haverá sempre alguém que responde mais depressa, termina primeiro ou consegue uma nota melhor. Mas o percurso dos outros não diminui o nosso. A pergunta mais importante não é apenas se fomos melhores do que alguém.
É se hoje avançámos em relação ao lugar onde estávamos ontem.
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Celebrar as pequenas conquistas.
Nem todas as vitórias chegam com um diploma, uma pauta ou pessoas a bater palmas. Às vezes, uma vitória é compreender finalmente uma matéria difícil. Resolver sozinho um exercício. Começar a estudar antes da véspera. Fazer uma apresentação apesar do medo. Subir dois valores depois de semanas de trabalho.
As pequenas conquistas são discretas, mas conhecem o caminho para as grandes.
A Emília celebra acontecimentos ainda menores: uma cadeira desocupada, uma réstia de sol, uma caixa vazia. O seu entusiasmo talvez seja excessivo, mas a ideia merece ser guardada.
Nem tudo o que importa precisa de esperar pelo fim do período para ser reconhecido.
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Descansar sem sentir culpa.
Esta é, naturalmente, a área de excelência da nossa aluna.
A Emília descansa com uma entrega que poucas pessoas conseguem dedicar aos seus grandes projetos. Não verifica o relógio, não pensa na produtividade nem se pergunta se deveria estar a aproveitar melhor o tempo. Limita-se a dormir com a consciência tranquila de quem cumpriu rigorosamente o seu plano.
Os alunos não podem adotar o modelo na totalidade. Há aulas, testes e trabalhos que revelam uma falta de respeito considerável pelo horário das sestas.
Mas podem aprender a parar sem se acusarem de preguiça. O descanso não é tempo roubado ao sucesso. É uma das condições que o tornam possível.
Descansar não é desistir. É preparar o regresso.
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Voltar no dia seguinte.
Esta é a resolução mais importante.
Haverá dias que correm mal. Dias em que o estudo rende pouco, a matéria não entra, a resposta está errada e a confiança desaparece para um lugar onde nem os localizadores dos telemóveis conseguem encontrá-la.
Nesses dias, não é preciso resolver a vida inteira.
É preciso regressar.
Voltar à aula. Voltar ao exercício. Voltar a pedir ajuda. Voltar ao caminho depois de uma pausa, de uma distração ou de uma nota que magoou.
A persistência não é nunca cair. É não transformar o chão em residência permanente.
As resoluções da Emília não devem, portanto, ser seguidas à letra. Se todos os alunos decidirem dormir sobre os cadernos, ocupar as cadeiras dos colegas e testar a gravidade com o material escolar, teremos de rever urgentemente o projeto educativo da Academia.
Mas talvez possamos guardar algumas coisas.
Começar sem pânico. Estar presentes. Fazer pausas. Pedir ajuda. Não viver em comparação. Aceitar o erro. Celebrar os pequenos progressos. Descansar quando for preciso. E voltar.
Sobretudo, voltar.
Um bom ano não se constrói apenas com grandes resultados. Constrói-se com muitos gestos pequenos, repetidos nos dias em que há motivação e também naqueles em que ela falta.
A Emília não terá testes, exames nem trabalhos para entregar. Talvez seja por isso que consegue olhar para os nossos dramas escolares com a serenidade de quem sabe que nenhum número é suficientemente grande para conter uma pessoa inteira.
No fim, a sua principal resolução continuará provavelmente a ser dormir.
A nossa será outra:
continuar a crescer sem esquecer de viver pelo caminho.
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