A motivação nem sempre vem primeiro
Há uma frase que os alunos dizem muitas vezes, geralmente acompanhada por um suspiro suficientemente profundo para deslocar o ar da sala:
“Eu até queria estudar, mas não tenho motivação.”
Compreendo.
A motivação é uma criatura pouco pontual. Promete aparecer depois do almoço, manda mensagem a dizer que está quase a chegar e, quando damos por ela, já são dez da noite e temos um teste no dia seguinte.
Esperar pela motivação é um pouco como esperar por aquela pessoa que diz “já estou a sair” quando ainda está a escolher a roupa. Podemos gostar muito dela, mas talvez não seja prudente confiar-lhe o horário.
Durante demasiado tempo fizeram-nos acreditar que a vontade tinha de chegar antes da ação. Primeiro sentiríamos entusiasmo, depois abriríamos o caderno, estudaríamos durante horas e terminaríamos a noite profundamente satisfeitos, com a matéria compreendida e os apontamentos dignos de exposição.
Às vezes acontece.
Também há gatos que obedecem quando são chamados.
Na maior parte dos dias, porém, a motivação não vem primeiro.
Primeiro vem o gesto.
Sentamo-nos. Abrimos o livro. Escrevemos a data. Lemos o enunciado. Tentamos resolver o primeiro exercício, mesmo sem qualquer entusiasmo e com a sensação de que todas as pessoas do mundo estão, naquele exato momento, a fazer coisas mais interessantes.
E então alguma coisa começa a mover-se.
O que parecia uma montanha transforma-se numa página. A página torna-se um parágrafo. O parágrafo conduz a uma ideia. E, quando damos por nós, já começámos.
A motivação, que tem a curiosa mania de chegar atrasada, encontra-nos a trabalhar e instala-se discretamente ao nosso lado.
Muitas vezes, não começamos porque estamos motivados. Ficamos motivados porque começámos.
Esta é uma ideia importante, sobretudo no início de um novo ano. Porque setembro chega carregado de planos magníficos, mas os planos têm uma relação complicada com as manhãs de chuva, o sono, os telemóveis, as séries, as conversas e todas as outras formas sofisticadas que inventámos para não fazer aquilo que sabemos que precisa de ser feito.
Não é preciso começar com duas horas de estudo, uma secretária impecável e dez marcadores alinhados por ordem cromática. Aliás, por vezes passamos tanto tempo a preparar as condições perfeitas que, quando finalmente tudo está pronto, precisamos de descansar do esforço organizativo.
Começar pode ser muito mais pequeno.
Cinco minutos.
Um exercício.
Uma página.
Uma pergunta escrita num papel.
Uma mochila preparada para o dia seguinte.
Há dias em que o mais difícil não é estudar. É atravessar os poucos centímetros que separam a intenção do primeiro gesto.
Por isso, quando a tarefa parecer demasiado grande, devemos diminuí-la até caber nas mãos. Não pensar em toda a matéria. Pensar no primeiro ponto. Não pensar nas vinte páginas. Pensar na primeira. Não pensar no ano inteiro. Pensar no que pode ser feito hoje.
O cérebro assusta-se com montanhas, mas costuma aceitar degraus.
Também é por isso que a disciplina tem uma fama injusta. A palavra soa a castigo, rigidez e despertadores que tocam quando ainda é noite. Mas a disciplina pode ser uma forma de cuidado.
É o que fazemos hoje para não acumular amanhã.
É estudar um pouco antes de a matéria se transformar numa avalanche. É cumprir uma pequena parte do plano, mesmo quando ninguém está a observar. É proteger o nosso futuro de algumas decisões pouco sensatas do nosso presente.
A disciplina não exige que tenhamos vontade todos os dias. Exige apenas que nem todos os dias sejam governados pela falta dela.
Isto não significa, contudo, que todo o cansaço seja preguiça ou que todas as dificuldades se resolvam com uma agenda bonita.
Há momentos em que a ausência de motivação esconde medo. Medo de tentar e confirmar que não se consegue. Medo de começar uma matéria que parece impossível. Medo de desiludir os outros ou de voltar a ter um resultado que foi mais fraquinho.
Às vezes adiamos não porque não nos importamos, mas precisamente porque nos importamos demasiado.
Nesses dias, não basta dizer “tens de te esforçar”. É preciso perceber o que está a acontecer. Dividir a tarefa. Pedir ajuda. Encontrar outra forma de estudar. Falar com alguém antes de o silêncio tornar o problema maior.
Há ainda dias em que estamos verdadeiramente cansados. Nesses, descansar não é desistir. É reparar as forças com que voltaremos ao caminho.
A Emília concorda profundamente com esta parte. Na verdade, considera que quase todas as atividades humanas poderiam beneficiar de uma sesta anterior, duas pausas intermédias e uma recuperação prolongada. O problema da pedagogia da Emília não está na defesa do descanso. Está na ausência quase total do regresso.
Descansar faz parte do caminho. Abandoná-lo é outra coisa.
A motivação também cresce quando começamos a perceber. Poucas coisas são tão desanimadoras como olhar para uma página e sentir que alguém trocou todas as palavras durante a noite. Mas basta compreender uma ideia para nascer uma pequena abertura. Depois outra. O que era uma parede ganha uma porta.
É por isso que pedir ajuda pode ser um dos gestos mais motivadores que existem.
Quando alguém nos explica de outra maneira, quando conseguimos finalmente resolver aquilo que parecia impossível, não aprendemos apenas uma matéria. Recuperamos uma parte da confiança.
E a confiança alimenta a vontade.
Na nossa Academia, é muitas vezes assim que se avança: uma dúvida de cada vez, uma conta de cada vez, uma explicação repetida tantas vezes quantas forem necessárias.
Não precisamos de sentir paixão por todas as disciplinas. Não precisamos de acordar todos os dias ansiosos por resolver equações, analisar orações ou estudar ligações químicas. Podemos gostar de aprender e, ainda assim, não gostar de tudo o que é necessário fazer para aprender.
Isso não nos torna menos inteligentes nem menos dedicados. Torna-nos humanos.
O segredo não está em transformar cada tarefa numa experiência emocionante. Está em saber por que razão vale a pena fazê-la, mesmo quando não é emocionante.
Há objetivos que começam muito longe. Um curso, uma profissão, um sonho, uma porta que ainda não se abriu. Entre nós e esse lugar existem dias comuns. E são esses dias, precisamente esses, que constroem a ponte.
Não são só os dias extraordinários em que nos sentimos invencíveis.
São também os outros: os dias em que não apetecia, mas fomos.
Os dias em que não percebíamos, mas perguntámos.
Os dias em que fizemos apenas um exercício e, depois dele, mais um.
Os dias em que parámos para descansar e, ao contrário da Emília, regressámos.
Quando a motivação aparecer, recebam-na bem. Aproveitem o entusiasmo, avancem, façam mais um pouco. Mas não lhe entreguem a responsabilidade inteira pelo vosso futuro.
Ela é uma excelente companhia, mas uma péssima chefe.
Amanhã, quando não vos apetecer começar, não discutam demasiado com a falta de vontade. Abram o caderno. Leiam a primeira pergunta. Façam o gesto mais pequeno que ainda vos aproxime do lugar onde querem chegar.
A motivação talvez não venha primeiro, mas pode encontrar-vos pelo caminho.
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