À altura de um abraço

A tristeza que mais me custa tem, quase sempre, alguma coisa de inesperado. Vem de uma voz junto da qual tinha baixado a guarda, de um gesto de quem julgava conhecer o cuidado de que sou feita. Às vezes, cabe inteira numa palavra. Outras, numa ausência: alguém que não está, que não pergunta, que deixa um silêncio precisamente onde eu precisava de uma resposta.

Fico a pensar no pouco que é necessário para magoar uma pessoa. E no pouco que, em certos dias, teria bastado para a amparar.

Gostava que algumas coisas não me atingissem tanto. Gostava de ter uma grandeza tranquila, qualquer coisa de árvore antiga que sabe do vento e permanece. Mas há palavras que me atravessam antes de eu conseguir compreendê-las. Quando tento perceber por que razão doeram tanto, já encontraram outras dores, já tocaram em lugares que eu julgava sossegados. O coração tem esta memória involuntária: um gesto de hoje pode abrir a porta a muitas tristezas antigas.

Sei que nem tudo o que me fere foi feito para me ferir. Há cansaços que tornam as pessoas bruscas, distrações que parecem desamor, dificuldades que desconheço. Procuro lembrar-me disso todos os dias, mas ainda assim, compreender as razões de alguém não me poupa inteiramente ao que sinto. Posso perceber uma palavra e continuar magoada por ela. Posso reconhecer a fragilidade de quem a disse e precisar, também eu, de cuidado.

Todos os dias tento estar bem. Sorrir, abraçar, acolher, estar disponível, atenta, paciente. Ouvir até ao fim, sem ocupar logo o silêncio com uma resposta. Olhar para os meus alunos e perceber o que trazem para além dos livros, o que lhes pesa, o que ainda não sabem dizer, olhar para os meus filhos e reconhecer no olhar ou no silêncio o que trazem por dentro. É uma atenção que quero dar-lhes, que faz sentido para mim. Há dias, porém, em que chegar verdadeiramente ao outro me exige atravessar um deserto imenso e árido dentro de mim mesma.

Nesses dias, preciso de um instante antes de responder. Respiro, reúno a paciência, procuro dentro de mim uma disponibilidade que habitualmente encontraria com mais facilidade e tento continuar.

Durante muito tempo, imaginei que ser forte me tornaria menos vulnerável. Que os anos, a experiência e as dores já atravessadas me dariam alguma distância e fortaleza ou imunidade. Às vezes, no entanto, descubro-me tão pequena como os meus alunos mais pequenos. Preciso de colo com a mesma simplicidade com que eles o procuram, embora tenha aprendido a disfarçar essa necessidade em palavras adultas, em tarefas, e no infalível: «está tudo bem».

Mas há quem perceba esse disfarce e leia no meu olhar, no tom da minha voz, a desilusão, a tristeza ou a mágoa que carrego.

— Precisa de um abraço, stora?

A pergunta chega e eu fico, por um instante, sem a resposta pronta que costumo ter para quase tudo. Há dias em que digo que sim sem palavras. E a lágrima cai, silenciosa e triste, antes de eu conseguir compor o rosto.

Nesse momento, comove-me ter sido vista. Alguém reparou numa demora, numa expressão, em qualquer coisa que me escapou sem eu querer. Alguém encontrou, por detrás da professora, uma pessoa a precisar de ternura.

A sinceridade deles toca-me; as minhas dores continuam a ser minhas para cuidar, é certo, mas aceito o abraço. E há qualquer coisa de profundamente humano nessa possibilidade de receber, por instantes, o cuidado que tantas vezes procuramos dar.

Interrogo-me sobre esta ideia de grandeza que me faz desejar ser inatingível. O que aconteceria à minha atenção aos outros se nada pudesse tocar-me? Como reconheceria a fragilidade de uma criança se tivesse de negar sempre a minha?

Talvez eu nunca venha a ser a pessoa inatingível que imaginei.

Talvez, com o tempo, quando alguém me perguntar se preciso de um abraço, eu consiga simplesmente dizer:

Sim, hoje, preciso.

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