5 de setembro. sempre o pior dia para viver.

No dia em que o meu pai desapareceu, Deus não existia.

Talvez tivesse existido até ao dia anterior. Talvez exista agora. Mas não naquele dia.

O céu estava limpo, o ar parado, e tudo pronunciava lentas horas de tédio. Não havia uma nuvem escura, um trovão, uma rajada de vento que fizesse estremecer as árvores. Nada no mundo parecia saber que o meu mundo acabava.

Quando me disseram que o meu pai tinha morrido, a dor não foi uma metáfora.

Doeu-me fisicamente.

Há notícias que o corpo recebe antes de conseguirmos compreendê-las. O meu recebeu aquela como se alguma coisa me tivesse atravessado por dentro. E eu gritei.

Não sei explicar aquele grito.

Sei apenas que saiu de um lugar de mim que eu desconhecia. Foi um grito de uma intensidade que nunca mais consegui repetir na vida. Nem antes, nem depois, alguma vez produzi um som semelhante. Talvez porque aquele não fosse verdadeiramente um som da minha voz.

Era o som da minha alma a morrer.

Nesse dia, a minha alma morreu.

Depois daquele grito, eu já não era exatamente a pessoa que tinha sido alguns segundos antes.

Nesse dia aprendi que as grandes tragédias nem sempre se anunciam com grandes trovões ou dias cinzentos.

Nos livros, a tristeza sabe vestir-se para a ocasião. Chega acompanhada de chuva, de janelas embaciadas, de folhas arrancadas às árvores. A natureza parece compreender a dor das personagens e oferece-lhes um cenário à altura daquilo que perderam.

Na vida, não.

Na vida, alguém morre num dia bonito.

O sol continua a entrar pelas janelas, os pássaros não interrompem o canto e as pessoas passam na rua carregando sacos de compras, falando ao telefone, pensando no jantar. Alguém estende roupa numa varanda. Um autocarro cumpre o seu horário. Uma criança pede um gelado.

E nós descobrimos, com uma espécie de espanto ofendido, que o mundo não para quando perdemos alguém.

Talvez tenha sido isso que mais me doeu naquele dia: a normalidade.

Eu teria compreendido uma tempestade. Teria aceitado que o céu se partisse, que as árvores se curvassem, que a luz desaparecesse por algumas horas. Parecer-me-ia justo que o mundo mostrasse pelo menos uma pequena ferida.

Mas o céu permaneceu azul.

Havia qualquer coisa de cruel naquela beleza. Como se o dia me dissesse que a morte do meu pai era apenas um acontecimento privado, uma pequena alteração na minha geografia, sem importância suficiente para desorganizar o universo.

As pessoas disseram palavras.

Dizem-se sempre muitas palavras quando alguém morre. Algumas chegam por amor, outras por medo do silêncio. Dizem-nos que o tempo cura, que temos de ser fortes, que a pessoa partiu para um lugar melhor.

Eu não queria um lugar melhor.

Queria-o naquele lugar.

Queria-o sentado à mesa, a ocupar espaço, a dizer as mesmas coisas, a repetir as histórias que eu já conhecia. Queria ouvir os seus passos, a sua tosse, a maneira como chamava por mim. Queria até aquilo que me irritava, porque o amor, quando perde alguém, deixa de fazer distinções. Passa a desejar tudo: os gestos ternos e os defeitos, as palavras certas e as discussões inúteis.

Naquele dia, ninguém me poderia falar de um Deus bom sem que a frase se desfizesse antes de chegar ao fim.

Se Deus era bom e existia, claramente, nesse dia, não estava ali.

Nesse dia, não fui eu quem abandonou Deus.

Foi Deus quem não apareceu.

Procurei-o nas explicações, nas palavras de consolo, na ideia de que tudo acontece por uma razão. Mas há razões que são uma ofensa à dor. Há perguntas que não querem resposta, porque nenhuma resposta consegue devolver-nos a pessoa por quem perguntamos.

A morte do meu pai não me ensinou a aceitar.

Ensinou-me que há coisas que não aceitamos nunca. Aprendemos apenas a transportá-las. Primeiro, levamo-las nos braços, pesadas e desajeitadas, sem saber onde pousá-las. Depois, muito devagar, a dor encontra um lugar dentro de nós. Não fica mais pequena. Somos nós que crescemos à sua volta.

Durante muito tempo pensei naquele dia como o dia em que o meu pai deixou de existir.

Hoje sei que não foi exatamente assim.

O seu corpo desapareceu da minha frente, mas ele começou a surgir noutros lugares. Numa frase que digo sem perceber que era dele. Num gesto das minhas mãos. Na forma como cuido dos meus filhos. Numa memória que chega de repente, trazida por um cheiro, uma música ou a luz de uma determinada hora.

Os mortos têm esta estranha maneira de regressar sem voltar.

Vivem nas nossas escolhas, nas histórias que repetimos e até nas perguntas que ficaram sem resposta. Tornam-se parte da nossa voz. Talvez seja por isso que, às vezes, quando falo, ouço o meu pai dentro das minhas palavras.

E Deus?

Talvez tenha voltado a existir...

Não com a mesma evidência de antes, nem com a segurança daqueles que nunca discutiram com Ele. Mas se existe, aprendi a procurá-lo noutros lugares. Não no céu, que naquele dia permaneceu escandalosamente limpo, mas nas pessoas que ficaram. Nas mãos que me seguraram sem tentar explicar. Em quem se sentou ao meu lado e teve a coragem de não dizer nada.

Talvez, afinal, nesse dia, Deus não estivesse ausente. Talvez estivesse apenas no silêncio de quem compreendeu que não havia palavras para o que Tinha feito.

Mas não sei nem consigo saber.

Há perdas que mudam até a maneira como acreditamos. Depois delas, a fé deixa de ser uma casa sólida e passa a ser uma janela entreaberta. Há dias em que entra luz. Noutros, apenas frio.

No dia em que o meu pai desapareceu, Deus não existia.

O céu estava limpo, o ar parado e o mundo continuou como se nada tivesse acontecido.

Mas tudo tinha acontecido.

O meu pai deixara de estar num único lugar e começava, sem que eu ainda soubesse, a existir em toda a parte.

E a minha alma que nesse dia morreu com o meu grito nunca mais regressou.

Talvez algumas partes de nós não regressem nunca mais.

Talvez crescer depois de uma perda seja também isso: aprender a viver com os lugares que ficaram vazios dentro de nós.

Não voltei a ser quem era antes daquele grito.

Há um antes e um depois desta morte.

E eu sei exatamente onde termina o meu antes.

Termina naquele grito.

Naquele som impossível que nunca mais consegui repetir.

O som da minha alma a perceber, ainda antes de mim, que o meu pai tinha morrido.

PB

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