Rotinas
Hoje bebi café no sítio do costume.
Comi o mesmo de sempre e sentei-me com as minhas pessoas — aquelas que, sem termos combinado nada de especial, passaram a fazer parte das minhas manhãs. Chegamos, ocupamos os nossos lugares, contamos pedaços da vida e ajudamos o dia a começar.
Talvez as rotinas sejam casas construídas sem tijolos. Fazem-se de mesas repetidas, chávenas pousadas no mesmo lugar, perguntas simples e gargalhadas que já sabemos reconhecer ao longe.
Aos poucos, sem darmos por isso, tornámo-nos parte da paisagem umas das outras. E agora, quando uma não aparece, fica qualquer coisa fora do sítio. Uma cadeira vazia pode ser uma coisa muito pequena e, ainda assim, desarrumar uma manhã inteira.
Há lugares aos quais pertencemos não por causa da morada, mas por causa das pessoas que lá nos esperam. O café pode ser o mesmo, a comida também, mas nenhuma manhã se repete verdadeiramente. Levamos sempre uma história nova, uma preocupação diferente, uma alegria que precisa de testemunhas.
Sei que, em breve, as minhas rotinas serão outras. Estas manhãs deixarão de acontecer com tanta frequência e os dias aprenderão novos caminhos.
Mas há hábitos que, mesmo quando terminam, não desaparecem. Ficam dentro de nós como ficam os cheiros nas casas onde fomos felizes.
Cada uma destas manhãs e cada uma destas pessoas já ocupou um lugar em mim. E esse lugar não depende de horários, mesas ou cafés.
Talvez pertencer seja precisamente isto: podermos partir sem sairmos completamente, porque alguma coisa nossa fica sentada à mesa — e alguma coisa delas vem connosco.
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