Obrigada G.
Este verão tem-me ensinado que há pessoas que chegam tarde à nossa vida e, ainda assim, chegam exatamente a tempo.
Durante muito tempo, pensei que as amizades verdadeiras eram aquelas que traziam consigo uma infância inteira. As que conheciam os nossos joelhos esfolados, os amores impossíveis, os erros de juventude, as casas onde vivemos e as versões antigas de nós que já ninguém reconhece.
E são, claro. Há amizades da vida inteira que são uma espécie de pátria. Pessoas junto das quais não precisamos de explicar de onde vimos, porque caminharam connosco durante uma parte considerável do caminho. Guardam pedaços da nossa memória que já nem nós saberíamos encontrar sozinhas.
Mas estou a descobrir que também existem as amizades que começam agora.
Não têm fotografias antigas, segredos de adolescência ou histórias repetidas tantas vezes que já ninguém sabe ao certo se aconteceram daquela maneira. Não assistiram às nossas primeiras quedas nem conhecem todos os nomes que deixámos para trás.
Mas têm presença.
Têm curiosidade. Têm cuidado. Têm aquela delicadeza adulta de quem se aproxima sem invadir, de quem bate à porta e espera que sejamos nós a decidir abrir.
Não temos uma vida inteira de histórias em comum, é verdade. Mas talvez ainda tenhamos muita vida para as escrever.
E há qualquer coisa de especialmente bonita nas amizades que nascem quando já somos crescidas. Quando sabemos que ninguém vem salvar-nos, preencher-nos ou completar-nos. Chegamos umas às outras inteiras, ainda que com algumas feridas, e escolhemos ficar por perto.
Já não procuramos alguém que concorde connosco em tudo. Procuramos quem nos escute, quem nos desafie, quem saiba rir das nossas contradições e respeitar os nossos silêncios. Pessoas diante das quais podemos pousar as armas, descalçar os medos e ficar apenas ali, sem a obrigação de sermos extraordinárias.
Este verão tem sido assim: um acrescentar de pessoas à minha vida.
Pessoas boas e generosas. Mulheres inteligentes, interessantes, diferentes umas das outras, com quem gosto de conversar, rir e partilhar o tempo. E o tempo, nesta idade, é talvez a forma mais sincera de afeto. Quando damos algumas horas a alguém, estamos a oferecer-lhe uma parte da vida que já sabemos não ser infinita.
Com cada uma nasceu um ritual diferente.
Há as amigas das caipirinhas e dos mojitos ao fim da tarde, quando o dia começa a desapertar os sapatos e o sol se demora um pouco mais no horizonte. Com elas, as conversas têm gelo, hortelã, gargalhadas e histórias que se atropelam umas às outras.
Há as amigas dos cafés matinais que, sem percebermos como, se prolongam até à hora de almoço. Sentamo-nos apenas por um bocadinho e, de repente, já atravessámos metade da vida: os filhos, o trabalho, os sonhos que ainda guardamos, os livros que nos salvaram, os disparates que cometemos e tudo aquilo que ainda queremos fazer.
E há as amigas serenas, com quem partilho um latte ou uma água fresquinha. Amizades sem ruído, onde a presença basta. Mulheres com quem posso conversar devagar, como quem abre uma janela e deixa entrar o ar, como a minha querida G.
Talvez a amizade seja também isto: inventar pequenos rituais para impedir que a vida passe por nós sem ser vivida.
E eu tenho vontade de celebrar esta Paula que se tem revelado neste verão.
Uma Paula mais disponível, mais capaz de dar espaço aos outros, menos escondida atrás das suas muralhas. Menos misteriosa, talvez. Mais dada. Mais capaz de deixar que alguém entre no seu mundo sem exigir que traga consigo um mapa ou conheça previamente todos os caminhos.
Durante anos, aprendi a guardar-me porque nem toda a gente sabe tocar naquilo que é frágil. Construí portas pesadas, corredores secretos e algumas divisões onde quase ninguém podia entrar.
Agora começo a perceber que podemos proteger o coração sem o transformar numa casa fechada.
Podemos abrir as janelas.
Podemos deixar cadeiras vazias à mesa para quem ainda há-de chegar.
Podemos aceitar que algumas pessoas ficarão apenas um verão e que outras talvez atravessem connosco muitos invernos. Não precisamos de conhecer antecipadamente a duração de uma amizade para reconhecer a sua beleza. Há coisas que não valem menos por não sabermos quanto tempo durarão.
Este verão trouxe-me essa coragem: a de estar disponível para o encontro.
Apetece-me celebrar a vida e as pessoas que ela colocou no meu caminho. Celebrar as amizades antigas, que conhecem as minhas raízes, e estas amizades novas, que talvez venham a conhecer os meus próximos ramos.
Porque nunca é tarde para fazer amigas. Nunca é tarde para começar uma história. Nunca é tarde para permitir que alguém descubra uma versão nossa que ainda está a nascer.
Não temos histórias da vida toda.
Mas temos este verão.
Temos os cafés que se esquecem das horas, os mojitos ao fim da tarde, os lattes bebidos devagar, as águas frescas, as conversas demoradas e as gargalhadas que ficam a pairar no ar mesmo depois de nos despedirmos.
E, se tivermos sorte, ainda temos muita vida pela frente.
Muita vida para escrevermos juntas.
PB
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