Nunca tive medo de dizer NÃO

Não foram as grandes revoluções que me salvaram.

Nunca subi a uma barricada nem derrubei governos, mas organizei manifestações. As desobediências que mudaram a minha vida foram mais discretas. Algumas resumiram-se a um “não” dito em voz firme. Outras foram perguntas feitas quando todos pareciam satisfeitos com a resposta. Muitas foram apenas a decisão de permanecer de pé quando teria sido mais cómodo concordar, baixar os olhos e seguir o caminho que já tinham traçado para mim.

Houve muitas vezes em que disse aquilo que pensava, mesmo sabendo que as minhas palavras seriam polémicas. Não porque goste particularmente de provocar, embora reconheça que também nunca tive grande talento para a concordância decorativa, mas porque há silêncios que nos custam demasiado. Ficar calada teria sido, em certos momentos, uma forma de me abandonar.

Conheço bem a solidão de estar em minoria.

Conheço o desconforto de defender uma convicção sem aplausos, sem companhia e, por vezes, sem qualquer apoio. A maioria tem essa vantagem: faz-nos acreditar que o número de pessoas que concordam com uma ideia determina a sua verdade. Mas uma sala cheia de pessoas convencidas pode estar profundamente enganada. E uma única pessoa, sozinha num canto, pode apenas estar a ver mais cedo aquilo que os outros ainda não conseguem ver.

Não estive sempre certa, evidentemente. Ninguém está. Mas houve momentos em que permaneci fiel às minhas convicções e aos meus valores quando seria mais fácil ceder — e o tempo acabou por me dar razão. Não senti triunfo. Senti apenas aquela serenidade discreta de quem, depois de atravessar a tempestade, verifica que a bússola continuava a apontar para o mesmo lugar.

Também houve caminhos que me ofereceram e que recusei. E assim, em vez de atalhos, tive anos de caminho. Trabalhei arduamente, recomecei, insisti, estudei e construí devagar aquilo que poderia ter recebido depressa. Demorei mais tempo a chegar aqui, mas cheguei pelos meus próprios pés. Não fiquei a dever o meu lugar a um favor, a uma influência ou a uma dívida silenciosa. E há uma liberdade imensa em saber que ninguém pode reivindicar como seu aquilo que fomos nós que construímos.

Talvez essa tenha sido uma das desobediências que mais me salvou.

Ao longo da vida, desobedeci também ao que me apresentaram como normal. Sempre desconfiei um pouco dessa palavra. “Normal” significa, demasiadas vezes, apenas aquilo que se repete até ninguém voltar a perguntar se faz sentido. Há convenções que organizam a vida em comum, mas há outras que apenas domesticam pessoas. Dizem-nos como devemos viver, o que devemos desejar, quanto espaço podemos ocupar e até a idade em que devemos desistir de determinados sonhos.

Nunca consegui obedecer inteiramente.

Não sou consensual. Não caibo facilmente nas normas definidas nem nos lugares desenhados por outros. Sou esquiva quando tentam prender-me, fugidia perante os rótulos e indomável quando confundem amor com posse ou pertença com submissão. Sou livre, não porque não tenha raízes, mas porque as minhas raízes nunca foram correntes.

Sou beirã. Mas até nisso sou diferente.

Não nasci na cidade. Nasci a caminho da serra, como se nem o nascimento pudesse esperar que eu chegasse ao lugar previsto. Talvez tenha começado aí esta minha dificuldade em cumprir percursos previamente definidos. Há em mim mais de agreste do que de civilizado, mais granito do que cimento, mais vento do que paredes. Trago qualquer coisa da serra: a resistência das árvores que crescem inclinadas porque passaram a vida a enfrentar o vento, a aspereza das pedras que não pedem desculpa por não serem lisas e o calor agreste do verão onde nasci.

Não sei viver domesticada.

Talvez por isso tenha escolhido caminhos improváveis, defendido ideias incómodas, começado de novo quando esperavam que me acomodasse e continuado a fazer perguntas quando os outros já tinham encerrado o assunto. Talvez por isso nunca tenha aprendido a diminuir completamente a voz, apesar de durante muitos anos ter tentado encolher para caber.

Hoje, quando olho para trás, não vejo uma linha reta. Vejo um caminho de serra, cheio de curvas, subidas, desvios e precipícios. Muitas vezes, aquilo que os outros consideraram um desvio foi precisamente a direção de que eu precisava.

A liberdade teve um preço. Nem sempre tive apoio, compreensão ou companhia. Houve lugares a que não cheguei e portas que permaneceram fechadas. Mas a obediência teria tido um preço maior: chegar mais depressa a uma vida na qual já não me reconhecesse.

Devo muito do que sou ao trabalho, à persistência, às pessoas que caminharam comigo e àquelas que sempre me deram a mão. Mas devo também alguma coisa a todos os “nãos” que fui capaz de dizer: não ao atalho, não à conveniência, não ao silêncio, não ao caminho escolhido por outros, não ao tamanho que tentaram atribuir-me.

Foram essas pequenas desobediências que me trouxeram até aqui.

Se tivesse obedecido sempre, talvez a viagem tivesse sido mais fácil. Talvez tivesse chegado mais cedo, com menos feridas e menos cansaço.

Mas a mulher que teria chegado não seria eu.

Eu cheguei mais devagar. Cheguei pela estrada longa, com pó nos sapatos, vento no cabelo e algumas marcas do caminho.

Mas cheguei inteira.

PB

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