Não sei
O que me move é a perplexidade, a inquietação, a dúvida.
Nunca foram as respostas que me fizeram avançar. Foram as perguntas. As respostas, quando chegam, têm qualquer coisa de cadeira: convidam-nos a sentar. As perguntas, pelo contrário, são portas entreabertas. Obrigam-nos a espreitar, a atravessar, a procurar o que existe do outro lado.
Talvez por isso eu nunca tenha sabido viver muito tempo em lugares fechados.
Preciso de compreender. De voltar atrás. De olhar novamente para aquilo que todos dizem ser evidente e perguntar: será mesmo assim? Não por desconfiança do mundo, mas por espanto. Há em mim uma criança que ainda abre gavetas proibidas, desmonta os brinquedos (e os electrodomésticos) só para descobrir como funcionam por dentro e uma criança que acredita que cada resposta esconde uma pergunta mais profunda.
A perplexidade é o princípio de quase tudo.
É ela que nos detém diante do que julgávamos conhecer e nos obriga a olhar outra vez. É o instante em que o mundo deixa de parecer simples. Descobrimos então que uma pessoa pode amar e ferir, ser forte e ter medo, dizer a verdade e, ainda assim, estar enganada. Descobrimos que raramente existe uma única versão de uma história e que até a memória muda os móveis de lugar sempre que regressamos a ela.
A inquietação vem depois.
É uma espécie de pedra dentro do sapato da alma. Não nos deixa caminhar confortavelmente pelas estradas já abertas. Faz-nos abandonar respostas herdadas, interrogar ideias antigas e recusar o sossego das explicações demasiado fáceis.
Há quem confunda inquietação com infelicidade. Não é a mesma coisa.
A pessoa inquieta pode ser profundamente feliz. Apenas não adormece dentro da vida. Repara no que falta, no que dói, no que poderia ser diferente. Não aceita uma injustiça só porque ela sempre existiu, nem repete uma ideia apenas porque alguém a escreveu antes. A inquietação é uma forma de vigília.
Depois chega a dúvida.
Durante muito tempo ensinaram-nos a temê-la. Disseram-nos que duvidar era não saber, hesitar, falhar. Como se a inteligência consistisse em responder depressa e a sabedoria fosse uma coleção de certezas bem arrumadas.
Hoje penso o contrário.
Duvidar exige coragem.
É preciso coragem para admitir que podemos estar errados. Para reconhecer que aquilo em que acreditámos durante anos talvez precise de ser revisto. Para escutar verdadeiramente alguém que pensa de forma diferente e permitir que as suas palavras abram uma pequena fissura nas nossas convicções.
As certezas protegem-nos desse risco.
Constroem paredes em redor do pensamento e fazem-nos sentir seguros. Dentro delas, o mundo fica dividido em certos e errados, bons e maus, nós e os outros. Tudo parece simples. Tudo cabe em frases curtas.
Mas a vida nunca foi uma frase curta.
A vida está cheia de parênteses, contradições, rasuras e perguntas sem ponto de interrogação. Há decisões certas que nos conduzem a lugares errados e erros que, muitos anos depois, reconhecemos como o início de alguma coisa importante. Há pessoas que julgámos conhecer e que um dia nos revelam uma divisão inteira da casa onde nunca tínhamos entrado.
Por isso deixo as certezas para os fracos.
Não para os frágeis — conheço fragilidades que exigem uma força imensa. Deixo-as para aqueles que precisam de ter razão para não terem de pensar. Para quem transforma as convicções em armaduras porque receia que uma pergunta possa fazê-las cair. Para quem prefere uma resposta errada ao desconforto de não saber.
Eu prefiro não saber.
Ou, pelo menos, saber apenas provisoriamente.
Gosto das ideias que deixam uma janela aberta. Das pessoas capazes de dizer “talvez”, “não tinha pensado nisso” ou “posso estar enganada”. Há uma grandeza discreta em quem revê uma opinião. Mudar de pensamento não é necessariamente trair quem fomos. Às vezes é apenas crescer para além da pessoa que já não conseguimos ser.
Também na ciência, aquilo que julgamos saber permanece à espera de uma pergunta melhor. Nenhum conhecimento sério nasce da certeza absoluta. Nasce da curiosidade, da observação, do erro, da tentativa e da possibilidade de alguém demonstrar que estávamos enganados. A ciência avança porque não se apaixona demasiado pelas suas respostas.
Talvez devêssemos viver assim.
Com convicções, sim, mas sem cadeados. Com princípios, mas também com a humildade de os interrogarmos. Com raízes suficientemente fundas para nos sustentarem e ramos suficientemente livres para se moverem com o vento.
Não quero passar pela vida confirmando apenas aquilo em que já acreditava. Quero ser surpreendida. Quero que um livro me desarrume, que uma conversa me obrigue a regressar a casa com mais perguntas do que aquelas que levei, que uma pessoa diferente de mim me mostre uma paisagem que eu não poderia ver da minha janela.
Quero conservar a capacidade de me espantar.
Talvez envelhecer não seja acumular certezas, mas aprender a conviver serenamente com aquilo que nunca compreenderemos por inteiro. Há perguntas que nos acompanham durante toda a vida e não pedem uma solução. Pedem apenas que não deixemos de caminhar ao lado delas.
No fim, talvez sejamos feitos menos das respostas que encontrámos do que das perguntas que tivemos coragem de não abandonar.
O que me move é a perplexidade, a inquietação, a dúvida.
As certezas ficam para quem precisa de chegar.
Eu ainda quero continuar a caminho.
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